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FÍSICA NO MUSEU DE ARTE: a ciência das imagens e das cores

Cláudia Teresinha Jraige De Andrade, Maria Helena Steffani, Silvio Luiz De Souza Cunha

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
25/01/2005
Linha de pesquisa
Interdisciplinaridade E Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## FÍSICA NO MUSEU DE ARTE: a ciência das imagens e das cores 1

Cláudia Teresinha Jraige de Andrade (claudiaandrade@brturbo.com) a Maria Helena Steffani (steffani@i f.ufrgs.br) b Silvio Luiz de Souza Cunha (slsc@if.ufrgs.br) c

a Colégio Sévigné e Colégio Farroupilha (P. Alegre - RS); Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física, UFRGS b Departamento de Física -IF-UFRGS e Planetário/PROREXT - UFRGS c Departamento de Física -IF-UFRGS

## Resumo

Neste trabalho trazemos à tona problemas conceituais e de nomenclatura sobre cores nas áreas de artes e ciências e sugerimos uma discussão do fenômeno da difração e do poder de resolução do olho na observação de imagens não contínuas (mosaicos ou pinturas por pontos, como em quadros de pintores neo-impressionistas). Apresentamos uma experiência para exemplificar a formação da imagem ora descontínua, ora contínua, na retina do observador, dependendo da distância que ele se encontra do objeto (tela). Enfatizamos a necessidade de apropriação por parte dos professores das linguagens de outras áreas e de realização conjunta de atividades extra-muro escolares, principalmente envolvendo artes e ciências.

Palavras chaves: cor luz, cores primárias, difração, pontilhismo, ciência, arte.

## Introdução

Arte e ciência são formas de expressão do conhecimento humano que, à primeira vista, parecem manifestações totalmente independentes e desarticuladas. Em geral, sob essa perspectiva visitamos os espaços de divulgação da cultura para apreciar exposições de fotografia, quadros de pintores que marcaram sua época ou a execução de um concerto musical por uma orquestra sinfônica. Nessas ocasiões freqüentemente nos deslumbramos com 'a luz captada pelo fotógrafo', revelando encantos que nos passariam desapercebidos numa cena, por vezes, bastante comum na nossa vida (vejase, por exemplo, a bela obra fotográfica de Cartier Bresson, recentemente falecido), ou ainda com a visão transversal do pintor que, com a sensibilidade do seu olhar e com suas estudadas e criteriosas pinceladas, parece reproduzir muito mais do que imagens. Mas a ciência também tem sua beleza intrínseca e faz parte desse cenário. A ciência pode e deve ser apreciada e explorada nas expressões artísticas.

## A matemática das cores

Já na Educação Infantil as crianças desenvolvem conceitos sobre cores através de suas experiências na realização de trabalhos realizados com diversos materiais (têmperas, giz de cera, etc). Esses conceitos são reforçados nas aulas de Artes durante o Ensino Fundamental. Em geral, uma discussão maior surge na 2ª série do Ensino Médio, quando o professor de Física, ao discutir sobre a cor dos objetos ou sobre o

comportamento da luz branca ao atravessar um prisma, introduz os conceitos de cores primárias e cores secundárias da luz. A nomenclatura utilizada apresenta-se em desacordo com o senso comum dos alunos e, também, da maioria dos professores da escola. A situação agrava-se na medida em que não são realizadas experiências com fontes de luz primárias para reproduzir a luz branca e as cores secundárias da luz, e também não ocorre uma discussão mais profunda sobre as diferenças de conceitos 'cor luz' e 'cor pigmento'. Essa dificuldade de comunicação entre os professores de Artes e de Física, que vivenciamos nas nossas escolas, também é apontada por Woolf no artigo intitulado ' Confusing Color Concepts Clarified ' publicado em 1999 na revista Physics Teacher (WOOLF, 1999). Nesse artigo essas diferenças são bem analisadas e o autor introduz a 'matemática' das cores luz e das cores pigmento.

