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CEM ANOS SEM REVOLUÇAO CIENTIFICA

José André Peres Angotti

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
X
Ano
2006
Data
16/08/2006
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CEM ANOS SEM REVOLUÇÃO CIENTÍFICA

José André Peres Angotti

Departamento de Metodologia de Ensino e Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica - - Universidade Federal de Santa Catarina

angotti@ced.ufsc.br

## RESUMO

A categoria Revolução Científica (RC) é discutida e questionada desde as origens do conhecimento científico moderno do século XVI. Critérios em favor das teorias de largo alcance com inúmeras aplicações e testes são considerados requisitos para o reconhecimento de um período como revolucionário. Verifica-a-se que além das RC determinadas quando da implantação das ciências disciplinares, a começar pela Física, só ocorreram duas RC no século passado, justamente no escopo desta área, a saber, as teorias da Relatividade e Quântica. Não se verifica períodos similares em todas as outras ciências, evidência que gera uma assimetria quando discutimos esse traço característico da ciência em geral. Esse aspecto é pouco enfatizado nas atividades de formação comprometidas com as contribuições da Epistemologia ao Ensino de Ciências, ainda muito vinculadas às contribuições originárias dos anos 30 do século passado, muito calcadas nas RC da Física. Uma revolução inédita, resultante dos processos teóricos e práticos da eletrônica e comunicação, chamada Tecnocientífica marcou as últimas décadas e prossegue em intenso movimento, atingindo todas as formas de conhecimento, produção e culturas. Os escritos epistemológicos ainda não dão conta deste novo cenário, mas seus desdobramentos na Educação Científica e Tecnológica precisam ser exercitados.

Palavras chaves: Revolução Científica, Revolução Tecnocientífica, Epistemologia e Ensino de Ciência e Tecnologia Contemporâneas.

## INTRODUÇÃO E PRESSUPOSTOS

"There was no such h thing as Scientific Revolution , and this is a book about it." Essa é a primeira frase da introdução do livro "The Scientific Revolution" de Steven Shapin, que consultamos pela primeira vez há á três anos. Ele se refere ao período de transição entre os séculos XVI e XVII, que incluía estudos "científicos" da filosofia natural e as novas bases do conhecimento, amplamente reconhecido como científico. Afirma e sustenta, com metodologia declaradamente seletiva, que a transição ocorreu muito mais imbricada com o pensamento tradicional - - aristotélico e escolástico do que muitos historiadores da ciência e epistemólogos sugeriram. A expressão Revolução Científicafoi cunhada por Koyré em 1943 e logo depois evocado por r Butterfield para enaltecer e destacar este te período como a mais profunda revolução na cultura humana. Anos antes, Bachelard rd utilizara a o termo "mutações" como uma descontinuidade de larga escala, ou rupturas. Desde meados do século passado, esse suposto atributo da ciência permeia as publicações de ciências e sobre ciências, tanto no universo dos originais, como nas publicações didáticas.

Mesmo não concordando com a ousadia de Shapin, ao negar a existência do caráter r revolucionário da ciência e ao adotar um critério metodológico em prejuízo da contribuição teórica, reconhecemos méritos no seu texto , por destacar a instrumentação científica e o papel dos equipamentos especialmente desenvolvidos como encomendas para as pesquisas, a fabricação dos fatos científicos, a repetição e o controle sistemático. Como integrante do programa forte da Escola de Edimburgo, empenhado nos estudos sociais da ciência, que valoriza a heterogeneidade cultural como determinante para as mudanças não bruscas ocorridas há cerca de 400 anos, Shapin atribui muita importância ao legado de Boyle e da "sua" Bomba de Vácuo, que foi efetivamente desenvolvida por Hooke, seu auxiliar, como informa brevemente o autor. Em contraparte, não registra um mínimo de reflexão ao Pririnincipia de Newton, publicação das mais influentes do período e de todos os tempos, segundo inúmeros pares . Prefere explicar, sempre pelo lado da experiência , como Galileu observou as manchas solares com o telescópio, sugerindo então a possibilidade de eventos do "Céu" ser os mesmos da "T"Terra". Neste sentido, o segundo capítulo desta contribuição de Shapin é dedicado aos processos de investigação da época (How was it known? pp. 65/118), um aspecto bastante relevante , dado que o foco mais comum das publicações afins está nos produtos deste período "revolucionário" .

