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Olhando para a formação de professores de Física nos Centros Federais de Educação Tecnológica

Deise Miranda Vianna

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
25/01/2005
Linha de pesquisa
Formação Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
Tipo
Comunicação

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Texto completo

1

## OLHANDO PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA NOS CENTROS FEDERAIS DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA

Deise Miranda Vianna [deisemv@if.ufrj.br] a

a Instituto de Física - UFRJ

## RESUMO

No segundo semestre de 2003, a Coordenação Nacional do Ensino Médio da Secretaria de Educação Média e Tecnológica (SEMTEC/MEC) solicitou a um grupo de pesquisadores um estudo sobre a oferta de formação docente, em nível superior, nos 1 Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFETs) do Amazonas, Campos/RJ, Ceará, Goiás/Jataí, Maranhão, Pará, Paraná/Pato Branco, Piauí, Rio Grande do Norte e São Paulo. As trajetórias destas licenciaturas, apesar de serem Instituições Federais de uma mesma rede, não são exatamente as mesmas, com suas demandas e dificuldades próprias e sujeitos que delas participam. Encontramos, nos 10 CEFETs, diferentes cursos de licenciatura de Ciências, Física, Química, Biologia, Matemática, Geografia, a partir dos quais foi elaborado um diagnóstico , 2 entregue à SEMTEC no primeiro semestre de 2004.

Neste trabalho, destacaremos os dados relativos às licenciaturas em Física.

Os resultados do diagnóstico buscam contribuir para o debate sobre as políticas de formação de professores, procurando responder a questões do tipo: o que motivou os CEFETs a atuarem na área de formação de professores? Quais as condições dos cursos oferecidos? Como vêm sendo as políticas de formação docente? Quais são os sujeitos envolvidos e como vêem seus cursos? Como as propostas vêm caminhando, com as suas dificuldades e possibilidades?

## DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO:

O trabalho apresenta um diagnóstico relativo aos cursos superiores de licenciatura em desenvolvimento (julho de 2003), oferecidos pelos CEFETs. Neste trabalho, destacamos os dados referentes aos que têm Licenciatura em Física (Campos/RJ , Ceará, Goiás/Jataí, Maranhão, Pará, 3 Piauí, Rio Grande do Norte e São Paulo). Com base nas indicações de diferentes fontes, conhecemos as experiências, buscando identificar os objetivos, as formas de implementação, as demandas de cada CEFET. O estudo aborda: a oferta na área de formação, o perfil de alunos, professores e coordenadores envolvidos, o processo de implementação, as propostas dos cursos, do ponto de vista político-pedagógico, contemplando o desenho da estrutura curricular, o potencial dos CEFETs na oferta de cursos de formação docente, motivações para sua criação, dificuldades e necessidades apontadas.

Combinamos abordagens e estratégias de coleta de dados distintas, mas complementares, permitindo superar as limitações e ampliar os benefícios d e cada um dos procedimentos adotados. O

processo de coleta de dados foi organizado em diferentes etapas, simultâneas e complementares. O trabalho de campo contemplou duas dimensões da pesquisa: a extensiva ou quantitativa e a compreensiva ou qualitativa. A ida a campo foi realizada em aproximadamente cinco dias em cada CEFET visitado. A etapa incluiu três procedimentos: a observação de campo, a realização de entrevistas de um grupo focal e a aplicação do questionário do aluno. Foram ouvidos: diretor- geral e/ou diretor de ensino, gerente e/ou coordenador de licenciaturas/cursos, professores, secretários acadêmicos e alunos. Na terceira etapa, houve a exploração das estatísticas oficiais (PNAD/Censo IBGE e INEP/MEC) de cada estado em que está situado o CEFET estudado.

## OS CEFETS E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA

## A Implantação das Licenciaturas

O Decreto 3462, de 17 de maio de 2000, alterou o artigo 8° do Decreto 2406/97, ampliando a autonomia dos CEFETs criados em 1994, que passaram então a poder implantar, sem necessidade de autorização prévia pelo MEC, 'cursos de formação de professores para as disciplinas científicas e tecnológicas do Ensino Médio e da Educação Profissional', sem a criação da carreira de magistério superior. A autonomia não garantiu o mesmo status institucional, visto que os primeiros CEFETs são supervisionados pela Secretaria de Educação Superior e os demais, pela Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Mantem-se, portanto, condições diferenciadas de oferta de licenciaturas.