Sabe-se que a experiência tradicionalmente sugerida nos livros textos de utilizar três fontes iguais de luz branca cada uma com um filtro (vermelho, verde, azul) para reproduzir, pela superposição dessas cores, as cores secundárias da luz (magenta, ciano e amarelo) e a luz branca, em geral não são realizadas em sala de aula - pela dificuldade de dispor das três fontes, ou dos três filtros ou por não contar com um ambiente suficientemente escuro. Entretanto, o exame da tela de um aparelho de TV ou de um monitor de computador através de uma lupa pode auxiliar o professor na discussão das cores primárias da luz (vermelho, verde, azul). Por sua vez, a análise das cores de impressão nos cartuchos de tinta para impressoras pode auxiliar na discussão das cores primárias dos pigmentos (magenta, ciano, amarelo).

Uma discussão sobre o surgimento da fotografia colorida e dos princípios físicos em que é baseada pode ser um argumento motivador para os alunos, propiciando uma aprendizagem mais significativa deste conteúdo.

## Explorando a Física no museu de Arte

Em 1874 em Paris aconteceu a primeira exposição de um novo movimento artístico que surgia na França, o Impressionismo, do qual entre os seus melhores representantes estavam Monet, Renoir, Sisley, Pisarno, Cézanne, Dégas, entre outros. O termo Impressionismo foi dado a partir da obra, Impression, soleil levant de Claude Monet. A pintura impressionista baseou-se na pesquisa científica contemporânea sobre a física da cor para obter uma representação mais precisa de cores e tons (SMITH, 1990). A técnica impressionista se destacava por aplicar a tinta em pequenas pinceladas de cor pura, fazendo assim as suas pinturas parecerem mais brilhantes que as realizadas pelos artistas contemporâneos não impressionistas. Para os impressionistas as cores deviam ser mostradas na tela em justaposição, ao invés de misturadas na paleta, como era o comum. Em reação aos próprios impressionistas surge também na França em meados da década de 1880 o movimento pós-impressionista o qual procurou seguir ao extremo os princípios científicos da óptica e da visão. Este novo movimento começa mais uma vez com Claude Monet, quando este passa a pintar sistematicamente a mesma igreja, estudando as modificações trazidas pela incidência da luz sobre um objeto (MORAIS, 1991). Nesta nova técnica a cor é obtida na tela a partir de sua decomposição tonal mediante a aplicação de minúsculas pinceladas, nitidamente separadas, mesmo a olho nu, formando uma imagem através da composição de pequenos pontos justapostos, pelo qual o movimento passou a ser conhecido como pontilhismo ou divisionismo (Paulo Victorino; http://www.pitoresco.com.br/art\_data/pontilhismo/). Os principais teóricos do

Pontilhismo foram Georges Seurat e Paul Signac.Considerados neo-impressionistas, Seurat e Signac aplicavam a cor em pequenos pontos ou traços, utilizando-se apenas das cores primárias (PEDROSA, 2003). Para Signac, o primeiro objetivo desta técnica neoimpressionista é tornar as cores tão parecidas quanto possível com a luz (DÜCHTING, 2000) criando uma luminosidade na tela. Ao contrário do artista impressionista, o artista pontilhista desenvolve sua obra dentro de estúdios a partir de esboços até chegar à conclusão da mesma. No Brasil os principais representantes da pintura neoimpressionista, em especial pontilhista, foram Eliseu Visconti e Belmiro de Almeida.

O neo-impressionismo exibe uma arte de extrema precisão científica, pois a imagem formada na retina do observador é o resultado da 'matemática' de poucas cores puras (sem misturas) utilizadas pelo artista ao pintar uma seqüência de pontos sobre a tela. Nesses quadros, a imagem que é formada na retina do observador depende, entre outros fatores, da distância entre a tela e o observador: quando bem próximo da tela vêse uma imagem descontínua; mas, a partir de certa distância, que pode ser diferente para diferentes observadores, essa imagem passa a ser contínua, como se tivesse sido pintada por linhas e não por pontos (DALE, 2003). Esse comportamento é explicado pela difração da luz refletida pela tela ao passar pela pupila humana formando 'figuras de difração' na retina. O fenômeno da difração pode ser demonstrado facilmente utilizando uma fonte laser e uma fenda ou um obstáculo (um fio de cabelo, por exemplo).

Conhecendo-se a distância entre dois pontos da tela e a distância do observador até esses pontos, quando o observador não os distingue mais, isto é, quando os dois pontos passam a ser percebidos como uma única imagem, pode-se determinar o ângulo θ R, que obedece ao Critério de Rayleigh para a resolução das imagens destes pontos (TIPLER,1995, p.126). Nesse trabalho apresentamos uma experiência simples que torna claro esse fenômeno e que elimina o constrangimento que sofreríamos num museu de Arte ao nos aproximar de um quadro para medir a distância entre os pontos numa tela neo-impressionista, mesmo que fosse de pintores brasileiros como Cláudio Tozzi (SCHENBERG, 1988) ou Romanita Disconzi (Artistas Professores da UFRGS, 2002).

