LUZ: CIENCIA, ARTE E ENSINO DE FISICA
Gloria Queiroz, Maria Da Conceiçaobarbosa-Lima, Rosana Santiago, Joel Viana
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- X
- Ano
- 2006
- Data
- 18/08/2006
- Linha de pesquisa
- Assuntos Temáticos Afins
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A1
## LUZ: CIÊNCIA, ARTE e ENSINO DE FÍSICA1
## Queiroz G., *Barbosa-Lima M.C., Santiago R. & Viana J. C. - DFAT, IFADT, UERJ/ RJ
## Resumo:
O presente artigo relata os resultados da pesquisa documental realizada com o objetivo primeiro de comemorarmos o Ano Mundial da Física em 2005 para em seguida traçar a trajetória inicial de um projeto desenvolvido no âmbito da formação inicial de professores de Física. O trabalho teve como pergunta de partida: é possível estabelecer relações entre Ciência, Arte e Cultura que permitam a elaboração de uma exposição interativa de apoio ao Ensino da Física?
Baseando -nos em alguns anos de trabalho nas disciplinas de Prática de Ensino de Física apoiadas em projetos que são tanto desenvolvidos por nossos alunos do curso de Licenciatura em Física quanto realizados por nossos parceiros no nível básico, desenvolvemos em 2005 o projeto "Luz, Ciência e Arte: a imagem é um retrato feito de luz" ¾ sendo levado a alunos e professores de 4 escolas públicas do Rio de Janeiro: CAP UERJ, Pedro II II (Tijuca), CEFET e Escola Municipal Martin Luther King, pelos estagiários da Universidade.
Partindo da provocação de um filme, baseado no livro de T. Chevalier, que por sua vez baseou -se na obra homônima de Johannes Vermeer ¾ ¾ "A Moça com Brinco de Pérola" ¾ ¾ caminhamos das inovações barrocas, relacionadas tanto à questão teórica da luz na ciência óptica da época, desenvolvida pelo também holandês C. Huygens, como às aplicações tecnológicas no desenvolvimento de telescópios pelo mesmo cientista e na invenção do primeiro microscópio por mais um ilustre holandês, A. Leeuwenhoek até desembocarmos na ciência e na arte dos séculos XX e XXI, mostrando alguns frutos que o trabalho iniciado há mais de três séculos produziu.
- O trabalho traz evidências da possibilidade de integrar diferentes disciplinas em um contexto que mostra a relevância da Física na cultura.
Palavras Chave: Ciência e Arte, Óptica, Luz, ensino básico, História e Filosofia..
Introdução
A emoção mais bela e mais profunda que o homem pode viver é a a do mistério. A sensação do mistério se encontra na raiz dos fundamentos da Arte e da Ciência.
Albert Einstein
Há algum tempo as questões que envolvem Física e Arte têm sido merecedoras de nossa atenção e já fazem parte de nossos estudos com uma freqüência que já possibilita registro (QUEIROZ, 2000; BARBOSA-A-LIMA, 2001; QUEIROZ, BARBOSA-A-LIMA, NONATO JUNIOR, 2003; BARBOSA-A-LIMA e QUEIROZ, 2004, BARBOSA-A-LIMA, QUEIROZ E VASCONCELLOS, 2004).
- O presente trabalho, desenvolvido no âmbito da formação inicial de profefessores de Física, relata o resultado de um projeto de pesquisa documental levado a escolas de nível básico por alunos da disciplina Prática de Ensino de Física. O trabalho teve como pergunta de partida: é possível estabelecer relações entre Ciência, Arte e Cultura que permitam a elaboração de uma exposição interativa de apoio ao Ensino da Física?
- O projeto é uma resposta à provocação do filme, A Moça com Brinco de Pérola, dirigido por Peter Werbber. Apreciando quadro homônimo, do holandês Johannes Vermeer, pintado na cidade de Delft entre os anos de 1665 e 1667 (STEADMAN, 2001), a escritora T. CHEVALIER (2004) criou um romance histórico sobre como deveria ter sido a criação de tal obra de arte. E, a partir dele, surgiu o filme.
