USO DE UM ESPAÇO VIRTUAL DE APRENDIZAGEM NA FORMAÇAO INICIAL DE PROFESSORES DE FISICA: ESTUDANDO O CURRICULO DE FISICA
Ernesto Macedo Reis, Marília Paixao Linhares
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- X
- Ano
- 2006
- Data
- 18/08/2006
- Linha de pesquisa
- Tecnologia Da Informaçao, Difusao Tecnológica E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## USO DE UM ESPAÇO VIRTUAL DE APRENDIZAGEM NA FORMAÇÃO INICIAL DE ÍÍÍ ÇÇ PROFESSORES DE FÍSICA: ESTUDANDO O CURRÍCULO DE FÍSICA
*Ernesto Macedo Reis (CEFET-Campos) e Marília Paixão Linhares (UENF)
Resumo: Neste trabalho avaliamos o Ambiente Virtual para Estudos de de Ciência (AVEC) com suporte na Internet e sua contribuição em um estudo de caso realizado com um grupo de 31 licenciandos de Física. O ambiente apoiou as atividades presenciais durante a disciplina curricular Estratégias de Ensino. No artigo apresentamos as bases de funcionamento do ambiente de aprendizagem e a análise de um Estudo de Caso realizado durante a disciplina. Nossa intenção é intervir na formação dos professores de forma a estimular a reflexão sobre suas ações docentes, promover interatividade, incentivar o trabalho cooperativo e o uso de forma significativa das tecnologias de informação e comunicação a partir de ações que sejam comuns ao dia-a-dia do professor de Física. O ambiente assume o modelo conceitual de Aprendizagem Baseada em Casos que permite o estudo e aprofundamento de questões complexas, como é o caso do Currículo, que dificilmente podem ser aprofundadas nos cursos de graduação, já que o tempo nas disciplinas pedagógicas é escasso. Além disso, é preciso considerar que devemos aliar aos aspectos didáticos e pedagógicos elementos de conteúdo, visando o caráter realístico do ensino.
## Introdução
Este trabalho está inserido em um projeto de pesquisa cujo objetivo é a formação de professores de Física e o desenvolvimento de ambientes de aprendizagem com suporte na Internet. O Ambiente Virtual para Estudos de Ciências (AVEC) desenvolvido é uma Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) que apóia professores das áreas de Física e Ciências Naturais, incentivando-os a integrarem recursos da Internet aos processos educativos.
Como é possível observar em nosso dia-a-dia, as TIC são parte da sociedade e o surgimento de ferramentas de fácil utilização permite que os professores de Física superem visões exclusivamente instrumentais da mediação tecnológica através da reflexão sobre sua prática docente, visando modificar suas práticas de ensino e assim requalificarem o processo de aprendizagem no qual também estão inseridos.
- O conceito de Ambiente de Aprendizagem se desenvolve, valorizando-se as estratégias de ensino no processo de aprendizagem, como amplificação de distribuição, adaptabilidade e reuso, além é da cooperação. Estes aspectos são funcionalidades que favorecem a evolução de um sistema informático e por isso devem ser monitoradas.
- O artigo tem como objetivo apresentar uma parte da pesquisa sobre os limites e possibilidades de um ambiente de aprendizagem com suporte na Internet projetado para apoiar as ações da disciplina Estratégias de Ensino, ministrada aos estudantes da Licenciatura em Física. O estudo tratou de uma questão relevante que dificilmente se discute com os futuros professores de Física, o Currículo de Física. Este é um ponto do qual divergem inúmeros conceitos e questões de interesse dos professores, que por apresentar alta complexidade permanece distante das salas de aula. Além disso, o tempo necessário para debates e leituras é sempre pequeno, o que contribui para que muitos professores se formem sem terem tido a oportunidade de aprenderem sobre o tema, que é pertinente a qualquer sala de aula.
No âmbito da pesquisa que desenvolvemos, e que tem o AVEC como ferramenta central, nosso objetivo é tornar a aprendizagem dos licenciandos sobre a prática docente de Física mais potente, e nossa principal questão é avaliar: - quais os limites e possibilidades deste ambiente de aprendizagem na formação dos professores de Física?
## O Referencial Teórico: As Tecnologias de Informação e Comunicação na Formação de Professores
Convivemos com a crescente demanda por inovações nas esestratégias de ensino e aprendizagem. Estas demandas se orientam na busca por abordagens construtivistas que facilitem a formação de profissionais autônomos, livres de regras e criativos, comprometidos com o próprio aprendizado, leitores (Freire, 1986; Freire e Shor, 1987; Jonassen, 1999). No caso específico dos professores de Ciências, cooperativos e críticos em relação ao trabalho que fazem (Porlán e Rivero, 1998; Schön, 1992). Com este quadro de integração das TIC na formação profissional do professor de Física considera-se esta medida uma boa solução de inserção social.