A experiência consiste em colocar em uma moldura de slide um pedaço de papel alumínio com dois orifícios feitos com a ponta de uma agulha. Em outra moldura de slide coloca-se uma cartolina preta com um orifício feito também com uma agulha. O primeiro 'slide' de alumínio é colocado em um projetor de slides. O observador coloca o 'slide' de cartolina preta com um orifício sobre o olho e aproxima-se ou afasta-se do projetor de slides observando a luz emitida pelos dois orifícios no papel alumínio até que, a partir de certa distância, ele passa a não mais distingui-los. Note-se que o 'slide' de cartolina preta está, de certa forma, 'simulando a nossa pupila', pois em ambientes relativamente escuros a nossa pupila apresenta uma grande abertura, dificultando a observação desejada. Assim, o efeito do orifício em cartolina preta é o de fixar a abertura da pupila do observador.

## Conclusões

A busca da aprendizagem significativa impõe desafios constantes para os professores da área das ciências exatas, freqüentemente limitadas às salas de aula comuns e às bibliotecas desatualizadas. Na maior parte das escolas os laboratórios, ou inexistem ou, quando existem, não dispõem dos recursos mínimos necessários para realização de experiências.

As reuniões pedagógicas nas escolas dificilmente oferecem espaço para t rocas de experiências entre os professores e, quando o fazem, procuram formar grupos de

professores reunidos por disciplinas afins. Professores de Arte e de Ciências raramente têm oportunidade de discutir suas práticas. Entretanto, quando os alunos questionam um ou outro, porque aparentemente há um contra-senso entre o que cada um deles ensinou em sala de aula, ainda assim o diálogo é dificultado pelo quase analfabetismo científico de um, e artístico de outro. Via de regra, a discussão cessa, cada um fica com seus próprios conceitos e os alunos 'sabem que na aula de artes a natureza se comporta de uma certa maneira e na de ciências, de uma outra forma'. Provavelmente os alunos também 'sabem que nada disso importa muito, pois o conhecimento exigido em sala d e aula pouco tem a ver com a realidade'.

Nesse trabalho propomos que sejam multiplicadas as atividades extra-muro escolar, como visitas a museus, centros de ciência e planetários e que os alunos sejam acompanhados por professores de áreas distintas, como as de ciências exatas e humanas, para que as linguagens de uma e de outra possam ser ampliadas. É preciso deixar claro ao aluno que a compartimentação do conhecimento é obra humana e que, de certa forma, reflete nossa incapacidade de 'ver e compreender' o todo. Estamos ainda construindo o nosso saber e, nesse espetáculo, somos todos autores e atores.

## Referências

DALE, Daniel A. e BAYLEY, Brenae L. Physics in the Art Museum , The Physics Teacher , v. 41, p. 82-83, 2003.

DÜCHTING, H. Georges Seurat, Germany: Taschen, 2000, p. 87. Tradução Portuguesa: Ana Pereira, Lisboa.

MORAIS, Frederico. Panorama das artes plásticas séculos XIX e XX . Apresentação Ernest Mange. 2. ed. rev. São Paulo: Itaú Cultural, 1991.

PEDROSA, Israel, Da cor à cor inexistente , Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial Ltda., 9ª edição, 2003.

SCHENBERG, Mario; Pensando a Arte , São Paulo: Nova Stella, 1988.

SMITH, Edward Lucie, Dicionário de termos de arte , 1ªedição, Lisboa, Publicações D.Quixote, 1990, p.108.

TIPLER, Paul, Física para cientistas e engenheiros, Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., vol. 4, 3ª edição, 1995. Tradução: Horacio Macedo.

WOOLF, Lawrence D. Confusing Color Concepts Clarified , The Physics Teacher , v. 37, p. 204-206, 1999.

Artistas Professores da UFRGS: obras do acervo da pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes - UFRGS, Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002.

Paulo Victorino; http://www.pitoresco.com.br/art\_data/pontilhismo/ <visitado em 29/08/2004>

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