Abordagagens externalistas radicais, incluídas as publicações de Shapin, que vinculam o conteúdo interno do conhecimento científico à sociologia, são passíveis de críticas pesadas de colegas de outras escolas, como Chalmers, Laudan e Holton, a começar pela validade destes estudos sociais da ciência. Polêmicas e controvérsias parecem mesmo constituir a essência dos estudos sobre ciência, não raro levando o pesquisador e educador interessado a uma espécie de perplexidade beirando ao cansaço, diante de tanta discussão .

Mas para nós, permanece a questão da existência das Revoluções Científicas (RC), ou dos critérios para demarcar uma RC, porque vimos refletindo há tempos sobre esse assunto e sua utilização recorrente em textos de epistemologia e do ensino de ciências , por vezes inflacionando as atividades da área com supostas revoluções freqüentes e abundantes.

O que caracteriza, ainda que não defina claramente, uma RC? Quantas e como aconteceram? Quais os requisitos ou critérios para se reconhecer um período como revolucionário?

Em tempos atuais, esforços para a aproximação da realidade são mais complexos e, não proporcionalmente a realidade se insinua ainda mais complexa; a virtualidade ganha contornos mais nítidos e sugere construções de simulacros cada vez mais verossímeis. Antes a demarcação entre empirismo e racionalismo, entre modelos prototípicos e abstratos , era mais nítida; hoje a fusão da imagem-objeto do real com o virtual, da simulação, do face-tela-a-faface, deixam mais obscuros o espaço e o tempo das reflexões epistemológicas.

Se existem RC, existem categorias presentes na atividade dos cientistas que persistem nos períodos normais e revolucionários? Segundo Holton, os temas estão sim, sempre presentes sempre na imaginação científica, nos períodos de ciência normal (longos) e também nos períodos de transição ciência revolucionária (breves) para ciência normal. Os pares contrapostos análise e síntese, contínuo e discreto, unificação e diversificação, empirismo e racionalismo são exemplares que, segundo esse autor, permanecem na mente dos investigadores, sendo escolhidos desde a infância ou ao longo das construções do aprendizado.

A A necessidade premente de um Ensino de Ciências que privilegie tanto o conhecimento clássico como o contemporâneo nos diversos níveis de escolaridade impõe o debate e o questionamento sobre nossas convicções, nossa adesão a correntes epistemológicas que parecem não mais responder às demandas para o ensino de Física e de Ciências contemporâneo. Registramos que não se trata aqui de apresentatar mais uma revisão crítica do empirismo lógico, da "experiência crucial", ou do racionalismo radical; queremos colocar em questão as d demarcações dos autores mais influentes nesta esfera.

## REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS NO SÉCULO XX

n Hipótese: Nos últimos cem anos não ocorreu nenhuma revolução científica e apenas uma revolução inédita, a tecnocientífica.

Vamos considerar r a consolidação de cada uma das ciências da natureza a partir do século XVII como revoluções científicas, resultantes de processos de investigação com resultados sem precedentes (Koyré, Kuhn, Bachelard), porque caracterizados muito mais pela ruptura com o legado, do que pela sua continuidade. Estamos cientes de que não há consenso sobre a natureza essencialmente descontínua deste episódio (Toulmin, Laudan, Shapin) .

É ilustrativa a asserção de Koyré sobre o que ocorreu naquele período, aludindo o duplo sentido da revolução científica (RC), como "raiz e fruto", ou seja, fecundidade simultaneamente à criação. A partir da Física (Copérnico, Galileu, Descartes, Newton) , que unificou a Mecânica (Terra) com a Astronomia (Céu), seguiram-se situações similares em épocas posteriores, com a fundação da Química (Lavoisier, Dalton), Geologia (Lyel) e Biologia - - Genética (Darwin, Mendel, Pasteur). Ciências aplicadas podem ser incluídas neste conjunto, ainda que com dificuldades maiores para a demarcação da necessária ruptura com os métodos, teorias e práticas do passado.

Áreas específicas avançaram celeremente e se consolidaram, com o o reconhecido triunfo dos resultados diretamente aplicados dos processos tecnológicos, também pautados por eventos considerados revolucionários: a primeira Revolução Tecnológica

(RT) vinculada à mecânica e termodinâmica, a segunda ao eletromagnetismo, óptica e aplicações da Química.

