``AR ATMOSFÉRICO": UMA PROPOSTA ALTERNATIVA PARA O ENSINO MÉDIO
Milton Antonio Auth, Graciela Sasso Fiuza, Carine Raquiel Halmenschlager, Janete Maria Strieder, Juliana Aozane
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 25/01/2005
- Linha de pesquisa
- Interdisciplinaridade E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## 'AR ATMOSFÉRICO': UMA PROPOSTA ALTERNATIVA PARA O ENSINO MÉDIO
a
Milton Antônio Auth (auth@unijui.tche.br) Graciela Sasso Fiuza (graci.fiuza@terra.com.br) b Carine Raquiel Halmenschlager (karine.h@unijui.tche.br) c Janete Maria Strieder d (strieder@efa.com.br) Juliana Aozane (juliana.aozane@unijui.tche.br) e
a, b, c, d, e: Unijuí - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
## Resumo
Trata-se do desenvolvimento de uma proposta curricular alternativa na primeira série do Ensino Médio e seu acompanhamento via vídeo-gravações, transcrições e análises. As reuniões de planejamento e as aulas foram realizadas por um grupo de professores (áreas de Física, Química e Biologia) da Escola de Educação Básica Francisco de Assis (EFA), com a colaboração/interação de bolsistas de iniciação científica e de pesquisadores do Gipec - Unijuí (Grupo Interdepartamental de Pesquisa sobre Educação em Ciências). O texto 'Ar atmosférico', previamente produzido pelo coletivo de professores-pesquisadores, serviu de base para as atividades no contexto escolar. A análise mostrou que é possível, mesmo com expressivas resistências, mudar a tradicional seqüência curricular do Ensino Médio, significar conceitos que são mais representativos e desenvolver um processo de forma coletiva, mais dinâmico, com professores e alunos exercendo o papel de investigação e de produção.
Palavras chave: Situação de Estudo, Interdisciplinaridade, Ensino de Física
## Introdução
São freqüentes as constatações de que o Ensino Médio, particularmente a Área de Ciências Naturais, não está conseguindo propiciar uma formação que leve as pessoas a melhor compreender e agir em seu contexto. A forma de trabalhar o conhecimento das disciplinas científicas, ainda assentada em concepções tácitas e formulações não críticas d o que seja a ciência e seu significado no mundo contemporâneo, não está sendo fácil de ser enfrentada nos processos educativos formais. Os professores trazem a sua concepção de ciência para o contexto do ensino e que o influencia na seleção dos conteúdos e na forma metodológica de desenvolvê-los (Maldaner, 2000). A abordagem de conhecimentos prontos e acabados, com pouca ou nenhuma ênfase ao processo histórico e às inter-relações existentes entre as diversas áreas do conhecimento, torna o ensino abstrato e com pouco significado para os estudantes.
Uma possibilidade que vem sendo potencializada é a Situação de Estudo (Maldaner e Zanon, 2001), uma vez que procura, através de debates epistemológicos, verificar a complexidade de uma sala de aula, explicitar a importância do ensino de ciências e suas tecnologias, quebrar a seqüência tradicional dos conteúdos e mostrar que é possível trazer o cotidiano do aluno para a sala de aula, dando maior importância ao seu conhecimento e superar o papel de professor detentor do conhecimento.
Mas as novas alternativas empreendidas só poderão ser identificadas e compreendidas se acompanhadas de pesquisa e realizadas por um coletivo bem atuante, cujos participantes tenham postura aberta para interagir com os outros, com o diferente. 'Aprender a ser, a fazer, a viver juntos e a conhecer constituem aprendizagens indispensáveis que devem ser perseguidas', diz o Relatório sobre a Educação no século XXI, coordenado por Jaques Delors. 1
Apostamos num processo de formação que leva em conta aspectos de caráter históricoepistemológico (Vigotski, 2001), a dialogicidade (Freire, 1997), estudos e debates sobre a interdisciplinaridade e complexidade (Morin, 2002) e orientações dos PCN - CN. Parte-se do princípio de que esses aspectos, quando associados a situações contextualizadas, possibilitam ao professor e ao estudante fazerem interações entre os componentes curriculares (Auth, 2002).
## Desenvolvimento/resultados
Num primeiro momento, reunindo um grupo de professores pesquisadores do Gipec Unijuí 2 e da EFA e bolsistas de iniciação científica, envolvendo as áreas de Física, Química e 3 Biologia, foi elaborado um texto básico sobre 'Ar atmosférico', para compor uma Situação de Estudo (SE) que pudesse servir de parâmetro inicial para a realização de um trabalho interdisciplinar no contexto escolar.
