REVISTA MARANHENSE: VEICULO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NO ESTADO DO MARANHÃO
Maria Eliana Alves Lima, Antonio Jose Silva Oliveira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 25/01/2005
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Comunicação No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## REVISTA MARANHENSE: VEICULO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NO ESTADO DO MARANHÃO
Antonio José Silva Oliveira (oliva@ufma.br) b
## Maria Eliana Alves Lima a
a Mestrado em Saúde e Ambiente - Universidade Federal do Maranhão
b Departamento de Física e Mestrado em Educação - Universidade Federal do Maranhão.
## 01 - RESUMO
Ao investigar o processo de construção do movimento cientificista no Maranhão, encontramos muitos fatores determinantes, os quais nortearam o pensamento da comunidade estudiosa nas várias etapas de desenvolvimento que se sucederam no Estado. Vários fatos podem se candidatar à posição de marcos entre períodos da história da ciência maranhense. Um dos mais importantes foi à publicação e divulgação da Revista Maranhense: Ciências, Letras e Artes, que circulou pelo estado em meados do século XIX e XX.
A Revista Maranhense surgiu em 1887; constituía-se em uma publicação regional, mensal, literária e científica. Foi uma publicação escrita por rapazes de classe média e famílias tradicionais; com uma estrutura editorial composta por quatro redatores, um gerente, um tesoureiro, sua circulação atingia, além da capital vários municípios do interior do estado. Embora os municípios estejam localizados em pontos bem distantes uns dos outros, a Revista fazia a cobertura de todos eles, comprovando que a circulação abrangia boa parte do Estado. Para fazer o trabalho de divulgação cada região tinha seus correspondentes, os chamados 'sócios colaboradores' que na sua maioria eram mulheres, principalmente professoras. No presente artigo mostraremos a contribuição de uma publicação de caráter científico surgida no final do século XIX no estado do Maranhão na formação intelectual e científica da sociedade maranhense.
## 02 - A REVISTA MARANHENSE
O conteúdo da Revista Maranhense envolvia ciência, cultura e sociedade. Com certeza foi um reflexo da efervescência gerada pelas discussões em torno da ciência em todo o país, gerada pelas descobertas científicas daquele momento e pela conscientização de que a ciência era a mola propulsora do desenvolvimento. Essas discussões foram realidades por grupos de líderes intelectualmente fortes e independentes que iriam constituir a base para a formação das primeiras instituições de pesquisa do país, bem como desencadear o movimento pelo desenvolvimento da ciência brasileira. Como exemplo dessas atividades podemos citar as 'Conferências da Glória' 1,6,12 , que tiveram início a 23 de novembro de 1873, assim denominadas porque eram realizadas nas Escolas Públicas da Freguesia da Glória, na Corte. Outra atividade de divulgação científica no século XIX que merece destaque foi a criação, por Cândido Baptista de Oliveira, da Revista Brazileira: Jornal de Sciencias, Letras e Artes 3,11 .
A Revista Maranhense é, provavelmente, reflexo da Revista Braziliense, pois possuía os mesmos moldes que ela. A influência desta publicação no cenário local inspirou o pensamento dos intelectuais do momento para a necessidade de associar o desenvolvimento social do Estado ao desenvolvimento da ciência e à valorização da educação.
A primeira versão da Revista Maranhense surgiu no ano de 1887 durante o qual foram publicados os números 01, 02 e 03 e a revista teve como seu redator chefe Augusto
Brito. Em dezembro de o Diário do Maranhão, na sua edição de número 4288, de 23/12 de 1887 divulgou uma nota dizendo 'por motivos ponderosos deixa de ser publicada no mês de dezembro corrente o número quatro da Revista Maranhense, com a qual começará no segundo trimestre ' (Diário do Maranhão, 1887). Este fato marcou o fim da primeira versão de uma revista científica em nosso Estado. Levantamentos realizados na Biblioteca do Estado, na Academia Maranhense de Letras e na Biblioteca Nacional foram realizados com o objetivo de localizar esses três primeiros números, porém eles encontram-se desaparecidos.