Em meados do século XIX, a História da Ciência aponta uma unificação das ciências clássicas com repercussões intradisciplinares - inicialmente nos escopos da Física e da Química, e também interdisciplinares, estabelecendo elos entre conhecimentos antes distintos, demarcados pelas fronteiras disciplinares. Trata-a-se da Conservação e Degradação de Energia, com seus princípios e extensão aoaos universais dos conhecimentos os disciplinares (abrindo o caminho para a Mecânica Estatística) e incluídos os campos aplicados como a Medicina, a Engenharia, e a Tecnologia reformulada sob novos marcos e metas. Até mesmo o otimismo europeu que não era consensual no campo da Filosofia, mas de certa forma atingia as criações da literatura e das artes, passou a ser questionado, dado o fantasma do futuro assustador prognosticado pelo limite da irreversibilidade, a "morte térmica".

Podemos considerar essa conquista teórica como uma grande síntese, porque viabilizou a articulação e mesmo unificação de conhecimentos específicos que anteriormente, eram concebidos e exercitados com fronteiras mais nítidas .

Diante de um cenário promissor de continuidade e do despertar da desconfiança dos resultados de Ciência e Tecnologia como o benéficos por princípio, eclodiram duas revoluções científicas no início do século passado. Podemos chamá-las de RC de segunda ordem, ou revolução na revolução , com origens em datas bem identificadas e muito próximas (1900, Física Quântica - Planck k e 1905, Relatividade - - Einstein). Nas duas décadas posteriores, tais teorias efetivamente romperam com as bases universais da Física Clássica, sem contudo apagar os seus êxitos, presentes entre nós até hoje. Passamos a conviver então com teorias novas e tradicionais no escopo da Física, agora clássica e moderna, com enorme fertilidade e desdobramentos em todos os campos do conhecimento.

Assim, houve duas RC quase simultâneas, e somente na esfera da Física , oferecendo novas bases para a reflexão epistemológica, dado seu caráter polêmico, sua utilização o das novas contribuições da Matemática (Geometrias não euclidianas, Operadores, Espaços de Hilbert, Matrizes, Probabilidade, Grupos, Tensores...); a Quântica - - desenvolvida a partir de 1900 e amadurecida em meados da década de 20, mas sujeita a discusussão permanente com Bohr, Born, Eisenberg, Schrödinger, De Broglie, Dirac, Einstein, Compton, Bohm e a Relativística , da Restrita ta de 1905 para a Geral , a partir de 1915, também bastante polêmica, com Einstein, Hilbert, Friedman, Minkowskyky, Eddington, Gamow, Wheeler.

Os breves períodos entre a origem e o amadurecimento dessas teorias não são entendidos como consensuais ou de continuidade. Ao contrário, a "velha Física Quântica", considerada um "programa degenetarivo" por Lakatos, não se integra à "nova", a Relatividade Restrita não aponta diretamente para a Relatividade Geral. A etapa de transição das RC da Física no século passado é caracterizada mais por turbulências do que por avanços controlados e acumulação linear. Contudo, nossa opção é não caracterizar como revolucionárias as contribuições específicas. São relevantes, por exemplo as contribuições de Einstein (efeito foto-elétrico) e de Compton (espalhamento de fótons por elétrons livres); contudo, integram o conjunto de descontinuidades que resultam na RC da Física Quântica.

## ENSINO DE FÍSICA, A, REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS E TECNOCIENTÍFICA

Com relação ao Ensino de Física, um esforço considerável vem sendo realizado nas últimas décadas em favor da introdução dos conceitos, relações e teorias da ciência moderna e contemporânea nos programas escolares da educação básica, já a partir do final do ensino fundamental e em todo o ensino médio. A efetiva prática deste ensino, contudo, revela-se ainda incipiente e episódica, não obstante as mudanças sugeridas pelos documentos orientadores de propostas curriculares (PCN, PCN+, Propostas Estaduais -PR, SC...) e as resoluções sobre a formação profissional da área para físicos educadores, pesquisadores, tecnólogos e interdisciplinares (MEC/SESU/CNE/Res. No. 09).

Dentre os os instrumentos constitutivos como influentes na formação docente inicial e continuada, especialmente as investigações da subárea a do Ensino de Física: dissertações, teses, artigos em periódicos e trabalhos completos apresentados em eventos do país e exterior, verificamos um conjunto de contribuições significativas apoiadas nas reflexões epistemológicas originárias do período mais efervescente do século passado, os anos 30. Bachelard e Popper publicaram seus textos considerados clássicos nesta época, respectivamente "A Formação do Espírito Científico" e "A Lógica da Pesquisa a Científica" embora a circulação mais efetiva das idéias centrais dos autores terem sido mais efetivas e de grande repercussão o a partir dos anos 50, no caso de Popper e mais tarde ainda no de Bachelard. O clássico de Kuhn, " A Estrutura das Revoluções Científicas" publicado em 1962, repercutiu enormemente desde sua primeira edição, gerando desdobramentos em todos os setores afins, em particular na educação científica. Os escritos posteriores de Kuhn, com reflexões sobre seus críticos e rediscussões das categorias "paradigma" e "incomensurabilidade", parecem muito menos consultados e discutidos do que o livro citado e o anterior "A Tensão Essencial".

