O ENSINO DE FÍSICA MODERNA, COM ENFOQUE CTS: UM TÓPICO PARA O ENSINO MÉDIO - RAIOS X
Fábio Ferreira De Oliveira, Deise Miranda Vianna
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- X
- Ano
- 2006
- Data
- 18/08/2006
- Linha de pesquisa
- Ciência, Tecnologia E Sociedade E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O ensino de Física Moderna, com enfoque CTS: um tópico para o Ensino Médio -- Raios X
Fábio Ferreira de Oliveira (p(proffabiofisica@terra.com.br) 1
Deise Miranda Vianna (deisemv@if.ufrj.br) 2
1 Faculdade de Educação – UFRJ e FAETEC-C-RJ 2 -
Instituto de Física
UFRJ
## Introdução
Nas últimas décadas os avanços científicos e tecnológicos têm despertado nos jovens olhares mais atentos sobre temas relacionados às Ciências. PoPorém é preocupante como o Ensino de Ciências, particularmente a Física no Ensino Médio, não tem acompanhado esse desenvolvimento e cada vez mais se distancia das necessidades dos alunos, no que diz respeito ao estudo de conhecimentos científicos mais atuais.
Há uma defasagem em termos de conteúdo do atual currículo de Física e o que o aluno acompanha pela mídia escrita e falada, sobre os avanços e descobertas científicas no campo da Física no Brasil e no mundo. A lacuna provocada por um currículo de Física desatualizado resulta numa prática pedagógica desvinculada e descontextualizada da realidade do aluno. Isso não permite que ele compreenda qual a necessidade de estudar essa disciplina, que, na maioria dos casos, se resume em aulas baseadas em fórmulas e eqequações matemáticas, excluindo o papel histórico, cultural e social que a Física desempenha na sua vida. O quadro se agrava à medida que esse aluno, quando termina o Ensino Médio, pára de estudar ou envereda por carreiras, onde não há mais ênfase numa formação científica.
- O Ensino Médio constitui, portanto, o último contato formal com a Física. Os problemas encontrados nesse segmento do ensino, com respeito a uma formação científica mais atual e mais presente no dia a dia, contribuirão negativamente na formação cidadã desse indivíduo.
## O que dizem as pesquisas
Algumas pesquisas na área de Ensino de Física têm contribuído com propostas que apontam caminhos para um ensino de Física mais atual, eficaz e contextualizado. Duas vertentes foram analisadas: a necessidade de uma atualização curricular (Terrazzan, 1992 e 1994; Cavalcante, 1999; Ostermann & Moreira, 2000a e 2000b; Garcia, 2003) e a introdução de conceitos de Física Moderna e Contemporânea na grade curricular do Ensino Médio (Ostermann & Cavalcanti, 2001; Valadares & Moreira, 1998; Pinto & Zanetic, 1999; Cavalcante, Jardim & Barros, 1999; Basso, 2000; Ostermann & Moreira, 2000a e b; Machado & Nardi, 2003; Rezende Junior & Souza Cruz, 2003).
Ostermann & Moreira (2000b, p.391), apoiados numa revisão de literatura sobre atualização do currículo de Física do Ensino Médio, destacam:
"O ensino de temas atuais da física pode contribuir para transmitir aos alunos uma visão mais correta dessa ciência e da natureza do trabalho científico, superando a visão linear do desenvolvimento científico, hoje presente nos livros didáticos e nas aulas de física."
- É importante ressaltar que a atualização do currículo não pode ser desvinculada da preocupação com a formação inicial e continuada de professores. Não basta introduzir novos assuntos que proporcionem análise e estudos de problemas mais atuais se não houver uma preparação adequada dos alunos das licenciaturas para esta mudança e se o profissional em exercício não tiver a oportunidade de se atualizar.
Dessa forma, o professor engajado nessa proposta necessita ultrapassar o conhecimento meramente propedêutico e se preocupar com os problemas sociais relacionados com o científico e o tecnológico. Assim, favorece a construção em conjunto com seus alunos, de atitudes, valores e condutas que permitam a eles atuar com fundamento e responsabilidade nas questões sociais, seja de forma individual, seja de forma coletiva.
