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FORMAÇAO INICIAL DE UM PROFESSOR DE FÍSICA: ESTUDO DE CASO

Giselle Faur De Castro, Maria Da Conceiçao Barbosa-Lima

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
X
Ano
2006
Data
18/08/2006
Linha de pesquisa
Formaçao E Prática Profissional De Professores De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Formação Inicial de um Professor de Física: Estudo de Caso

*Castro, G. F. & Barbosa-a-Lima, M. C. - - - IFADT/UERJ

## Resumo

Nosso objetivo neste trabalho é, a partir de algumas aulas escolhidas de um professor recém -f -formado, ministrando suas primeiras aulas em turmas para nivelamento de novos universitários, analisar e identificar as contribuições da formação inicial que foram cruciais para a formação do modelo epistemológico do licenciado tendo como documento de pesquisa as aulas e entrevistas gravadas em áudio e e os dados de campo.

Procuramos focar a análise nas falas do professor para entender que fatores construídos durante sua formação estão presentes em sua prática docente e, além disso, buscamos identitificar como esse professor utiliza e associa os seus conhecimentos e o que foi construído durante seu curso de licenciatura.

Nesta pesquisa vamos promover uma discussão entre o que foi privilegiado pelo professor em suas falas e dados escritos colhidos nas entrevistas além do registro das discussões e questionamentos propostos nas aulas. Além disso, faremos uma discussão entre o que foi privivilegiado pelo sujeito e o nosso referencial de prática docente presente nos cursos ministrados na Licenciatura em Física do Instituto de Física Armando Dias Tavares da Universidade do EsEstado do Rio de Janeiro.

Apresentaremos, como resultado de nossa pesquisa, a comparação entre o embasamento teórico construído pelo professor durante sua formação inicial e suas atitudes e propostas em sala de aula, ou seja, sua prática docente.

Palavras -chave: formação inicial, ensino de física, prática docente.

## Como nós pensamos que deve ser a formação inicial de um professor de Física.

- O tema Formação Inicial de Professores de Física vem sendo objeto de estudo há bastante tempo por vários pesquisadores de nossa área, como por exemplo, Carvalho e Gil-Pérez 1993, Queiroz 2000, Mortimer 2002 e De Pro Bueno; Valcárcel Pérez e Sánchez Blanco, 2005.

Consideramos que formar um Professor é também formar um Educador, alguém que seja capaz de perceber as oportunidades de utilizar e realizar pesquisas sob diferentes enfofoques. Desse modo, as disciplinas integradoras tais como as Instrumentações para o Ensino, no caso da Física e as Práticas de Ensino, no caso da Educação (Carvalho e Vianna, 1988), passaram a ser mais valorizadas na formação deste profissional.

Pensamos que a profissão de professor seja uma das de mais complexa formação, posto que, além dos conhecimentos vários que devem ser desenvolvidos pelo aprendiz, ele ainda deve lutar para ser reconhecido como profissional, já que o senso-o-comum ainda estabelece que qualquer um que tenha um saber é capaz de ensiná-lo, ou ainda, que para ser profesessor é preciso possuir uma espécie de dom, como se fossem desnecessários anos de estudo, dedicação e pesquisa em várias áreas do conhecimento (Perrenoud, 2002).

Ser professor não é fácil, formá-los também não é. Mas podemos ajudá-los a aprender a refletir antes, durante e após a ação. A importância da reflexão, principalmente na ação, tem sido assunto de livros (Schön 2000), de teses, como por exemplo, de Queiroz (2000) e de artitigos como os de Longuini e Nardi (2001, 2002 e 2003).

Segundo Bejarano & Carvalho (2003), é no ensino básico que se constrói as concepções sobre os processos de ensino e aprendizagem, criando um modelo de professor, além de

criar uma visão sobre ciência . Sendo assim, o amálgama surgido do que é ensinado, com o que é e foi vivido em sala ao longo da vida de estudante (seus professores e suas características), observado, aceito ou negado, será um ingrediente importante nas características profissionais que o professor adotará.

Outro ponto a ser destacado é que a influência das concepções pedagógicas alternatitivas é de grande importância para o processo de ensino-o-aprendizagem, pois alguns pensamentos espontâneos sobre a profissão docente podem impedir a renovação do ensino (Carvavalho e Gil -Pérez, 1993). Durante o curso de formação inicial, as disciplinas que valorizam o ensino construtivista não são suficientes para garantir o enfraquecimento desse senso comum pedagógico e a adoção de práticas docentes inovadoras.