Após vários anos, mais exatamente no dia 12 de março de 1916, a Revista Maranhense renasce e lança seu n. º 1. Os rapazes que formavam o 1º grupo que integraram o primeiro número da revista publicada em 1916 chamavam-se Astrolábio Caldas, Fuljêncio Pinto, José Monteiro e Francisco Figueiredo, além dos colaboradores. Pelos artigos presentes na primeira edição de 1916 demonstra que se tratava de jovens preocupados com a instrução e com a tradicionalidade que a cidade na época, ou anterior àquela é poca, tinha em produzir poetas tais como Gonçalves Dias, Aluízio e Artur Azevedo consagrados nacionalmente, além de João Lisboa e Antonio Lobo (fundador da Academia Maranhense de Letras) que quando morreu recebeu menção 7 honrosa na revista.
Efervescia entre aqueles jovens o interesse pela liberdade de expressão, e pela construção de um trabalho que pudesse levá-los ao reconhecimento como poetas ou literatos, assim como eles viram tantos outros se tornarem. Eles tinham a consciência que o passo para tornarem-se intelectuais seria através dos livros e da constante busca pelas novas descobertas que aquela oportunidade dada pelo periódico estava lhes oferecendo. Portanto, a divulgação de seus exemplares, organizados nesta obra, e o estudo sistematizado do seu contexto, além de desvendar o andamento da pesquisa, nos mostram quais foram as suas contribuições para a época e para o futuro da educação e da ciência no Maranhão.
Atualmente, o Estado do Maranhão é um dos últimos no ranking dos que mais desenvolve Ciência e Tecnologia (C&T) 9,10 . Além disso, a comunidade científica maranhense tem estado isolada do processo institucional de controle e fomento do setor, embora os constantes esforços no sentido de esclarecer à sociedade a importância e necessidade de C&T para o Estado, que por sua vez parece ainda não compreender que o atraso científico e tecnológico prejudica e desenvolvimento de todos os setores dependentes direta e indiretamente dos benefícios que ele produz.
Mas não só aos cientistas do Maranhão é negado o direito ao acesso aos mecanismos em que se realizam C&T, mas, principalmente, a população que está à margem de qualquer informação com relação ao setor e desconhece que sua existência é dependente direta de suas conseqüências, quer seja pela ação em seu benefício da população, pela sua destruição, ou pelo não ação. Ao analisar a Revista Maranhense Ciências, Letras e Artes acreditamos que ela representa um marco na história científica do nosso Estado, expressando o sentimento de diversos intelectuais preocupados com o desenvolvimento social, político e econômico naquele contexto. Eram diversas as formas de expressão do sentimento dos que escreviam na Revista. Os temas eram de grande relevância social e atualizados, demonstrando o interesse por todos os setores da sociedade maranhense.
Ao observarmos a linguagem e o pensamento dos editoriais, verificamos que o grupo de editores da revista, e provavelmente os idealizadores dessa segunda versão são formados por jovens estudantes ou recém formados, vindos das grandes universidades
fora do país, que ao voltar para sua terra descobria o atraso de centenas de anos em relação às potências européias, nas quais o desenvolvimento científico já alcançava padrões incomparáveis aos níveis encontrados aqui, cujo índice de analfabetismo chegava a quase 90% da população 13 . Durante a leitura dos artigos da Revista Maranhense é notória a importância dada ao conhecimento e a necessidade do saber para a libertação da mente e para o desenvolvimento de uma sociedade 4,5 .
Para cada exemplar publicado existia editorial dividida em notas sociais, poesia, espaço público, física, matemática, educação, história, sempre com um forte teor patriótico e político, discutindo temas polêmicos para a época, estimulando a participação da comunidade em assuntos de interesse social. Analisando a estrutura sócio-política do período observamos que a Revista Maranhense prestou grande serviço ao estado, no que diz respeito à divulgação científica para toda região, numa tentativa de desmontar num plano reflexivo o sistema desigual gerador do analfabetismo de quase toda a população, do preconceito e da restrição ao processo educacional de qualidade, este destinado aos detentores do poder político e econômico.
## 3 - A ESCOLA DE ENSAIO
A Revista Maranhense, ao organizar os intelectuais em torno das discussões naquele contexto, estimulou a fundação da Escola de Ensaio, um movimento de divulgação científica entre os estudantes e a população em geral do Estado. A Escola de Ensaio surgiu em um contexto de questionamento dos movimentos sociais sobre a ordem estabelecida. Foi criada em 1919, por proposição de Astrolábio Caldas, participante ativo e sócio colaborador da Revista Maranhense; após análise dos seus objetivos foi aceita por outros intelectuais maranhenses.