Machado & Nardi (2003) mostram, através de uma pesquisa sobre as condições que ocorrem o ensino de Física Moderna e Contemporânea (FMC) 1 nas escolas públicas da cidade de Foz do Iguaçu, que dos professores de Física entrevistados, 67% não possuía graduação nesta área específica, fato que já havia sido sinalizado por Terrazzan (1992), de uma forma mais geral, há uma década atrás. Além disso, com relação aos temas de FMC abordados durante a graduação:
- "[...] Estes dados mostram uma evidente lacuna na formação da maioria destes professores quanto aos temas considerados, acentuada pelo fato da minoria ser formada na área específica de Física." (MACHADO; NARDI, 2003, p.2)
Portanto propostas de atualização curricular que não contemplem no contexto de seus objetivos um olhar sobre a formação inicial e continuada de professores de Ciência, particularmente de Física, estarão distantes do êxito que se propõem. Há um consenso entre os trabalhos analisados em relação à utilização de tópicos de FMC na atualização do currículo de Física do Ensino Médio (EM), entretanto, como fazê-ê-lo, ainda constitui um problema em aberto.
Terrazzan (1992) afirma que a divisão curricular2 r2 adotada no ensino de Física nas escolas do EM segue, basicamente, a seqüência ditada pelos modelos estrangeiros, o que na prática exclui a Física desenvolvida no último século e não permite que os alunos a compreendam como um empreendimento humano. Adverte ainda que qualquer proposta que vise uma reformulação no currículo dessa disciplina deve respeitar a inserção dos professores que atuam nesse nível de ensino no processo de desenvolvimento dessa tarefa.
Ostermann & Moreira (2000a, p.11) num estudo sobre a introdução de dois tópicos de FMC (partículas elementares e supercondutividade), com alunos da graduação em Física, nas aulas dessa disciplina em escolas públicas e particulares concluíram que:
- "[...] É viável ensinar FMC no EM, tanto do ponto de vista do ensino de atitudes quanto de conceitos. É um engano dizer que os alunos não têm capacidade para aprender tópicos atuais. A questão é como abordar tais tópicos [...] Se houve dificuldades de aprendizagem não foram muito diferentes das usualmente enfrentadas com conteúdos da Física Clássica [...] Os alunos podem aprendê-la se os professores estiverem adequadamente preparados e se bons materiais didáticos estiverem disponíveis."
A discussão sobre a necessidade de atualizaçação curricular, com base nas pesquisas analisadas, parece constituir um assunto esgotado. Os principais problemas que surgem dessa análise referem -se ao 'como fazer', a fim de que os tópicos de FMC não se tornem mais um num currículo que necessita de uma rereforma urgente. O caráter formativo desses tópicos deve ser priorizado e faz-se necessário buscar propostas que fujam da mera informalidade do assunto, a fim de que não sejam inseridos como pontos isolados em um currículo que já é bastante extenso.
Na cidade do Rio de Janeiro, há uma iniciativa com a implantação de um projeto paralelo ao currículo formal de Física, realizada pelo Colégio Santo Inácio, onde a Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA) serviu de motivação para a introdução de assuntos da FMC (Marques e Silva 2005, p.35).
## Quais os tópicos de FMC mais importantes?
Numa pesquisa realizada entre físicos, pesquisadores em ensino de Física e professores de Física do EM, Ostermann & Moreira (1998, apud Ostermann & Moreira, 2000) elaboraram uma lista cononsensual sobre quais tópicos de FMC deveriam ser abordados no EM, no intuito de atualizar o currículo de Física deste nível. Os tópicos mais importantes na opinião dos entrevistados foram: efeito fotoelétrico, átomo de Bohr, leis de conservação, radioativididade, forças fundamentais, dualidade onda-a-partícula, fissão e fusão nuclear, origem do universo, raios X, metais e isolantes, semicondutores, laser, supercondutores, partículas elementares, relatividade restrita, Big Bang, estrutura molecular e fibras ópticicas. O resultado dessa pesquisa delimita um quadro favorável em termos de quantidade e diversidade de tópicos de FMC que podem ser utilizados no currículo do EM e que traduzem a vontade da comunidade científica.