Ao assistirmos a película, nos chamou a atenção a possibilidade da sua utilização no ensino de Física numa perspectiva contextualizada, capaz de constituir uma base para processos de percepção presentes na criação da Ciência e da Arte (OSTROWER, 1998) , duas formas de expressão cuja aproximação nos propusemos a fazer por meio da História. A primeira, centrada em um enfoque analítico e quantitativo, ampliou indubitavelmente os horizontes do mundo contemporâneo, tendo o seu poder reconhecido diante da tecnologia a ela relacionada. A segegunda, pincelada em sínteses, liga-se às emoções humanas desde tempos remotos, propiciando sentimentos indizíveis de prazer tanto a quem a produz quanto a quem a contempla.
Ciência e Arte costumam andar juntas, principalmente nos eventos que envolvem a luz, em um mundo repleto de sinais em constante mudança, seja na natureza ou nas obras de arte. No entanto, vale ressaltar que, apesar de todos os procedimentos técnicos que a antecederam, uma obra costuma merecer o título de 'arte' quando "a técnica torna-se como que 'invisível', tendo sido absorvida pelas formas expressivas". (OSTROWER, op.citi. pg. 210)
Ao buscarmos correspondências significativas entre o pensamento científico e o artístico nos voltamos para um aspecto cultural amplo, trazendo relações possíveis entre a Ciência e a Arte, numa perspectiva epistemológica de que a Ciência não é uma coleção de leis sobre uma realidade alcançável na sua totalidade.
Partindo da Arte no século dourado na Holanda, percebemos que, paralelamente ao vigor artístico da produção de seus pintores, aconteceram nesse período avanços no estudo da luz, liderados por Christiaan Huygens. Encontramos ainda relatos sobre uma grande produção de lentes, havendo fortes indícios da utilização de instrumentos ópticos na Arte lá desenvolvida, além do seu uso na Astronomia e na Microscopia.
Caminhando, passamos do estudo da natureza ondulatória da luz para desembocarmos na complexidade da Ciência e da Arte do século XX, tendo Einstein como ator principal e a "história da luz" nosso tema para comemorar os cem anos de seus primeiros trabalhos.
- O trabalho desenvolvido tem por característica principal ser interdisciplinar, se não fora unicamente pelo diálogo entre Física ¾ ¾ desde a Física Clássica até a Moderna e Contemporânea ¾ ¾ e Arte, podem ser identificados nele a presença da História, da História da Arte, da História da Ciência, da Filosofia e da Língua Portuguesa.
## Por que ensino por meio de projetos?
Vivemos em um momento de redirecionamento da educação em ciências em todos os níveis, em especial na escola básica. Professores de Física em serviço vivem atualmente entre duas culturas educativas, dirigidas a metas diferentes e cumprindo funções sociais distintas: a primeira está voltada para a sedução e seleção de alguns estudantes para as as carreiras científicas que envolvem a Física no seu dia a dia profissional e abarcam uma quantidade imensa de temas escolares tradicionais considerados indispensáveis e a segunda se volta para a formação de todos os cidadãos em um mundo que se torna
sensivelmente mais viável para aqueles que estiverem "alfabetizados" científica e tecnologicamente e exige tanto a aplicação dos currículos a situações do cotidiano, incluindo para isso uma ampliação com temas da Física contemporânea, como o estabelecimento de relações interdisciplinares não apenas entre todas as ciências da natureza como entre elas e as ciências sociais. Ao repensar o currículo tendo como foco o desenvolvimento de projetos não é o seu tamanho mas sim sua forma integrada e contextualizada com se trabalha com os alunos, tendo-se como meta aprendizagens dos conteúdos de forma significativa, criando-se elos com o que eles já sabem e levando-os a serem participantes ativos da construção de um conhecimento que os ajude a lidar com a complexidade das situações-problema a serem enfrentadas no dia a dia.
Para tal, alguns temas devem ser escolhidos e trabalhados mais profundamente do que o são atualmente, aproveitando-se para isso o re-despertar para a importância das atividades experimentais no ensino das Ciências e a grande inovação educacional propiciada pela pedagogia de projetos, uma inovação para ser vivida pela escola como um todo.
