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Revelando traços da identidade de professor em licenciandos em física.

João Antônio Corrêa Filho

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
25/01/2005
Linha de pesquisa
Formação Do Professor De Física (Todos Os Níveis De Escolaridade)
Tipo
Comunicação

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Texto completo

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## REVELANDO TRAÇOS DA IDENTIDADE DE PROFESSOR EM LICENCIANDOS EM FÍSICA

João Antônio Corrêa Filho [jcorrea@ufsj.edu.br]

Núcleo de Apóio à Educação Básica (NAEB) Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

## Resumo

Neste relato, apresento uma análise da produção de trabalhos por estudantes da licenciatura em Física da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) sobre o tema 'a inserção do ensino de física moderna na escola básica'. A análise dessa produção partiu-se das seguintes categorias que se procurou identificar nos textos: natureza das referências apontadas e tipo de discurso. A partir disso, pude identificar que os meios impressos predominam sobre os eletrônicos como fontes de pesquisa dos estudantes e, sobretudo, pude identificar que poucos dos estudantes conseguem expressar opiniões próprias e já se identificam como futuros professores de Física. Por fim, um método de identificação de futuros profissionais é proposto.

Palavras-chaves: formação inicial de professor, identidade de professor, ensino de física moderna.

## Introdução

É inquestionável o fato da Física, enquanto uma construção humana de visão de mundo, embasada em princípios, propiciar artefatos tecnológicos úteis ao homem, e, em particular, aqueles produzidos a partir dos campos de conhecimento da Física Relativística e, sobretudo, dos de conhecimento da Física Quântica, que juntos constituem o que se denomina de Física Moderna. Se, por um lado, a Física Moderna proporcionou um rápido progresso tecnológico no último século, em contraste aos outros da Era Moderna; por outro lado, ela tem gerado reflexões sobre a natureza das coisas e sobre a condição humana. Também, se, por um lado, a Física Clássica, constituída pelos campos de conhecimento da Física anterior ao do século XX, colocava o h omem numa condição de espectador passivo e isolado da trama da Natureza; por outro lado, a Física Moderna coloca o homem numa condição integrante nessa trama. Neste sentido, a Natureza tem-se revelado complexa, dando liberdade ao homem de vê-la sob diversas facetas e com cada qual podendo ele interagir.

Também, nos dias de hoje, é questionável que o homem terá um conhecimento e compreensão completos da Natureza, se ele a terá em seus braços, podendo domá-la, controlá-la; ao contrário da crença vigente até o final do século XIX por físicos e outros próximos a eles. A Natureza tem se mostrada aberta, conseqüentemente, a busca pelo conhecimento e pela compreensão total da mesma se faz intangível. Nesta busca fáustica pela Natureza, objeto de desejo do homem, a quela parece estar sempre fugindo de seus braços, porém, sempre que isso ocorre, para consolo do homem, ela o presenteia com artefatos tecnológicos.

Assim, diante das novas perspectivas de visão de mundo, restringir o ensino de física aos ensinamentos do c orpo da Física Clássica, é cegar uma legião de seres humanos, prendendo-os num

tempo e num espaço; é usurpar a primeira e provavelmente a única dádiva da Natureza para qualquer ser: a liberdade do nascer. Visto que a inserção de Física Moderna no Ensino é um problema mundial [OSTERMANN & MOREIRA, 2000], no Brasil, o problema é substanciado por fatores correlacionados a investimentos em infra-estrutura de escolas; a incentivos na formação inicial e na continuada de professores; aos salários dignos para pais de estudantes e para professores, entre outros. Mas quaisquer que sejam as soluções encontradas, essas devem ser canalizadas no professor, pelo o qual, num último instante, levem a se identificar como tal, promovendo sua auto-estima. Neste sentido, o de regatar a identidade de professor, e num sentido mais amplo, o de melhorar a Escola Básica, um grupo de professores da UFSJ vem se consolidando num Grupo Multidisciplinar de Pesquisa em Fundamentos da Prática Educativa (FUPE), dentro do qual faço parte, onde tenho procurado apoiar professores no ensino de Física Moderna. Para tal, em 2002, realizamos uma investigação que visou conhecer o estado da inserção do ensino de Física Moderna na Escola Básica na região de São João del-Rei, através de um questionário aplicado a professores da região (CORRÊA F.; GONÇALVES & CASTRO, 2003), no qual cerca de 70% dos professores afirmaram possuir deficiência em sua formação inicial, entre as quais práticas laboratoriais e disciplinas voltadas para um ensino de Física mais próximo do cotidiano. Além disso, a investigação nos revelou que muito pouco se ensina de Física Moderna na Escola. Todo esse quadro é certamente um exemplar de inúmeros outros semelhantes que se pode obter em grande parte das escolas básicas de outras inúmeras regiões do País, podendo com isso concluir que a inserção do ensino de Física Moderna na Escola Básica quando muito ocorre, ocorre de modo superficial. Diante disso, em 2004, a UFSJ, num projeto de extensão de formação continuada de professores, ofereceu um curso de 40 horas a professores da região, contemplando uma série de atividades de Física Moderna. Paralelo a isso, no curso de Licenciatura em Física da UFSJ, disciplinas com conteúdos que visam abordar a problemática da inserção da Física Moderna no Ensino Médio têm sido oferecidas aos estudantes.