## O que consta na legislação
Uma análise dos tetextos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), dos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2000) e, mais recentemente das Orientações Curriculares Nacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (BRASIL, 2002), mostra que o 'Novo Ensino Médio' deve priorizar "[...] a formação geral em oposição à formação específica; o desenvolvimento de pesquisar, buscar informações, analisá-l-las e selecioná-las; a capacidade de aprender, criar, formular, ao invés és do simples exercício de memorização." " (BRASIL, 2000, p.5).
Os textos assinalam que os conhecimentos de Física são fundamentais para a formação científica do cidadão contemporâneo e que o estudo dos conceitos físicos deve ser contextualizado e interagir cocom outras disciplinas de forma a ganhar sentido quando aplicado ao dia a dia de jovens e adolescentes. Apontam para o fato de que alguns aspectos da chamada Física Moderna são indispensáveis para permitir aos alunos adquirir uma compreensão mais abrangente e dos conhecimentos físicos necessários para o entendimento das tecnologias mais recentes. Além disso, o estudo da Física deve ser compreendido pelo aluno como um processo de construção humana, inserido num contexto histórico e social, abrangendo um corpo teteórico de conhecimentos científicos e tecnológicos que têm contribuído para o desenvolvimento de pesquisas que podem melhorar a qualidade de vida da sociedade.
Assim, habilidades e competências precisam ser construídas no ensino de Física de forma a dar sigignificados aos conhecimentos adquiridos e "... os critérios que orientam a ação pedagógica deixam, portanto, de tomar como referência primeira 'o que ensinar de Física', passando a centrar-r-se sobre o 'para que ensinar Física'..." " (BRASIL, 2002, p.78) , visando uma formação científica mais crítica e, conseqüentemente, mais cidadã.
Com relação ao que o texto chama de Temas Estruturadores, onde seis deles foram privilegiados para organizar de forma mais abrangente o ensino de Física, nos interessa, mais particularmente, o tema Matéria e Radiação. Ressaltamos a importância do estudo das radiações e suas interações com a matéria, tomando como base o os modelos de constituição da matéria e o espectro eletromagnético, proporcionando uma abordagem e compreensão dos fenômenos associados a essas interações e ampliando dessa maneira, o entendimento do universo físico microscópico.
Na sugestão das unidades temáticas relacionadas destacamos a que se refere a Radiações e suas interações, s, onde parte do conteúdo programático está presente nos assuntos que foram abordados em parte dos módulos de nossa proposta metodológica.
"Identificar diferentes tipos de radiações presentes na vida cotidiana, reconhecendo sua sistematização no espectro eletromagnético (das ondas de rádio aos raios gama) e sua utilização através de tecnologias a elas associadas (radar, rádio, forno de microondas, tomografia etc.) [...] Compreender os processos de interação das radiações com os meios materiais para explicar os fenômenos envolvidos em, por exemplo, fotocélulas, emissão e transmissão de luz, telas de monitores, radiografias." (BRASIL, 2002, p.78).
Em 2004, o Ministério da Educação (MEC) através da Secretaria de Educação Básica (SEB), promoveu uma discussão nacional com professores e estudantes da rede pública, além de equipes técnicas da SEB, a fim de discutir o texto dos PCN's, visto que na prática
"[...] é necessário considerar que tal proposta não se concretizou com a sua implementação por não ter conseguido, nas diferentes instâncias do Ensino Médio, aprofundar análise consistente que permitisse esclarecer e orientar as escolas, bem como, promover o estudo do documento e discutir as possibilidades didático-o-pedagógicas, por ela apresentadas, junto ao professor na 3 execução da sua prática docente". (B RASIL, 2004, p.6). 3
Com relação à Física no EM, o documento busca uma reflexão do texto dos PCN's no sentido de reorientar a prática pedagógica do professor dessa disciplina, revendo também a formação científica que se necessita desenvolver junto aos alunos.
