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Difusão e Popularização da Ciência - Uma experiência em Física que deu certo

Helio Bonadiman, Rolando Axt, Roseli Adriana Blümke, Gisele Vincensi

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
25/01/2005
Linha de pesquisa
Divulgação Científica E Comunicação No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## DIFUSÃO E POPULARIZAÇÃO DA CIÊNCIA Uma experiência em Física que deu certo

a

Helio Bonadiman [helio@unijui.tche.br] Rolando Axt [helio@unijui.tche.br] b Roseli Adriana Blümke [roseli.blumke@unijui.tche.br] c Giseli Vincensi [giselivincensi@bol.com.br] d

a, b, c, d UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

## RESUMO

A imagem que as pessoas têm da Física é geralmente criada na escola, onde a prática pedagógica se apega ao formalismo matemático em detrimento de outros aspectos que facilitem a compreensão da Física e que tenham mais significado para suas vidas. Diante desse modelo de ensino, os alunos pouco ou nada aprendem da Física, embora freqüentemente aprendam a não gostar dela, carregando essa aversão consigo pelo resto da vida. Por outro lado, existe uma larga faixa da população que demonstra interesse pelas idéias da Física e que tem curiosidade por entender as coisas, mas nunca teve convívio com a ciência na escola. Na busca de alternativas para promover a difusão e a popularização da Física, desde 1996 está sendo desenvolvido pelo grupo de Física da UNIJUÍ, na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, o projeto 'A Física para Todos'. É objetivo desse projeto promover exposições interativas temporárias destinadas a professores e alunos e à população em geral. Nessas exposições são apresentados ao público experimentos intrigantes, desafiadores e, por vezes, paradoxais, com os quais se procura despertar a curiosidade e o gosto pela Física e pela Ciência em crianças, jovens e adultos, independentemente do seu grau de escolaridade. A implementação do projeto se dá mediante exposições internas e externas. As exposições internas são realizadas nas dependências da UNIJUÍ, sendo dirigidas a estudantes da universidade e da rede escolar de Ijuí e de outros municípios. As exposições externas, com duração de dois a dez dias, são realizadas na Região Noroeste do Estado em escolas, praças e parques de exposições. Como a região é essencialmente agrícola, o projeto 'A Física para Todos' tem estado presente em exposições agro-pastoris municipais e regionais freqüentadas por um público muito heterogêneo que em geral não costuma visitar museus e outras exposições urbanas.

Palavras-chave: difusão da Ciência, museu itinerante, ensino de Física.

## Introdução

O presente texto tem por objetivo relatar as ações desenvolvidas no projeto 'A Física para Todos', cuja finalidade principal é levar um museu interativo itinerante às localidades da região de atuação da UNIJUÍ, que compreende o Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. O museu interativo consiste de experimentos que se caracterizam por serem intrigantes, desafiadores e, por vezes, paradoxais, e foram especialmente concebidos para despertar em crianças, jovens e adultos, independentemente do grau de escolaridade, curiosidade e gosto pela Ciência, em particular pela Física. Outra finalidade do projeto é produzir e incorporar novos conhecimentos sobre o papel que a experimentação desempenha no ensino de Física e sobre sua inserção metodológica em sala de aula.

A imagem que as pessoas têm da Física é geralmente criada na escola, resultado do ensino ali praticado. O que prevalece, na prática pedagógica da maioria dos professores, é o formalismo, enquanto o contato com a fenomenologia, esse lado da Física que as pessoas consideram mais atrativo, é pouco valorizado e, por vezes, até mesmo esquecido por completo. Enfatiza-se demasiadamente uma Física matemática em detrimento de uma Física mais conceitual, mais

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experimental e com mais significado para a vida das pessoas. É comum a Física ser tratada como um conjunto de conhecimentos inquestionáveis a serem transferidos para o estudante sem a necessária valorização dos saberes do aluno - suas concepções e vivências - e dos processos da ciência.

Diante desse modelo de ensino, os alunos pouco ou nada aprendem da Física. O que freqüentemente aprendem é a não gostar dela, carregando essa aversão consigo pelo resto da vida. Para muitas pessoas, falar em Física significa avivar recordações desagradáveis, sendo até muito comum ouvir-se expressões como esta: 'Física é coisa para louco!' Essa expressão revela a imagem que as pessoas formaram da Física na escola.

No âmbito daquilo que pode ser feito no sentido de contribuir para que as pessoas construam uma imagem mais positiva da Física, para que os estudantes tenham mais interesse pelo seu estudo e, assim, melhorem seu aprendizado, são de grande importância fatores de cunho metodológico, fatores que têm a ver com a maneira como a Física é ensinada.