A SEMTEC apoiou tecnicamente os CEFETs interessados na elaboração de propostas, pautando-se nos 'referenciais contidos nas Diretrizes Curriculares para Formação de Professores e demais normas regulamentadoras da questão, privilegiando: a) amparo legal; b) potencial da instituição para oferta dos cursos; c) levantamento de demandas apontando para a necessidade social do curso pretendido; d) proposta pedagógica vista sob os aspectos filosóficos, metodológicos e a correlação entre formação e desenvolvimento de competências, coerentes com a nova concepção de professor defendida nas Diretrizes; e) perfil desejado para os egressos; f) organização curricular -dimensões na abordagem das unidades de estudo, sistemática de avaliação e relação teoriaprática.' (MEC/SEMTEC, 2003, p.3 e 4). Faltou, entretanto, uma definição clara sobre a política da Secretaria nessa área, de forma que ações estratégicas como o acompanhamento e a avaliação das propostas ficaram comprometidas ou inexistentes.

## Os Cursos de Licenciatura em Física

## A Duração dos cursos:

Os curso de Licenciaturas em Física oferecidos nos CEFETs tem de 6 a 8 módulos, com a carga horária total variando de 2960 a 4320 horas. Destacamos ainda que a relação entre a carga horária destinada aos conteúdos específicos em Física e a total varia de 41,8 % ( para Rio Grande do Norte) até 60,2 % (para Campos).

## Número de alunos

Encontramos matriculados, no segundo semestre de 2003, nos cursos de Física, os seguintes totais de alunos: Pará (57), Maranhão (51), Piauí (40), Ceará (68), R io Grande do Norte (71), São Paulo (148), Goiás/Jataí (39) e Campos-Ciências (204). Observou-se que os cursos em Licenciatura de Física são os que mais têm alunos, em relação às outras áreas de conhecimento.

## Os atores

Na maioria dos CEFETs (os 10 pesquisados e em todas as áreas de conhecimento) os professores pertencem originalmente à carreira de magistério de 1 o . e 2 . graus, embora em alguns o existam os que estão na carreira do magistério superior. A percentagem de doutores em seus quadros varia de 3,4 % (Ceará) a 18,2 % (São Paulo).

Todos alunos estão nas seguintes faixas etárias: 45,7 % entre 20 a 24 anos; 22,9 % entre 18 e 19 anos e outros mais variando até 63 anos. Quanto a gênero: 53,4% são do sexo masculino e 46,6 % do feminino. Dos alunos ouvidos, metade já estava trabalhando e 21,0 % já haviam trabalhado anteriormente. Há alunos que já estão lecionando (11,2% na rede pública de ensino médio e 9,5 % na privada).

## A escolha do curso

Em relação a todos os alunos, a primeira razão, para a escolha do curso foi feita pelo fato de que o CEFET é gratuito (50,9%); a segunda razão por serem os cursos, em sua maioria, à noite; a terceira, embora não tenha sido a 1 . opção, foi onde se classificaram. Cerca de 82 % afirma que a gosta da área escolhida, porém 35,4 % indica que foi pelo gosto da profissão docente.

## A conceituação dada pelos alunos

Entre os alunos entrevistados, as classificações para os cursos oferecidos estão principalmente como bom (de 35,0 a 66,7 %), em PI, CE, RN, SP, Jataí,e Campos; e , como regular (57,1 e 47,4 %) em PA e MA, respectivamente.

## Considerações

Na medida em que se procurou conhecer as características das licenciaturas desenvolvidas pelos CEFETs e de seus sujeitos, revelou-se a preocupação em não produzir análises generalistas, considerando a singularidade de cada CEFET. Não há, portanto, nem um modelo único de CEFET, nem de licenciatura nas instituições pesquisadas. O Diagnóstico mostrou que nem mesmo o fato de a licenciatura ser mais antiga ou de já ter sido avaliada pelo MEC/INEP assegura as condições de sua oferta. Da mesma forma, integrar o grupo de CEFETs mais antigos garante, apenas, a existência da carreira de professor de Ensino Superior e, mesmo nesses Centros, professores da carreira de ensino de 1º e 2 º graus também estão envolvidos.