## A escolha do tópico
Apoiados nas pesquisas anteriores sobre Ensino de Física, nos documentos oficiais e na lista de tópicos eleitos como mais importantes na pesquisa de Ostermann & Moreira (1998 apud 4 Ostermann & Moreira, 2000c), escolhemos os raios X como tópico de Física Moderna (FM) 4 para a nossa proposta metodológica. Esta escolha justifica-a-se pelo fato de que o seu estudo permite uma abordagem sobre Física Moderna através de assuntos como os modelos atômicos, o espectro eletromagnético, as radiações ionizantes e suas aplicações, etc. Pode-se ainda relacionar a Física com outras áreas do conhecimento como a História, através da compreensão do momento histórico em que se deu a divulgação científica de Röntgen, por exemplo, influenciando rapidamente os diagnósticos na Medicina, e a Biologia, através dos efeitos nocivos da exposição excessiva das células aos raios X. Busca-a-se assim, fugir do ensino compartimentalizado e memorístico dessa disciplina nos dias atuais, permitindo ao aluno uma visão mais integrada de mundo.
Por se tratar de um assunto que requer um tratamento matemático de nível superior e levando em consideração as limitações matemáticas do EM, na nossa proposta metodológica, priorizamos a parte qualitativa dos fenômenos. A parte quantitativa só foi utilizada quando fazia referência ao modelo clássico, que é o estudado nesse segmento do ensino.
- O trabalho de Ostermann & Moreira (2000c, p.5-7) apóia-se em três vertentes básicas para a inserção de tópicos de FMC: aquela que explora e se respalda nos limites da Física Clássica; a que não utiliza qualquer referência aos modelos clássicos e a terceira, que escolhe tópicos essenciais para serem inseridos mas busca sustentação na Física Clássica para sua abordagem. Quando fizemos a opção de tratar exclusivamente os raios X, a priori, seguimos a
que vise uma reformulação no atual currículo de Física.
terceira vertente e acrescentamos a visão histórica e social, caracterizando um enfoque metodológico em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), que é nossa proposta para o ensino de Física.
## O enfoque em CTS
Na construção da proposta metodológica privilegiamos uma concepção de ensino de Ciências onde o assunto raios X fosse abordado de forma a se compreender como são produzidos, quais foram as implicações históricas, sociais e éticas, assim como avaliar os riscos para a saúde, devido à utilização indiscriminada. Isso permite ao aluno compreender os riscos e benefícios que a aplicação de um conhecimento científico pode trazer para a sua vida e para a sociedade, habilitando -o a questionar e decidir sobre questões que envolvam conhecimentos de Ciência e Tecnologia, visando o seu entorno e as implicações sociais provenientes dessas situações.
Em pesquisas na área, Aikenhead (1994, p.7-8) mostra que os materiais de ensino em CTS são bem organizados:
- "A seqüência de ensino sugerida ... começa no domínio da sociedade, atravessa o âmbito da tecnologia e da ciência tradicional, e passa novamente pela tecnologia. Existe uma vantagem em se retornar à tecnologia, principalmente para os alunos que já haviam estudado o assunto antes. Eles terão mais consciência do que aprenderam pelo uso da Ciência do que pelo uso da Tecnologia. Dessa forma, os alunos irão entender mais profundamente o significado de Ciência
- e Tecnologia. Nesse momento, podem ser introduzidas tecnologias mais complexas. ....Finalmente, ... termina no domínio da sociedade. Aqui os alunos geralmente discutem a questão ou o problema original e tomam as decisões necessárias. Essas decisões são pensadas numa compreensão profunda da base científica, no entendimento da relevância tecnológica e no anúncio de valores relevantes." (tradução nossa).
## Para Manassero, Vázquez e Acevedo (2001, apud Acevedo Diaz, 2002, p.2):
- "... A educação CTS é uma inovação destinada a promover uma extensa alfabetização científica e tecnológica (s(science and technology literacy)y), de forma que se capacitem todas as pessoas (s(science and technology for all) l) para poder tomar decisões responsáveis em questões controvertidas relacionadas com a qualidade das condições de vida, num sentido amplo, em uma sociedade cada vez mais impregnada de Ciência e Tecnologia." (tradução nossa).
Do ponto de vista da formação inicial e continuada de professores, o professor engajado nessa proposta necessita ultrapassar o conhecimento meramente propedêutico e se preocupar com os problemas sociais relacionados com o científico e o tecnológico.
Um fator importante nessa implementação diz respeito ao momento da prática pedagógica. O professor, além de assumir uma postura que seja motivadora para conduzir o assunto, deve permitir que os alunos tenham voz ativa na discussão.
