Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

POPULARIZAÇÃO DA CIÊNCIA: URGENTE DESAFIO

Marcelo Gomes Germano, Rodrigo R. D. De Andrade

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
25/01/2005
Linha de pesquisa
Divulgação Científica E Comunicação No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2005

Texto completo

## POPULARIZAÇÃO DA CIÊNCIA: UM GRANDE DESAFIO

Marcelo Gomes Germano a

Rodrigo R. D. de Andrade c

a Universidade Estadual da Paraíba - UEPB

b Universidade Federal da Paraíba - UFPB

## RESUMO

Hoje, mais do que nunca, a tarefa de democratizar o conhecimento científico e tecnológico se constitui em um dos maiores desafios para sociedade e a Escola. Em torno dessa questão, a temática da divulgação científica tem retornado muito fortemente e o debate em busca de novas soluções para esse importante desafio vem se intensificando cada vez mais, principalmente nos espaços não-formais e informais de educação. Esse trabalho pretende trazer a público alguns dos mais importantes desafios colocados àqueles que atuam ou pretendem atuar no apaixonante campo da popularização da ciência. Além de apontar algumas importantes iniciativas já realizadas no Brasil e no mundo e sugerir uma distinção mais cuidadosa do que seja divulgação e popularização da ciência.

Palavras-chave: ciência, divulgação, popularização, desafio

## I - INTRODUÇÃO

- O choque da civilização científico-tecnológica, da mundialização, e da sociedade da informação, inauguraram um período de complexidades, onde o conhecimento, mais do que nunca, tornou-se o recurso humano, econômico e sócio-cultural mais determinante. A tarefa de democratizar esse conhecimento, particularmente, o conhecimento científico e tecnológico, ainda se constitui um grande desafio para sociedade e a Escola. O que conduz a algumas serias indagações.

Por que o conhecimento científico se afasta cada vez mais da cultura e dos saberes populares? É possível vencer a linguagem prolixa e rebuscada associada ao discurso da ciência e poder dialogar com o povo sobre temas relevantes de ciências? Que orientações pedagógicas deve-se tomar quando da realização de exposições de ciências e tecnologia dirigida ao público popular?

Esse trabalho traz a público algumas preocupações que têm orientado as nossas pesquisas nessa área. Não apresenta respostas, mas sugere desafios que seguramente enriquecerão o debate. No primeiro momento chamamos atenção para algumas questões que consideramos como os maiores desafios aos pretensos popularizadores da ciência. Em seguida, destacamos a importância de algumas iniciativas de enfrentamento já desenvolvidas no Brasil e no mundo. Na última parte, fazemos uma discussão em que sugerimos uma distinção mais clara do que seja divulgação e popularização da ciência.

## II- DESAFIOS AOS POPULARIZADORES DA CIÊNCIA

No dizer de Menezes (2000, p.48), as mudanças promovidas no sistema produtivo e nos serviços não deixam dúvidas de que, ao longo do século XXI, quem ainda estiver trabalhando não estará realizando tarefas rotineiras, repetitivas ou brutas, pois essas serão realizadas com vantagem por máquinas e sistemas informatizados. No entanto, 'quanto mais a máquina se torna um produto intelectual sofisticado, menos controle e compreensão da máquina tem o trabalhador' (Braverman, Apud Freire e Faundez, 1985 p. 53). Esse é um novo processo de alienação em que milhões de

trabalhadores, forçadamente desqualificados, serão excluídos do contexto da produção, do mercado e da vida.

'Uma grande quantidade de seres humanos já não é mais necessária ao pequeno número que molda a economia e detém o poder. Segundo a lógica reinante, uma multidão de seres humanos encontra-se assim sem razão razoável para viver neste mundo, onde, entretanto, eles encontraram a vida'(Forrester, 1997, p. 27).

A escola também não acompanha a marcha enlouquecida do desenvolvimento e, como afirma Gaspar(1993, p.3), 'a distância entre o saber abrangido pela escola e aquele gerado e acumulado pelo homem cresce assustadoramente. Cada vez mais a humanidade, em sua imensa maioria, está alheia às suas próprias conquistas.' Os produtos da tecnologia são oferecidos aos usuários de forma cada vez mais agressiva criando e impondo novas necessidades, enquanto o conhecimento da ciência e tecnologia envolvidas na construção dos aparatos é cada vez mais ocultada. A tendência, que se pode observar hoje, como afirma Barros(2002, p.38), 'é a de valorização da técnica e da tecnologia em detrimento da ciência, embora todo o discurso tenha na ciência sua base'. Se por um lado todos reconhecem que a ciência faz parte da cultura, por outro lado, criou-se a falsa imagem que a ciência é uma tarefa alheia as outras atividades humanas. Essa ruptura conduz a um grande impasse: Como o popularizador pode dar conta de sua tarefa se a abstração da ciência, no dizer de Steiner, (apud Sanshez Mora, 2003, p.10), 'colocou a experiência e a percepção da realidade em domínios separados'? Como dialogar com o povo sobre temas de ciência se os conceitos científicos, expressos em linguagem matemática dão uma imagem do mundo que não pode mais ser transmitida mediante uma estrutura verbal?