Baseando -nos em tudo que foi falado anteriormente, fica muito fácil compreender que a Escola, que é a grande responsável pela educação formal de nossa sociedade contemporânea, também seria marcada pelo uso de projetos que podem ser classificados, segundo COSTA (2003) em: projetos educativos de escola e projetos pedagógicos. Os primeiros referindo-se àqueles que são executados pela instituição escolar como um todo. E os últimos àqueles mais setoriais, executados num nível restrito de uma determinada sala de aula ou intercambiando turmas, disciplinas e etc, com o objetivo de dinamizar pedagogicamente a escola (projetos curriculares alternativos, etc).
Mas, para que isso se torne realidade, é necessário um gradativo entendimento das escolas como organizações dotadas de expressivas margens de autonomia, que permitam a educadores e educandos aproveitarem seus limites físicos os e sociais para portarem-se interventora e criticamente. E com isso se quer dizer que os mesmos teriam a liberdade de implantação de atividades que lhes fossem convenientes; a escola poderia se adaptar de forma a satisfazer às necessidades locais, ou seja, de seus alunos e da comunidade na qual estivesse inserida.
Então, nesse novo contexto, como deveriam ser interpretados os papéis de professor e de aluno? Sabendo que essa pergunta é muito importante, pois o nosso trabalho é justamente sobre a prática dodocente, da qual o professor é o agente da ação, respondemos que nesta perspectiva educacional o papel de docente é o de ser um agente de inovação, enquanto o de aluno é o de um co-o-construtor do conhecimento. E disso dá para entender que ambos os atores são ativos, atuantes no processo de ensinoaprendizagem, ao contrário da escola tradicional em que a relação professor-aluno era unilateral: o primeiro atuava enquanto o segundo ficava assistindo para depois tentar repetir.
- E quanto às características de um bom projeto educativo de escola? Elas devem ser tratadas levando em conta três dimensões que enfocam o duplo movimento -construção da autonomia das escolas e melhoria de seu funcionamento: (1) a participação, (2) a estratégia e (3) a liderança (COSTA 2003, p.. 1330). Dessa forma, um bom projeto de escola:
- 1) se desenvolve num processo em que a atuação conjunta e sincronizada dos seus intervenientes é marcante desde seu início. Suas propostas, sua discussão, sua negociação contam com a presença do coletivo nele envolvido, implicando uma gestão participada.
- 2) não dispensa em seu registro formal a apresentação detalhada da "ação a se desenvolver, as metas a atingir, no dia-a-dia, um documento orientador da ação e da vinculação das práticas escolares" (p.1332).
3) conta com a presença de "líderes transformacionais" (BURNS 1978, apud COSTA, 2003), "de líderes na qualidade de facilitadores do processo de inovação e mudança, que envolvem os restantes membros do grupo na consecução de determinados obobjetivos e que se responsabilizam por esses processos" (COSTA 2003, p.1334).
Acreditamos serem estas as características fundamentais para e criação e realização de um bom projeto em qualquer área de atuação social.
## Um resumo da história que deu origem ao nosso projeto
Griet, uma jovem de família empobrecida, depois de um acidente de trabalho que deixou seu pai ¾ ¾ um artesão, pintor de azulejos ¾ ¾ inapto para o trabalho, foi contratada pelo casal Vermeer como criada.
Enquanto Griet era protestante, a família Vermeer era católica, o que já assinalava que dificuldades de convivência poderiam surgir.
As tarefas da moça eram as vulgarmente delegadas às criadas, sendo um de seus afazeres mais importantes era limpeza do estúdio do pintor, onde ninguém tinha permissão de entrar ¾ ¾ ¾ com exceção dele próprio e dela.
Em meio às suas tarefas Griet conhece o mestre, havendo identificação entre os dois, provocada pelo amor à Arte. Assim ela acaba se tornando uma espécie de sua assistente, trabalhando, além da limpeza do local, na preparação das tintas, chegando a intervir nos cenários montados para os quadros.
Nos diálogos estabelecidos, perguntas são feitas, novidades são ensinadas até que em certo momento, Vermeer apresenta à criada uma câmara escura que ele emprega como instrumento auxiliar de seu trabalho. É nesse momento que ao ser indagado de que forma o modelo foi parar dentro da caixa, ele responde se tratar de uma imagem, que é um retrato feito de luz.
A cumplicidade evolui a ponto de um dia, vendo-a limpar as janelas, Vermeer decide pintá-la. Na busca do melhor efeito de luz e sombra, manda que ela use um brinco de pérola ¾ ¾ de Catarina, sua ciumenta e insensível esposa ¾ ¾ para provocar o aparecimento de um ponto de luz, já que o quadro estava muito escuro.