## Construindo a proposta
A metodologia adotada para o trabalho de pesquisa percorreu três etapas:
1 a a etapa - - Foi realizada uma série de 10 entrevistas com professores de Física que atuam no EM da cidade Rio de e Janeiro, com o objetivo de verificar a opinião deles sobre a introdução de tópicos de FM no EM, particularmente os raios X.
2 a a etapa - - Após a análise dos dados da pesquisa de opinião com os professores foi necessário realizar uma análise de conteúdo em livros do EM e revistas da área de Física, no intuito de verificar a existência de material que fizesse uma abordagem sobre FM, especificamente os raios X, num enfoque em CTS e numa linguagem pertinente ao EM.
3 a a etapa - Na etapa final, nos apoiamos nos resultados anteriores e partimos para a elaboração de uma proposta metodológica para ser utilizada no EM regular de Física, o que constitui o objetivo principal desse trabalho. Essa proposta foi analisada por um professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e, posteriormente, foi validada por um grupo de nove professores 5 que atuam no EM regular de Física.
## A pesquisa com os professores
Com o objetivo de verificar a opinião dos professores de Física do EM sobre a introdução de tópicos de FM, particularmente os raios X, no currículo formal, optamos por uma pesquisa qualitativa, onde buscamos na fala dos professores subsídios que ratificassem as hipóteses iniciais e confirmassem a revisão de literatura, além de fornecer resultados importrtantes que confirmaram o quadro teórico analisado.
Trabalhamos com uma amostra seletiva6 a6 de dez professores de Física que atuam no Ensino Médio, público e privado. Utilizamos para a coleta de dados a técnica de entrevistas semi-iestruturadas s e elaboramos comomo guia de entrevista um questionário com nove perguntas, dando suporte às entrevistas realizadas no período entre Julho e Setembro de 2004. Procuramos desenvolver uma conversa informal durante a entrevista, fugindo de uma postura intimista de interrogação, a fim de que o professor não se sentisse pressionado a responder as perguntas, o que poderia ser desastroso em termos de fidelização das suas respostas.
## A construção da proposta metodológica
O resultado da análise de dados levantados junto aos professoreses, os trabalhos de Ostermann e Moreira (2000a e b), a análise de conteúdo dos livros didáticos e das revistas de Física e as Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais 7- - PCN's+ (BRASIL, 2002) 7 7 contribuíram para que fosse elaborada uma proposta metodológica para a terceira série do EM, onde o tópico raios X foi abordado num enfoque metodológico em CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade).
Apoiados na análise de dados da pesquisa com os professores onde, dentre outras sugestões, assinalaram a importância da utilização da parte histórica no conteúdo didático, utilizamos a História da Ciência como um dos alicerces da proposta no sentido de mostrar ao aluno a contextualização histórica da época do desenvolvimento da teoria científica e sua evolução até os dias atuais.
## Procedimentos para a construção dos módulos didáticos da proposta metodológica
Estruturamos a proposta metodológica para um ensino de Física mais inovador com uma 8 apresentação inicial dos objetivos e dividimos o texto em módulos 8 . Optamos por começar com um módulo onde pudéssemos identificar o que os alunos sabem sobre os raios X e de que maneira o assunto está inserido no seu dia a dia. Dessa forma podemos desenvolver uma
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Na época de construção dessa proposta ainda não estava disponível o documento elaborado pela Secretaria Estadual de
Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEE-E-RJ) em parceria com o Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza da
estratégia onde a fala do aluno é o foco principal, saindo do modelo tradicional de aula e motivando -o. Na pesquisa com os professores, essa ordenação também foi sugerida.
No início de cada módulo são sugeridas ORIENTAÇÕES PARA O PROFESSOR, onde são abordados:
Nos Objetivos Gerais a idéia central do módulo, mostrando o que se pretende desenvolver em termos teóricos com os alunos;
Nos Objetivos Específicos - - as habilidades e competências que pretendemos desenvolver com os alunos, a fim de que o conhecimento adquirido possa estar integrado num contexto científico, histórico e social;
Na Metodologia - - atividades para serem realizadas com os alunos, assim como, dependendo do módulo, indicamos endereços eletrônicos que complementam as atividades (caso o professor tenha disponível o recurso da Internet na a escola) e selecionamos uma bibliografia de referência que dê apoio ao professor;
Nas Questões para Discussão - perguntas que podem servir de motivação inicial para a É g introdução do assunto daquele módulo. É importante ressaltar que essas questões são apenas as sugestões, portanto, ficando a critério do professor utilizá-las ou não, assim como modificá-las, dentro de seus objetivos, ou formular novas perguntas.
