ENSINO DE FÍSICA EM CURSOS PRÉ-VESTIBULARES POPULARES
Marcia C.M. Lopes, Susana De Souza Barros, Marta Feijó Barroso
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVI
- Ano
- 2005
- Data
- 25/01/2005
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA EM CURSOS PRÉ-VESTIBULARES POPULARES
Marcia Lopes [marcia\_cris\_lopes@yahoo.com.br] a
Susana de Souza Barros [susana@if.ufrj.br] a Marta Feijó Barroso [marta@if.ufrj.br] a
a Instituto de Física - Universidade Federal do Rio de Janeiro
## RESUMO
Cursos pré-vestibulares populares surgem a partir de 1986 em sindicatos e organizações não governamentais e grupos religiosos com o objetivo de preparar estudantes de classes populares para os processos seletivos de ingresso nas universidades públicas numa perspectiva de inclusão educacional de estudantes carentes. A elaboração de programas para ensino de física nestes cursos é dificultada pela pequena carga horária, pelas dificuldades na formação escolar dos alunos e próprias características desses projetos, em geral com professores voluntários, alunos de graduação sem material adequado para o objetivo proposto. Este trabalho pretende mostrar um perfil dos projetos dos pré-vestibulares populares do Estado do Rio de Janeiro, seus professores, os estudantes que os procuram, fazendo uma leitura dos programas dos concursos vestibulares em três universidades no Estado do Rio de Janeiro (UFRJ, UERJ e PUCRIO) e do tipo e o nível das provas de seleção aplicadas nestes processos de ingresso. Como resultado, propõe um programa mínimo, com carga horária de 60 horas anuais, adequado a um público adulto trabalhador com deficiências de formação e que possibilite ao público egresso de escolas públicas, freqüentemente anos após a finalização do ensino médio, um mínimo de condições de competir com probabilidade de sucesso nesses processos seletivos. Este tipo de programa privilegia os conteúdos que aparecem com maior freqüência nas provas de vestibular avaliadas, e deve utilizar recursos metodológicos adequados ao público alvo que freqüenta estes cursos após uma jornada de trabalho ou nos finais de semana.
Palavras-chave: cursos pré-vestibulares populares; currículos e programas; ensino de física.
## INTRODUÇÃO
Cursos pré-vestibulares populares são projetos de organizações diversas criados com o objetivo de preparar estudantes de classes populares para os exames seletivos para ingresso nas universidades públicas e em boas universidades privadas que têm programas de bolsas de estudo. Surgiram em 1986, dentro de um sindicato de funcionários públicos, e atualmente, apenas no Estado do Rio de Janeiro, há mais de 170 núcleos em funcionamento, atendendo a um número considerável (de cerca de 10.000) de alunos.
Os pré-vestibulares comunitários surgem como uma resposta da sociedade ao problema da inclusão educacional no país, em época anterior à discussão sobre política de cotas. Esta resposta, paralela à escola regular, é dada por organizações não governamentais, sindicatos, voluntários, grupos religiosos ou vinculados a igrejas, entre outros, e desenvolve, a custo ínfimo (em geral,
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gratuitamente) programas similares aos dos cursinhos vestibulares para as classes médias (egressas em sua maior parte do ensino privado e com altos custos) que preparam para o ingresso nas universidades públicas. Os professores nestes cursos são em sua maioria voluntários, estudantes de ensino superior ou docentes de qualquer nível de ensino. Os estudantes formam um público heterogêneo, quase todo com formação escolar anterior deficiente, proveniente de escolas públicas, muitos deles tendo deixado a vida escolar durante um longo período, e tendo uma carga horária de trabalho bastante grande. As aulas são em geral à noite, ou em finais de semana. Como conseqüência, a carga horária nos cursos é pequena, sendo que todos os conteúdos cobrados nos exames vestibulares devem ser abordados.
