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A compreensão dos alunos do ensino médio quanto ao tema “produção de energia elétrica em larga escala”

Luciano Fernandes Silva, Luiz Marcelo de Carvalho

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2002
Data
07/06/2002
Linha de pesquisa
Didática, Currículo E Avaliação No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A COMPREENSÃO DOS ALUNOS DO ENSINO MÉDIO QUANTO AO TEMA " PRODUÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA EM LARGA ESCALA"

Ms. Luciano Fernandes Silva a [lufesilva@uol.com.br] Dr. Luiz Marcelo de Carvalho b [lmarcelo@rc.unesp.br]

a Programa de Pós-Graduação em m Educação Escolar - UNESP b

Professor adjunto-doutor da Universidade do Estado de São Paulo -UNESP

## INTRODUÇÃO

Vários setores organizados da sociedade têm m chamado a atenção para as diferentes alterações provocadas pelo homem m na natureza. Dentre estas alterações destacamos aquelas diretamente relacionadas com m a produção de energia elétrica em m larga escala que, sem m dúvida, tornam-se mais relevantes na medida em m que há um m aumento sensível na demanda desta energia em m todo o mumundo, sobretudo nos países em m desenvolvimento.

Embmbora os benefícios da produção da energia elétrica sejam m imediatamente percebidos pela população, poucas vezes podemos observar e/ou vivenciar os diferentes prejuízos advindos da produção desta energia.

Observa-se que de uma forma ou de outra todas as modalidades de produção de energia elétrica em m larga escala provocam m alterações na natureza ( R REIS; SILVEIRA, 2000). Algumas delas, no entanto, provocam m maiores taxas de impmpactos não só ambmbientais, como tambmbém m culturais e sociais. Atualmente, vem se discutindo a possibilidade de, a médio e longo prazo, serem m substituídas as atuais matrizes de produção dessa energia, notadamente aquelas relacionadas aos maiores impmpactos sociais e ambmbientais. Neste contexto, algumas pessoas têm chamado a atenção para a utilização mais sistemática de fontes renováveis, tais como os sistemas fotovoltaicos, eólicos e as usinas hidrelétricas de pequeno porte.

Entretanto, os debates sobre a mumudança de matrizes geradoras de energia elétrica são, na maioria da vezes, norteados por discussões macroeconômicas e políticas que, neste caso, costumam m ter um m peso relativamente maior na condução de novos projetos. Podemos citar, por exempmplo, a atual política brasileira de investimento em m termelétricas movidas à gás que prossegue mesmo sofrendo sérias críticas quanto ao tempmpo de vida útil dos reservatórios de gás boliviano, quanto ao impmpacto ambmbiental que a emissão de gases poluentes pode provocar e quanto ao reajuste cambmbial de tarifas. Somado a estas medidas, a história brasileira, no que diz respeito a matrizes geradoras de energia elétrica, tem m ainda bastante presente o investimento de bilhões de dólares na compmpra de usinas térmicas nucleares da Alemanha e dos Estados Unidos da América, o que segundo Malheiros (1996) e Rosa et al. (1988) deu-se mediante uma política equivocada de transfeferência de tecnologia.

Nos dias atuais, a sociedade brasileira vivencia problemas relacionados à escassez de suprimento de energia elétrica (vide Resolução n 0 22, de 04 de julho de 2001 da Câmara de Gestão da crise de Energia Elétrica e Medida Provisória n 0 2.198-3, de 29 de junho de 2001) e este fato tem m levado o governo brasileiro a flexibilizar as exigências da legislação ambmbiental para a impmplantação de novos projetos de produção de energia elétrica. O Brasil, que possui uma das mais modernas legislações ambmbientais do mumundo (Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambmbiente - CONAMA - n os 001, de 23 de janeiro de 1986, e 237, de 19 de dezembmbro de 1997 e, para empmpreendimentos do setor elétrico, de forma compmplementar, n 0 006, de 16 de setembmbro de 1987), acaba de promumulgar uma nova resolução (Resolução 279, de 27 de junho de 2001) que flexibiliza as exigências da legislação vigente, pois estabelece prazos máximos para a avaliação dos impmpactos ambmbientais dos novos empmpreendimentos e um relatório de impmpactos ambmbientais simpmplificado para pequenas hidrelétricas.

Entretanto, esse prazo depende de inúmeros fatores interligados e compmplexos, o que pode requerer um m estudo e uma avaliação mais demorados. Assistimos, deste modo, ao governo cedendo às pressões das empmpreiteiras responsáveis pela construção de empmpreendimentos de geração de energia e às pressões políticas que exigem m uma solução rápida para o problema da escassez de energia em m nosso país.

Neste sentido, será necessária uma maior mobilização de ampmplos setores da sociedade para evitar que soluções de curtíssimo prazo precipitem m diversas ações que possam compmprometer um m planejamento mais adequado para o futuro, como, por exempmplo, a ma nutenção de níveis mínimos de conservação ambmbiental.

Todavia, estas propostas e os debates em torno desta questão ficam m restritos, na ma ioria das vezes, aos meios técnicos e acadêmicos. Porém , um m grande contigente populacional experimenta as decisões tomadas em m torno dela.

- O processo educativo tem m sido visto como uma das possibilidades para equipar um grande número de pessoas com m informações e compmpetências para participar deste debate emergente e cada vez mais presente na nossa sociedade. Neste sentido, consideramos que cabe ao ensino de ciências naturais, em m particular, dotar os alunos de chaves essenciais para a solução de questões científicas e técnicas do cotidiano, e propiciar-lhes o desenvolvimento de atitudes e métodos de pensamento próximos aos dos cientistas. (ASTOLFI; DEVELAY, 1998 e SAVIANI, 2000)

A incorporação destas questões no currículo escolar pode proporcionar ao ensino da ciências naturais, em m particular, um m contexto para a discussão de alguns dos aspectos ambmbientais, sociais, econômicos, políticos, históricos, éticos e estéticos diretamente relacionados com m a Ciência e suas diversas aplicações.

