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ACENDENDO A LUZ

José Roberto Da Rocha Bernardo, Deise Miranda Vianna

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVI
Ano
2005
Data
25/01/2005
Linha de pesquisa
Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ACENDENDO A LUZ

## a

José Roberto da Rocha Bernardo (betofininho@uol.com.br) Deise Miranda Vianna (deisemv@if.ufrj.br) b

a (E T E R - FAETEC e Programa de Pós Graduação em Ensino de Biociências e Saúde, Instituto Oswaldo Cruz)

b (Instituto de Física - UFRJ e Programa de Pós Graduação em Ensino de Biociências e Saúde, Instituto Oswaldo Cruz)

## RESUMO

Apresentamos uma proposta metodológica que se apoia nas orientações da perspectiva CTS para o ensino do Eletromagnetismo, suas aplicações tecnológicas e as relações entre essa tecnologia e a sociedade, de forma compartilhada e imbricada, dentro do ambiente de um sistema elétrico típico. Foi desenvolvido um material didático para facilitar o professor em suas aulas de Física, centrado em temas problematizados a partir de questões que envolvam aspectos sócio-econômicos, políticos, ambientais e éticos, sobre o uso da energia elétrica, sua produção e suas fontes alternativas primárias. A motivação para o trabalho se deu a partir da crise energética que ocorreu no Brasil entre o segundo semestre de 2001 e o primeiro semestre de 2002, e a constatação do quanto a sociedade brasileira está despreparada para discutir tais problemas, em função da falta de conhecimento, principalmente, da linguagem tecnológica adequada. Trata-se de um conjunto de atividades experimentais, contextualizadas com o dia-a-dia dos estudantes e com a História da Física, que trazem a alfabetização científica e tecnológica para o domínio dos alunos. A proposta vem sendo aplicada em caráter experimental, para alunos do ensino médio em uma escola da rede de escolas técnicas estaduais do Rio de Janeiro (FAETEC), onde os conteúdos com enfoque CTS ocupam o lugar dos tradicionalmente trabalhados nas aulas de Física.

## INTRODUÇÃO

O início do novo milênio trouxe para a sociedade brasileira o problema da crise energética. Palavras e expressões como potência elétrica, consumo e racionamento de energia elétrica, linhas de transmissão, fontes de energia alternativa e outras, até então tidas como específicas do campo técnico, passaram a ser veiculadas pela mídia a todo momento e a fazer parte do vocabulário do cotidiano do cidadão. Além disso, os processos de produção de energia elétrica e as relações destes com a necessidade das chuvas ou com as questões ambientais estão cada vez mais presentes em nossos meios de comunicação.

Os problemas apontados acima surgem, normalmente, acompanhados das dificuldades de compreensão de suas terminologias, ainda hoje desconhecidas pelo cidadão comum. Assim, nesse momento em que o mundo carece de um perfil de cidadão bem informado sobre problemas globais e capacitado para exercer sua cidadania de forma crítica, fica a questão: como seria possível continuarmos alimentando tal expectativa, se este cidadão sequer conhece a linguagem adequada para poder discutir e ponderar sobre questões tão importantes e que o afetam diretamente ?

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## MOVIMENTO CIÊNCIA - TECNOLOGIA - SOCIEDADE

A Segunda Guerra Mundial e os efeitos da bomba atômica levaram cientistas de todo o mundo a se engajarem em movimentos políticos durante a década de 1950 que resultaram em críticas profundas ao uso da Ciência. Ainda na mesma década, o lançamento do Sputinik em 1957 gerou uma grande onda de preocupações nos Estados Unidos e em outras nações industrializadas, principalmente da Europa (Shamos, 1995). Esse ambiente de críticas e preocupações com os avanços alcançados pela extinta União Soviética acabou por fornecer as condições para que se iniciasse uma grande mobilização por parte daquelas sociedades, no sentido de elaborarem programas educacionais onde o ensino de Ciências ganhou nova dimensão. Buscava-se, naquele momento, dar ao cidadão comum a oportunidade de conhecer a linguagem da Ciência, ou seja, oferecer a ele o que passou a se chamar 'alfabetização científica'. Essa nova maneira de ver o ensino de Ciências tem influenciado um grande número de pesquisadores na área de Educação ao longo de todos esses anos.

Mais tarde, os avanços não só da Ciência como da Tecnologia acabaram por transformar as duas em alvos de muitas críticas nas décadas de 1960 e 1970, principalmente no que diz respeito ao uso de ambas como vetores de degradação ambiental. Dessa forma, as relações entre Ciência e Tecnologia passaram a ser objeto de debate político e é nesse contexto que emerge o denominado Movimento CTS (Auler e Bazzo, 2001).