É comum na Universidade que a interlocução entre matérias de domínios diferentes simplesmente não exista, ou seja, conteúdo de Física, nada tem a ver com as disciplinas de Educação. Mas, quando falamos da relação entre o conteúdo específico e a didática estamos falando obrigatoriamente sobre interdisciplinaridade. Como podemos querer uma escola dinâmica que trabalhe com o objetivo de alcançar uma educação melhor se não formamos professores capazes de desenvolver um trabalho interdisciplinar? Por isso, os formadores devem estitimular cada vez mais o trabalho com temas que envolvam diferentes disciplinas (Morin, 2002).

Finalmente, um aspecto que não pode ser esquecido é o uso das palavras que está sendo cada dia mais relevante e fortemente imposto ao professor. Como trazem Barbosa-Lima, Castro & Araújo (2003 - - pp 4) "... é a palavra, como elemento essencial da linguagem, que garante a possibilidade de transmissão de experiências e, conseqüentemente, está no cerne do processo pedagógico" . Existe uma grande dificuldade, por parte dos licenciandos, em explicar a seus futuros alunos como termos da linguagem de uso cotidiano tomam um sentido bem definido e específico na Física. Além disso, as várias palavras de uso comum que são submetidas a novos e precisos significados na Física geram quase sempre algum tipo de incompreensão por parte dos alunos. Dessa maneira se faz necessária uma maior atenção para esse aspecto na formação do futuro professor levando em consideração que a discussão sobre o emprego das mesmas palavras tanto em situações coloquiais quanto técnicas deve ser realizada para explicitar a difeferença entre os significados assumidos em aula e na vida comum.

Outro ponto que merece e destaque é o gesto como maneira de expressão ou de ênfase É (Barbosa-g Lima, Castro & Araújo, 2003). É importante destacar que existe significado também no silêncio em sala de aula (Santos e Mortimer, 2003), ou seja, significado de posturas e gestos de alunos que podem mostrar ao professor pensamentos e concepções que, na maioria das vezes, não conseguem ser explicitadas em palavras seja por vergonha ou medo de errar .

Todos esses aspectos são considerados atualmente de extrema importância pelas pesquisas na área de Ensino de Física e também nas disciplinas, obrigatórias ou eletivas, do curso de Licenciatura em Física que foram, em sua grande maioria, cursadas pelo nosso professor.

Esses pontos nos ajudarão a refletir sobre a importância da formação inicial de professores em nossa Universidade e também para entender como esse professor recém formado utiliza e associa os seus conhecimentos e o que foi construído durante seu curso de licenciatura.

## Formação Inicial de Professores de Física na UERJ

A discussão sobre as disciplinas que compõem, hoje, o curso para a formação inicial de professores de Física é indispensável, pois retrata grande parte da vivência do docente que tomamos como caso a estudar durante seus anos na Universidade. Conseqüentemente, analisando conjuntamente as disciplinas oferecidas e cursadas com as suas falas poderemos identitificar o embasamento construído durante sua formação inicial. Atualmente são oferecidas quatro disciplinas obrigatórias e três eletivas (optativas). As obrigatórias são InInstrumentação para o

Ensino de Física I, Prática Específica para o Ensino de Física I, Prática Específica para o Ensino de Física II e Filosofia e História da Física. E as eletivas são Instrumentação para o Ensino de Física II, O Ensino e a Evolução das Idéias da Física e Linguagem e Ensino de Física.

As Práticas de Ensino buscam trabalhar com os alunos a realidade de sala de aula auxixiliando suas escolhas em relação à postura e ao modelo epistemológico a ser adotado ao longo da disciplina com vista a seu aprimoramento e utilização no exercício posterior. Em geral os trabalhos desenvolvidos são apoiados em projetos, pois segundo Costa (2003, p.1321):

- ... a construção de projectos educativos de escola leva-nos a equacionar uma concepção dos estabelecimentos de educação e ensino em que a coerência organizacional e o sentido estratégico constituam referências básicas a uma escola mais autônoma, participada e localmente integrada.