Além m disso, a discussão de alguns destes tópicos, em m algum m momento do processo de ensino-aprendizagem, pode auxiliar a amenizar o "mal-estar" (MATTHEWS, 1994) que existe em m aulas de ciências naturais, em m que se recitam m fórmumulas longe de um m contexto ou se privilegia a quantidade de informações e não a profundidade com m que se examinam m os princípios teóricos e suas impmplicações sociais, ambmbientais, econômicas e históricas.

Segundo Silva e Saad (1998) e Monteiro e Medeiros (1998), os professores de ciências naturais, especifificamente de Física, utilizam m os manuais de ensino como única refeferência para

estruturar e dirigir suas aulas. Entretanto, estes manuais, em m sua maioria, não sugerem nenhuma atividade educativa relevante ligada aos grandes debates acerca dos diferentes significados do conhecimentos científico e suas diferentes aplicações.

Para Bastos (1998) e Krasilchik (1987), na maioria das vezes, os alunos não têm m sido levados a discutir em m sala de aula as causas dos fenômenos e as diferentes impmplicações do conhecimento que estão estudando. Usualmente apresenta-se as ciências naturais apenas em seus resultados finais, freqüentemente traduzidos em m informações estruturadas na forma de expressões matemáticas.

Não desconsiderando a impmportância da linguagem m matemática no ensino de ciências naturais, acreditamos que a prática deste ensino deve ser enriquecida, a fim m de propiciar que os estudantes tenham m a capacidade de interpretar os conceitos e buscar informações, bem como proceder sistematizações e análises de dados.

A possibilidade de enriquecer as aulas de Física com m a exploração de outros aspectos, além m dos técnicos, durante a abordagem m do conteúdo que trata da produção de energia elétrica em m larga escala, é tambmbém m sugerida na Proposta a Curricular para o Ensino de Física do Estado de São Paulo (SÃO PAULO, 1992) e nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (BRASIL, 1999).

De acordo com m o texto da Proposta Curricular para o Ensino de Física (SÃO PAULO, 1992), dentre os objetivos apresentados para o ensino de Física na escola média está a analise das várias formas de produção de energia elétrica em m função de parâmetros como: custos, benefícios e impmpactos sobre o meio ambmbiente. (SÃO PAULO, 1992, p.36)

Entretanto, as difeferentes possibilidades de explorar outros aspectos deste tema em m sala de aula podem m ser limitadas por vários fatores, dentre os quais: a falta de material didático adequado, a urgência do professor em m cumpmprir um m certo número de conteúdos curriculares, o despreparo do professor, a falta de estímumulo de alunos mal preparados e a própria compmpreensão que os alunos têm m a respeito da "produção de energia elétrica em m larga escala".

A respeito deste último item , pudemos observar, como professor de Física trabalhando especificadamente com m alunos do nível médio de uma escola pública da Diretoria de Ensino de Araraquara-SP, que boa parte dos alunos demonstra uma falta de conhecimentos mais consistentes sobre as discussões relacionadas à produção de energia elétrica e seus diferentes impmpactos, como tambmbém m pouco envolvimento com m tal questão.

A partir desta constatação e considerando as diferentes possibilidades de explorar o tema "produção de energia elétrica em m larga escala", procuramos refletir sobre em m que medida os elementos das análises dos cientistas, técnicos e outros grupos sociais poderiam m estar presentes para um m grupo específico de alunos do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública durante um m processo planejado de ensino- aprendizagem .

Buscando esclarecer melhor esta questão, foi que surgiu a possibilidade de realizar uma pesquisa mais sistematizada no programa de pós-graduação em m Educação Escolar da UNESP de Araraquara (SILVA, 2001).

A análise dos dados que pudemos coletar e sistematizar nesta pesquisa não ficou centrada na compmpreensão individual dos alunos. Procuramos ter como orientação a análise do

processo que se desenvolvia no grupo-classe como um m todo. Neste sentido denominamos de grupo-classe todos os participantes do processo de ensino e de aprendizagem m da sala de aula.

Neste trabalho, que ora vamos apresentar, destacamos de forma mais específica duas questões que orientaram m parte de nossa pesquisa: (1) Quais são as compmpreensões que o grupoclasse elabora sobre produção de energia elétrica em m larga escala a partir de uma intervenção planejada?; (2) Em m que medida os elementos das análises elaboradas por cientistas, técnicos e outros grupos sociais estiveram m presentes para o grupo-classe durante o processo da intervenção?

## PROCEDIMENTOS DE PESQUISA

A partir da questão mais ampmpla do nosso trabalho de pesquisa (SILVA, 2001) desenvolvemos um m planejamento para uma intervenção em m sala de aula, por entender que este seria o caminho mais adequado para a obtenção dos dados.

Esta pesquisa orienta-se ainda pela proposta do pesquisador-professor de André (1998). A autora utilizou-se desta denominação para marcar bem m a diferença de papéis entre um m professor que pesquisa sua prática, procedimento reconhecido pela denominação professor-pesquisador, e o pesquisador que pesquisa um m problema educacional. Segundo a autora, o primeiro tem m uma preocupação mais imediata com m seus problemas cotidianos e um menor distanciamento deles, com m uma maior preocupação de desenvolver sua ação docente para obter sucesso na aprendizagem m de seus alunos. Já o segundo tem m preocupações a mais longo prazo, possibilidade de distanciamento para uma reflexão mais ampmpla e compmpromisso com m a geração de novos conhecimentos. Neste sentido, os objetivos e os resultados das ações são diferentes, variando a natureza do papel, o grau de envolvimento e a responsabilidade pelos resultados. Outros pesquisadores (BONOTTO, 1999 e CARVALHO, 1998) utilizaram este procedimento de pesquisa.