Quanto ao ensino da Física, vemos que a essência da investigação sobre a construção de conhecimento na área tem sido o mote para a utilização das TIC no processo educativo. Os Ambientes de Aprendizagem apoiados pela Internet podem enriquecer a investigação que influi na formulação de questões e soluções, na avaliação de respostas e no processo de construção de conhecimentos (Jonassen, 1999; Bodzin & Cates, 2003). Neste contexto identificamos alguns recursos capazes de potencializarem o ensino de Física: conteúdos, comunicação e base de informações.
Os conteúdos de Física na Internet podem ser transferidos por arquivos de textos, além de ganharem outras representações como gráficos, imagens, animações, simulações, vídeos etc, devendo-se identificar as fontes de distribuição (periódicos, HP de universidades, associações ligadas à pesquisa e ensino, portais etc). Vianna e Araújo (2002) no portal UniEscola apresentam inúmeros elementos desta classificação e diversas recomendações que são referências.
As comunicações se valem da cooperação como uma abordagem imediata que amplia as chances de aprendizagem dos estudantes que participam de um ambiente de aprendizagem (Motta, 1999). Os estudantes têm no trabalho a distância uma boa oportunidade de superarem inúmeras dificuldades cotidianas, principalmente àqueles que estudam nos horários noturnos.
As bases de informação são elementos cada vez mais importantes no que tange a personalização do ensino que se pratica, além de constituir-se em uma estratégia de ensino que pode envolver os próprios estudantes que participam de estudos no ambiente de aprendizagem, transformando-os em produtores de materiais, o que contribui para a retroalimentação do sistema. É uma evidência de multidisciplinaridade, pois na medida do interesse e da capacidade de pesquisa, estudantes podem produzir módulos completos de ensino e aprendizagem. Este conceito está presente na definição de padrões para os Objetos de Aprendizagem (OA), que são uma nova funcionalidade das bases de informação. Nossa concepção de Objeto de Aprendizagem é que sejam elementos de conteúdos completos que tenham uma culminância digital (simulação, imagens, vídeos, textos etc) (Wiley, 2002), passíveis de serem transferidos para salas de aula convencionais.
## Metodologia
Este estudo é parte de uma pesquisa que diz respeito a investigação dos limites e possibilidades de ambiente de aprendizagem com suporte na Internet junto à formação de professores de Física. Para descrever o trabalho que temos desenvolvido apresentamos o relato de um Estudo de Caso realizado com 31 alunos que participaram da disciplina planejada de acordo com a metodologia de Aprendizagem Baseada em Casos (ABC). Ao longo da disciplina foram trabalhados diversos Estudos de Caso, que destacaram: conteúdos de Física, abordagens pedagógicas e metodológicas no ensino de Física, a natureza do conhecimento científico e outros aspectos técnicos e sociais da profissão docente. O Estudo de Caso que rerelataremos foi realizado ao longo de cinco semanas e atentamos para o desempenho dos estudantes quanto ao uso do AVEC e de sua interface e a avaliação da aprendizagem dos mesmos no estudo que fizeram. Os autores da pesquisa são dois pesquisadores, a professora da disciplina e um aluno de doutorado. Ao iniciar a disciplina os pesquisadores apresentaram a experiência didática e solicitaram a contribuição de cada estudantes.
Atualmente os licenciandos de Física têm utilizado o ambiente de aprendizagem que conta com Estudos de Casos voltados para suas práticas profissionais futuras, mas que está sendo atualizado, no formato de uma nova versão. Esta nova versão foi estruturada a partir dos estudos já realizados e, no que diz respeito à interface, sofreu transformações.
Nosso objetivo quando trabalhamos com um Estudo de Caso é a aprendizagem significativa do licenciando, que poderá ter vivências próximas em sua vida profissional. No Caso que estaremos analisando, questionamos como os futuros professores encaram algumas questões ligadas ao currículo de Física e suas manifestações na sala de aula. Consideramos que é preciso instrumentalizar o professor de Física para sua prática futura. Elegemos duas perguntas para orientar o estudo. O objetivo traçado foi alcançado neste estudo em particular? Os estudantes mostraram um avanço conceitual condizente com uma mudança de postura em relação à forma como compreendem o papel do currículo nas ações docentes e na escola?