As disciplinas de Instrumentação para o Ensino além de trabalharem a vertente pedagógica buscam também dar igual ênfase ao conteúdo de Física. Para isso, durante os cursos, há montagem de experimentos, discussões sobre analogias, aulas montadas pelos alunos. A Instrumentação II é diferenciada por tratar especificamente da introdução da Físísica Moderna no nível médio de ensino.

- A disciplina Filosofia e História da Física busca trabalhar os conceitos físicos contextualizados em seu tempo, local de desenvolvimento e filosofias vigentes à época.

Outra disciplina que merece destaque é Linguagem e Ensino de Física. O curso mostra como é importante para os alunos o domínio do professor em relação à linguagem e a língua utilizada em sala de aula (Mortimer, 2000). O curso mostra caminhos para uma aula de Física diferenciada, lúdica e motivadora.

- É necessário ressaltar que as disciplinas Linguagem e Ensino de Física e O Ensino e a Evolução das Idéias da Física não foram cursadas pelo nosso professor devido a problemas com a vigência de dois currículos, que o impossibilitava d de cursa-las.

## O que tem a ver a Formação Inicial de um Professor com as suas primeiras aulas?

Um professor recém formado carrega, além de anseios e expectativas, todos os pontos que foram por ele privilegiados em sua formação e que o acompanharão por alalgum tempo ou por toda sua vida acadêmica. Logicamente, todas as disciplinas, principalmente as específicas da Licenciatura, serão peças fundamentais e influenciarão diretamente as primeiras aulas do professor. Assim, consideramos importante tratar dessas d disciplinas para acompanhar, além do embasamento teórico, as concepções formadas pelo nosso professor explicitadas nas atividades sugeridas. Além disso, poderemos notar se o fato do sujeito não ter cursado duas de todas as disciplinas pode influenciar em sua formação acadêmica .

## Metodologia

- O presente trabalho relata uma pesquisa que tem por característica, dentre os quatro titipos considerados por Ludke & André (1986) ¾ ¾ etnográfico, estudo de caso, participante e pesquisa-ação ¾ ¾ ¾ o segundo deles: estudo de caso, especificamente o caso de um professor recém formado em Física frente à primeira turma em que é efetivamente regente.
- É preciso levar em consideração também que o problema em questão é estudado em um contexto de sala de aula, com alterações inevitáveis em uma experimentação. Além disso, o professor pesquisado é colocado a todo o momento, não só na sala de aula como nas entrevistas - - fontes de informação -, à prova de suas concepções e pensamentos. Sendo assim, as relações es existentes e percebidas, os comportamentos de alunos e, principalmente, do professor estão registrados.

O primeiro passo da coleta de dados foi gravar em áudio algumas aulas ministradas pelo professor Ray na disciplina Conceituações de Física Básica para a o Programa PROINICIAR, que tem por características trabalhar conceitos de Física com alunos recém ingressados na Universidade. Em seguida, fizemos uma identificação desse material e escolhemos três (3) aulas para transcrever, baseando-nos na metodologia sugerida por Lemke (1997), das quais selecionaremos alguns episódios de ensino para analisar.

Além das aulas gravadas realizamos uma entrevista que visou identificar algum modelo epistemológico construído pelo professor que guiasse suas práticas docentes e reflexões. Essa entrevista foi transcrita e analisada.

Além dessa entrevista, enviamos por correio eletrônico, "e-mail", para o professor algumas perguntas semelhantes às que foram feitas na entrevista para que pudéssemos identificar e analisar as suas reais concepções, já que a entrevista realizada anteriormente é um instrumento que não permite uma reflexão mais profunda dos assuntos abordados. Nesse caso, o professor dispôs de algumas semanas para responder ao questionário tendo a possibilidade inclusive de algum tipo de pesquisa. Também chamaremos esse questionário de entrevista.

A entrevista propriamente dita foi cotejada com o que estamos denominando entrevista escrita, o material enviado por e-e-mail.

Durante a análise das entrevistas, identificamos alguns aspectos que foram considerados mais relevantes pelo professor para sua prática docente, uma vez que foram muito destatacados em suas argumentações. Dessa maneira, resolvemos fazer uma análise das entrevistas baseada nesses aspectos mais citados para fafazermos, posteriormente, uma breve discussão e comparação do que foi evidenciado pelo professor nas duas entrevistas realizadas com a realidade, ou seja, sua prática em sala de aula. Para isso comparamos os pontos ressaltados pelo professor com os episódios os das transcrições das aulas. .