Em m nossa coleta de dados, utilizamos três turmas do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública da Diretoria de Ensino de Araraquara, durante o ano letivo de 2000, sendo uma do período noturno (Turma A) e duas do período matutino (Turmas B e C).

A partir do trabalho de Dicker (1990), destacamos quatro fases que compmpõem m e orientam m o ciclo de uma pesquisa desta natureza: planejamento, ação, monitoramento e análise de dados. Neste sentido, podemos destacar as etapas da seguinte forma:

I - Planejamento : Apresentação de um m questionário com m questões abertas aos alunos. Nessa etapa, que tambmbém m denominamos diagnostica, iniciamos a coleta de dados que indicavam m os entendimentos dos alunos quando iniciavam m o terceiro ano do Ensino Médio quanto ao tema "produção de energia elétrica em m larga escala". Nesta etapa, tambmbém selecionamos os conteúdos que foram m desenvolvidos durante a intervenção;

II - Ação ou intervenção planejada : Nesta etapa, dividida em m sete encontros para cada turma, apresentamos aos alunos os elementos das análises que os cientistas, técnicos e outros setores da sociedade possuem m sobre o tema "produção de energia elétrica em m larga escala". A ma ior parte destes elementos estava sistematizada na forma de textos que foram m trabalhados segundo o procedimento de estudo dirigido. Outros elementos foram m projetados em m vídeo, que

abordavam m o mesmo tema dos textos. Os textos foram m elaborados pelo pesquisador, com exceção de um m caderno com m sete noticiários retirados de um m jornal diário de grande circulação em m nosso país. Além m de uma exposição do assunto pelo pesquisador, realizamos um m trabalho de campmpo (visita a uma usina hidrelétrica), do qual participaram m efetivamente somente os alunos da turma B. Por fim , na última atividade, realizamos uma simumulação entre os alunos na forma de debate;

III - Monitoramento e análise dos dados : Na medida em m que a intervenção estava ocorrendo, procuramos acompmpanhar as diferentes atividades, realizando o registro sistemático de dados e utilizando os instrumentos de coleta e registro indicados como os mais adequados para uma pesquisa desta natureza (Dicker, 1990). Os dados que coletamos durante a fase diagnostica e a intervenção são compmpostos, em m sua grande maioria, por materiais escritos pelos alunos durante a realização das atividades. Além m disso, registramos em m videoteipe todos os nossos encontros, de modo a coletar as impmpressões verbalizadas dos alunos em m discussões que surgiam m na sala de aula. Vale lembmbrar que, em m cada uma das atividades realizadas, havia um m questionário aberto que deveria ser respondido pelos alunos. Isto permitiu ao pesquisador colher os dados escritos por eles durante as atividades realizadas. Todos os dados coletados eram m sistematizados e analisados conforme o trabalho ia sendo desenvolvido.

## APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS

Através da sistematização e análise dos dados obtidos na fase diagnostica e na intervenção (atividades desenvolvidas em m sala de aula), procuramos verificar qual a compmpreensão do grupo-classe em m relação à produção de energia elétrica em m larga escala.

Na primeira atividade, denominada fase diagnostica, solicitamos aos alunos indicações sobre seus entendimentos a respeito da produção em m larga escala de energia elétrica. Noventa e cinco alunos responderam m às questões propostas, sendo trinta e seis da turma A, vinte e nove da turma B e trinta da turma C.

A primeira pergunta deste questionário foi,

Você poderia dizer, de modo geral, de que maneira é produzida a eletricidade que utilizamos em nossas residências?

A tabela 01 sistematiza os dados fornecidos pelas respostas dos alunos.

Analisando os dados apresentados na tabela 1, percebemos que a maioria dos alunos (78% do total) aponta que a energia elétrica é produzida em m larga escala através de geradores hidrelétricos ou usinas hidrelétricas.

Este dado é compmpreensível pois a experiência brasileira em m termos de geração de energia elétrica está bastante voltada para o uso de recursos hídricos. Conforme já salientamos, o país tinha até 1995 mais de 90% da energia elétrica produzida por hidrelétricas, situação que não mumudou mumuito até hoje.

Podemos observar ainda na tabela 1 que os alunos da turma A, classe do período noturno, quando compmparados com m outras turmas, são aqueles que menos se referem

claramente às usinas hidrelétricas e que mais fazem m associações entre a água e o processo de produção de energia elétrica, sem m explicitar o processo de forma clara.

Os alunos do período noturno são formados, em m sua grande maioria, por pessoas que possuem m um m nível maior de dificuldades em m leitura e interpretação de textos. Este dado foi tambmbém m apontado pelos pesquisadores Silva e Saad (1998) em m um m trabalho realizado com professores de Física da cidade de Bauru-SP .

Tabela 1 - Respostas dos alunos do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública da DE de Araraquara-SP sobre os seus entendimentos a respeito do processo e a produção de energia elétrica

Ainda com m relação ao grupo "Hidrelétricas" da a tabela 1, é preciso destacar o grande número de usinas hidrelétricas espalhadas pelo Estado de São Paulo. Possivelmente este fato e as poucas unidades de produção de energia elétrica por outros meios possam m indicar as razões pelas quais apenas três alunos, ou 3 % do total, tenham m feito referência a outras possibilidades de geração de energia elétrica. Transcrevemos abaixo estas respostas:

- A energia elétrica é produzida nas turbinas das usinas hidrelétricas, ou usinas nucleares etc. (Aluno 23 B)

Através das Usinas Hidrelétricas, gerada pela força da água. Obs: Tendo também outras fontes de energia, assim, energia solar e outras. (Aluno 34 C)

A energia elétrica é produzida de várias formas; uma delas é através das hidrelétricas, e das usinas termelétricas e etc.; que passa por um processo de geração, transmissão e distribuição que faz com que a energia chegue em nossas residências. (Aluno 28 C)

No grupo denominado "Outros" da tabela 1, estão as respostas nas quais os alunos não fazem m menção a qualquer tipo de gerador elétrico conhecido na literatura técnica, tal como pode ser visto no exempmplo a seguir:

Vem de um gerador produzindo energia para os bairros pela companhia de luz. (Aluno 24 C)

Na segunda pergunta, solicitamos aos alunos que indicassem m os meios pelos quais haviam m obtido as informações ou seus conhecimentos sobre geração de eletricidade. A pergunta apresentada foi:

A respeito da última questão, responda:

(A-) Onde foi que você soube desta informação? (jornal/ revista/ escola/ pais etc.)