No vestibular da UFRJ, cujo modelo é o de provas discursivas, há sempre um grande número de notas nulas na prova de Física (é a disciplina com o maior índice de provas com nota zero); e esta situação elimina o candidato do concurso, independentemente do resultado nas outras disciplinas. No entanto, o público-alvo dos pré-vestibulares comunitários em sua maioria não teve anteriormente nenhuma instrução formal em física, não desenvolveu atividades experimentais de qualquer tipo, tem sérias deficiências de aprendizado de matemática, leitura, redação e compreensão de textos. Devido ao fato que a carga horária de estudo de física nestes pré-vestibulares é muito pequena, qualquer ação que tenha como objetivo melhorar de forma consistente o desempenho desses alunos em Física é crucial para que eles tenham um mínimo de possibilidades de ingresso na universidade. Portanto, a avaliação dos conteúdos de física exigidos nos programas do vestibular, das provas efetivamente aplicadas, e a construção de um programa mínimo de física que permita aos alunos destes pré-vestibulares não serem eliminados preliminarmente no processo de seleção é um problema premente para os professores e coordenadores destes cursos. Mais, a metodologia de ensino deste conteúdo é crucial para dar um mínimo de chances de sucesso para os participantes dos cursos.
Neste trabalho, fazemos um levantamento dos cursos pré-vestibulares, com vistas a caracterizar minimamente suas estruturas, o público-alvo e seus professores e coordenadores. Avaliamos o conteúdo de física dos programas do vestibular, as questões das diversas provas de física de processos seletivos de três universidades do Rio de Janeiro. Com base nestes dados, propomos um programa mínimo de física para a carga horária disponível nestes cursos, e exemplificamos com um plano de aula para um dos tópicos deste programa.
## DESCRIÇÃO DO TRABALHO E METODOLOGIA
O trabalho iniciou-se com o levantamento bibliográfico [1] e na Internet dos cursos prévestibulares existentes no estado. Estes projetos, iniciados em 1986 num pré-vestibular organizado pelo Sindicato dos funcionários da UFRJ, expandiram-se grandemente na década de 90, sendo mais de 170 hoje. Neste levantamento, pode-se conhecer as propostas de trabalho e estrutura de funcionamento de boa parte destes cursos.
Alguns projetos foram escolhidos para uma avaliação mais detalhada. Neles, foram entrevistados (pessoalmente, sem gravação, no período de julho e agosto de 2003, apenas com anotações do entrevistador) os coordenadores e os professores. O objetivo destas entrevistas foi levantar dados sobre a estrutura e funcionamento dos cursos. Foram escolhidos 3 cursos, um associado a uma escola particular, num projeto da igreja católica, um segundo vinculado à universidade federal, laico, com financiamento da Fundação Ford, e um terceiro laico e autônomo. Estas entrevistas permitiram caracterizar o funcionamento destes cursos: nos finais de semana, ou à
noite, com professores voluntários, com pouco ou nenhum material próprio, em boa parte sem coordenação de disciplinas. O financiamento destes projetos variava: um contava com verbas da Fundação Ford, outro apenas com pequenas contribuições dos alunos.
Em um pré-vestibular comunitário, foi feito um levantamento do perfil dos alunos. Eles são basicamente de dois tipos: alunos que estão terminando o ensino médio em escolas públicas, e alunos que deixaram de estudar por um longo tempo. Há um número de candidatos muito alto, sendo em geral feita uma seleção (por critérios sócio-econômicos). Há também uma evasão muito grande nos cursos. A faixa etária, o tipo de trabalho do aluno, sexo, entre outras informações, foram levantadas.
A seguir, escolheram-se os processos seletivos de três universidades do Rio de Janeiro: a Universidade Federal do Rio de Janeiro (processo constituído de provas inteiramente discursivas, com notas eliminatórias), a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (uma prova preliminar, de conhecimentos gerais, e múltipla escolha, eliminatória, seguida de provas específicas), e a Pontifícia Universidade Católica - PUC - Rio (uma universidade privada, mantida pela Igreja Católica, e com uma política de bolsas para alunos carentes). Estas universidades foram escolhidas por serem representativas das universidades procuradas pelos estudantes das classes populares.