Esta realidade de rompimento com a linguagem do 'senso comum' que se inicia a partir da revolução copernicana, agrava-se ao extremo c om o advento da física moderna cujos conceitos não são acessíveis através da linguagem comum. Caberia então, perguntar: será que ainda faz sentido tentar explicar para leigos conceitos da ciência contemporânea, ou estamos diante de um processo insuperável de exclusão?

## III - INICIATIVAS IMPORTANTES

Esta crise tem levado muitas instituições e governos a buscarem formas alternativas de atualização e difusão do conhecimento e a propor novas alternativas ao ensino de ciências. No Brasil, a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (1998), é um exemplo dessa nova tendência. Não se ensina ciência a nível médio para formar cientistas, mas para educar cidadãos. Os projetos da década de sessenta oriundos dos Estados Unidos (CBA, Chers, BSSC, PSSC...), mostraram-se ineficazes, tanto lá como aqui . Segundo Kulesza (1998, p.49), em 1989, depois de uma enorme crise no ensino de ciências americano, um documento intitulado Ciência para todos os Americanos , dirigia o interesse para a necessidade de uma alfabetização científica do povo daquele país.

- O mesmo contexto de crise, vai conduzir em outros países desenvolvidos, a outros tipos correlatos de preocupação. Uma delas foi com o entendimento popular da ciência que, para a comunidade científica britânica, era uma questão importante porque:

'Primeiro, a ciência é possivelmente a maior realização da nossa cultura e o povo merece conhecê-la; segundo, a ciência afeta a nossas vidas cotidianas e o povo precisa estar a par dela; terceiro, muitas decisões de política pública envolvem a ciência e estas só serão genuinamente democráticas se forem fruto de um debate público esclarecido e quarto, a ciência é financiada por verbas públicas e este apoio é(ou ao menos deveria ser) baseado num nível minimamente aceitável de conhecimento popular' (Duarnt, Evans e Thomas,1989, Apud Costa, 1998, p. 49).

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento(Rio de Janeiro, 1992), declarou que a divulgação da ciência não é importante apenas para o público conhecer as criações da ciência, mas, principalmente para poder influenciar nos rumos das pesquisas. Na mesma direção Candote (2002, p.17) acrescenta que há uma dimensão ética da divulgação científica, onde 'a circulação das idéias e dos resultados de pesquisas é fundamental para avaliar o seu impacto social e cultural, como também para recuperar, por meio do livre debate e confronto de idéias, os vínculos e valores culturais que a descoberta do novo, muitas vezes rompe ou fere'. E é dever do cientista e deveria ser também um item do financiamento público da própria pesquisa. Em outro momento, refere-se a necessidade de uma divulgação do que a comunidade científica desconhece , revelando para sociedade as reais possibilidades e limitações da ciência,(Candote, 2003).

Conforme Marandino(2003, p.184), muitos esforços e iniciativas foram desenvolvidos no Brasil, principalmente nas décadas de oitenta e noventa. Mas, na opinião de três dos mais importantes pesquisadores nessa área, Luiza Massarani, Ildeu de Castro e Fátima Brito, ainda estamos longe de uma divulgação científica de qualidade e que atinja amplos setores da população brasileira.

## IV- PARA ALÉM DA DIVULGAÇÃO

Nessa conjuntura, a educação em ciências numa perspectiva crítica e participativa, torna-se uma tarefa urgente e necessária. Não se tratando, porém, da difusão do conhecimento científico para à comunidade de uma maneira técnica e disfarçada de neutralidade. Mas da busca de acesso ao entendimento de alguns dos mais importantes fenômenos científicos que habitam o cotidiano das pessoas em uma nova abordagem onde a ciência consiga, além de instrumentar o cidadão dando-lhe uma autonomia intelectual, desenvolver competências e habilidades que possibilitem um diálogo crítico com o novo mundo tecnológico e apelativo que se apresenta. É necessário, portanto, estabelecer uma distinção mais clara entre a simples divulgação e o que se entende como popularização da ciência.