Nas respostas observamos que vários alunos citaram m mais de uma fonte. Na tabela 02, estão representadas as fontes indicadas pelos alunos e a freqüência com m que aparecem m em suas respostas.

Tabela 02 - Indicações dos alunos do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública da DE de Araraquara-SP, sobre as fontes de onde obtiveram as informações sobre o processo de geração de energia elétrica em larga escala

Notamos pelos dados apresentados na tabela 2 que a grande maioria dos alunos diz ter se informado sobre geradores elétricos na escola ou através dos meios de comumunicação de massa. Exempmplo:

No Jornal Nacional, no Globo Ecologia, na escola (Ensino Fundamental); em feiras de Ciências (Colégio Objetivo) . (Aluno 7 A)

Estes dados indicam m que a instituição escolar, associada aos meios de comumunicação social, são as principais fontes de informações para os alunos em m relação a estas questões. No entanto, entendemos que é a escola a instituição social que tem m a fufunção específifica de tratar destas questões de forma mais aprofundada, oferecendo aos alunos a possibilidade de construção de conhecimentos consistentes sobre este assunto.

Com m a intenção de explorar de forma mais detalhada as experiências escolares desses alunos em m relação a esta temática, apresentamos a eles a seguinte questão:

Você recebeu alguma informação sobre este assunto na escola? Quando isto ocorreu e de que forma?

De modo geral, os alunos que na pergunta anterior indicaram m a escola como fonte de informações sobre geradores elétricos confirmaram m esse dado ao responder esta questão.

A freqüência dos alunos que afirmaram m ter recebido informações sobre geradores elétricos foi em m média de 67 %, a mesma que aparece na tabela 02 para o item m "escola". Ficou ma is claro, a partir dos dados obtidos com m esta pergunta, que mumuitos alunos provavelmente receberam m algumas informações sobre produção de eletricidade em m larga escala no Ensino Fundamental, o antigo Primeiro Grau. Vejamos alguns exempmplos de respostas:

Sim, na 5 a ou 6a 6a série, através de professores. (Aluno 16 C)

Sim, tive a informação na 5 0 serie pelo professor Cindão como se produzia energia elétrica. (Aluno 1 A)

Sim, através de livros de Geografafia: creio eu, que mais ou menos na 5 a série. (Aluno 23 A)

De modo geral, percebemos através dos dados coletados com m este instrumento que a ma ior parte dos alunos identifica que a energia elétrica utilizada nas residências é produzida em m usinas hidrelétricas ou por algum m processo que utilize a água como fofonte de energia primária. Essa informação geralmente é adquirida nas escolas ou através dos meios de comumunicação de massa.

Após a fase inicial da pesquisa, ou seja, o diagnóstico, iniciamos a intervenção em m sala de aula, conforme planejamento.

Na atividade em m que apresentamos um m texto com m algumas informações técnicas a respeito da produção de energia elétrica em m larga escala (REIS; SILVEIRA, 2000), perguntamos aos alunos, no roteiro para exploração e discussão do texto,

Na sua opinião, existe problema em produzir energia elétrica por algumas das formas citadas no texto? Explique a sua resposta.

Quando do desenvolvimento dessa atividade, tivemos a presença de cento e seis alunos e, destes, quatro não responderam m a este item m do roteiro. Os dados obtidos apontam que mumuitos alunos não identificam m problemas relacionados à produção de energia elétrica em larga escala. Outros identificam, porém m minimizam-nos mediante a necessidade de se obter

energia elétrica. Finalmente, parte dos alunos identifica alguns desses problemas sem m procurar minimizá -los .

Podemos verificar nos dados agrupados na tabela 3 que a maioria dos alunos identifica algum m problema associado à produção de energia elétrica em m larga escala.

Tabela 3: Problemas associados à produção de energia elétrica em larga escala, segundo alunos do Ensino Médio de uma escola pública da DE de Araraquara-SP

Dentre as respostas daqueles que não identificam m tais problemas, encontramos, na maioria dos argumentos justificativas que apontam m para uma "certa fé" nos avanços científicos e tecnológicos,

Não, pois eu acho que nos dias de hoje ninguém vive sem energia e eles estão tentando de várias formas continuar produzindo a energia elétrica para o nosso conforto. (Aluno 10 C)

Não porque .... algumas são produzidas, e os problemas são controlados. (Aluno 3 A)

Para Kneller (1980), algumas pessoas possuem m uma atitude extremamente favorável em m relação à tecnologia, fomentando a crença de que os aparatos tecnológicos não causam

nenhum m problema ou mais que isso, possuem m o poder de resolver quase todos os problemas do homem .

Para Brügger (1994), mumuitas pessoas relacionam m tecnologia a uma forma de poder que permite a "solução" para todos os males que afligem m a humanidade.

Ainda em m relação aos dados da tabela 3, verificamos que, no agrupamento denominado como aqueles que "identificam" problemas relacionados à produção de energia elétrica em m larga escala, existem m alunos que procuram m argumentar que tais problemas não são relevantes. Muitos deles comentam m que tais problemas são pouco significativos em m vista dos benefícios e da nossa dependência da energia elétrica. Seguem m alguns exempmplos dessas respostas, que no total constituem-se em m seis (duas de cada turma) e correspondem m a 6% do total de alunos.