Finalmente, com a análise mais abrangente entre teoria e prática, pudemos identificar a contribuição da formação inicial para a prática desse professor.

## Análises

As análises que fizemos dos dados coletados foram baseadas no dialogismo de Bakthin (1995 e 1997) quando esse autor afirma a que o que é pronunciado e/ou escutado não são palavras, mas sim os diversos sentidos que cada uma delas encerra, dependendo do conontexto em que são pronunciadas. Nas palavras do autor:

A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideoeológico ou vivencial. É assim que compreendemos as palavras e somente reagimos àquelas que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida. (1995,p.95).

Desta forma , o vocabulário utilizado pelo professor durante a coleta dos dadados , que é próróprio da vivivência acadêmica, nos fornece evidências que permitem inferir que houve , se não unicamente , uma grande influência das disciplinas por ele cursadas em seu discurso sobre sua prárática pedagagógica .

## Aulas e Entrevistas

Inicialmente, devemos levar em consideração que nosso foco é o professor Ray e não os alunos, visto que o objetivo deste trabalho é identificar os pontos relacionados com sua formação inicial e a interação desses pontos com o assunto tratado em sala de aula. Dessa maneira, não é de nosso interesse identificar os alunos ou seus discursos.

Primeira aula intitulada de 'Evolução Histórica'

A primeira aula gravada e transcrita tratou de uma exposição claramente filosófica em que o professor tratou de assuntos relacionados a Sócrates, Platão e Aristóteles. Entendemos essa aula como uma questão mais profunda sobre Ciência que leva os alunos a um mundo diferenciado daquele a que estão acostumados em sala de aula. Essa característica se mostrou bastante importante no decorrer das duas outras aulas.

Podemos ressaltar a questão levantada em aula sobre a essência da natureza estar presente também na linguagem que utilizamos. Segundo Ray:

- ...e que a essência da natureza ta na linguagem, ou seja no nome que você dá ao indivíduo, a... a qualquer tipo de objeto, a qualquer coisa..." . [E explica:] "...se você arrancar um pedaço dela, ela vai continuar sendo a cadeira, a cadeira em si é uma essência dela, o nome...

Outros temas filosóficos são introduzidos na aula como: a questão relacionada ao sentitimento humanano e à sua alma tratada por Sócrates; o modelo geocêntrico proposto por Aristóteles; e a teoria do ímpetus.

Caracterizamos a aula como sendo expositiva com alguns episódios de interação dialógica. Também devemos ressaltar a importância dada à parte experimental demonstrativa que o professor, mesmo mantendo uma aula expositiva de cunho filosófico, apresentou. Utilizou um pequeno experimento sobre lançamento de corpos para dar mais motivação em sala de aula e permitir uma maior interação com os alunos, visto que o assunto tratado era complexo.

## Segunda aula intitulada de 'Atrito'

Na análise dos episódios da segunda aula intitulada 'Atrito' notamos que sua estrutura é do tipo diálogo triádico. Lemke (1997) elabora com maiores detalhes a caracterização desse diálogo. O autor afirma:

- O que temos, então, tanto aqui como reiterativamente no diálogo dentro da sala de aula, não é uma simples estrutura dupla pergunta-a-resposta, mas um papadadrão de pelo menos três partes: pergunta-aresposta-a-avaliação, ao que denominarei diálogo triádico. Um diálogo triádico típico seria: [preparação do professor],pergunta do professor,[convite (silencioso) do professor para responder], [oferecimento de alunos para responder (mãos levantadas)], resposta do aluno, Avaliação do professor, [Elaboração do professor] (p. 24)

Além disso, na análise dos episódios notamos que o professor tentou aproveitar todas as contribuições dos alunos. Assim, mesmo sem uma resposta correta, ele tinha como objetivo levar em consideração a participação dos alunos no processo de elaboração contínua de sua aula.

- Caracterizamos a aula como sendo expositiva com alguns episódios de interação dialógica e experimental demonstrativa. Um aspecto que merece destaque é a utilização de experirimentos e materiais simples em sala de aula. Conseguimos identificar três materiais: plano inclilinado com objeto com faces de materiais diferentes ¾ ¾ ¾ latão, lixa e feltro ¾¾, cadeira de pregos e caixa de madeira com material em dois tamanhos para trabalhar o conceito de pressão. Entendemos ter sido importante a utilização desses materiais, pois, a cada demonstração ficava mais clara a solução das dúvidas dos alunos.