A maioria dos Centros procurou se situar em relação às demandas locais por áreas específicas, mas não estabeleceu parceria efetiva com os sistemas educacionais de educação, à exceção dos CEFETs que assinaram convênios/contratos diretamente com prefeituras municipais. Nesses casos, vale dizer, tratava-se de um 'serviço educacional' prestado às prefeituras municipais. Alguns buscaram apoio em outras universidades, sendo que a construção compartilhada entre os CEFETs existiu apenas no primeiro momento.Nesse contexto, o que se pôde observar é a existência de uma série de licenciaturas, que não se articulam efetivamente com o MEC, nem com outros CEFETs, nem com as universidades, nem com os sistemas de ensino dos respectivos estados e, muitas vezes, não se articulam dentro de um mesmo CEFET.

A Resolução CNE/CP no. 2, de 19 de fevereiro de 2002, estabelece uma carga horária mínima de 2800 horas, articulando teoria-prática. Estabelece ainda uma carga de 1800 horas para aulas de conteúdos curriculares de natureza científico-cultural, com mais 200 horas para outras

formas de atividades acadêmico-científico-cultural. Isto nos indica cerca de 71,4% destes conteúdos em relação à carga horária total, o que não foi observado em nenhum CEFET analisado.

No Parecer CNE/CP 009/2001 encontramos a preocupação com a pesquisa na área do conteúdo a ser estudado, para haver familiaridade com o processo de construção da ciência em questão Entendemos assim que o estudante de licenciatura deverá vivenciar a pesquisa na sua área de atuação, para ter boa fundamentação nos conteúdos relacionados à profissão escolhida. Não observamos a preocupação com a implantação da pesquisa nas diferentes áreas do conhecimento, nos CEFETs analisados.

Na maioria dos CEFETs, a questão se agrava porque não houve a preocupação de implantação de laboratórios próprios aos novos cursos de licenciatura, nem acervos específicos, o que confere às propostas a marca de precariedade tão questionada pelos alunos durante o trabalho de campo. Em parte, acredita-se que as necessidades das licenciaturas tenham sido subdimensionadas, considerando-se que os laboratórios já existentes fossem minimamente suficientes. Em vários CEFETs, percebeu-se que professores e alunos disputam a utilização de laboratórios dotados por vezes com equipamentos antigos, decorrentes de velhos convênios de cooperação técnica internacional. As bibliotecas são ponto crítico em quase todos os CEFETs sendo que regulamentos, atendimento especializado em todos os turnos, acervo próprio aos cursos e espaço de leitura são apontados como problemas. O custo social para alunos de menor renda, como os das licenciaturas dos CEFETs, para quem essa é a única possibilidade de acesso ao conhecimento é incalculável.

As condições prometidas pelo MEC aos CEFETs que iniciavam seus cursos de licenciatura não foram, na maioria das vezes, concretizadas. Dos 1928 alunos matriculados no segundo semestre de 2003 muitos conviviam com a precariedade e com o improviso pela falta de condições básicas. Graças ao empenho pessoal dos professores 'voluntários' das licenciaturas, pois são da carreira de nível médio, esses cursos resistem. Além disto, vários dirigentes alegam que as licenciaturas dos CEFETs não têm visibilidade na sociedade, ou seja, não são legitimados como instituições de Ensino Superior.

Faz-se necessário refletir também sobre a evasão nas licenciaturas dos CEFETs, pois está relacionada ao fato de boa parte dos alunos projetarem os cursos como trampolim para o bacharelado na universidade, ou seja, o objetivo fim é a universidade.

Nessa perspectiva, deve ser vista com cautela a ampliação, sem maior reflexão, de licenciaturas pelos CEFETs. Alguns casos observados dizem respeito aos projetos de interiorização dos cursos de licenciatura, para resolver o problema do professor leigo no interior do país, com turmas em média de 50 alunos. Se a atuação na sede é bastante complexa devido a limitação de equipamentos, laboratórios, recursos, pergunta-se: como esse trabalho está sendo desenvolvido no interior? Para a Física, este é um problema crítico.

Assim, se de um lado a oferta de licenciaturas pelos CEFETs foi estimulada pelo MEC, desde 2000, é o próprio poder público quem nega as condições necessárias a uma formação sólida e ampla aos alunos que a procuram. Não são poucos os pedidos de socorro e apoio registrados durante a pesquisa nos CEFETs, tanto de alunos como de professores, em que pese que, alguns poucos CEFETs, conseguem, apesar das dificuldades, garantir condições satisfatórias, o que é reconhecido pelos seus alunos.

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