Num segundo momento, no âmbito escolar, os professores da área de Ciências Naturais atuantes na primeira série do ensino médio da EFA, e contando com a parceria de professores do Gipec, se dispuseram a retomar o texto 'Ar atmosférico' e fazer as (re)elaborações necessárias para que pudesse ser desenvolvido em sala de aula. A experiência aconteceu na turma 211, composta por 27 alunos, e se estendeu por quatro meses. As aulas foram vídeo-gravadas, num total de 19 encontros, as fitas foram transcritas e os turnos de fala enumerados, servindo de base para a pesquisa.
A investigação buscou explicitar as inter-relações estabelecidas no contexto escolar, particularmente entre Física, Química e Biologia e a possibilidade de enfrentar a fragmentação e alterar a seqüência dos conteúdos disciplinares. Iniciou-se por evidenciar os conceitos que foram mais significativos no desenvolvimento da SE e como eles apareciam nas expressões de professores e alunos. Esperava-se que o conceito energia fosse o mais representativa. No entanto, este conceito foi pouco trabalhado, comparativamente com pressão e empuxo. Também esteve em foco a evolução conceitual atingida pelos estudantes em seu processo de aprendizagem através do desenvolvimento de uma SE.
Em relação aos conceitos pressão e empuxo, pôde-se notar dois momentos distintos nessa SE: num primeiro, que compreende em torno da metade das aulas gravadas, a professora desenvolveu as atividades buscando significar o conceito Pressão. Ela conseguiu estabelecer boas interações com os alunos, permeadas de questionamentos, de exploração de exemplos e descrições de fatos cotidianos. Num segundo, quando o assunto foi empuxo, reaparece a fragmentação e o ensino passa a ser, basicamente, da maneira tradicional.
Ante à pouca relação com o contexto de vivência dos alunos, às dificuldades de relacionar os assuntos estudados e à herança, ainda marcante pelos vários anos de escolarização, a forma alternativa de desenvolver o processo foi colocada 'em xeque'. Ficou explícita a preocupação dos alunos em desenvolver exercícios e cálculos matemáticos, mesmo não entendendo bem o que estavam exercitando/calculando. A professora, percebendo que os alunos não estavam acompanhando as atividades da f orma esperada e tentarem explicar os fenômenos que ocorriam nas
atividades práticas sem usar a palavra empuxo, já introduzida para compor um novo conceito, passa a insistir, por diversas vezes, na retomada dessa, trazendo outros exemplos, de modo a ampliar a sua significação.
Posteriormente, foram investigados cinco conceitos, considerados por nós de interdisciplinares: pressão, calor, temperatura, densidade e energia. Objetivava-se salientar como esses conceitos foram explorados em sala de aula e, principalmente, se eles estavam relacionados com as disciplinas de Biologia e Química.
Com a análise dos dados, evidenciamos que foi superada a forma curricular tradicional de escolha dos conteúdos. Por exemplo, conhecimentos usualmente trabalhados no segundo ano do Ensino Médio, como temperatura e calor, passaram a ser estudados no primeiro ano, inclusive servindo de mediação para as interações com Biologia e Química. A metodologia desenvolvida em sala de aula rompeu com a formalidade do ensino tradicional. Procurou-se introduzir e desenvolver as aulas de maneira que os alunos investigassem e interagissem com a situação proposta.
Na tentativa de estabelecer interações entre Física e Química, por exemplo, foram planejadas atividades para serem desenvolvidas com os alunos e que os levasse, inclusive, a relacionar os conceitos já estudados em aulas anteriores para descrevê-las. Uma delas consistia em realizar e explicar o ocorrido na experiência em que se coloca um ovo cozido sobre o gargalo de uma garrafa, que possuía em seu interior algodão e álcool. Os alunos gostaram desta atividade e demonstraram um bom entendimento, falaram sobre a queima de oxigênio, que produz gás carbônico e que isso altera a pressão dentro da garrafa (290) e por isso o ovo adentrou no recipiente. Quando a 4 professora solicitou aos alunos relacionarem outros fenômenos associados à pressão, um deles respondeu que na panela a pressão interna é maior que a externa, ligando à questão do fornecimento de energia (337) e da agitação molecular (339) com a pressão e a temperatura.