## O Ambiente Virtual para Estudos de Ciências
- O AVEC (http://www.avec.uenf.br) (figura 1) é um ambiente de aprendizagem com suporte na Internet que assume como modelo conceitual e metodológico a Aprendizagem Baseada em Casos.
- O AVEC consiste em um sistema utilizado como modelo e referência para abrigar ações de de ensino, que se estruturem de acordo com a metodologia de ABC, a partir do desenvolvimento de kits pedagógicos relacionados a cada Caso. Desta forma, o objetivo do sistema informático é permitir que professores possam indexar/cadastrar, disponibilizar, consultar e compartilhar conhecimentos e materiais didáticos voltados à aprendizagem, até o momento, na área de Física e sobre o ensino de Física.
Figura 1: Tela inicial do AVEC
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Na criação do acervo de Estudos de Caso, os professores contam com um modelo metodológico prpreviamente definido (Reis e Linhares, 2005a), a partir do qual criarão seus Estudos (é possível cadastrá-lo, formar um grupo 1 e dar início a uma atividade pedagógica). Todos os Estudos de Caso criados podem ser acessados a partir do grupo para o qual (is) foi (ram) criado (s). É possível realizar um Estudo de Caso com mais de um grupo simultaneamente. Objetivando a criação de uma identidade própria para cada grupo, os professores e tutores têm a possibilidade de definir nomes diferentes para cada grupo.
Quando trabalham num Estudo de Caso os estudantes seguem basicamente três passos, que constituem a essência da metodologia de ABC, que consideramos o ponto principal das ações pedagógicas e das interações: i) o estudante lê o Caso e aponta uma solução ou encaminhamento preliminar sem executar qualquer pesquisa escolar ou estudo
adicional, ii) a seguir encaminhamos as leituras básicas e pesquisas escolares, a leitura principal deve ser resenhada, iii) em uma fase de conclusão o estudante encaminha sua proposta de solução que pode assumir diferentes formatos, como por exemplo, roteiros ou planejamentos de aulas, de unidades ou cursos, proposta de estruturas curriculares etc.
Até o momento, independentemente do Estudo de Caso que iremos relatar, o AVEC possui, oito Estudos de Caso cadastrados, produzidos para estudantes da Licenciatura em Física, do Ensino Médio e professores já graduados. Todos estes Estudos de Caso foram elaborados a partir do nosso modelo para construção de Casos (Reis e Linhares, 2005a).
- O administrador do AVEC é o responsável por autorizar a inscrição de outros usuários e gerenciar as informações. A inserção dos Estudos de Caso é feita pelos professores/tutores. Desta forma, além de oferecer a oportunidade para professor armazenar recursos educativos referentes à sua área de interesse, no formato do kit pedagógico é possível reutilizar estes recursos em outros grupos, melhorando-os se for o caso. A idéia básica é que o AVEC seja um local de compartilhamento de experiências profissionais entre diversos professores. Assim, cada professor/tutor poderá utilizar os recursos didáticos disponíveis.
- O AVEC possui funcionalidades que são acessadas a partir das seguintes telas:
- 1) Login - - tela de acesso conectado ao perfil dos usuários cadastrados, onde também é possível o visitante acessar o gerenciador do sistema;
- 2) Estudos de Caso - - banco de estudos de caso, onde cada grupo formado está associado, a pelo menos, um estudo de caso;
- 3) Cadastrar Casos - no cadastro de casos, os professores popoderão inserir os estudos de caso, kit pedagógicos, links etc;
- 4) Edição de Respostas - área para o usuário editar suas respostas de um estudo de caso, utilizada pelos professores/tutores para correção e orientações;
- 5) Fórum de Debates - espaço destinado a realização de tarefas ou discussões sobre tópicos relacionados ao estudo de caso;
- 6) Chat - espaço destinado ao tratamento de questões pontuais;
- 7) e-Mail - tela para e-mail internos e externos enviados a partir do EVA.
Esta interface é objeto de uma avaliação permanente por parte dos desenvolvedores que coletam opiniões dos estudantes, conversam com cada um avaliando suas dificuldades. Os professores/tutores são peças fundamentais deste processo e hoje já contamos com elementos suficientes para apontar para uma reestruturação da interface do AVEC.
## A Pesquisa - Um Estudo de Caso sobre a Importância do Currículo de Física
A pesquisa pode ser considerada qualitativa, na medida em que o principal instrumento de coleta de dados, que é o próprio AVEC, nos favorece na análise do discurso dos sujeitos. Estes discursos são os encaminhamentos dos estudantes ao Estudo de Caso.