De acordo com Sanshez Mora (2003, p.9), existem três vertentes a esse respeito: 'a dos comunicólogos cujo maior interesse é a transmissão de uma mensagem e os processos que nela intervêm(corrente de grande aceitação em língua francesa); a dos popularizadores da ciência, com interesse fundamental nos produtos(mais trabalhada em língua inglesa)' e a corrente que tenta integrar ciência e humanidade na qual a autora se situa.

Lens(2001, p.2), por outro lado, sustenta que existe, de fato, uma diferença entre divulgadores e popularizadores de ciências e tecnologia semelhante àquela que, numa terminologia freireana, existe entre os educadores com características de educadores bancários e os educadores populares. 'Os divulgadores poderiam meramente estender , como diria Paulo Freire, os conhecimentos da ciência e tecnologia para os setores populares, o u contrariamente, comunicarem em forma dialógica esses conhecimentos'. Neste último caso, Lens, os classificaria de popularizadores da ciência. É nessa corrente que nos situamos. Entendendo a popularização da ciência como reconstrução do conhecimento a partir do diálogo franco entre os educadores e as massas, problematizado pelos desafiantes temas de ciências e tecnologia. Acreditamos que esta visão deva estar no ponto de partida de qualquer intervenção de natureza emancipatória.

## V - CONCLUSÃO

Diante dos desafios aqui postos, acreditamos que, como qualquer outra contradição, essa também pode ser superada. E partindo do pressuposto de que nenhum processo social pode ser compreendido de forma isolada, como uma instância neutra e acima dos conflitos ideológicos da sociedade, entendemos que esse afastamento entre ciência e cultura esteja diretamente vinculado às desigualdades, econômicas, culturais e políticas que dominam a sociedade e que as intervenções no campo da educação podem contribuir decisivamente para compreender e enfrentar essa questão.

Para além da divulgação da ciência a partir da academia e dirigida as comunidades, é necessário que se estabeleça um diálogo em que a troca de saberes possa conduzir ao que Freire (1985, p.54) chama de compreensão crítica das expressões culturais de resistência das classes sociais oprimidas. Expressões culturais que falam da maneira como o povo faz a leitura de sua realidade e de como se defende das investidas dos opressores. Se o conhecimento é um dos fatores mais determinantes dentro dessa nova fase da história humana, não podemos, sob o pretexto da urgência, prescindir do diálogo na busca por democratizá-lo.

## VI - BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

AGENDA 21, CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Brasília, Senado Federal, 1997.

BARROS, H. L. a Cidade e a Ciência. In MASSARANI, L. ; MOREIRA, ILDEU DE C. & BRITO, F. (orgs.) Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro, Casa da Ciência. UFRJ, 2002.

CANDOTTI, E. Ciência na Educação Popular. In MASSARANI, L. ; MOREIRA, ILDEU DE C. & BRITO, F. (orgs.) Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro, Casa da Ciência. UFRJ, 2002.

CANDOTTI, E., BARROS, H., GERMANO, M. Mesa Redonda Os desafios da Popularização da Ciência : . Reunião Regional da SBPC, UFCG, novembro de 2003.

KULESZA, W. Ciência e Educação Popular. In COSTA MARISA, V. (org.). Educação popular hoje. São Paulo, Loyola, 1998.

FORRESTER, V. O horror econômico. Tradução: Álvaro Lorencini. São Paulo, Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997.

FREIRE, P. , FAUNDEZ, A. Por uma pedagogia da pergunta. Rio de Janeiro. Paz e terra, 1985.

GASPAR, A. Museus e centros de Ciências: conceituação e proposta de um referencial teórico. Tese de Doutorado. São Paulo, FE-USP, 1993.

MENESES, L. C. Ensinar Ciências no Próximo Século. In HAMBURGER, E.; MATOS, C. (orgs.). O Desafio de Ensinar Ciências no Século XXI. São Paulo, EDUSP, 2000.

LENS, J. L. La pedagogia dialógica como marco teórico-estratégico para la formación de popularizadores en ciencia y tecnologia. Seminário Latinoamericano. Estrategias para la Formación de Poopularizadores en Ciência y Tecnologia. Red-POP- Cono Sul. La Plata, 2001.

MARANDINO, M. Interfaces na relação Museu-Escola. Cad. Cat. Ens. de Fís., v.18, p. 85-100, abril, 2001.

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: ENSINO MÉDIO. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica, Brasília. 1999.

SÁNSHEZ MORA, A. M. A divulgação da ciência como literatura. Tradução: Silvia Perez Amato. Rio de Janeiro, Casa da Ciência, UFRJ, 2003.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.