A ordenação e a estruturação dos módulos seguiu a seguinte ordem:
MÓDULO 1 -OS RAIOS X E SUAS APLICAÇAÇÕES: Introdução; Aplicações na medicina: radiologia diagnóstica, radioterapia, teleterapia; Aplicações na indústria; Aplicações na agricultura: melhoramento de plantas, tomografia de solos, irradiação de alimentos; Aplicações na química; Aplicações na genética; Aplicações na odontologia; Outras aplicações.
MÓDULO 2 -A DESCOBERTA DOS RAIOS X: Introdução; A experiência de Röntgen; Considerações importantes; Aplicações imediatas e uso indiscriminado.
MÓDULO 3 -A FÍSICA DOS RAIOS X: -O que são ondas?; O espepectro eletromagnético; Produção dos raios X: dualidade onda-partícula, os postulados e o modelo atômico de Bohr e como os raios X são produzidos.
MÓDULO 4 -EFEITOS BIOLÓGICOS DAS RADIAÇÕES E RISCOS PARA A SAÚDE: Introdução; Interação da radiação com a matéria; Efeitos da interação das radiações sobre as células; Classificação dos efeitos biológicos: efeitos estocásticos, determinísticos, somáticos, genéticos, imediatos e tardios.
- O texto final ficou com 52 páginas, incluindo fotos, figuras, tabelas e as referências bibliográficas. Os módulos se completam, mas são independentes, isto é, podem ser estudados separadamente sem prejuízo didático. O enfoque metodológico adotado permite que tanto a fala do professor quanto a dos alunos sejam relevantes durante o o estudo de cada módulo visando um dinamismo e uma participação de todos no processo de construção da aprendizagem.
## A validação da proposta pelos professores
Optamos por validar a proposta metodológica com os pares, pois são estes que primeiro vão analisáála para a utilização na sala de aula. Foi entregue uma cópia da proposta metodológica e um questionário de avaliação a nove professores de Física do EM que atuam na rede particular e estadual do Rio de Janeiro. Suas respostas chegaram ou pessoalmente ou via a Internet.
Um dos professores chegou a aplicá-la em parte, em uma de suas turmas do EM, com boa aceitação, segundo ele, por parte dos alunos, que participaram da leitura de uma parte do texto da parte histórica dos raios X e fizeram uma discussão em grupo.
Um outro professor utilizou as referências sobre os endereços eletrônicos utilizados na proposta metodológica para fazer um trabalho de pesquisa com alunos da oitava série do ensino fundamental, mostrando que sua aplicação pode não se restringir estritamente ao EM.
## Considerações finais
## A opinião dos professores
Mesmo constituindo uma novidade em termos de conteúdo, o tópico raios X foi bem aceito pela maioria dos professores. Eles ratificam sua escolha por ser um assunto que pertence ao dia a dia do aluno e servir como incentivo para estudá-lo. Além disso, pode-se relacioná-lo com outras disciplinas do currículo do Ensino Médio. Não há maioria de opinião quanto ao momento da inserção desse assunto no currículo atual. Alguns professores acreditam ser melhor inseri-lo no conteúdo de Ondas, enquanto outros preferem quando estiverem falando de Eletromagnetismo. Há ainda sugestões que partem das aplicações do dia a dia do aluno para introduzir a parte relativa aos conceitos iniciais. Quanto à série do Ensino Médio em que deve ser inserida, a maioria concorda que o aluno deve ter uma boa base de conhecimentos prévios, não só de Física, para que esse estudo não seja prejudicado. A série escolhida foi a terceira.
A maioria dos professores concorda que a matematização o deve ser feita de forma superficial (quando houver), priorizando a parte qualitativa (conceitual) e fenomenológica do assunto.