## O Guia de nossa exposição
Em lugar de apresentarmos um catálogo da exposição, nós apresentamos um diálogo teatral entre Constantijn Huygens e uma professora de ensino básico bem integrada aos dias que correm.Essas encenações eram repetidas na ocasião das visitas p programadas de estudantes do ciclo básico, ou de grandes grupos.
Para esta encenação foi construído um texto, que nos apresenta a exposição propriamente dita e informa sobre quem foi Vermeer, seus patrícios e contemporâneos, sendo, também, o primeiro resultado escrito de nossa pesquisa bibliográfica
Poucos dos que vivem na Terra nos dias de hoje devem me conhecer. Sou um homem do mundo, conhecido no meu tempo como Secretário do primeiro Governador da Província da nova República Holandesa. Sou poeta, musicista, apreciador das artes, diplomata. Enfim, sou um homem de destaque no século XVII nos Países Baixos; espero que me desculpem pela pouca modéstia. Chegam a dizer que para entender a Holanda desse século é fundamental lerem meus trabalhos escritos em forma de poesia.
Durante minha vida acompanhei os trabalhos de Rembrandt, Vermeer, Spinoza, Descartes, Galileu, Newton, Leibnitz, Leeuwenhoeck e de meu filho Christiaan, sem falar nos velhos, Bacon e Kepler.
Rembrandt, todos ou quase todos o conhecem! Mas Vermeer, Johannes Vermeer que, em 43 anos de vida, deixou cerca de 34 quadros, dos quais apenas três assinados, me espanta nesse breve regresso que faço vê-lo tão valorizado, quatro séculos passados! Filme, livro, exposição... O que terá acontecido para que sua carreira tenha despertado tanto interesse? E tudo partiu de uma única origem, A Moça com Brinco de Pérola, quadro que poderia ser considerado a sua Gioconda.
Vocês devem estar desejosos de saber o que eu sei sobre Vermeer. Sou obrigado a desculpar-me e a dizer que sei muito pouco... Jan não era homem dado à vida social intensa e morreu muito jovem, mesmo para a época, deixando sua família, esposa e onze filhos menores, em uma situação econômica bastante delicada. Durante sua vida foi líder da Guilda (associação de artesãos) de São Lucas na cidade de Delft. Trabalhava em seus quadros durante longos períodos de tempo até encontrar a luminosidade perfeita para retratar a "verdadeira natureza" de seus modelos e paisagens, e normalmente o fazia sob encomenda, tendo como empresária Maria Thins, sua própria sogra.
Dizem que Jan Vermeer usava uma câmara escura como auxiliar para melhor e mais detalhadamente compor e pintar suas obras, captando desse modo toda a sua essência, toda a sua "verdade". A questão do do uso de instrumentos ópticos no trabalho de Vermeer pode ser percebida com alguma clareza em seus quadros "Alegoria da Pintura" e "Aula de Música" por exemplo. Ao desejar ver e retratar tudo da maneira mais verdadeira possível, nada melhor do que ter a Óptica como auxiliar, pois, através da câmara escura o modelo visto era a própria vida, ou algo mais nobre, aquilo que se encontrava ali naturalmente, e de maneira agradável podiam ser percebidos forma, contorno e movimento.
Há quem julgue essa tese verídica e há os que dela discordam. Como vivi em seu tempo posso afirmar que os trabalhos de criação e aperfeiçoamento de instrumentos ópticos estavam ganhando um impulso extraordinário nessa ocasião. Um forte indício da importância da manufatura de lentes na época é que tanto o filósofo Spinoza, como Leeuwenhoeck e mesmo meu filho Christiaan, dedicaram-se ao polimento de lentes, como modo de subsistência.
Mas o século XVII, o século de ouro nos Países Baixos, não deixou suas marcas apenas nas obras de Vermeer. O fato de Spinoza viver do polimento de lentes possui um interessante significado. Como todos sabemos, viviam-se tempos de rupturas com o passado, entre elas a recém -valorização da experimentação como legítimo meio de formular questionamentos à Natureza, tese defendida pelo filósofo Bacon, que se tornaria famoso e por muitos outros, rumo aos tempos modernos. Em tal contexto, Spinoza lança como pedra fundamental o desejo de enxergar as coisas da "perspectiva da eternidade", considerando-se como apenas uma minúscula parte de toda a vida da natureza, em um emaranhado complexo de relações.