Neste estudo iremos analisar os dados obtidos no Estudo de Caso, a partir dos passos dados pelos estudantes quando encaminham uma solução. Contamos com um total de 31 alunos, distribuídos em duas turmas que estudaram o Caso "Currículo de Física: reflexões e contexto". De acordo com o modelo conceitual de ABC que adotamos, a seqüência dos passos para encaminhamento de uma solução nos permite avaliar se os estudantes evoluem na forma como tratam a questão de estudo.
No primeiro passo o estudante entra com uma resposta para a principal pergunta do Estudo de Caso, logo após sua leitura, deixando-a registrada. Mesmo que seja orientado pelo tutor a melhorá-la, esta primeira resposta é relevante no sentido de identificar a forma como pensou a questão. Após a leitura de um texto básico, que deve ser resenhado e registrado no segundo passo, o estudante estará apto a apresentar uma solução para o estudo. Esta última solução pode ser confrontada com a primeira e, isto é feito, no intuito de avaliarmos se houve aprendizagem sobre o tema.
- O Estudo de Caso que iremos analisar está apresentado no quadro 1. A leitura básica recomendada foi "A Contribuição da Física para um Novo Ensino Médio" (Kawamura e Housome, 2004), que apresenta de forma resumida as orientações educacionais
complementares aos PCN+ e trata dos temas estruturadores como uma proposta de valorização curricular.
- O encaminhamento do estudo teve como objetivo levar o estudante da licenciatura a avaliarem aspectos gerais e específicos do Currículo de Física praticado nas escolas da região onde atuamos, tais como, a forma como este instrumento se relaciona com a aprendizagem dos estudantes no ensino médio e, o significado de uma reformulação curricular, no que diz respeito ao ensino de Física que se pratica na região.
Quadro 1: Estudo de Caso sobre o Currículo de Física
## CURRICULO DE FÍSICA NO ENSINO MÉDIO: Reflexões e Contexto
Em uma escola do ensino médio que também conta com cursos de graduação, o coordenador da disciplina de Física buscou reunir os professores de ensino médio propondo uma análise do currículo existente, que dentre outras questões acompanha a ordem e o conteúdo que se vem trabalhando há mais ou menos trinta anos.
- O coordenador busca a partir da reflexão dos quinze professores envolvidos levantar pontos que conduzam a uma proposta concreta de reformulação ou manutenção desse instrumento de organização da escola.
- O professor Nestor pede a fala e apresenta uma proposta que tem encaminhado junto a suas turmas em nível experimental há pelo menos cinco anos, que considera de bons resultados e que como afirma, tem contribuído para a formação de um olhar mais crítico da Ciência e em especial da Física, por parte dos alunos.
Essa proposta está baseada em uma mudança de metodologia, fundamentada na substituição das avaliações tradicionais no formato de provas por avaliações processuais, onde a ênfase é o avanço conceitual de cada estudante, no emprego de inovações tecnológicas como o uso do computador, softwares educativos e o uso da Intranet da escola amparadas por abordagens pedagógicas adequadas e no trabalho cooperativo.
Como expõe ao grupo de professores tem sentido mais interesse dos alunos, tem se sentido mais motivado para o trabalho junto aos alunos e compreende que nesse contexto, a experiência didática precisa ser levada para outras salas de aula, pois considera este espaço como o melhor Laboratório para a produção de novos conhecimentos sobre o ensino e aprendizagem de Física.
O professor apresenta uma síntese (anexo) da programação que elaborou, onde propõe modificações, excluindo alguns tópicos de conteúdo e incluindo outros estudos, porém ressaltando a necessidade da mudança metodológica. Visando discutir um dos principais problemas, que tem sido o distanciamento dos professores de física e matemática sugere que alguns professores desta disciplina acompanhem suas atividades nas turmas quando abordar conteúdos de interesse comum, além da formação de um ou mais grupos de estudos interdisciplinares com essa função. Assim, entende que em breve os professores de física e matemática possam trabalhar mais próximos.
Se você nesse momento passa a fazer parte dessa reunião de professores, quais são os pontos que acha interessante levantar?
Você concorda com uma proposta de reelaboração do currículo, que digamos de passagem, está presente na maior parte das escolas de ensino médio na região? Justifique.
Que proposta (s) você faz?
## Os Dados de Pesquisa
Nossos dados brutos são os logs do Estudo de Caso que estão relacionados a aprendizagem dos estudantes e o funcionamento da interface no que diz respeito ao desempenho do AVEC.
Das "falas" dos estudantes registradas no AVEC foram levantadas categorias relacionadas aos principais temas, de acordo com as preocupações dos estudantes com diversos aspectos das ações docentes nas escolas. Numa primeira fase da análise preenchemos uma planilha (Bardin, 1977) para cada estudante. Num momento seguinte elaboramos uma única planilha com a síntese das análises individuais.