Nos objetivos apresentados na literatura sobre o Movimento CTS, pode-se observar que existem diferentes formas de concebê-lo. Em geral, indica-se a necessidade de explorar os conhecimentos científicos de forma mais ampla, tendo uma reflexão crítica social e politicamente imbricada e ética, embora ainda hoje seja comum se ouvir o discurso da neutralidade da Ciência e da Tecnologia a partir de cientistas, políticos e legisladores. Essa visão dogmática, associada ao que Auler e Delizoicov (2001) definiram como 'mitos constituídos historicamente', ajuda a levar a alfabetização científica e tecnológica a uma 'perspectiva reducionista'. Nesse sentido, os autores sugerem uma 'perspectiva ampliada' de alfabetização científica e tecnológica como alternativa para a superação e desmitificação dos 'mitos construídos historicamente', sobre as interações Ciência -Tecnologia - Sociedade (CTS)

A perspectiva de integração do enfoque CTS no sistema educativo português traz características bastante parecidas com as que foram constatadas em outros países do mundo. Segundo Martins (2002), já existe um provável consenso entre educadores, cientistas e poder político, que os resultados alcançados pela aprendizagem da Ciência escolar não satisfazem os objetivos da educação das sociedades atuais. Até mesmo no Relatório Mundial da Educação da UNESCO, de 2000, o tema foi tratado com muita atenção. É previsto que as pessoas venham a mudar de ocupação profissional, em média, três vezes durante a vida, reforçando assim a idéia de que a formação inicial do educando deve ser cada vez mais abrangente, a fim de que possa acompanhar o indivíduo ao longo de toda a vida, de modo a capacitá-lo para os novos desafios que o desenvolvimento tecnológico impõe.

Em seu trabalho, Martins (2002) aponta alguns obstáculos à implantação da perspectiva CTS, dentre eles o problema dos programas escolares que, sendo os instrumentos oficias da política educativa, condicionam o que os professores realizam em sala de aula. Daí virem sendo feitas muitas críticas sobre a extensão e complexidade dos programas, o que compromete as estratégias de ensino para que os mesmos sejam cumpridos. Segundo a autora, o ensino das Ciências de

orientação CTS necessita de recursos didáticos afinados com as questões sociais do momento, e que poderão se tornar um veículo da atualização dos próprios programas.

Embora no Brasil não tenhamos tido a oportunidade de contar com um grande programa apoiado nas orientações CTS como aconteceu em outros países, vários materiais didáticos e projetos curriculares foram elaborados, incorporando elementos dessa perspectiva (Santos e Mortimer, 2000). Além disso, as discussões sobre a importância de se alfabetizar científica e tecnologicamente nossos cidadãos tem influenciado, ainda que modestamente, a nossa legislação, particularmente os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).

## DESCRIÇÃO DO TRABALHO DESENVOLVIDO

Este trabalho sugere ao professor de Física, que atua no ensino médio, uma forma contextualizada de tratar conteúdos de Eletromagnetismo, a partir do que está por trás da Tecnologia. A metodologia desenvolvida está apoiada nos princípios do Movimento CTS e propõe a discussão dos conteúdos científicos de forma compartilhada com os conteúdos tecnológicos, a partir de atividades problematizadoras que valorizem as experiências vivenciais e pré-concepções trazidas pelos estudantes. Os conteúdos CTS são tratados de forma integrada e imbricada, distribuídos ao longo de unidades didáticas específicas, definindo um conjunto que constitui boa parte da ementa tradicionalmente trabalhada na terceira série do ensino médio, acrescida de atividades que se relacionam com temas atuais, tendo como problematizador e orientador um professor de Física.

Cada uma das unidades está associada a um setor do sistema elétrico, e as primeiras atividades desenvolvidas junto aos alunos são aquelas relacionadas ao ambiente residencial, que, num primeiro momento, são as que mais se aproximam da realidade do aluno. Em seguida, são exploradas as demais unidades até que se chegue ao ambiente da usina geradora. São propostas que criam condições efetivas para que o educando desenvolva uma alfabetização científica e tecnológica mínima que o permita atuar como cidadão crítico em seu cotidiano.