Sim existe, mas como não há nenhuma maneira de viver sem energia temos que conviver com esses problemas "fúteis" ... (Aluno 2 B)

Na minha opinião não existe nenhum problema grave, pois há apenas um problema que eu considero pequeno na geração da energia hidrelétrica que é quando um rio é represado para formar um lago artificial em que ha uma alteração nas características da natureza local, mas que depois de algum tempo a própria natureza se adapta.(Aluno 8 C)

Não, apesar de agredir o "meio ambiente", por exemplo mudando margens de rios. Mas isso não é um caso tão importante. Pois precisamos de energia para o nosso consumo. E para a sociedade em geral. E para funcionamento de indústrias que geram empregos para a sociedade. (Aluno 27 C)

Podemos fazer um m paralelo entre estes argumentos dos alunos e os discursos do poder constituído em m diferentes momentos da nossa história. Segundo Sigaud (IN ROSA et al. 1988), no início da década de 70, iniciou-se a construção da barragem m da Hidrelétrica Sobradinho no Rio São Francisco. Durante este empmpreendimento, vários setores organizados da sociedade chamaram m a atenção para os impmpactos sociais e ambmbientais que deveriam m ocorrer na região. Porém , segundo a autora,

A prioridade dada à produção de energia havia sido estabelecida intramuros, a nível (sic) do Poder Executivo, sem qualquer consulta nem à sociedade nacional, nem à sociedade local, em nome de supostos interesses do país, também definidos de forma autoritária. Tratava-se de uma prioridade inquestionável.. (SIGAUD, IN ROSA et al., 1988, p. 96)

Ainda hoje estes argumentos nos parecem m presentes nos discursos de setores governamentais e de outros setores organizados da sociedade. Recentemente, frente a atual crise energética, o governo flexibilizou a atual legislação ambmbiental e com m isso estão sendo amenizadas algumas exigências para a construção de hidrelétricas (Resolução do Conama número 279 de junho de 2001), como já se disse anteriormente.

Um m outro aspecto impmportante que pode ser apreendido a partir dos dados coletados é que dentre os alunos que identificam m problemas associados à produção de energia elétrica em larga escala, alguns deles salientam m em m suas respostas problemas ambmbientais, problemas econômicos e, finalmente, problemas técnicos. Apresentamos na tabela 4 os dados

sistematizados a partir destas respostas. Observando esta tabela podemos perceber que o grupo de respostas que indica problemas ambmbientais é, sem m dúvida, o maior. É impmportante salientar que o texto apresentado e discutido com m os alunos não faz referência explícita aos problemas associados ao processo de produção de energia elétrica. Desta forma a assimilação por parte dos alunos de alguns aspectos técnicos trabalhados em m sala de aula, envolvendo a produção de energia elétrica em m larga escala, tais como a de queima de carvão em termelétricas, possibilitou que alguns deles realizassem m uma associação direta com m alguns impmpactos ambmbientais.

Tabela 4: Principais problemas associados à produção de energia elétrica em larga escala, segundo alunos do Ensino Médio de uma escola pública da DE de Araraquara

Além m disso, podemos destacar que a compmpreensão básica do funcionamento desses equipamentos contribuiu para que os alunos associassem m ou fizessem m uma analogia entre o funcionamento de certos geradores com m os dos outros equipamentos, que estão mais presentes em m seu cotidiano.

No exempmplo a seguir, queremos destacar a tentativa do aluno de relacionar os efeitos da queima de um m combmbustível fóssil em m um m automóvel com m a queima de combmbustíveis fósseis em m termelétricas,

Sim. Nos combustíveis não-renováveis quanto a combustão interna, onde a combustão é de dentro para fora como exemplo: os automóveis que utilizam os gases expelidos da queima do combustível para movimentar as engrenagens do moto. Sendo assim esse gás expelido poluí a atmosfera, destruindo a camada de ozônio, fazendo com que a população fique com problemas de saúde. (Aluno 5 C)

Os dados levantados a partir desta questão permitem m que apresentemos quais os geradores que os alunos mais associaram m aos impmpactos ambmbientais. Na tabela 5, apresentamos as respostas que indicam m explicitamente algumas das formas conhecidas de gerar eletricidade ou o tipo de equipamento utilizado para este fim , que poderiam m provocar impmpactos ambmbientais.

Uma vez que haviam m sido oferecidas apenas informações técnicas sobre as diferentes matrizes de geração de energia elétrica, as respostas dos alunos poderiam m estar baseadas em conhecimentos anteriores sobre os processos de geração de energia. Os alunos poderiam tambmbém m estar realizando inferências, a partir destas informações técnicas, que os permitissem estabelecer relações entre geração de energia elétrica e impmpactos ambmbientais.

Tabela 5: Relação entre produção de energia elétrica, geradores elétricos e problemas ambientais estabelecida por alunos do Ensino Médio de uma escola pública

A resposta do aluno 5 C apresentada anteriormente é um m exempmplo de analogia que foi estabelecida entre o processo de combmbustão nos automóveis e nas usinas termelétricas e a emissão de gases poluentes. Desta forma, estes dados nos fornecem m pistas para compmpreendermos a impmportância de os alunos terem m acesso às informações sobre os aspectos técnicos do funcionamento dos diferentes tipos de usinas geradoras de eletricidade.

No entanto, ao mesmo tempmpo, é impmportante ressaltar, no caso dos dados levantados neste trabalho, que este reconhecimento é insuficiente para que os alunos compmpreendam m as compmplexas causas dos problemas ambmbientais relacionados à produção de energia elétrica em larga escala. Tanto assim m que mumuitos alunos indicam m a hidrelétrica como sendo uma das principais causadoras de impmpactos ambmbientais, o que, segundo Reis e Silveira (2000), não ocorre efefetivamente. Para estes autores, as matrizes termelétricas que utilizam m combmbustíveis fósseis, principalmente carvão mineral e petróleo, são as que trazem m maiores prejuízos aos sistemas naturais, sem m falarmos nos riscos de grandes impmpactos ambmbientais.