No primeiro momento foi feita uma leitura dos passos 1 de todos os estudantes e a seguir, dos passos 3, dos mesmos estudantes. Foi possível, de acordo com os objetivos do estudo, identificar unidades de significação (valores, atitudes, visões e opiniões) objetivando uma categorização. No passo 2, onde o aluno apresentou uma resenha do texto, foi possível verificar muitas incorreções, dificuldades em produzir a resenha e mesmo algumas trocas de informações indesejáveis. Por isso, apesar de considerarmos este passo relevante para a apresentação de uma proposta de solução, optamos por desprezá-á-lo quanto à análise de conteúdos.
Após preenchermos uma planilha para cada estudante, reunimos os dados em uma única planilha, objetivando a revelação de certos tipos ou modelos de comportamento emocionais, mais ou menos inconscientes, relativamente ao objeto Currículo de Física
(Bardin, 1977, p 62). É possível avaliar o simbolismo da questão, a forma como os indivíduos vivenciam este objeto face à prática docente e ao caráter profissional.
## O Discurso dos Licenciandos
Agrupamos os temas extraídos dos discursos a partir de significados, de acordo com as seguintes categorias: "Preocupação com o Ensino", "Preocupação com o Conteúdo", "Preocupação com a Metodologia", "Preocupação com a Avaliação", "Preocupação com o Currículo", "Sentimento de Descrença" e "Valorização de Vivências". Cada uma destas categorias se explicita através da exposição de problemas que surgem na fala dos estudantes nos encaminhamentos dos passos 1 e 3.
Cada uma das categorias pode ser identificada por uma série de atitudes relatadas.
A categoria "Preocupação com o Ensino" denota um conjunto de significados manifestos nas soluções apresentadas onde sobressai o receio de não saber ensinar. Prevalece a tendência em compreender a prática como "transmissão" de conteúdos, pois os estudantes são vistos como receptáculos que precisam ser preenchidos (este será o conhecimento passado). Nesta categoria estão presentes as manifestações de preocupação com a aprendizagem.
- A categoria "Preocupação com o Conteúdo" evidencia o que os estudantes aprenderam a reconhecer como uma seqüência lógica de conteúdos. O receio desta seqüência não ser ministrada e a falta de condição para trabalhar conteúdos novos e outros, não trabalhados com regularidade. Apresenta também a preocupação em atender os aportes atuais sobre a necessidade de se estudar a ciência do dia-a-dia.
- A categoria "Preocupação com a Metodologia" expõe uma parte dos "medos" (Freire É gpçgpp( e Shor, 1987) sobre o cotidiano da sala de aula de Física e da profissão. É possível reconhecer nas falas o entendimento da necessidade de transformar o que se denomina "modelo tradicional de ensino 2 ", mas teme-se não estar preparado para tal.
- A categoria "Preocupação com a Avaliação" expõe as dúvidas sobre como verificar se o aluno está aprendendo ou não. Num contexto mais amplo os estudantes têm dificuldades em se referir a esta categoria de forma explícita, o que nos leva a considerar as entrelinhas, suas próprias preocupações com o "passar de ano", "ser aprovado na cadeira", que ainda manifestam enquanto alunos.
- A categoria "Preocupação com o Currículo" manifesta a própria dificuldade de realização deste estudo de caso, mas é claramente perceptível quando os estudantes se referem ao "programa de Física no ensino médio", ao "vestibular" e a necessidade de cumprir a risca o que foi determinado. A necessidade dos estudantes terem um livro texto que ajude o professor a ensinar "tudo" que "precisa" ser ensinado. Esta é uma categoria onde cada resposta tem que ser avaliada como um todo, sendo preciso confrontar, mais do que nas outras, o que os estudantes expõem num primeiro momento (passo 1) e posteriormente (passo 3).
A categoria "Sentimento de Descrença" pode ser identificada quando os estudantes mostram -se descontentes com a forma como estudam e provavelmente irão trabalhar. Nesse caso é comum manifestarem descrença quanto a transformação da prática profissional. Inclui-se as dificuldades inerentes como a preocupação já existente com as múltiplas jornadas, o pouco tempo para continuarem aprendendo etc. O curioso é que quanto mais experiente é o aluno, no caso dos licenciandos que já exercem a docência, mais arraigado é este sentimento e, mais presente nos discursos.