Na época de Bacon Johannes Kepler buscava com seus estudos astronômicos a harmonia do universo, chegando a escrever em um de seus trabalhos que "a "a natureza ama a simplicidade, ela ama a unidade". Além disso, a confiança nos novos instrumentos ópticos também de certa maneira é devida a ele pela analogia que fez entre o olho humano e a câmara escura: "Assim a visão é produzida por uma pintura da coisa vista, que se forma na superfície côncava da retina". Ao tratar as imagens que vemos como pinturas do mundo projetadas sobre a tela retiniana, Kepler trouxe uma importante contribuição ao debate epistemológico entre verdade e aparência: o reconhecimento de que não se pode fugir da representação.
E assim cresceu a representação dos céus: finalmente podem os mortais ser, por assim dizer, como deuses, ver longe e perto, aqui e em toda parte.
Entre os atores das rupturas, cada vez mais poderosas, com os modelos clássicos de perfeição, destacaram-se Descartes, Galileu, Newton, Leibnitz e Christiaan, meu filho. Descartes discutia, em seus trabalhos, como Bacon, a necessidade de um método para alcançar a verdade que evitasse as guerras entre os homens.
Não nos surpreende que no afã de conhecer tudo que podemos perceber, Newton e Christiaan estivessem tão preocupados em decidir qual a verdadeira natureza da luz. Os debates sobre este tema costumavam ser acalorados, muitas cartas até ofensivas foram trocadas entre ambos os lados por leais defensores e ferozes detratores. Enquanto os newtonianistas defendiam a natureza corpuscular para a luz, Christiaan, meu filho, e seus seguidores afirmavam sua natureza ondulatória.
Em minha época a Arte e o Conhecimento da Natureza passaram a se comunicar por uma via de mão dupla. Assim como os artistas podiam contar com instrumentos ópticos em seus ateliês, o conhecimento da Natureza proporcionado por microscópios e telescópios era registrado pelos escribas pictóricos. Em relação a este conhecimento posso dizer que nos vimos diante de um Novo Mundo e um dos homens que nos proporcionaram mais novidades foi Leeuwenhoeck, um cidadão de Delft como Vermeer. Ele foi o primeiro e por muito tempo o único europeu a estudar o que era visto nas lentes dos microscópios que ele mesmo construía. Sobre isso escrevi na época:
"Na verdade, objetos materiais que até agora eram classificados como átomos, uma vez que se subtraiam à vista humana, apresentavam-se tão nitidamente aos olhos do observador que, mesmo as pessoas totalmente inexperientes, que olham para coisas que nunca tinham visto, queixam-se, a princípio, de não estarem vendo nada, mas logo depois gritam que estão vislumbrando, com seus olhos, objetos maravilhosos. Porque, de fato, tudo isso diz respeito a um novo teatro da natureza, a um outro mundo..."
Constantijn Huygens
## Durante os 43 anos de Vermeer...
Muitas coisas aconteceram. Guerras. Tréguas. Nascimentos. Mortes. Invenções. Descobertas. Enfim, a vida seguiu seu rumo no século de ouro dos Países Baixos. NãNão pretendemos aqui esgotar a História, seja da Arte ou da Ciência, o que nos interessa é elaborar um esboço dos fatos científicos mais relevantes acontecidos àquela época, de modo a traçar o contexto para considerar as ligações entre a Arte e a Ciência neste trabalho.
A Guerra dos Trinta Anos, uma das mais violentas guerras de religião da História da Humanidade que se tem notícia, sendo a primeira guerra européia travada, começara em 1618 e ainda estava longe de terminar (CAMANIETZKI, 2000), assim como a Invasão Holandesa no nordeste brasileiro, ainda sob o regime de Capitanias Hereditárias.