Outro ponto importante foi o enfoque dado por Ray durante toda a aula à História da Ciência. Esse aspecto que traz situações importantes para uma aula como, a identificação na História das concepções alternativas às científicas dos próprios alunos.

- O que notamos é que Ray não se preocupou em nenhum momento com a linguagem utitilizada em relação às palavras que encerravam em si definições próprias da Física. Essa postutura gera preocupação, pois, além de ser um aspecto de extrema importância no ensino de Física, existe uma disciplina eletiva Linguagem e Ensino de Física - , que não foi cursada pelo

professor, que se preocupa exclusivamente com esse elemento que vem se tornando cada vez mais problemático em sala de aula, na maioria das vezes, por falta de habilidade do professor.

Essa questão mostra que é necessário reavaliar a importância dada não somente para as disciplinas obrigatórias, mas também para as eletivas, pois, percebemos aqui que elas não podem ser deixadas para segundo plano.

## Terceira aula intitulada de 'Galileu'

Na análise dos episódios da terceira aula notamos, como na segunda, que sua estrutura também é do tipo diálogo triádico.

Na análise dos episódios selecionados notamos que o professor busca logo no início da aula interagir com os alunos falando, dentro do contexto, sobre a questão do senso comum e questionando para aproveitar todas as contribuições dos estudantes.

Além disso, após a resposta de alguns alunos, ele não se preocupa em dizer se está correto ou não. Para fazer com que seus alunos entrem em conflito com suas próprias respostas, o professor realiza um experimento bem simples de duas bolas caindo.

Notamos ao longo da aula a utilização de três experimentos diferentes - - plano inclinado de Galileu, duas bolas de massas diferentes e o carrinho para falar sobre referencial - - o que mostra haver uma preocupação por parte do nosso professor em levar os alunos a construírem modelos com auxílio de instrumentos que sirvam de apoio à visualização da Física.

Outro ponto a ser levado em consideração é a maneira como o professor trabalha as respostas e os questionamentos dos alunos. Uma característica importante nesse aspecto é a introdução da História da Física para levantar as concepções alternativas. Destacando um pepequeno trecho da aula: "...A concepção que ela colocou é Aristotélica, era o que os Aristotélicos tinham em mente, ou seja, que o corpo mais pesado, logicamente é ele, chegava primeiro...". .

Outro aspecto que merece destaque é o fato de levar em consideração, durante discussões sobre a História da Ciência, a interdisciplinaridade, ou seja, questões que vão além da Física, mas que foram úteis no seu processo de desenvolvimento, como podemos destacar a guiza de exemplo:

- ...Batimento cardíaco. Ele utilizava as pulsações cardíacas para medir, quando se deslocava né, o tempo das bolinhas que ele jogava. Mas só que a medida que você tem não é tão precisa ... ele era músico também e tocava alaúde ... e ele começou a fazer medidas com ritmos de música....

Nesse caso, o professor tenta utilizar alguma analogia para levar os alunos a associarem o assunto com algum aspecto familiar para eles:

- A -Só uma dúvida. Vamos supor se eu... se eu pulasse e ficasse de pé isolado é... direto. Isso poderia... poderia o quê? [...] lá atrás e a Terra ia continuar girando? Vou perder a veloc idade?
- P - Aí, no caso, você não cairia na mesma posição. Veja só, é como se, por exemplo, eu lançasasse um foguete. Você sabe que o foguete ele é lançado é... de uma plataforma móvel, que seria essa plataforma? [...] girando. Então, hã... para efeito de cálculo você quando tem, por exemplo, um lançamento de um satélite, de um foguete até, por exemplo, a lua ou apenas que coloque em órbita todos esses paparâmetros são considerados. Estou falando em dias de hoje ta, para que você tenha... os satélites permaneçam numa determinada altura já em órbita, já assim ta. É... no caso essas considerações, esses parâmetros de cálculo são levados em conta para que você tenha né todos esses ajustes dessas variáveis e tal. Ta.