As categorias "ciência normal" e "ciência revolucionária" são partes integrantes das várias publicações da pesquisa em Ensino de Física, passando a compor parcelas consideráveis dos programas de ensino das licenciaturas, sobretudo nos os programas das disciplinas integradoras . Nos cursos de Pós -Graduação, as contribuições da epistemologia ao ensino de física/ciências, constituem eixos de investigação muito fortes em diversas instituições.

Constata -se dessa forma, uma assimetria na formação inicial docente: presença de estudos normativos ou prescritivos sobre a física/ciência a partir das contribuições da epistemologia e ausência, ou presença episódica de estudos sistemáticos de física/ciência moderna e contemporânea , pela via das disciplinas específicas da formação em licenciatura, que não são as mesmas dos demais perfis profissionais, particularmente o do bacharelado.

Em resumo, há mais repercussão dos estudos sobre a física moderna e mesmo contemporânea, do que da mesma. Por conseqüência, até no ensino médio, publicações didáticas e para-didáticas se referem às RC do século XX como características da ciência, não somente da Física, em que pesem sua maior concentração no estudo dos conhecimentos clássicos. Não raro o discurso sobre as ciências, desde as bases mais tradicionais do empirismo lógico até os estudos da chamada pós-modernidade, integram às suas plataformas normativas o caráter revolucionário da Ciência, não somente da Física, embora quase sempre apelando para as RC fundadoras do século XVII ou as RC do início do século XX.

Cabe então perguntar: Quais são, quando e e onde se originaram as RC das outras ciências, similares às duas citadas?

Nossa resposta é negativa, se considerarmos o critério de revolução na revolução. Não se verifica até hoje situações semelhantes, em que pesem extraordinárias conquistas das ciências básicas e aplicadas nos últimos cem anos.

A Física Quântica e a Relatividade repercutiram enormemente nos campos afins á Física, estabelecendo as bases norteadoras para as investigações, em escala microscópica, das "ciências moleculares" e da equivalência massa-a-energia. Na escala macroscópica, para novas investigações do universo em Astrofísica e Cosmologia, estimulando ilações entre essas escalas, das dimensões fermianas nucleares às dimensões galácticas .

Embora sem assistir a novas RC desde os primórdios do século XX, cabe registrar uma revolução não propriamente científica nem propriamente tecnológica, mas sim denominada tecnocientífica (conforme a acepção francesa), inédita, se comparada às RC e às RT históricas, deflagrada nos últimos 30 anos, algo novo, ainda pouco presente nas discussões epistemológicas .

Presenciamos uma revolução tecnocientífica sem precedentes cujas origens e marcos remontam a 1947, com a invenção do transistor, resultante de aplicação direta da Física Quântica, da Eletrônica e das Comunicações, que viabilizaram a virtualidade em novas bases. A A rede web , concebida a por Berners-Lee e colaboradores para facilitar a demanda para divulgação de dados em profusão obtidos em um laboratório típico da "bigscience - - o CERN na Europa" e disponibilizada amplamente a partir de 1995/96, acentuou a possibilidade de acesso e participação de comunidades antes alijadas, ao conhecimento acumulado e atual. Os desdobramentos se verificaram em todos os setores, a ponto de promoverem a reconfiguração dos organogramas de pesquisa em Ciência e Tecnologia (C(C&T). Como exemplo, temos hoje uma Ciência Computacional , exercitada, dentre outras áreas pelos pesquisadores da Física Computacional. l.

Como em todos os processos e produtos de C&T, novos benefícios tornam-se tangíveis paralelamente a novos prejuízos, e , como o em todas esses cenários de grandes mudanças, há ganhadores e perdedores (Postman, 1994), a rede web "aceita tudo": dadas boas inovações para o ensino de ciências ao ranço de muitas publicações didáticas, dos jogos criativos aos violentosos, dos endereços sérios aos duvidosos, da geração de necessidades nobres e outras discutíveis. Mas é digno de registro a possibilidade e inédita de estudos tanto individual como em grupos não presenciais, por sujeitos que nunca tiveram possibilidade de acesso aos acervos acadêmicos.