No campo da política, João Maurício de Nassau é convidado e aceita, em fins de 1636, o cargo de Governador Geral do Brasil-Holandês com um mandato provisório de cinco anos. Em 23 de janeiro de 1637 chegou para exercer uma governância que duraria sete anos (BOXER, 2004). Nestes sete anos ele melhorou e ampliou a cidade de Recife e devemos a ele o estabelecimento da primeira Assembléia Legislativa da América do Sul. Em
1639, o naturalista alemão George Macgrave chegou ao Brasil, conseguindo as boas graças do príncipe Maurício de Nassau por seus conhecimentos astronômicos, instalando em uma das torres do Palácio Friburgo o primeiro observatório astronômico do novo mundo e e de todo o hemisfério sul, realizando aí de forma sistemática importantes medidas metereológicas e astronômicas (AZEVEDO, 1994).
No ano em que Jan Vermeer completaria dez anos, nasceu Isaac Newton, no mesmo ano em que a oito de janeiro morreria Galileu Galilei, dez anos depois de ter sido acusado e julgado por heresia pela Inquisição. Durante esses dez anos, o livro "Duas novas Ciências" é publicado na Holanda. O "Discurso sobre o Método", publicado por René Descartes no final da década dos trinta, é colocado no Index. Em 1644, Descartes publica, também na Holanda, seu "Principia Philosophiae", vindo a morrer em 1650. Em 1646 nasce Gottfried von Leibniz, que se dedicaria à filosofia e a estudos matemáticos similares aos de Newton.
A década dos 50 é especialmente fértil para Christiaan Huygens que entre estudos dos fundamentos da Mecânica, da Óptica e da Astronomia, observa Titan, o maior satélite de Saturno, além de descrever os anéis deste longínquo planeta. Envolvido no problema prático do cálculo da longitude no mar para permitir uma navegação mais precisa, em 1657 Huygens projeta o relógio de pêndulo que é construído por Solomon Coster e que será patenteado como relógio de bolso quase 20 anos depois, e no último ano dos 50 observa que o dia de Marte tem aproximadamente a mesma duração que o dia na Terra. O reconhecimento à importância de Huygens para a Astronomia é a atribuição de seu nome à sonda espacial que está decifrando o sistema solar. Em 1663 Isaac Newton resolve o teorema do Binômio, dois anos depois elabora o seu cálculo diferencial e realiza experimentos sobre gravitação. Em 1672, em 8 de fevereiro, Newton lê, perante a Royal Ó pgç Society, em Londres, seu primeiro artigo sobre Óptica.
No ano de 1665, G. Cassini determinou as rotações de Júpiter, Marte e Vênus, F. Grimaldi explicou a difração da luz e Robert Hooke publica "Micrographia" sobre microscópios. Em 1668, Hooke publica o Discurso sobre Terremotos, Newton constrói um telescópio de reflexão, enquanto Leeuwenhoek faz uma precisa descrição dos glóbulos vermelhos através de seu microscópio e em 1674, com o mesmo tipo de aparelho, descobre a forma de pequenos animais invisíveis (os protozoários), reavivando as discussões sobre vitalismo e reprodução.
## A Óptica da época e sua utilização na pintura
Finalmente poderão os mortais, por assim dizer, ser como deuses,
Se puderem ver longe e perto, aqui e em toda parte. Constantijn Huygens
As imagens estão diretamente ligadas ao avanço do conhecimento em geral no século XVII, em especial no norte da Europa. Diviversos estudos mostram que artistas e cientistas passam a se valer dos mesmos recursos técnicos para implementarem uma cultura de natureza particular na qual as imagens desempenham um papel complementar. O cientista recorre às imagens produzidas pelos artistas para registrar tanto o que descobre com o uso de microscópios ou telescópios, enquanto os artistas fazem uso de sistemas de lentes e espelhos como auxiliares nos processos de composição, avançando em direção a um naturalismo cada vez mais aperfeiçoado .
" Foi um pressuposto particular do século XVII o de que o achar e o fazer, nossa descoberta do mundo e nossa capacidade de representá-lo são presumivelmente uma só coisa" a" (ALPERS, 1999 p. 88).
Tendo tal ambiente cultural como cenário na metade do século XVII, a produção de pinturas com o auxílio de sistemas de lentes e espelhos se constituía em uma novidade que possibilitava aos artistas entrarem no mundo novo dos fenômenos ópticos, explorando formas possíveis de registrá-lo em suas telas. Vermeer olha o o real sem os filtros artísticos dos padrões clássicos da pintura renascentista que para os holandeses, assim como para Bacon, se constituem em falsas crenças que contaminam a correta percepção do mundo, tornando essa percepção uma mera projeção do que se acacredita que ele é e não do que realmente ele é. No entanto, ao usar aparatos ópticos, manipula a natureza, focando e desfocando componentes de suas obras (como no quadro a Leiteira), conferindo assim função capital à experimentação na formação e validação das imagens produzidas.