Com relação à parte histórica, há unanimidade por servir de base para contextualizar o desenvolvimento da teoria científica no tetempo e no espaço, além de fazer com que o aluno entenda sua evolução até os dias atuais, propiciando até mesmo, motivação para o desenvolvimento de habilidades e competências para a área das Ciências.
Houve uma distinção bem clara quanto à utilização do tetema no ensino público e no particular. Os professores em sua maioria indicam as instituições públicas como o melhor local para se introduzir o assunto. Mostram que fatores como o descompromisso com o vestibular, principalmente no noturno, flexibilidade curricular e a autonomia dos professores contribuem de forma significativa para essa escolha, apesar de indicarem que a carga horária de dois tempos por semana para a disciplina Física é muito pouco para trabalhar mais um item no currículo.
Quanto ao ensino paparticular, onde a preparação dos alunos para os exames vestibulares é prioridade e tópicos de Física Moderna e Contemporânea não fazem parte da grade curricular das escolas do Rio de Janeiro, ficaria impossível na visão da maioria dos professores de trabalhar esse assunto em detrimento aos tópicos que são cobrados nessas provas.
Os professores em sua totalidade acham importante ter disponível um material didático sobre os raios X e concordam que há necessidade de um curso de capacitação/atualização para que possam trabalhar com esse material em sala de aula. Indicam ainda a necessidade de se associar ao material recursos pedagógicos como vídeo, retroprojetor, etc.
Concluímos que o resultado da análise de dados mostra um quadro favorável para a introdução de uma proposta metodológica com tópicos de Física Moderna e Contemporânea, particularmente os raios X, no atual currículo de Física do Ensino Médio do Rio de Janeiro. O trabalho de Ostermann e Moreira (1998, apud OSTERMANN; MOREIRA, 2000c) já nos apontava essa conclusão.
Apesar dos problemas apontados pelos professores e que necessitam ser considerados pela proposta, não devemos nos afastar de um objetivo maior, respaldado também pelos PCN's e
pelas Diretrizes Curriculares de Física para o EM, que é a atualização curricular com unidades de estudo que aproximem professores e alunos de uma Física mais atual e contextualizada, contribuindo de forma significativa para uma educação científica eficaz e necessária .
## O assunto raios X nos livros didáticos e revistas da área.
Em relação aos livros didáticos mais utilizados no EM regular verificamos que o assunto é abordado de forma bem superficial. Na grande maioria dos livros é feita uma pequena menção ao assunto na parte relativa às Ondas, com a apresentação do espectro eletromagnético. Apenas um dos livros analisados faz uma abordagem mais detalhada, visando a parte histórica e as aplicações na medicina. A maioria dos textos analisados apenas apresenta o assunto, com exceção do livro do GREF, não se preocupando com o enfoque metodológico. O livro do GREF segue uma linha metodológica em CTS, mas não faz uma abordagem relevante ao assunto.
As revistas da área de Ensino de Física analisadas também fazem pouca referência ao assunto. A maioria dos artigos encontrados trata da parte histórica, apesar de alguns artigos terem um grau de detalhamento muito bom. Um problema encontrado nas revistas é que a parte didática para o EM é pouco explorada, ficando difícil sua utilização. Existem bons artigos sobre radiações, que é um tema mais geral, mas seria necessário fazer um recorte específico.
Dessa forma, concluímos que há, como apontado na pesquisa de opinião com os professores de Física e em alguns trabalhos na área de Ensino de Física, uma escassez de material sobre FM, especificamente os raios X, apoiado numa linha metodológica em CTS, sendo este um dos fatores principais para que elaborássemos uma proposta metodológica com essas características e que pudesse ser utilizada no EM regular de Física.
## A validação da proposta metodológica
A análise das respostas obtidas nos questionários de validação da proposta metodológica nos permite afirmar que a proposta foi validada com algumas ressalvas referentes à estruturação do conteúdo do material. De uma forma geral, os professores concordam que a proposta está adequada à terceira série do EM, visto que os alunos devem apresentar conhecimentos mínimos para o entendimento do conteúdo da proposta. Um dos professores descartou a utilização do material nessa série devido à preparação dos alunos para os exames vestibulares.
