A MATRIZ EUROPÉIA: E O ENSINO SECUNDÁRIO DE FÍSICA NO SÉCULO XIX.
Luís Dário Sepulveda.
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 25/01/2005
- Linha de pesquisa
- Tecnologias (Laboratório, Vídeo E Informática) No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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## A MATRIZ EUROPÉIA: E O ENSINO SECUNDÁRIO DE FÍSICA NO SÉCULO XIX.
Ferraz (1997), ao estudar a história das Ciências em Portugal e no Brasil, afirma que o ensino das novas ciências na Faculdade de Filosofia, na Universidade de Coimbra, criou um espaço singular ao estudo dos fenômenos físicos: o Gabinete de Física Experimental e o Laboratório de Química. Essa nova ciência exigiu uma nova metodologia de trabalho, surgida na Reforma de 1772, na Universidade de Coimbra. Nessa forma, o programa de Ciências Naturais passou a ser dividido em três matérias. A primeira era a História Natural, que dava "uma idéia da Natureza, e constituição do Mundo em geral, e do Globo terrestre em particular; limitando-se aos objectos mais vizinhos ao Homem, e mais necessários ao uso da vida" . A segunda era a Física Experimental, que ganhava um "Gabinete" para suas experiências, "onde se demonstrariam suas verdades" (Ferraz, 1997, p.50), mediante a manipulação de instrumentos, aparelhos e máquinas, e cujos alunos deveriam
... ver executar as Experiências, com que se demonstram as verdades até o presente conhecidas na mesma Física; mas também adquirir o hábito de as fazer com a sagacidade, e destreza, que se requer nos exploradores da Natureza. (Ferraz, 1997, p.51)
Enquanto a História Natural estava a contemplar a Natureza, o estudo das verdades conforme Ferraz (1997), exigiu uma nova metodologia que privilegiava à ação. Por fim, a Química, a terceira das matérias das Ciências Naturais, estudava
... as partes de que se compõem os [...] corpos; e sobre os fenômenos que resultam da aplicação íntima, e contato das mesmas partes; fenômenos que se não podem explicar pelas Leis ordinárias da Mecânica; mas que dependem de um mecanismo particular, e que constituem uma ciência á parte. (Ferraz, 1997, p.51)
A disciplina de História Natural do curso de Filosofia Natural tinha a função de ensinar, pela observação, as verdades dos fatos dos três reinos da natureza, mas a observação era pouco para desvendar as verdades, conseqüentemente, surge "a idéia da experiência como uma observação mais sutil, usada para arrancar os segredos da natureza". (Ferraz, 1997, p.55)
A experiência parece ser o elo que une as cadeiras de Física e de Química: ambas se apropriaram da experiência, ou melhor, "eram as exposições de objetos e as repetições físicas e químicas (freqüentemente denominadas 'experiências') realizadas nos diversos estabelecimentos criados para esses fins" (Ferraz, 1997, p.57), o que levou a cadeira de Física e Química a estar associada a uma só disciplina escolar, pelo menos no seu princípio.
Na França, segundo Balpe (1999), o ensino da Física e da Química experimentais iniciou-se com a criação das Escolas Centrais, durante a Revolução Francesa, suplantando "o ensino da filosofia natural dos colégios do Antigo Regime" (Balpe, 1999, p.244). Nessas escolas centrais, a
- ... física e química experimentais, assim como as matemáticas [...], permitem ao aluno exercitar-se nas operações do raciocínio, após uma educação dos sentidos pelo desenho e pela história natural [...]. Nesse curso, mais de um terço do tempo é, pois, reservado às ciências. (Balpe, 1999, p.247)
A quem servia, no entanto, esse curso? Conforme Balpe (1999), as escolas centrais eram freqüentadas tanto pelos alunos regulares, cujo interesse era adquirir conhecimentos gerais, como também por numerosos ouvintes que buscavam "uma melhor compreensão de técnicas profissionais, vindos para se formar nas matérias úteis a seu ofício" (Balpe, 1999, p.248). Assim, esta mesma autora constata uma certa ambigüidade na normatização dessa nova disciplina, que era proposta para atender à formação geral, desinteressada, mas que chama atenção pelo seu caráter utilitário.