- O problema epistemológico enfrentado por artistas e cientistas nesta época se refere à verdade de uma representação que faz uso de lentes cujo funcionamento era pouco conhecido. Qual a visão verdadeira? Podemos confiar nos nossos olhos? E nas imagens produzidas pelas lentes? As lentes distorcem ou confundem a verdadeira visão? Perguntas como essas se tornaram cruciais com a introdução na Holanda da câmara escura 2 e da analogia estabelecida por Kepler entre ela e o olho humano, que passou a ser identificado como um mecanismo óptico provido de uma lente com propriedades focalizadoras (ALPERS, 1999).
- A confiança nos instrumentos é uma novidade do século XVII. Para alcançá-á-la a analogia kepleriana da câmera escura com o olho foi determinante ao aplicar o conhecimento científico das lentes para explicar a visão humana. Ao tratar as imagens que vemos como pinturas do mundo projetadas sobre a tela retiniana, Kepler trouxe uma importante contribuição ao debate epistemológico entre verdade e aparência: o reconhecimento de que não se pode fugir da representação.
- As imagens produzidas pelos pintores holandeses do século XVII, tal qual o que se pode extrair do racionalismo de Bacon, consideram os sentidos como receptores fidedignos do que a natureza lhes revela. O vínculo entre a pintura e o conhecimento natural se baseia em observações, em experimentos e em seu resultado prático nos campos como a medicina, a cartografia e a zoologia construída pela visão através de lentes nos microscópios de Leeuwenhoek (ALPERS, 1999). Trata-se, pois, de um saber que gera conhecimento novo, colocado a serviço da melhoria das condições do homem em sociedade, que passa a se sentir em um novo mundo:
"Na verdade, objetos materiais que até agora eram classificados como átomos, uma vez que se subtraiam à vista humana, apresentavam-se tão nitidamente aos olhos do observador que, mesmo as pessoas totalmente inexperientes, que olham para coisas que nunca tinha visto, queixam-se, a princípio, de não estarem vendo nada, mas logo depois gritam que estão vislumbrando, com seus olhos, objetos maravilhosos. Porque, de fato, tudo isso diz respeito a um novo teatro da natureza, a um outro mundo..." Constantijn Huygens
Nesse ambiente de novo mundo, torna-se compreensível que, incentivado pelo pai, Christiaan Huygens (1986) tenha decidido pesquisar sobre a verdadeira natureza da luz, rompendo com a simples aplicação da Geometria euclidiana à Óptica, sendo um dos Ó pppçp fundadores do que hoje conhecemos como Óptica Física. Seu trabalho foi de de grande
importância na discussão entre o caráter corpuscular ou ondulatório da luz, resolvida coma aceitação do caráter de dualidade da luz proposta por Einstein e outros na primeira metade do século XX. O rompimento com os dogmas do conhecimento clássico o a partir do século XVII gerou uma pujante ciência em permanente evolução. Sua produção durante muitos séculos foi vista como o ato de descrever literalmente a natureza, através da obediência às regras do método científico baconiano (VIEIRA, 2003). Três sécéculos após, há consenso na filosofia da ciência que não é a voz cristalina da natureza aquela que os cientistas ouvem. O que fazemos é participar do diálogo entre os modelos que criamos, a partir do ambiente sócio -cultural em que vivemos, e as respostas vindas da realidade sensível (POZO e GOMEZ CRESPO, 1998).
## Visões do nanomundo
Desde muito tempo ao longo da história da humanidade, se faz presente o desejo de ver e conhecer detalhadamente o que está ao nosso redor. Associando lentes, o homem criou o dispositivo que abriu a primeira porta para a observação do micro cosmo: o microscópio óptico3 o3 (SANTIAGO et al, no prelo).