Na penúltima intervenção, oferecemos um m texto que explicava alguns problemas ambmbientais diretamente relacionados à produção de energia elétrica em m larga escala. Após a leitura e discussão do texto, os alunos deveriam m responder a um m roteiro de atividades. Uma das questões propostas aos alunos perguntava,

Se você tivesse que escolher um modo de produzir eletricidade, qual usaria? Por quê?

Os dados coletados com m esta pergunta estão organizados na tabela 06.

Tabela 06: Indicações dos alunos do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública da DE de Araraquara-SP sobre a possibilidade de poder escolher uma modalidade de geração de energia elétrica

- É interessante lembmbrar que a maioria dos alunos da turma B esteve em m contato com uma UHE de grande porte, conforme já informamos. Apesar dos riscos de grandes impmpactos ambmbientais e sociais, a maioria dos alunos de todas as turmas entendem m que as UHEs são ainda a melhor forma, dentre as mais conhecidas, de gerar eletricidade. Podemos inferir que isto possa estar ocorrendo devido a dois fatores mumuito impmportantes: um m fator técnico e o outro histórico.
- O fafator técnico está diretamente ligado ao processo de funcionamento de uma hidrelétrica que, de um m modo geral, é relativamente fácil de entender em m compmparação às outras formas conhecidas de gerar eletricidade em m larga escala. Conforme Rosa et al.(1988), a compmpreensão de que as UHEs sejam m relativamente fáceis de entender, no que diz respeito ao seu processo de funcionamento, leva a maioria da população a admitir que um m técnico possa controlar os riscos de uma usina hidrelétrica. Além m do mais, usinas hidrelétricas geralmente estão bem m distantes dos grandes centros populacionais.
- O fator histórico está diretamente relacionado à opção do país em m investir neste tipo de tecnologia. Conforme Magalhães (2000), o Brasil tem m investido em m usinas hidrelétricas desde 1883, quando da construção de uma pequena usina no Ribeirão do Inferno, um m afluente do rio Jequitinhonha , em m Diamantina (MG). Nos anos posteriores, várias usinas hidrelétricas foram sendo construídas no território brasileiro, culminando com m a situação da década de 1990, durante a qual mais de 90% da nossa energia era gerada por hidreletricidade (REIS; SILVEIRA, 2000).

Alguns exempmplos de respostas dos alunos reforçam m o argumento destes autores,

Caso tivesse que escolher um modo de obter energia elétrica para a sociedade, continuaria fazendo uso das usinas hidrelétricas, que já são bem conhecidas em nosso meio. (Aluno 25 C)

Na minha opinião eu usaria a geração hidrelétrica porque como ela é produzida em nosso país, podemos com o tempo aprender a utilizá-la de uma forma que não prejudique tanto o meio ambiente. (Aluno 39 C)

- A hidrelétrica, apesar de causar prejuízos é a mais confiável de se obter a energia. (Aluno 12 B)

Nos dois primeiros exempmplos, verificamos que os alunos optam m pela produção de energia elétrica em m larga escala por hidrelétricas devido a uma experiência do país para com este tipo de geração. O aluno 25 C diz que as usinas hidrelétricas são bem m conhecidas em nosso meio. Para o aluno 39 C, que reconhece problemas associados a este tipo de geração de eletricidade, a experiência acumumulada com m este tipo de equipamento pode ser significativa em termos de aprendizagem .

Quanto ao segundo tipo de gerador mais indicado (Tab. 6), sistema fotovoltaico, podemos observar na literatura técnica que este talvez seja, no futuro, a melhor opção de geração de eletricidade em m larga escala. Conforme Reis e Silveira (2000),

Página 14 de 15 A geração solar-fotovoltaica pode ser considerada como a forma nãoconvencional de geração de eletricidade mais atraente para o Brasil e para o mundo a médio e longo prazo. (REIS; SILVEIRA, 2000, p. 61)

Para Chambmbouleyron (1989),

A descoberta de novos materiais e tecnologias e adoção de escalas maciças de produção farão, sem dúvida, da conversão fotovoltaica uma das fontes energéticas mais convenientes que a humanidade já conheceu.

(CHAMBOULEYRON, 1989, p. 38)

Entretanto, as experiências até então realizadas com m geradores eólicos e fotovoltaícos foram m aplicadas para o suprimento de sistemas isolados e de baixa demanda de energia. Os principais impmpactos ligados a produção de energia elétrica em m larga escala utilizando estas tecnologias estão vinculados à extração dos materiais necessários para a fabricação das estruturas, caso dos sistemas fotovoltaícos que utilizam, na maioria das vezes, o silício. Além disso, geradores elétricos que utilizam m a energia solar e eólica, devido a algumas características técnicas, podem m armazenar energia na forma de corrente contínua em m baterias, para depois convertê-la em m corrente-alternada. Cuidados com m a deposição dos equipamentos, após sua vida útil, são necessários devido ao alto índice de materiais tóxicos (metais pesados) presentes nas baterias. Além m disso, há o impmpacto na paisagem, assuntos como o uso da terra, proteção de aves e poluição sonora, estes últimos ligados aos sistemas eólicos.

Por fim , na última atividade prevista, realizamos uma simumulação através de um debate. Dividimos cada turma em m dois grupos, e cada um m deles, através de sorteio, deveria defender a produção de energia elétrica por uma das experiências mais difundidas e polemizadas até então no Brasil: um m grupo defendia a produção de energia elétrica por hidrelétricas e outro, a produção de energia elétrica através de usinas nucleares. Neste debate, pudemos coletar alguns dados que indicavam m o entendimento que os alunos possuíam m sobre a produção de energia elétrica em m larga escala até aquele momento da intervenção.