Entretanto, parece que Ray não consegue criar a analogia para explicar o fenômeno em questão, ou seja, ele tem uma idéia que se encaixa no problema, mas não consegue finalizar essa idéia ou não dá importância para isso. Essa questão é bastante importante, pois além de

ser um instrumento difícil de ser utilizado em sala de aula, como todo exercício, requer prática para ser aperfeiçoado.

## Primeira Entrevista

- O objetivo principal da entrevista realizada foi buscar nas falas imediatas do professor recém licenciado concepções relacionadas à sua formação visto que já nos é conhecida a metodologia e os pressupostos teóricos da formação inicial de professores de Física em nossa Universidade. Ressaltamos também que essa análise será de extrema importância para a comparação entre teoria e prática, ou seja, o que foi exposto pelo professor na prática e nos dados teóricos explanados por ele e sua metodologia em sala de aula implícita nas transcrições realizadas.

## Análise:

Analisando as respostas do professor encontramos aspectos bastante debatidos atualmente nas pesquisas em Ensino de Ciências e, obviamente, trabalhados nas disciplinas. Um aspecto bastante interessante citado pelo professor foi a questão, já comentada anteriormente, sobre os gestos em sala de aula, ou seja, a linguagem não o verbal. Segundo Ray:

- ... ou até a própria reação que eles esboçam em sala de aula... quando você ta num determinado assunto que, às vezes, não ocorre manifestação de perguntas mas você sente pelo jeito como o aluno te observa, como ele observa o quadro néné. Então, eu procuro é... esses detalhes, essas características me chamam atenção....

Um desses pontos também bastante explorados é o aspecto do ensino interdisciplinar já explicitado em nossa introdução teórica. Segundo Ray: "...Eu acho que o trabalho, por exemplo, interdisciplinar feito em sala de aula favorece bastante a isso, abre um leque né na mente do indivíduo..."

E ainda, falando sobre a contribuição da interdisciplinaridade:

...não só contribui pro aluno trazer novos questionamentos com relação por exemplo a... à aplicação tecnológica que tá ligada ao cotidiano dele, quanto a própria evolução da tecnologia você acaba esesbarrando por exemplo na História...

Além disso, suas intenções em sala de aula estão sempre ligadas à vivência dos alunos:

...eu tenho um conteúdo a ser trabalhado e eu sempre procuro trabalhar o conteúdo da forma mais próxima ou viável possível do cotidiano dos alunos pra aproveitar um pouco a... a vivência deles com relação ao assunto que eu vou trabalhar, até... até porque não deixa de ser uma forma até de motivá-los com um problema...

Um dos aspectos considerados atualmente mais importantes nas pesquisas da área é a maneira de trabalhar com as idéias dos alunos em sala de aula visto que, na maioria das vezes, eles já entram em sala com algumas pré-concepções formadas sobre determinados assuntos. Esse ponto merece destaque na entrevista realizada, pois o professor trouxe essa visão sem antes ter sido questionado:

...eu penso da seguinte forma: eu trago as situações que eu eu vou trabalhar em sala de aula mas eu sempre me preocupo com relação ao quê que o aluno tem, traz de contexto naquilo que vai ser trabalhado. Então, é... o que eu tenho assim de visão é que ele vai, o professor no caso ele apenas vai ser um elo de ligação entre o aluno e o assunto.

Além disso, Ray traz essa questão de mediação como papel do professor: "Bem... meu papel é de trabalhar como mediador...".

Durante a entrevista, nosso professor fala diversas vezes sobre a importância da utilização de situações-problema em sala de aula para construção de conhecimento com autonomia. Segundo Ray "...com situações-problema de uma forma a você motivá-á-lo a pensar...". .

Outra questão interessante posta pelo professor está relacionada à importância da reflexão sobre a prática docente e, conseqüentemente, da formação continuada ao longo da vida acadêmica, como podemos destacar:

...com o tempo ela vai, vamos dizer assim, engessando né, ela vai se... ela vai paralisando naquele assunto da forma moldada como ela já trabalhou... é como se ela parasse no tempo.... A cada turma... você tem sempre coisas novas perante aquela realidade... cada um tem uma vivência rica, diferente é isso que faz com que você tenha que acompanhar esse processo também. A partir do momento que você pára de refletir, de trabalhar esse assunto é como se você fizesse algo já enlatado, você tem aquilo ali pronto...