- O reconhecimento do limite do microscópio óptico (MO), que utiliza a luz visível para iluminar os objetos investigados, aliado aos avanços da física moderna, especialmente da teoria quântica, levou à criação de novas concepções de pesquisa, utilizando outros tipos de radiação, como "sonda" incidente sobre os materiais a serem investigados. Em busca de menores comprimentos de onda o microscópio que utiliza elétrons acelerados fazendo-os incidir sobre amostras a serem investigadas foi desenvolvido a partir dos anos de 1930 4 .
- O uso da "dupla personalidade" dos elétrons, onda-partícula, permite que a investigação se realize em dimensões interatômicas. Desse modo, uma identificação mais profunda de elementos não percebidos anteriormente se torna possível. A microscopia por varredura introduziu um novo conceito de formação de imagem: a imagem é construída à medida que o feixe de elétrons varre espacialmente a superfície da amostra, sendo construída temporalmente. Até então, a imagem de um determinado objeto era formada num mesmo instante, onde todos os raios eram projetados simultaneamente na tela de observação ou na retina do olho. Esse novo jeito de investigar lembra o modo como os pintores usavam as câmeras escuras, focando cada elemento do quadro por vez.
Para se conhecerem as imagens do nanomundo, os novos microscópios são acoplados a detectores onde sinais da interação da amostra são coletados por sensores apropriados que com o auxílio de outros dispositivos eletrônicos digitalizam esses sinais e os transferem para computadores onde a imagem final é construída com o auxílio de softwares apropriados.
## Conclusão
Assim como os artistas holandeses, exemplificados por Vermeer, estavam interessados em explorar o mundo ao seu redor sem recorrer a regras pré-estabelecidas que buscavam conciliar a natureza com a tradição cultural, na Ciência vemos surgir o trabalho de Christiaan Huygens sobre a natureza ondulatória da luz (HUYGENS, 1986), além de todo o desenvolvimento de instrumentos ópticos e do conhecimento que ajudaram a construir.
Até hoje, apesar de toda a evolução científico-o-tecnológica, a idéia primária da conjugação de "lentes" e espelhos está tá presente na construção do conhecimento científico e artístico. Enquanto na nova Ciência dispomos de um arsenal de microscópios e aceleradores de partículas que associado à informática gera imagens do nanomundo, na Arte, imagens fotográficas ou reproduções de quadros famosos, tratadas com programas de
computador, produzem uma nova Arte. Mantém-se desse modo presente em nossos dias a imbricação entre as duas áreas.
A exposição foi lançada inicialmente na Galeria de Arte Cândido Portinari da UERJ dando inícício à Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, tendo sido visitada do dia 30 de setembro ao dia 20 de outubro (seis dias a mais do que previsto inicialmente) por cerca de 600 pessoas, constando 420 assinaturas no livro da exposição. Entre os visitantes constatamos a presença de alunos e professores dos níveis fundamental, médio e universitário. Para receber os visitantes a exposição contou com a ajuda de monitores dos cursos de Artes, Comunicação, Filosofia e Física. O trabalho traz evidências da possibilidade de integrar diferentes disciplinas em um contexto que mostra a relevância da Física na cultura.
Nas escolas, podemos destacar o trabalho de professora Solange Dias Cardozo que aceitando o desafio de nosso projeto organizou na escola Martin Luther King um trabalho que foi premiado pela Fundação Victor Civita com o prêmio Professor Nota 10, com grande repercussão na midia televisiva e escrita. Seu trabalho foi o melhor entre cerca de 3400 trabalhos concorrentes, sendo o único em Ciências entre os dez premiados.
Devemos acrescentar que nossa pesquisa já favoreceu a elaboração, com conseqüente aprovação, de uma monografia de fim de curso de graduação, além de uma exposição com catálogo para ser levada a outras escolas, possibilitando a realização de novas pesquisas sobre a apropriação de sua proposta pedagógica junto a alunos e professores da escola básica.
## Bibliografia
AZEVEDO, F. (org) A As Ciências no Brasil 2ª edição Rio de Janeiro: UFRJ, 1994.
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BARBOSAALIMA, M.C. e QUEIROZ, G. Ciência e Arte na Formação de Professores - - - Painel apresentado no simpósio Ciência, Arte e Cidadania - - Cadernos de Resumos do 2º Simpósio Ciência, Arte e Cidadania - Rio de Janeiro: FIOCRUZ. 2004.
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