Os alunos, com a mediação da professora de física, conseguiram relacionar vários conceitos, dentre os quais moléculas e transformações de energia, a exemplo do que foi expresso por um deles, ao afirmar que 'a vela estava acesa daí o oxigênio queimou e liberou outros gases, mas quando a vela apaga o calor diminuí. Aí a agitação das moléculas também diminui.'
Este turno de fala mostra o quanto pode ser importante a relação entre as disciplinas no desenvolvimento de uma Situação de Estudo, pois se não fosse dada atenção para a relação com a química, conceitos como agitação molecular e queima de gás não seriam discutidos numa aula de Física da primeira série do ensino médio. Pelo olhar da física é usual dizer apenas que houve diminuição da pressão interna, sem se preocupar com os demais fatores necessários para entender um fenômeno, alguns deles bem lembrados pelos próprios alunos.
Conforme Vygotsky (1991, p. 105):
Se ignorarmos as necessidades da criança e os incentivos que são e ficazes para colocá-la em ação, nunca seremos capazes de entender seu avanço de um estágio de desenvolvimento para outro, por que todo avanço está conectado com uma mudança acentuada nas motivações, nas tendências e nos incentivos.
A insistência, por parte da professora, na retomada dos termos científicos para a significação também foi importante, pois, por mais que os alunos os usassem de forma distorcida em relação ao fenômeno em estudo, entendeu-se que houve significações e relações foram estabelecidas. O conceito é sempre necessário para se compreender um fenômeno, um objeto, de tal maneira que ao expressar uma palavra busca-se a compreensão de outro individuo.
## Conclusão e Perspectivas de continuidade
Com esse trabalho procuramos mostrar a importância de estabelecer interações entre os componentes curriculares, do papel de mediação do professor em sala de aula e da capacidade que alguns alunos já possuem de explicitar entendimentos de determinado fenômeno utilizando conceitos significados em outras atividades. Mesmo assim, também é pertinente ressaltar que parte expressiva dos alunos não havia significado suficientemente esses conceitos para utilizá-los em outras situações. Por exemplo, quatro meses pós o desenvolvimento da SE, foi passado aos alunos um texto de divulgação científica sobre 'A Tensão Criativa do Cosmos' (elaborado por Marcelo Gleiser), seguido de algumas questões que deveriam possibilitar avaliar o nível conceitual atingido pelos alunos. Uma pequena parcela dos alunos conseguiu se expressar utilizando conceitos trabalhados em aula, outros conseguiram relacionar termos estudados, mas com pouca significação conceitual. Isso nos levou a reforçar a idéia da importância e necessidade de retomar os conceitos sistematicamente em outros momentos, em outras atividades.
A continuidade das investigações sobre desenvolvimento de SEs vem sendo feita com uma nova turma nesse ano, via o acompanhamento de reuniões de estudo, planejamentos e aulas, com a tomada dos respectivos registros. Percebe-se avanços em relação a SE anterior no que se refere a maior contextualização e relação dos conteúdos, pois as interações entre os três componentes curriculares vêm sendo mais expressivas e há uma maior atenção ao tratamento conceitual. O conceito energia, por exemplo, praticamente ignorado na SE anterior, neste ano vem aparecendo com mais intensidade, avançando-se com sua significação.
Além disso, os próprios professores pesquisadores da escola já possuem maior clareza do trabalho interdisciplinar, da proposta de SE, que trata de organizações curriculares que consideram o contexto de vivência dos envolvidos, com sua riqueza conceitual e a busca de desencadear interações entre os componentes curriculares. Isso, sem dúvida, deve potencializar ainda mais o desenvolvimento desta e de outras Situações de Estudo.
## Referência Bibliográficas:
AUTH, Milton A. Formação de Professores de Ciências Naturais na Perspectiva Temática e Unificadora . Florianópolis/SC: ppge/UFSC, tese, 2002.
DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 1998.
Freire, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
MALDANER, Otavio A. A Formação Inicial e Continuada de Professores de Química : Professores Pesquisadores. Ijuí: Editora Unijuí, 2000.
----- & ZANON, Lenir B. Situação de Estudo: Uma Organização do Ensino Que Extrapola a Formação Disciplinar em Ciências. P. 45-60 In: Espaços da Escola , Ijuí, n. 41, jul/set. 2001.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio, parte III Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Disponível em <www.mec.org.br> .
MORIN, Edgar. A religação dos saberes. 3° Edição. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2002, 583p.
VYGOSTKY, L. S. A formação social da mente. 4ª ed, São Paulo: Martins Fontes, 1991.
VIGOTSKI, Lev S. A Construção do Pensamento e da Linguagem . São Paulo: Martins Fontes, 2001.
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