Neste relato, apresento uma análise da produção de trabalhos de licenciandos em Física da UFSJ sobre a inserção do ensino de Física Moderna na Escola Básica, tendo como enfoque o tipo de discurso produzido por eles, o que me permitiu vislumbrar um instrumento de revelação da identidade de professor ainda na fase de formação inicial de professor; entendendo-se aqui por identidade como sendo a manifestação de se ver como uma pessoa que participa de um grupo com características próprias (professores), procurando neste grupo uma identidade enquanto ser social, mas que também constrói sua individualidade como ser único (opiniões próprias) - (PIMENTA & ANASTASIOU, 2002).

## Metodologia

Na disciplina 'Prática de Ensino: Instrumentação para o ensino de óptica e física moderna', com carga horária de 30 horas, foi proposto atividades que os estudantes deveriam realizar, a saber: trabalhos individuais de elaboração de um texto sobre a inserção de Física Moderna no Ensino Médio, um trabalho envolvendo transposição didática, e a elaboração de um projeto de laboratório de Física. Além desses, três outros de elaboração de aulas práticas contemplando temas de óptica e física moderna, sendo uma das aulas utilizando recursos virtuais e outras duas equipamentos construídos com material de baixo custo e de fácil aquisição. Esses três últimos trabalhos foram realizados em grupos contendo no máximo quatro estudantes cada. Neste relato, o enfoque dado é sobre a análise da produção dos trabalhos individuais realizados pelos estudantes, tratando-se da inserção do ensino de Física Moderna no Ensino Médio. Para tal atividade, os estudantes poderiam consultar meios impressos e eletrônicos ( internet ), relatar experiências próprias ou realizar entrevistas com professores e outros. Os trabalhos deveriam conter cerca de três folhas, sem a

exigência de algum meio de impressão específico. Foi dado um prazo de 30 dias para a entrega dos trabalhos. A produção dos trabalhos foi analisada quanto aos seguintes pontos: natureza das referências consultadas (meios impressos e eletrônicos); expressões de opiniões próprias dos estudantes sobre o tema; e a quem se destina o texto (se a fala é dirigida para professores, para estudantes ou para outro indivíduo ou grupo social).

## Resultados e discussão

Foram analisados 41 trabalhos. Desses, 32 trabalhos foram apresentados com impressão de computador, oito foram datilografados e um manuscrito. Esse resultado inicial nos sugere que os meios de informática (microcomputadores e impressoras) já fazem parte da realidade desses estudantes, contudo, não procurei investigar se os trabalhos impressos foram feitos na Instituição, que oferece espaço físico e material para essa atividade, ou por meio de outros acessos a tais recursos.

Das análises das referências bibliográficas, quanto ao número e tipo, colocadas pelos estudantes nos seus trabalhos, os resultados nos sugerem que cerca de 60% dos estudantes têm o costume de apresentar referências no final dos textos ou mesmo em pesquisar primeiro por fontes para elaborar os textos. Destes estudantes, cerca de um terço pesquisou em mais de três fontes ou tem conhecimento de que tais fontes abordam o tema do trabalho. Também, da análise das referências, pude verificar que 40% dos estudantes incluíram nos trabalhos referências oriundas de sites da internet . Esse resultado indica um número significativo de estudantes que recorreram a essa fonte para realizar pesquisas ou que de lá encontraram pontos que fossem significativos para merecer uma referência deles nos seus trabalhos. Dentre as referências apontadas pelos estudantes, destacam-se livros didáticos como os de Beatriz Alvarenga e Antônio Máximo, textos paradidáticos como os de Fernanda Ostermann e Marco Antônio Moreira, e artigos como os da Revista Brasileira de Ensino de Física, além de algumas entrevistas com professores do Ensino Médio. Merece mencionar que os trabalhos, não ocorrendo situações de cópias, foram realizados individualmente, visto que tem sido comum nos tempos da internet o estudante apresentar trabalhos 'downloaded'.