Os editais dos processos seletivos para ingresso nestas três universidades foram avaliados. Os conteúdos de física são similares, e abrangem todo o conteúdo tradicional do ensino médio: mecânica, eletromagnetismo, física térmica, oscilações, ondas, estática de fluidos. Apenas na PUC/RJ alguns conceitos de física moderna fazem parte do programa.
Foram avaliadas as provas aplicadas nos vestibulares destas três universidades em suas diversas etapas, nos últimos três anos. A avaliação foi feita com base na classificação segundo o esquema taxionômico proposto por Bloom [2]. Foi feita uma comparação com um trabalho desenvolvido anteriormente por Barros e Elia [3].
Estas avaliações permitiram levantar um quadro: os programas säo bastante extensos, mas os conteúdos exigidos nas provas são em sua maioria bem mais restritos. O nível taxionômico das questões de todas as provas não ultrapassa, ou raramente ultrapassa, o nível taxionômico 3, de aplicação. Os conteúdos majoritariamente se restringem a problemas de mecânica (movimentos simples, leis de Newton, alguns conceitos de trabalho e energia), eletricidade (cargas, isolantes e condutores, circuitos simples), física térmica (termologia e a primeira lei da termodinâmica).
Com base nestes dados, e a partir do referencial proposto pelos PCN e PCN+, faz-se uma proposta de programa de física para estes pré-vestibular, contemplando as seguintes características:
- - distribuir os conteúdos propostos a apenas 60 horas anuais de aulas de física, e ao mesmo tempo oferecer condições mínimas ao aluno destes projetos para não serem eliminados nessas provas;
- -lidar, através de metodologias ativas, com as condições adversas do público (cansaço, má formação anterior, e outras).
Atendendo à distribuição de conteúdos efetivamente exigidos nas provas dos processos seletivos examinados, o cronograma contém cerca de 30 horas de conteúdos de Mecânica básica,
cerca de 15 horas nos tópicos de conceitos elétricos e circuitos, e mais 15 horas de conteúdos de física térmica. Os demais tópicos não são incluídos por incidirem minimamente nas provas examinadas.
Elaborou-se também um plano de aula para uma aula de um destes tópicos, onde a spectos metodológicos - utilização de experimentos e vídeos, entre outros recursos necessários à proposta ficam evidentes.
## CONCLUSÕES
- O trabalho descrito apresenta uma análise da situação dos pré-vestibulares populares, no período anterior à implantação de política de cotas, e propõe condições de trabalho que permitam aos alunos que prouram estes cursos serem atendidos adequadamente, tanto na perspectiva intelectual quanto nos aspecto sócio-culturais específicos. Nessas condições, é difícil laborar um programa adequado que possa suprir as carências dos alunos, grupos heterogêneos e com solicitações diversas. O programa sugerido deve portanto ser muito sintético e utilizar, de forma integrada, recursos metodológicos múltiplos, o professor deve ter condições de ser um bom explicador e ter capacidade de avaliar e fazer diagnóstico das necessidades dos alunos, deve preparar ter material próprio (exemplos experimentais e teóricos) para que os alunos tenham alguma possibilidade de aprovação nos vestibulares das universidades consideradas. Este tipo de estudo poderá ser útil para as universidades que abrem vagas pelo sistema de cotas, pois algum sistema de suporte acadêmico será necessário para que estes ingressantes tenham sucesso nos estudos universitários.
## REFERÊNCIAS
- [1] Alexandre do Nascimento, 'Movimentos Sociais, Educação e Cidadania: Um Estudo sobre os Cursos Pré-Vestibulares Populares' , Tese de Mestrado em Educação, UERJ, 1999.
- [2] H. Bloom, 'Taxionomia dos Objetivos Educacionais' , São Paulo: Editora Cortez, 1972.
- [3] Susana de Souza Barros e Marcos Elia, 'Assessment of Attainment in Physics in Brazil', in Innovations in Science and Technology Education, Ed. D. Layton, vol. III, UNESCO Paris, 1990.
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