Quando se trata de abordar a questão do como trabalhar adequadamente a Física nas escolas, invariavelmente surge, entre outras, a questão do enfoque experimental, cuja importância é reconhecida por professores e alunos. Porém, esse reconhecimento nem sempre se traduz em ações efetivas no fazer pedagógico do professor. Isso ocorre, entre outras causas, por deficiências na formação do licenciado, por falta de uma atitude mais comprometida com essa linha de trabalho ou pela carência de equipamentos e de espaços adequados para as aulas práticas de Física.

Sem entrar no mérito de ser esta ou aquela a melhor forma de ensinar, o que se pode afirmar com segurança é que a metodologia mais adequada para o ensino de Física não é aquela que está baseada unicamente na informação verbal e que requer do aluno apenas o exercício de memorização e de operações abstratas. A abstração, na construção dos modelos teóricos da Física, é importante e necessária, mas para que ela se efetive com maior significância, o fenômeno físico deverá ser trabalhado também nos seus aspectos práticos, de modo a envolver plenamente o estudante, inclusive na dimensão afetiva. Assim se procedendo, as diversas representações utilizadas na Física, principalmente as equações matemáticas, adquirem maior valorização, pois quando são incorporadas ao processo ensino/aprendizagem, devidamente contextualizadas e no apropriado momento, assumem significados que vão muito além de suas aparências.

O aprender, em Física, está associado a muitas variáveis, mas uma é fundamental: o gostar, e o gostar tem a ver com a forma de ensinar e, particularmente, com as ênfases que os professores dão ao fazer pedagógico. Nesse sentido, o projeto 'A Física para Todos', além de promover a difusão e a popularização da Ciência, divulgando uma imagem mais atrativa da Física, também propõem alternativas metodológicas para ensiná-la.

## Descrição do trabalho desenvolvido

O projeto está sendo implementado através de exposições internas e externas. As exposições internas, com duração de duas a dez horas, são realizadas nas dependências da própria Instituição. São dirigidas a estudantes da Universidade e das escolas de Ijuí e de outros municípios e ocorrem nas seguintes modalidades: visitas de estudo, eventos promovidos pela Instituição -como o 'Profissional do Futuro', destinado a alunos do ensino médio -, apresentações para alunos dos cursos de graduação da UNIJUÍ - por ocasião da Semana Acadêmica - e outros eventos de âmbito interno. As exposições externas, com duração de dois a dez dias, são realizadas em toda a Região Noroeste do Estado, em locais como escolas, praças e parques de exposições.

Sendo os visitantes das exposições um público diversificado, a metodologia de atendimento não é única. Para crianças o atendimento é mais pessoal e dirigido no sentido d e priorizar o lúdico. Para jovens e adultos a metodologia de atendimento varia de acordo com o grau de escolaridade. No entanto, alguns procedimentos básicos são geralmente mantidos, dentre os quais destacamos os seguintes:

Orientações com cartazes: Cada equipamento vem acompanhado de um pequeno cartaz no qual constam as informações básicas necessárias para interagir com os materiais e para realizar o

experimento. Nesse cartaz é lançada uma questão desafio com o objetivo de levar o visitante a pensar, a descobrir, a formular idéias e a dar suas próprias respostas.

Orientações pessoais: Na relação pessoal com o público, o visitante também é incentivado a interagir com os experimentos, sendo desafiado a explicitar suas próprias concepções sobre o fenômeno físico observado. Procura-se adequar as explicações dadas à idade e ao suposto grau de escolaridade das pessoas, sem deixar de valorizar os saberes populares.

As explicações de cunho científico são apresentadas quando outras explicações do senso comum se mostram demasiadamente limitadas e inconsistentes. Para manter a curiosidade e o interesse das pessoas, as perguntas que elas fazem são geralmente devolvidas em forma de outras perguntas tentando levar o visitante a chegar por si só a uma explicação cientificamente mais elaborada. Porém, para evitar que o visitante perca o interesse pelo entendimento do princípio físico, procura-se dosar, para cada pessoa, o grau de dificuldade dos desafios propostos, acrescentando eventualmente 'dicas' que possam ser úteis para a compreensão.