Durante a entrevista, vários aspectos foram citados e explicados pelo professor. Assim, procuramos privilegiar os assuntos que consideramos ser os mais importantes no atual contexto da pesquisa em Ensino de Ciências e que foram explicitados por nós no referencial teórico.

Esses aspectos são: preocupação com a vivência e o cotidiano dos alunos; motivação em sala de aula; concepções alternativas às científicas; linguagem; modelos mentais; construção do conhecimento; aplicação tecnológica; interdisciplinaridade; reflexão na ação; utilização de experimentos em sala de aula.

- A maior dificuldade de elaboração de argumentação encontrada pelo licenciado durante a entrevista foi com respeito à pergunta sobre modelos mentais. Segundo Ray:
- ...cada um tem um modelo próprio, tem uma idéia fixa própria que, num determinado instante todos estão naquele momento trabalhando, questionando e cada um vai divagando de um modelo pra si. Eu procuro é... ter um parâmetro assim de igual pra todos pra que também não fique aquela idéia perdida...

Logo depois: "...acho que não cria fixamente como um... aí você vai trabalhando de modo a acertar."

## Segunda Entrevista - realizada via correio eletrônico

Essa entrevista foi entregue através de correio eletrônico para Ray e foi devolvida cerca de três semanas depois. Como essa entrevista não foi realizada espontaneamente é possível que algum outro instrumento - - livro, artigo - - tenha sido utilizado. Esse aspecto favorece nossa análise na comparação entre as duas entrevistas, pois assim será possível encontrar concepções modificadas entre elas.

## Análise:

Fica claro que as respostas que foram enviadas por correio eletrônico foram mais diretas e objetivas principalmente pelo fato de disponibilidade de tempo e reflexão sobre as questões propostas. Além disso, é possível que tenha havido algum tipo de estudo e pesquisa para uma reflexão mais profunda.

- O mais interessante na análise e dessa entrevista foi verificar a semelhança nas respostas, pois além de ter mais tempo para elucidar os conceitos e elaborar argumentos suas concepções são as mesmas que surgiram durante a 1ª entrevista. Assim, pudemos identificar as mesmas palavras-chave nas duas entrevistas, acrescidas apenas de dois novos conceitos que surgem nessa 2ª entrevista: autonomia e analogia.

Fica claro também que a 1ª entrevista realizada que contava com a espontaneidade pareceu permitir ao licenciado uma maior liberdade nas argumentações deixando-o bem à vontade para ir mais além das perguntas realizadas.

Dessa maneira, podemos concluir que o professor, apesar de demonstrar alguma difificuldade com temas complexos, possui um embasamento teórico firme mostrando que suas concepções são atualizadas e consensuais com as pesquisas mais recentes na área. Isso mosostra que, além de uma base concreta construída durante sua formação inicial, ele demonstra vontade de aprender e construir conhecimento, o primeiro passo para a formação continuada.

Entretanto, podemos notar algumas discrepâncias nas respostas das duas entrevistas. Como, por exemplo, no questionamento sobre modelos mentais em que na 1ª entrevista Ray não se posiciona sobre a importância de modelos na aprendizagem de Física, mas na segunda se coloca a favor como podemos notar: "...Para o ensino de Física é extremamente importante no estudo, entendimento e assimilação de modelos e suas relações com o formalismo algébrico exigido..."

## Comparações

Vamos agora realizar uma pequena cocomparação entre o que foi explanado pelo professor durante as entrevistas realizadas e sua prática fazendo uso das aulas graravadas em áudio.

A utilização de vários experimentos em todas as aulas analisadas mostra a herança deixada pela formação inicial, em especial a disciplina Instrumentação para o Ensino, no modelo epistemológico do nosso professor. Sua preocupação com a questão visual e, principalmente, com a motivação dos alunos fica evidenciada na maneira como o professor conduz a sua prátitica entrelaçanando teoria, História da Física e os experimentos utilizados ao longo das aulas.