- A categoria "Valorização de Vivências" nos traz o discurso de estudantes, que mesmo prestes a se graduarem ainda manifestam uma visão primária sobre o que irão fazer em sala de aula. O ensino e a aprendizagem não são práticas clarificadas, não são vistos
como processos e assim, é possível retornar a uma comparação com a forma como estudaram no ensino médio e na graduação.
Na síntese da análise de conteúdo das "falas" dos estudantes da Licenciatura foi possível elaborarmos a planilha que apresentamos no quadro 2. Este instrumento organiza os resultados encontrados durante a realização do Estudo de Caso, onde analisamos os passos 1 e 3 de acordo com a metodologia de ABC utilizada no AVEC.
Quadro 2: Categorias extraídas do discurso dos licenciandos em Física
## OBJETO DE CATEGORIZAÇÃO
## Discussão e Análise dos Resultados
Ao analisarmos e confrontarmos os problemas apresentados com a literatura é possível perceber que os estudantes estão conscientes quanto a existência de situações problemáticas, críticas e e emblemáticas relacionadas ao ensino de Física (Porlán e Rivero, 1998), consideram o currículo como uma relação de conteúdos que pouco tem a ver com a visão de Sacristán (2000) para quem "o currículo é um instrumento de organização da escola, da sala de aula e das ações profissionais do professor, o que acaba por transformálo em um forte organizador do ensino e da aprendizagem". ". É possível identificarmos que após executarem as leituras e dialogarem com os professores e entre si os estudantes apontam mais papara o currículo, que é o centro do estudo. No entanto, entendemos que ainda não ficou claro que o currículo tem inúmeras dimensões, políticas, sociais, de tempo e que tudo isto organiza a prática docente. No caso da Física os estudantes ainda continuam vendo o currículo como uma relação de conteúdos e confundí-í-lo com um programa de curso ou disciplina.
Apesar de saberem da existência dos PCN+ (Brasil, 2002) e PCN (Brasil, 1998) e terem estudado sobre os mesmos não identificam possibilidades concretas de implementação das idéias que estes documentos contém. Entendem os parâmetros, na prática, como algo que está além da escola. Não estão convencidos de que é possível transformar a prática prevalecente, porém reconhecem que isto seria importante.
A questão da autonomia que apresentamos em nosso referencial teórico (Freire e Shor, 1987; Jonassen, 1999) e das abordagens mais flexíveis, construtivistas e ao mesmo tempo rigorosas, ainda não é compreendida pelos licenciandos que trazem vivências dissonantes. A escola e os professores são vistos como inflexíveis, as práticas consideradas arraigadas e, a autonomia não é entendida como algo que vem de dentro, devendo ser conquistada. De uma certa forma espera-se tê-la um dia.
O trabalho cooperativo, a reflexão e a autocrítica começam a despertar quando os estudantes trabalham no sentido de incorporar o que lêem e re-elaborar suas respostas. Esta comparação é feita com a visão de (Porlán e Rivero, 1998; Schön, 1992) sobre a natureza do trabalho investigativo e reflexivo que se inicia.
Recorrendo ao quadro 2, é possível notar, considerando-se a visão do grupo que trabalhou cooperativamente, que a segunda coluna relativa às respostas apresentadas no passo 3, em tese, após a leitura do texto básico, das trocas com os professores e colegas e de outras leituras individuais, apresenta uma "fala" mais elaborada, preocupada com questões mais profundas e no caso específico da "Preocupação com o Currículo" vemos que o número de aspectos citados aumentou. Também é possível observarmos um esboço de reflexão quanto as falas, que são importantes indagações, como por exemplo, "- - - o que é currículo?", ", ou " -- o que é o currículo do ensino médio?". ". São questões como esta que disparam mecanismos que ajudam a compreensão destes grandes temas que podem favorecer a transformação tão cobrada.
## Avaliação da Aprendizagem
Sobre o avanço conceitual, tomando-se como base um discurso médio, fica claro que a coluna relativa ao terceiro passo é mais densa, impregnada das leituras, mais controversa, o que nos parece interessante sob o aspecto de que aprender neste caso significa também se questionar. No entanto, é preciso avaliar as condições de evolução de cada estudante e, esta é uma avaliação que fazemos quando os estudantes completam o número de Estudos de Caso proposto para cada etapa do curso. Em especial neste estudo, como veremos mais adiante, os indicadores foram considerados satisfatórios.
Na primeira linha que aponta as "Preocupações com o Ensino" vemos que ao trabalharem o Estudo de Caso, os estudantes começam a refletir sobre aprendizagem e, o próprio conceito de "avanço conceitual" é mencionado, também a aprendizagem do próprio professor, como elementos relevantes em qualquer processo de transformação.