Através deste debate, pudemos identificar que os alunos que defenderam m a produção de energia elétrica através de hidrelétricas usavam m como argumento alguns dos principais elementos trabalhados durante a intervenção, presentes nos textos e nas nossas explicações. Os argumentos dos alunos do grupo de defesa das UHE basearam-se principalmente em:

- 1 - O custo financeiro do KWh da produção de energia é menor nas hidrelétricas;
- 2 - O país possui mumuitos recursos hídricos;
- 3 - A construção das usinas hidrelétricas é mais rápida e barata, se compmparado às usinas nucleares;
- 4 - Os riscos ambmbientais e sociais são menores do que os das usinas nucleares;
- 5 - O país domina a tecnologia das usinas hidrelétricas.

Em m relação aos grupos que argumentaram m a favor da produção de energia elétrica através de usinas nucleares, observamos alguns pontos interessantes. Alguns alunos utilizaram a argumentação da produção bélica para defenderem m as usinas nucleares. Em m outros momentos, falaram m da necessidade do desenvolvimento de tecnologias sofisticadas e dos menores riscos de impmpactos ambmbientais. Neste caso, tal idéia pode ter sido elaborada pelos próprios alunos a partir do material a eles fornecidos ou, até mesmo, pela necessidade de construírem m argumentos para serem m apresentados no debate. Os principais pontos utilizados

como argumentos pelos alunos na defesa da produção de energia elétrica por usinas nucleares foram:

- 1 - Os riscos da degradação ambmbiental de rios e lagos é menor, se compmparado à UHEs;
- 2 - Necessitamos desenvolver tecnologias sofisticadas;
- 3 - O país poderá desenvolver a bombmba nuclear.

Vejamos alguns exempmplos de argumentos apresentados pelos alunos,

[Aluno 40 B] \_ \_ ....a energia é cara porque tem poucas usinas no Brasil é preciso investir nesta tecnologia para ela ficar barata....a chance de acontecer algum vazamento na usina é pequeno...pra produzir energia por hidrelétricas tem que ter barragens e isto é ruim porque inunda áreas....

[Aluno 20 A] \_ A tecnologia é avançada porque tem que construir uma base de concreto, colocar o reator no meio, não precisa deslocar p pessoas, não polui lagos, e se por acaso faltar água não vai faltar energia....futuramente tudo vai ter que ser feito através de tecnologias avançadas...

[Aluno 29 A] Não precisa mudar a natureza para fazer lago...porque pra fazer hidrelétricas precisa de um lago bem grande e isto causa impacto ambiental...

A relação entre a produção de energia elétrica através de usinas nucleares e a possibilidade do país produzir a bombmba nuclear r foi bastante mencionada pelos alunos. A insistência em m discutir esta questão na simumulação tomou, em m alguns momentos, espaço de outras, tais como as possibilidades de trazer para a discussão problemas políticos, sociais, econômicos e ambmbientais. Para exempmplificar destacamos:

[Aluno 25 C] \_ O Brasil está passando um grave problema econômico e precisamos nos defender do ataque dos outros países...As usinas nucleares vão permitir que construímos bombas atômicas...

[Aluno 4 C] - A A bomba atômica vai permitir que o país se defenda..

Além m disso, foi interessante perceber que alguns alunos das turmas C e A afirmaram que todos os meios de produção de energia elétrica causam m impmpactos negativos que afetam m os processos naturais do meio ambmbiente e tambmbém m a sociedade. Os exempmplos a seguir ilustram este tipo de entendimento construído e apresentado pelos alunos:

[Aluno 7 C] Todos os meios que produzem energia elétrica causam problemas ao meio ambiente ...essas coisas...mas a gente tem que p partir pra um meio que traga mais benefícios pra gente...todos os outros meios de produzir energia prejudicam o meio ambiente.

[Aluno 10 A] A nuclear não é uma forma positiva....mas agora, a hidrelétrica é uma forma positiva?...nenhuma é positiva...todas são positivas, é ou não é....nós da usina nuclear iremos

estragar muito o meio ambiente, mas a hidrelétrica também vai estragar a mesma coisa...nem nós estamos certos e nem vocês...

[Aluno 25 A] A usina nuclear só produz 40 % da energia no Rio de Janeiro e são muito mais caro do que a energia produzida numa usina hidrelétrica...outra coisa nenhuma forma de produção de energia é totalmente segura, mas o que a gente tá debatendo aqui qual que é mais segura e esta é a hidrelétrica...

## CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os dados coletados durante as fases que denominamos de diagnostica e de intervenção indicam m que a maioria dos alunos do último ano do Ensino Médio possuem m um m conhecimento generalista e superficial sobre a produção de energia elétrica em m larga escala e seus diferentes impmpactos, aspecto que, sem m dúvida, limita a participação destas pessoas nos principais debates que ocorrem m no país em m torno desta temática. É impmportante destacar que apenas 25% da população brasileira entre 15 a 17 anos (BRASIL, 1999) possui este índice de escolarização, o que nos leva a refletir que a grande maioria da população não está em m condições de participar efetivamente de um m debate mais ampmplo sobre a avaliação de riscos e benefícios em m processos tecnológicos.

De modo geral, durante o desenvolvimento da intervenção, percebemos que a apresentação de diferentes modelos de geração de eletricidade, de forma mais sistematizada pelo professor, facilitava o reconhecimento e o entendimento pelos alunos de alguns problemas decorrentes do uso destas tecnologias, em m especial os relacionados aos impmpactos amb mbientais.

Em m outros momentos, durante o processo da intervenção, os alunos deixavam m clara a sua opção quanto à escolha das usinas hidrelétricas como forma de produção de energia elétrica, o que pode ter sido influenciada pela maior facilidade de compmpreensão dos aspectos técnicos deste gerador e por uma maior fafamiliaridade em m termos de experiências nacionais.