Os aspectos relacionados aos alunos também são importantes para o professor que busca despertar neles uma interação permanente para que possíveis concepções que não estejejam em acordo com a Ciência sejam evidenciadas. Além disso, Ray procura fazer com que seus alunos entrem em conflito com suas próprias concepções, na maioria das vezes, fazendo uso de experimentos ou demonstrações como no diálogo:

Eu botei esse carrinho aqui, vavamos supor que eles se deslocam com uma velocidade constante e a pergunta que eu faço para vocês é a seguinte: Vocês acham que a bolinha vai cair aqui dentro desse copinho ou ela vai cair fora no momento em que esse objeto tiver uma velocidade constante e a [...] sair fora onde é que será que essa bolinha vai cair?

- P – Ah? Fora. Você?
- A – Fora também...

Demonstração (experimento)

- P – E agora?

Existe também a preocupação do professor com relação à importância do que se estuda em sala de aula e isso fica evidenciado nas aplicações tecnológicas que Ray leva para sua prática docente como no caso:

...Então, o que acontece, aqui você tem um disco o qual o sistema foi utilizado... não sei se você já ouviu falar do sistema de freio ABS. ... .Você tem idéia mais ou menos do que significa? Esse sistema, ele procura é... freiar [...], mas de modo a diminuir a rotação do disco no interior da garra, ou seja, ele não trava. Agora, pra você, mais ou menos, como seria a diferença entre esse e... no caso, ele diminui a rotação do disco pra aquele outro que trava?

É importante ressaltar também a preocupação com a questão da vivência dos alunos e com as concepções que os alunos trazem para sala de aula já enraizadas pelo senso comum. O professor busca trazer para sala de aula elementos do cotidiano como em:

- P - ... de suspensão né, e aqui você tem no caso duas... uma garra a qual acionada pelo pedal do freio... você dirige?
- A - Não.
- P - Não. Então não tem idéia nenhuma?
- A - Não, eu ando de bicicleta só. (risadas)
- P - Serve também...

Outro aspecto que ficou evidenciado como elemento essencial em sala de aula foi a interdisciplinaridade. Além de ressaltar esse ponto, o professor trabalha com ele em sala de aula como mostrado na análise da terceira aula.

Notamos também, como mostra a análise da primeira aula, que Ray se preocupa com a questão da linguagem também ressaltada durante as entrevista. Como no episódio em que Ray busca definir fisicamente alguns conceitos:

...ele define repouso como objeto parado, estático e o momovimento, se eu considerar a superfície lisa e a esfera, se deslocando sobre essa superfície, também perfeita, eu tenho o movimento retilíneo....

Entretanto, na segunda aula, nosso professor não se preocupa com esse aspecto.

Um aspecto bastante trabalhado nas aulas que foi pouco discutido nas entrevistas foi o uso da Filosofia e História da Física. Esse ponto foi trabalhado em todas as aulas gravadas, principalmente para mostrar na História as concepções alternativas que perduram até hoje.

## Conclusão

É necessário ressaltar que algumas aulas não são material suficiente para uma análise integral e profunda da prática de um professor, seria necessário um acompanhamento da longa fase de adaptação do professor em sua própria prática docente e da construção de sua metodologia de ensino.

Nosso objetivo aqui foi analisar algumas das primeiras aulas do professor r para encontrar aspectos trazidos de sua formação que podem vir a se modificar ao longo do exercício em sala de aula. A partir dessa análise foi possível peperceber que fatores estão presentes no recémlicenciado e trazer subsídios para eventuais modificações no currículo vigente no curso de LiLicenciatura em Física, como, por exemplo, uma análise na disciplina relacionada à linguagem.

Ressaltamos que é possível entender e identificar os princípios que norteiam esse professor e criar uma expectativa sobre o desenvolvimento de suas aulas. Sendo assim, esperamos de Ray durante sua prática profissional um grande envolvimento com a História e a Filosofia da Física, a exemplificação através de experimentos e uma contextualização dos temas apresentados com o cotidiano de seus alunos, além de um compromisso com a aprendizagem dos estudantes visto que ele os estimula à participação sempre que há oportunidade.

Foi possívível perceber claramente a interveniência das disciplinas ministradas em seu curso de formação e sua prática pedagógica, principalmente no que diz respeito à utilização da História e Filosofia da Física, da História Geral e das Instrumentações e Práticas para o Ensino.

Além disso, a comparação realizada nessa pesquisa mostra um embasamento teórico bastante sólido e coerente visto que os principais aspectos ressaltados durantes as entrevistas foram, na maioria das vezes, contemplados em suas aulas.

## Referências Bibliográficas

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