O que pensam sobre o conteúdo de Física, o que irão ensinar em salas de aula e o que estão aprendendo é um conflito que presenciamos no dia-a-dia. Os estudantes sabem o que é recomendado pelos programas nas escolas, pois conviveram com estas determinações até bem pouco tempo como alunos no Ensino Médio, porém os estudos que
fazem na graduação não são suficientes para lhes dar segurança em relação ao que deverão ensinar. Mudanças são questões polêmicas e transparecem, quando, por exemplo, se discute a inclusão de Física Moderna e Contemporânea no currículo. Outros conteúdos e o formalismo matemático são também alvos de preocupações. Percebemos que uma das maiores preocupações é exatamente o conteúdo a ser ensinado.
Decorrente da preocupação com o conteúdo se estabelece a preocupação com a forma de ensinar e aí, é possível ver que o método tradicional de ensino é combatido, porém as sugestões de uso de experiências, vídeos, computadores e outras abordagens denominadas "construtivistas" não são clarificadas. Existe aí um outro nó que remete ao próprio currícículo na formação de professores.
A avaliação foi pouco percebida como um elemento inerente ao currículo, porém acreditamos que ao longo da disciplina esse aspecto deva ser modificado. Alguns poucos alunos vêem no processo de avaliação um determinante do enensino e do método, além da própria aprendizagem do estudante. Como esta é uma questão de alta complexidade achamos por bem não aprofundar este aspecto neste estudo.
Quanto ao estudo do caso "Currículo de Física no Ensino Médio: reflexões e contexto" consideramos que os estudantes avançaram conceitualmente até onde suas condições de concentrarem-se no estudo, capacidade de leitura e pesquisa-a-escolar permitiram. Entendemos que este estudo é recorrente e, dada a natureza dos outros Estudos de Caso propostos previstos na disciplina, ainda veremos muitas das questões abordadas aprofundadas e, é possível que em estudos que tratem especificamente de conteúdos de física tenhamos respostas mais qualificadas.
O sentimento de descrença pode ser ilustrado quando um dos estudantes expõe o seguinte sentimento em relação a aprendizagem de Física: "...não adianta, pois os alunos não aprendem mesmo". ". Além disso, alguns licenciandos que já atuam em salas de aula mostram -se menos preparados para discutirem a questão Currículo. Já apresentam uma postura de conformismo com o quadro precário do ensino de Física que vivenciamos na região. No entanto, consideramos estas manifestações naturais no momento atual da escola, pois fazem parte do cotidiano dos pais, dos estudantes e também dos professores, que têm visões diferenciadas e muitas vezes antagônicas sobre o ensino e a aprendizagem. Este é um dos aspectos que precisamos combater se queremos avançar no sentido de uma formação de professores de Física de qualidade.
Ao valorizarem suas vivências os licenciandos mostram o quanto é difícil mudar de postura e isso ratifica a importância de uma formação continuada que precisa ser iniciada tão logo a graduação seja concluída. Sem apoio, a tendência é a retomada das concepções sobre ensino que os então professores vivenciaram a maior parte de suas vidas escolares.
Entendemos que o trabalho realizado contribuiu para instrumentalizar os estudantes para suas futuras práticas docentes como professores de Física. O AVEC foi um fator positivo, pois ampliou a capacidade de diálogo, cooperação e o nosso acesso aos dados de pesquisa como apregoa Motta (1999). Além disso, é uma ferramenta assíncrona, que flexibiliza o ato de "responder", que não pode ser simplificado quando falamos de questões complexas.Também é um sistema que pode vir a funcionar com os estudantes no Ensino Médio e desta forma estaremos dando um exemplo e propiciando a vivência aos futuros professores.
No contexto da avaliação dos resultados deste estudo de caso, tomamos em conta 3 que boa parte do estudo foi realizado a distância em apoio às atividades da sala de aula 3 via Internet, e os 31 licenciandos interagiram entre si e com os professores visando construir conhecimentos sobre o uso educacional do currículo de Física.
Das planilhas individuais foi possível levantar os elementos para avaliação do avanço conceitual de cada estudante. Esta análise baseou -se principalmente na capacidade dos mesmos re-elaborarem suas visões iniciais sobre o currículo de física, refletirem sobre o
papel do do mesmo nas práticas de ensino executadas pelo professor em sala de aula e na própria reestruturação dos conteúdos de forma sistemática. Os resultados podem ser considerados bons já que 16 licenciandos (52%) conseguiram alcançar um avanço conceitual compatível com o desejável, sete estudantes (22%), um pequeno avanço conceitual e oito estudantes (26%) não apresentaram nenhum avanço conceitual.