Da análise dos textos, pude identificar que oito dos 41 estudantes expõem claramente suas opiniões próprias. Para tal identificação, procurei basear em termos que os estudantes empregaram, especificadamente a utilização da primeira pessoa, como no exemplo:

Bom, acredito que a resposta para essa pergunta [ Sendo a Física Moderna um assunto tão importante e tão presente em nosso dia-a-dia, por que ela não é vista no Ensino Médio? ] esteja no próprio ensino, que atualmente se encontra defasado. Primeiro, a carga horária destinada ao ensino de Física é pequena e a seqüência programática, já pré-estabelecida, acaba ocupando todo o ano letivo.

Ainda, com relação aos textos dos que expressam claramente opiniões próprias, em dez textos os discursos são voltados para professores, dentre os quais, o próprio estudante se inclui ou se vê como um. Isso se pode notar em seus textos, como no seguinte exemplo:

A Física Moderna pode explicar fenômenos ligados diretamente ao cotidiano do homem moderno e é exatamente por isso que ela é tão importante. E, se colocarmos isso para os nossos alunos, pode instigar a curiosidade deles sobre o tema, fazendo com que eles absorvam melhor o assunto.

Grande parte dos outros estudantes dirige seus textos para professores, sem se incluírem entre estes, ou para leitores em geral, quando falam dos professores e dos alunos do Ensino Médio, como no exemplo:

Enfim, cabe ao professor não se restringir apenas aos 'velhos conceitos da Física, preocupando apenas em esgotar os conteúdos a ele propostos, mas sim buscar recursos para que o aluno tenha uma visão panorâmica da Física; podendo colocá-la dentro da realidade em que se vive, pois Física também é notícia em 'Jornais e Revistas'. Isso demonstra a necessidade de implantar novas técnicas de ensino que sejam viáveis para a realidade do sistema, exigindo modificações que estejam a altura do professor, da escola e respondendo às necessidades sociais e individuais dos alunos, correspondendo a passos iniciais de futuros desdobramentos.

Por tais exemplos, por um lado, pode-se dizer que uma parte considerável dos estudantes não se sente seguro para expressar suas opiniões próprias (eles se posicionam atrás de opiniões de outros) e não se vêem como professores, ou seja, a identidade de professor ainda não está visivelmente presente nessa parcela de estudantes. Por outro lado, de modo geral, dos trabalhos apresentados pelos estudantes, pude perceber que eles foram sensibilizados pelo problema da inserção de Física Moderna no Ensino Médio e espera-se, conseqüentemente, que isso possa refletir em suas futuras práticas profissionais.

## Conclusões

O estudo da produção dos trabalhos de estudantes da licenciatura em Física sobre a inserção de Física Moderna no Ensino Médio, tendo como base a observância do destinatário dos textos e a colocação de opiniões próprias dos estudantes, revelou-me que grande parte destes licenciandos ainda não se identificou como futuro professor e profissional; ainda que tenha se sensibilizado por um problema atual no ensino de física na Escola Básica: o ensino de Física Moderna. Assim, chamo a atenção de colegas, especialmente os que trabalham diretamente na formação de professores de Física, que não só discutam conteúdos de Física, mas também procurem estimular e despertar a constituição da identidade de professor em cada um dos estudantes. A melhoria do ensino, qualquer que seja a área a que se destina para formar o cidadão, passa necessariamente pela constituição da identidade de professor. Por fim, análises de trabalhos como os aqui ilustrados permitem ao professor conhecer aqueles estudantes que já se identificam como futuros professores.

## Referências

CORRÊA F., J.A.; GONÇALVES, H.A.; CASTRO, R.A. de. A Inserção da Física Moderna no Ensino Médio. In: Garcia, Nilson M. D. (org.). SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA, XV, 2003, Curitiba. Atas... Curitiba: CEFET-PR, 2003. p. 1780-1789. 1 CD-ROM.

PIMENTA, S.G; ANASTASIOU, L. das G.C. Docência em formação . São Paulo: Cortez, 2002. v. 1: Docência no ensino superior.

OSTERMANN, F.; MOREIRA, M.A. Uma Revisão Bibliográfica sobre a Área de Pesquisa 'Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio: Investigações de Ensino de Ciências , 5 (1), 2000. Disponível em <http://www.if.ufrgs.br/public/ensino/vol5/n1/11indice.htm>. Acesso em: 04 mai. 2002.

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