Entretanto, algumas modalidades mais compmplexas de gerar energia elétrica em m larga escala, tais como fotovoltaicas e nuclear, poderiam m ser melhor compmpreendidas pelos alunos, caso fossem m precedidas de atividades de ensino nas quais fosse possível ao professor apresentar alguns conceitos básicos da Física moderna. De forma clara, mumuitos alunos relacionam m a possibilidade de se gerar energia elétrica em m larga escala através de usinas nucleares à construção de equipamentos bélicos.

As respostas que os alunos ofereceram, quando solicitados a identificar problemas relacionados à produção de energia elétrica em m larga escala, podem m ser reunidas em m três diferentes grupos, a saber: um m grupo de alunos que não reconhece problemas relacionados à produção de energia elétrica em m larga escala; um m grupo que reconhece alguns problemas, mas que procuram m atenuar suas impmplicações; e, por r fim , um m grupo de alunos que reconhece estes problemas e não utilizam m recursos para atenuar suas impmplicações nos meios sociais e amb mbientais.

De modo geral, observamos que grande parte dos alunos do último ano do Ensino Médio generalizam m temas ricos e compmplexos, como por exempmplo ao associar usinas nucleares diretamente, e somente, aos artefatos bélicos, deixando de explorar outros aspectos como os econômicos, técnicos, sociais e ambmbientais.

A análise deste dado nos revela que a associação deste tipo de geração de energia elétrica e os artefatos bélicos são, sem m dúvida, os mais explorados nos meios de comumunicação de massa (MALHEIROS, 1996). Além m disso, os dados colhidos durante esta pesquisa apontam m que grande parte dos alunos obtém m informações através dos diversos veículos de comumunicação. Informações que são, em m sua grande maioria, superficiais e generalizadas, mas que influenciam m um m grande contigente populacional, que tem m suas vidas diretamente afetadas por todas as decisões tomadas em m torno desta questão

Isto nos levou a refletir sobre a urgência de adequar o currículo escolar para às exigências atuais da sociedade, entre elas a formação de cidadãos críticos que compmpreendam adequadamente as principais questões diretamente relacionadas com m a ciência e suas aplicações, em m especial à produção de energia elétrica. Além m disso, é necessário que o indivíduo possa participar plenamente das decisões que são tomadas na sociedade, que esteja afinado com m a contempmporaneidade, que possa estar situado enquanto sujeito participante do mu mundo. Em m suma, que seja um m cidadão.

Entretanto, as diferentes possibilidades existentes na adequação do currículo escolar às ma is novas exigências colocadas pela sociedade nos levam m a refletir sobre a especificidade do saber oferecido na escola. Todo o trabalho educativo com m os conhecimentos sistematizados das ciências naturais devem m ser adequados à realidade e às diferentes peculiaridades da sala de aula. Neste sentido é preciso considerar as diferenças existentes entre o conhecimento sistematizado pela ciência e o saber que é oferecido na escola.

Neste sentido, consideramos oportunas as reflexões de Saviani (1994), que indicam que o trabalho educativo com m os conhecimentos científicos sistematizados exige sua m odificação em m uma nova forma de saber para fins de ensino. Segundo a autora existe, neste sentido, uma transformação do conhecimento científico em m saber escolar.

Outros autores, como Astolfi e Develay (1991), apontam m para uma 'epistemologia escolar' que pode ser distinguida da epistemologia em m vigor nos saberes de referência. Neste sentido, os autores procuram m enfatizar o seu propósito de exame da estrutura do saber ensinado, que inclui: os principais conceitos de uma dada disciplina; as relações que os unem (leis, teorias); as retificações sucessivas ocorridas historicamente nesses conceitos.

No processo de transformação do conhecimento científico em m saber escolar ocorrem simpmplificações, mumuitas vezes necessárias para finalidade do trabalho educativo. Entretanto, a desconsideração total do caráter de não-linearidade da construção do conhecimentos científico e a aplicação automática deste conhecimento em m ambmbientes extremamente compmplexos tornam o ensino de ciências demasiadamente distante da realidade.

Percebemos, neste trabalho, que uma das possibilidades de amenizar as diferentes simpmplificações que ocorrem m na conversão do conhecimento científico em m saber escolar está na apresentação e discussão das controvérsias associadas aos temas das ciências naturais. Alguns dados desta pesquisa indicam m que vários alunos entendiam m que a produção de energia elétrica,

por qualquer uma das possibilidades técnicas conhecidas, poderia provocar impmpactos aos sistemas naturais e sociais. A exploração deste dado controverso da ciência pode possibilitar ao professor de ciências, em m especial ao de Física, alternativas para explorar temas diretamente relacionados com m a questão ambmbiental, como, por exempmplo, às diferentes degradações ambmbientais provocadas pelo homem. Neste sentido, a abordagem m de temas controversos da ciência poderia permitir, sem m dúvida, uma saída para o discurso normalmente reducionista que ocorre em m sala de aula, além de propiciar ao aluno um m contexto mais rico e próximo do real. Este aluno seria colocado diante de problemas, não necessariamente questões, o que poderia proporcionar-lhe a busca de uma compmpreensão mais ampmpla de alguns temas da ciência.

Segundo Levinson (2001), a ciência e a tecnologia oferecem m condições naturais para explorar aspectos controversos em m sala de aula. Para o autor, os tópicos controversos da ciência estão intimamente relacionados ao ensino de uma ciência mais próxima do real, em que sua apresentação poderia chamar a atenção dos alunos para a natureza das questões científicas, ou seja, incertezas, compmplexidades e cotas dos mais diversos riscos, o dilema ético (valores e evidências) e os contextos nos quais estas razões éticas tomam m lugar (identificação das circunstâncias que influenciam m uma decisão, por exempmplo sócio-econômicas, religiosas e etc).

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