No tocante ao desempenho da interface do sistema é preciso reformulá-la e este processo já está sendo encaminhado, pois como dissemos, em uma avaliação construtivista da tecnologia os elementos e aspectos a serem modificados devem ser realizados com o sistema em funcionamento (carregado). Sendo assim, funções, como, por exemplo, de correção dos passos precisam ganhar mobilidade e uma ou mais ferramentas de estatística fazem -se necessárias. Também é recomendável colher -se o perfil dos estudantes, distribuir os kits pedagógicos e reorganizar a ferramenta de fórum.
Para implementação desta nova versão do sistema que já vem sendo planejada (Reis e Linhares, 2005b) sob uma nova denominação (Espaço Virtual de Aprendizagem - EVA) optamos por utilizar um sistema gerenciador de conteúdo open source, denominado XOOPS (acrônimo de eXeXtended Object Oriented Portal System), que possui como finalidade a criação de ambientes virtuais dinâmicos.
A linguagem do XOOPS e as tecnologias disponíveis são integralmente compatíveis com as definidas no início do nosso projeto, quando se decidiu operar com um servidor Web (APACHE), tomando-se como o mecanismo de persistência o banco de dados MySQL, plataforma para execução de aplicações Web - - PHP e mecanismo de templates para auxiliar na autoria e publicação dos módulos instrucionais.
Em uma breve análise podemos considerar o sistema gerenciador de conteúdo bem estruturado e documentado, o XOOPS associado à segura e rápida linguagem script PHP e ao banco de dados MySQL configurou-se como a nossa melhor alternativa para a implementação do novo sistema. Essa aliança de tecnologias possibilitou também o uso de pacotes como Fireworks e Flash para produção de conteúdos no formato digital da categoria de software livre.
A portabilidade desta interface é assegurada por um conjunto de acessos ao banco de dados que permite que a qualquer momento se faça alterações ou busque informações. Toda operação que exija conexão com servidor do BD deve solicitar a interface de conexão, o que permite menos carga de trabalho quando implementamos um Estudo de Caso, ou associamos um kit pedagógico a um estudo.
Quanto aos pesquisadores, cada um dos docentes que atuou na disciplina fez uma reflexão crítica sobre seu trabalho, procurando avançar nas teorias e práticas de formação. Percebe -se que é possível fazer uma Educação a Distância de qualidade em apoio a atividades presenciais e utilizar uma abordagem pedagógica compatível com as mudanças que gostaríamos de ver na educação, em particular no ensino da Física. O futuro dos ambientes de aprendizagem com suporte na Internet mostra-se promissor e indicando uma possível solução para os problemas educacionais, alguns seculares, em nosso país.
## Considerações Finais
Ter uma ferramenta que permita personalizar as atividades atribuídas aos estudantes nos cursos de formação de professores de Física, respeitando o ritmo e interesse individual, aliada à capacidade de acompanhar sistematicamente o processo de resolução de problemas, certamente levará a um salto qualitativo do ponto de vista da didática e da formação profissional.
A experiência e uma boa biblioteca de casos 4 , frutos da aplicação e utilização do sistema informático em apoio à aula presencial, poderão servir de base para posterior utilização remota pelos estudantes e para a formação continuada, que é uma necessidade
dos professores graduados. Nosso entendimento é que os ambientes virtuais poderão ajudar também na superaração de dificuldades da educação continuada.
Vemos que os limites e possibilidades do sistema junto à formação de professores de Física são auspiciosos e neste momento estamos com nossos interesses voltados para uma experiência didática planejada, que se inicia. O sistema em sua nova versão será utilizado com dois grupos de estudantes (1 a . e 2a 2a . séries) no Ensino Médio. Estes grupos deverão ser, cada um deles, equivalentes numericamente a uma turma (média de 25 a 35 alunos por grupo) para que possamos avaliar as possibilidades de transferência imediata da metodologia adotada na universidade para as salas de aula do Ensino Médio.
Esta é uma ação necessária, pois os licenciandos e nós mesmos, temos interesse em saber como os estudantes do ensino médio se comportarão. Como um professor que pretenda utilizar um sistema como AVEC precisa encaminhar as ações didáticas?
Consideramos que se trata na prática do início de um longo trabalho de reunir diferentes públicos, interessados em um mesmo conteúdo, motivados e cooperativos. Os estudantes do Ensino Médio e os jovens licenciandos vivenciam um mundo onde as TIC não são mais um mistério, muito pelo contrário, para muitos são alvo de emoções, satisfações e É práticas cotidianppçç as. É nesse significado que pensamos quando propomos uma utilização mais ampla do ambiente de aprendizagem.
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