Alguns dos experimentos apresentados, com as respectivas questões desafiadoras explicitadas nos pequenos cartazes, são os seguintes: Duplo cone - caindo para cima?; Pista dupla quem ganha esta corrida?; Roda quadrada e redonda - qual das rodas desce mais rápido?; Cadeira giratória - saiba como a bailarina faz para girar rápido ou devagar; Cadeira do faquir - teu peso pode ser sustentado pelos pregos? Senta e sente; Anel saltante - um motor muito estranho, não gira... salta - observe e explique; Chispa trepadeira - faça a chispa quente subir; Bobina de Tesla descargas elétricas em alta freqüência. Quem se arrisca a recebê-las?; Faca de Gauss - qual das facas 'dá um corte' no campo magnético do ímã?; Experimento de Foucault (tubo de Lenz) - qual dos cilindros desce mais devagar dentro do tubo? Como essa queda pode ser tão lenta?; Túnel do tempo - um túnel luminoso a se perder no infinito - observe e explique; Caleidoscópio - imagens coloridas através de três espelhos - olhe, gire e observe; Imagem virtual - vela acesa embaixo da água?; Caixa anti-gravidade - Um cubo flutuando no ar?; Periscópio - a imagem vista de um submarino; Ludião - como o submarino desce e sobe?; Mala desobediente - um comportamento muito estranho.

## Resultados obtidos

Pelas características do projeto, boa parte dos resultados obtidos são de cunho qualitativo. No entanto, são fortes os indícios que apontam para o êxito alcançado com esse trabalho.

O resultado mais expressivo é constatado na atitude das pessoas que visitam as exposições, pelo entusiasmo, pela motivação e pela curiosidade com que elas se manifestam ao interagir com os experimentos. Embora o interesse por um ou por outro experimento varie de acordo com a idade, com o grau de escolaridade e até com a própria experiência de vida, fica evidente, através dos comentários e das reações do público visitante, que a Física tem um potencial muito grande para cativar e empolgar a todos. Um exemplo desse fascínio que a Física desperta nas pessoas é testemunhado pela freqüência com que as mesmas crianças e os mesmos adolescentes visitam a exposição. Após realizarem os experimentos e aprenderem a interagir com eles, saem do recinto e sem demora retornam, trazendo consigo amigos e colegas, quando não a família inteira. Aí é fácil perceber o quanto esses adolescentes se sentem orgulhosos e felizes por serem capazes de demonstrar e explicar aos outros o funcionamento dos experimentos apresentados.

Uma decorrência natural da divulgação feita através do projeto é o aumento da procura do Curso de Licenciatura em Física e até de outros cursos da área científica da UNIJUÍ. Esse dado origina-se em depoimentos de pais e alunos.

Outro indício de que os objetivos do projeto estão sendo alcançados, é o expressivo número de visitantes que acorre ao museu itinerante. A apresentação do museu já foi diversas vezes realizada em municípios que ainda não dispõem de uma estrutura adequada em seus parques de exposições, tendo sido feita, então, em locais improvisados, como em barracas e em estruturas cobertas por lonas. Contudo, o que sempre se verifica é que, independentemente do grau de

improvisação, a afluência do público é notável, pois o local do projeto 'A Física para Todos' acaba sendo o mais visitado.

- O sucesso alcançado é um estímulo para a continuidade do projeto. Desde seu início, em 1996, as exposições externas são repetidas em média duas a três vezes ao ano, em diferentes municípios da região. Até o presente momento foram realizadas 17 exposições externas, às quais compareceu um público que oscila entre 1.000 pessoas, nas pequenas exposições, e 10.000 pessoas nas grandes exposições. No âmbito interno são realizadas cerca de 40 exposições ao ano.

## Considerações finais

A heterogeneidade do público visitante ajuda a reforçar a percepção de que o senso comum da cultura popular, além de diversificado, está fortemente enraizado nas pessoas. Impressiona ver a riqueza dos saberes do senso comum. Esses momentos de interação com pessoas de diferentes idades e grau de escolaridade e de diferentes profissões, são também momentos de aprendizagem recíproca, pois possibilitam a integração da linguagem dos saberes populares com a linguagem do conhecimento científico.

Percebe-se claramente que a linguagem do senso comum está muito associada à experiência de vida da pessoa. Cada visitante procura explicar os fenômenos físicos através das concepções adquiridas em seu meio de vivência.

Outra constatação interessante é feita quando crianças e adultos não escolarizados em Física são colocados diante de determinado problema-desafio. Surpreendentemente, eles fazem, com mais freqüência do que se esperaria, a previsão correta do resultado, e até com certa naturalidade. Também é surpreendente o que se observa nas pessoas que possuem escolaridade em Física. Elas, freqüentemente, erram na previsão e, com uma argumentação aparentemente feita de forma irrefletida, revelam estar fazendo mau uso do formalismo aprendido na escola e na universidade.

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