Nos parece que vincular atualização curricular aos programas dos exames vestibulares tem constituído um sério problema que anula qualquer tentativa de se desenvolver projetos que busquem trabalhar com conteúdos mais atuais, e que se agrava à medida que muitos professores adotam atitudes passivas a respeito do assunto ou, simplesmente, ignoram que o currículo de Física do Estado do Rio de Janeiro parou no século XIX. Não se trata de colocar a culpa de uma desatualização centenária nos professores, pois também somos professores atuantes no EM e no ensino Superior, mas de promover um diálogo mais efetivo que desencadeie um pensamento comum que essa atualização é mais do que necessária, é urgente.
Com relação às políticas públicas, cabe ressaltar que não têm contribuído para que isso aconteça. A Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEE-RJ) em parceria com o Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IF-UFRJ) iniciaram um estudo para elaborar uma nova orientação curricular para o EM público. Analisando o documento provisório que está disponível no site do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN/UFRJ), verificamos que na parte referente à Física no EM, especificamente o conteúdo de de Física Moderna, consta que A Física Moderna não foi incluída no currículo proposto, contrariando algumas tendências recentes. Essa opção deve-e-s-se em boa parte ao fator tempo, pois tal inclusão só poderia se dar com o sacrifício de tópicos essenciais à própria compreensão do tema. (Livro II, parte VII, p.161).
Reconhecemos que com a atual carga horária disponível para o ensino de física no EM público de dois tempos por semana, fica inviável acrescentar mais conteúdo ao currículo. Esse problema já havia sido sinalizado na pesquisa de opinião que realizamos com os professores do EM. Substituir simplesmente um conteúdo pelo outro também não resulta na melhor solução. Entretanto, pode-e-se pensar o redimensionamento da carga horária disponível para a Física no ensino público visando uma educação científica mais sólida e atual, onde o aluno possa desempenhar na plenitude sua cidadania, inserido no contexto científico e tecnológico e tomando decisões conscientes que possam contribuir positivamente para sua vida e da sociedade em vive. Não podemos negar ao estudante do EM público a chance de estudar conteúdos mais recentes e que se aproximem do seu dia a dia.
Retomando as conclusões sobre a validação da proposta metodológica pelos professores, percebemos que os professores gostaram do conteúdo elaborado e sinalizaram que o material deveria vir acompanhado de exercícios e seus respectivos gabaritos. Essa postura é compreensível visto que, na sua prática pedagógica, o livro-o-texto permeia todas as ações de inserção de cononhecimento em sala de aula. A disposição dos assuntos em módulos independentes foi uma boa escolha na opinião da maioria dos professores, assim como os assuntos dos conteúdos de cada módulo. Um dos professores, inclusive, chegou a usar na prática o módulo referente à parte histórica dos raios X, obtendo um bom resultado de aceitação e participação da turma. Um outro professor usou as referências de sites citados no material para realizar um trabalho com uma de suas turmas do Ensino Fundamental (oitava série).
Dessa forma, acreditamos que a pesquisa alcançou seus objetivos principais e que a proposta metodológica elaborada possa contribuir significativamente para o ensino de uma Física mais atual e, conseqüentemente, mais próxima do dia a dia dos alunos.
Esse trabalho indica a necessidade de uma etapa posterior onde a proposta metodológica, feitas as devidas modificações sugeridas pelos professores na etapa da validação, seja aplicada junto às turmas do EM.
## Referências Bibliográficas
ACEVEDO DIAZ, José Antonio. Cambiando la práctica docente en las ciências a través de CTS. Madrid: Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciência e la Cultura, 2002. <http://www.campus-oei.org/salactsi/acevedo2.htm> Acesso em 19 mar. 2006.
AIKENHEAD, Glen S. What is STS science teaching? In: SOLOMON, J.; AIKENHEAD, Glen S. STS Education: International perspectives on reform. New York: Teachers College Press, 1994. < http://www.usask.ca/education/people/aikenhead/sts05.htm> 19 mar. 2006.
BRASIL. Lei no no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. < http://www.presidencia.gov.br/ccivil\_03/Leis/L9394.htm> . 18 mar. 2006.
BASSO, Délcio. Abordagem de Física Moderna no Ensino Médio. Trabalho apresentado ao VII International Conference on Physics Education, Florianópolis, 2000.
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