Funcionando como nas Conferências da Glória, a Escola de Ensaio tinha por finalidade promover palestras científicas e literárias à comunidade estudantil do Maranhão, semanalmente nas manhãs de domingo. Como instrumentos de divulgação de seus trabalhos a escola contava com o Diário de São Luís, Diário do Maranhão, O Jornal e outros meios de comunicação locais. As conferências eram sempre lotadas, pela importância do assunto ou pelo interesse em participar de mais um evento proporcionada pela intelectualidade maranhense.
Muitos temas foram abordados pela Escola de Ensaio, entre eles: 'a glória' e a 'Renascença', esta última publicada na Revista Maranhense (n 49, 1920), vejamos um o trecho a seguir:
Houve uma época em que o Maranhão refulgiu de glorias literárias, um período de fortuna, embebida na prodigiosa riqueza do solo, gozando a farta a vida regada do bem estar que o elemento servil fornecia, surgiam espíritos translúcidos como faróis luminosos em meio da penumbra. A sede de saber acordou na mocidade as faculdades da inteligência, conduzindo-a aos estabelecimentos de ensino que se gloriavam do rigor da disciplina.
No discurso, o intelectual maranhense demonstra a saudade dos tempos da fama literária da Atenas maranhense. Ao terminar a palestra, afirmou que seria um erro imperdoável se o Maranhão, berço de tantos homens ilustres, não se colocasse a favor da instrução no nosso estado. Muitos outros temas foram tratados em Astronomia, Literatura, História e muitos outros que não fizeram restrição a áreas específicas do conhecimento.
A Escola de Ensaio teve como público alvo os estudantes da rede pública e particular de ensino. É interessante afirmar que a instituição teve um caráter mais informativo que formativo, com uma posição de imparcialidade em relação à realidade local.
A 'Revista Maranhense' é um periódico que apesar de surgir nas mesmas condições em que surgiram outros jornais da época, pelo interesse de um grupo de jovens intelectuais empolgados com as novas tecnologias do momento; possuía, no entanto, um diferencial que diríamos dar a ela uma conotação especial. A revista, pela primeira vez no estado, despertava para o interesse e importância da ciência e da educação como fator transformador da sociedade, isto a faz mais instigante ainda. Esta afirmação é claramente percebida nos espaços dedicados aos artigos que falam de ciência e de educação, além de ter uma característica poética bem marcante 8,9 .
## 4 - CONCLUSÃO
Sendo a Revista, Maranhense, uma publicação recém descoberta por um grupo de profissionais de várias áreas que promovem estudos de divulgação científica na UFMA, torna-se pertinente para a ciência do Maranhão perceber esta parte da história em nosso Estado, como fonte de construção do conhecimento sobre a história da ciência e da educação maranhense, já que em seus artigos a Revista elucida o contexto histórico, social e político, expresso pelo pensamento de jovens pesquisadores que redigiam e que brotaram na agenda dos acontecimentos do nosso Estado o interesse pelo conhecimento e conseqüentemente pela ciência. Deixamos aqui um questionamento para os leitores se o fato do surgimento da Revista Maranhense e da Escola de Ensaio como produto da Revista Brasileira e das Conferências da Glória também não influenciaram em seus estados o aparecimento de Revistas e Escolas com os mesmos objetivos.
## REFERÊNCIAS
- 1. AZEVEDO, F. As ciências no Brasil . 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ. V. 1. 1994. 462p.
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- 4. LINS, I. História do Positivismo no Brasil . 2.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1997. 707p.
- 5. LOWY, Michael. Ideologias e Ciência Social: elementos para uma análise marxista. São Paulo: Cortez, 1988.
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- 7. MEIRELES, M. M. História do Maranhão . São Paulo: Siciliano, 2001. 392p.
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- 10. PEREIRA, R.A. Extinção da FAPEMA : o discurso do jornal O Estado do Maranhão sobre a política científica do Governo do estado do Maranhão - Período: 1994-1998. Monografia. Universidade Federal do Maranhão. São Luís - MA, 2003. 70p.
- 11. REIS, J. Ciência e Público : caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência - Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002. p73-77.
- 12. Romanelli, 0. 0. História da Educação no Brasil (1930/1973) . 20.ed. Petrópolis: Vozes, 1998, 267p.
- 13. SALDANHA, L.M.L. A instrução pública maranhense na primeira década republicana : (1989-1899). Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Federal do Maranhão, São Luis-MA, 1992. 229p.
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