- O fracasso da implementação das escolas centrais acarretou, segundo Belhoste (1989), a
- ... multiplicação das instituições privadas, em que o ensino repousa prioritariamente sobre o aprendizado do latim [...]. A História Natural, a Física e a Química são disciplinas anexas, ensinadas pelo professor de matemáticas [...]. O ensino científico, despregado das aplicações, perde nos liceus o caráter utilitário que constituía a originalidade dos cursos de ciências ministrados nas escolas centrais. (Belhoste, 1989, p. 11)
Finalmente, quando os estudos científicos adquirem estatuto igual ao do ensino literário, no final do século XIX, eles o conseguem sob a condição de
- ... contribuir para a formação do homem. Eles também são, portanto, à sua maneira, "humanidades", num sentido amplo da palavra, as "humanidades científicas", como não hesitou em chamá-los um dos mais fervorosos partidários da cultura clássica. (Belhoste, 1989, p. 19)
Por fim, na década de 1880, o ensino secundário científico na França organizou-se em torno da
... divisão entre ciências matemáticas e ciências físicas (e naturais). As ciências matemáticas e as ciências físicas são ensinadas num espírito bem diferente. Nas ciências físicas (e naturais), o acento é colocado principalmente sobre a observação e experimentação, o ensino repousa sobre a exploração pedagógica das coleções do gabinete de história natural e dos instrumentos do gabinete de física, enquanto nas ciências matemáticas primam a abstração e o raciocínio. A organização do corpo docente encarregada do ensino científico obedece a essa divisão canônica. Existem desde 1809
dois tipos de cadeiras nos liceus e nos colégios, as cadeiras de matemáticas e a cadeira de física. Não há mais, como nas escolas centrais, a cadeira de história natural. Essa repartição desigual das cadeiras reflete a preeminência inconteste das ciências matemáticas sobre as ciências físicas no ensino secundário, preeminência que se encontra também na partilha dos horários e do lugar de cada disciplina nos exames e concursos. (Atten, 1996, p.44)
Foi nesse ambiente que, como mostra Atten (1996), a físi ca experimental, tradicionalmente associada às aplicações práticas, perderia terreno para a chamada física teórica, inteiramente matemática.
Belhoste (1989) também mostra que as ciências matemáticas e as ciências físicas (e naturais) são elas mesmas divididas em matérias que constituem as verdadeiras unidades elementares do ensino científico do ponto de vista dos conteúdos disciplinares. O professor de matemáticas ensina a aritmética, a álgebra, a geometria, a trigonometria, a agrimensura e a geometria descritiva; e o professor de física, a física, a química, a história natural e a geologia. A mecânica e a cosmografia são ensinadas seja pelo professor de matemáticas, seja pelo professor de física, dependendo das épocas. É no nível dessas matérias que se realiza a organização pedagógica do ensino secundário científico: cada matéria tem, com efeito, seus horários, seus programas, seus manuais e, em certa medida, suas tradições e suas continuidades didáticas. No final do século XIX, uma nova etapa é aberta na especialização disciplinar do ensino secundário científico com a divisão das ciências físicas e naturais em ciências físicas e ciências naturais. Essa matriz européia serviu como modelo educacional na implementação do programa de ensino secundário no Colégio Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro, no século XIX.
## Referências Bibliográficas:
ATTEN , Michel. La reine mathématique est as petit soeur In: BELHOSTE. Bruno. . Les sciences au lycée, Um siècle de reformes des mathématiques et de la physique em France et à l'étranger. Paris: Institut National de Recherche Pédagogique, 1996.
BALPE , Claudette. Constitution d'un enseignement expérimental: La physique et chimie dans les écoles centrales . Reveue d'histoire des sciences , tomo 52 - 2, avril - juin, 1999.
BELHOSTE , Bruno. Les Caractères Généraux de L'Enseignement Secondaire Scientifique de la fin de l'Ancien Régime à la Première Guerre mondiale. Paris: Institut National de Recherche Pédagogique, 1989.
FERRAZ , Márcia Helena Mendes. As Ciências em Porutgal e no Brasil (1772-1822): o texto conflituoso da química. São Paulo: EDUC, 1997.
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