Para a consecução dessas tarefas foi desenvolvido um material didático que permite a interação do aluno e faz com que o mesmo possa perceber a aplicação das leis da Física nos diversos setores de um sistema elétrico típico, representado por um conjunto de painéis didáticos e funcionais denominado Laboratório Portátil para Ensino de Eletromagnetismo e Conteúdos CTS (Vianna e Bernardo, 2003). Neste, encontram-se associadas miniaturas simplificadas dos principais equipamentos e componentes do sistema, compreendendo desde uma usina geradora, subestações, linhas de transmissão e distribuição, até uma residência com seus eletrodomésticos mais comuns representados por lâmpadas e resistores convenientemente especificados.

O Laboratório Portátil conta ainda com um conjunto de kits de experimentos complementares, que visam aumentar os recursos pedagógicos do professor. São reproduções de experimentos históricos que qualificam o Laboratório Portátil para uma outra função: facilitar a discussão dos conteúdos científicos e tecnológicos dentro do contexto histórico em que o fenômeno foi descoberto, fornecendo elementos para que o professor trabalhe a Física e a Tecnologia enquanto construções humanas, livres de mitos e das falsas concepções de neutralidade em relação às suas diversas interações com a sociedade.

Os recursos financeiros para a montagem do material didático completo - painéis, kits complementares, instrumentos, e manual de orientação para o professor - foram obtidos a partir de uma premiação que o projeto recebeu, em um concurso interno para projetos educacionais inovadores da Rede FAETEC ( Projeto INOVA 2003 ), no Rio de Janeiro.

Inicialmente, a proposta vem sendo aplicada para alunos da primeira e segunda séries do ensino médio que se interessaram em participar do projeto voluntariamente. Além disso, participam do projeto, alunos de duas turmas da disciplina de Física Aplicada da segunda série do ensino médio, todos da Escola Técnica Estadual República - FAETEC. A opção pelos alunos das séries iniciais se deu, para que os resultados da metodologia proposta pudessem ser avaliados com mais precisão, uma vez que os alunos da terceira série já têm contato com os conteúdos do Eletromagnetismo em seu currículo normal. No caso das turmas de Física Aplicada, os conteúdos de Eletromagnetismo e conteúdos CTS substituíram oficialmente os conteúdos tradicionais que vinham sendo trabalhados na disciplina. As negociações para essa mudança se deram entre a direção da escola, a equipe de Física e os alunos das duas turmas. Assim, o p rojeto conta hoje com um total de 42 alunos, onde cinco deles são bolsistas da FAPERJ no Programa de Bolsas de Iniciação Científica Jovens Talentos.

## CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os primeiros resultados da aplicação da metodologia proposta mostram que o trabalho tem tido uma boa aceitação por parte dos alunos, embora estejamos em uma fase de experiência.

Uma observação relevante ao longo do trabalho desenvolvido foi a motivação provocada nos alunos a partir de uma visita realizada à Usina Hidrelétrica da Light, localizada em Ribeirão das Lajes, onde os estudantes tiveram a oportunidade de estar em contato com o ambiente de produção de energia elétrica e os problemas que a degradação ambiental pode trazer para o processo de produção dessa energia.

## Referências

Auler, D. e Bazzo, W. A Reflexões para a implementação do Movimento CTS no contexto educacional brasileiro . Revista Ciência e Educação , v.7 ( 1 ), p. 1 - 13, Bauru, 2001.

Auler, D. e Delizoicov, D. Alfabetização Científico-Tecnológica para quê?, Revista Eletrônica Ensaio , vol.3 , N o 2 ISS N1415-2150 http://www.coltec.ufmg.br/~ensaio, 2001.

Martins, I. P. Problemas e Perspectivas Sobre a Integração CTS no Sistema Educacional Português , Revista Electrónica de Enseñanza de Las Ciencias , v.1(1), 2002.

Santos, W. L. P. e Mortimer, E. F. Uma Análise de Pressupostos Teóricos da Abordagem C-T-S (Ciência - Tecnologia - Sociedade) no Contexto da Educação Brasileira . Revista Ensaio , v.2 , n 2, p. 133-162, ISS N1415-2150 http://www.coltec.ufmg.br/~ensaio, 2000. o

Shamos, M. H. The Myth of Scientific Literacy . New Brunswick/New Jersey: Ed. Rutgers University Press, 1995.

Vianna, D. M. e Bernardo, J. R. R. Levando a Energia da Usina até uma Residência . In: Atas da VIII Conferencia Interamericana Sobre Educación en Física. Sociedad Cubana de Física, 1 CD ROM, 7-11 Julio, 2003.

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