Voltando ao objetivo deste texto, ressaltamos que, para nosso critério de demarcação, ocorreram "apenas duas RC no último século" , resultantes em boa medida da imaginação o e empenho de poucos pesquisadores. Em pequenas equipes ou até quase isoladamente, ainda que sempre "debruçados sobre ombros de gigantes", , os autores trabalhavam em gabinetes, bibliotecas ou laboratórios, sem recursos além do papel e caneta. Os textos originais datilografados ou mesmo manuscritos, publicados em periódicos especializadas da época com circulação restrita da ciência privada (Holton, 1979), provocaram intensa agitação interna e externa e geraram novos cenários de pesquisa básica e aplicada. Esses traços quase poéticos parecem cada vez mais remotos, dados os imperativos da Tecnociência, dos grandes projetos, interesses, financiamento de grupos interdisciplinares e interinstitucionais.

Logo, é tetentador afirmarmos que tivemos na História da Ciência só as duas citadas RC há mais de cem anos, a grande síntese mais abstrata de Conservação-Degradação

da Energia, outras duas Tecnológicas e uma nova, Tecnocientífica, provavelmente precursora de outras que seguirão, se houver.

Logo, parece razoável afirmarmos que as ciências disciplinares e a ciência em geral, podem ser reconhecidas no século XX muito mais no seu sentido "normal" do que é proclamada nos textos epistemológicos. Aqui não estamos reforçando o lado pouco criativo ou até conformista da ciência a normal, atribuída a cientistas medíocres segundo Popper ou aquela que consola o especialista, na posição desconstrutiva de Feyerabend d a respeito dessa categoria kuhniana. Ciência normal secular parece ser mais apropriado porque muito mais presente do que ciência revolucionária, mesmo que consideremos, com justiça, o papel e os desdobramentos das duas RC e da presente RT comentadas. Ciência normal que convive entre a continuidade das teorias mais aceitas do que suas rivais, das grandes instalações e dos grupos de pepesquisa, e as descontinuidades dos achados do século passado., inventos e descobertas, tanto em quantidade como em qualidade .

Houve sim limites, estagnação e mesmo algum retrocesso por vezes, ao lado de avanços espetaculares com riscos e prejuízos nas mesmas proporções.

Como classificar então as conquistas amplamente reconhecidas? Algumas estão associadas a bases teóricas das mais consistentes e muitas têm resultados de larga aplicação, sobretudo nas áreas aplicadas da Matéria Condensada, da Biologia Molecular, da Agricultura, da Bioquímica, Medicina e Engenharias. Como situar e categorizar r as descobertas, achados e invenções?

Em nossa interpretação, essas contribuições, desde estruturas micrososcópicas até as macroscópicos , mesmo espetaculares, não podem ser alinhadas na História da Ciência como revoluções científicas porque a demanda essencial é por uma teoria que não se ajuste às anteriores, à crise e mudança do paradigma .

Podemos elencar muitos achados desde o século XVII, vinculados a processos experimentais e e a instrumentos novos. A célula e os primeiros microscópios; as manchas solares, os satélites de Júpiter e os primeiros telescópios; o elétron, os raios X, a a aspirina, a tabela periódica a e seus respectivos e equipamentos vinculados ...

No século passado, ocorreram descobertas cada vez mais derivadas de investigação multidisciplinar: partículas nucleares e subnucleares, férmions e bósons, supercondutores, fulerenos, organometálicos, nanotubos, proteínas sintetizadas, DNA, codificação genética, clonagem. Partículas ou corpos macroscópicos previstos por teorias (neutrino e o pósitron, os planetas Urano e Netuno) são decorrentes de revoluções científicas, mas não podem, segundo esse critério "econômico", serem classificados como RC. Isto porque corremos o o risco de cotejarmos um conjunto de atividades teóricopráticas relevantes da investigação em C&T atual ou histórica a com as teorias de amplo alcance, significado, universalidade e aplicações que caracterizam as RC, tanto as originais das ciências básicas , como as duas RC da Física a do século XX .

Mas cabe então perguntar por exemplo aos pesquisadores da Biologia e do Ensino de Biologia se consideram a descoberta do DNA uma RC e como justificam a demarcação ou não. Para nós, assim como os outros achados citados, não é porque não está associado a uma teoria de amplo espectro que implica no "arrombamento" de uma outra, antes hegemônica.

Por fim, uma palavra sobre o eventual abandono de teorias substituídas por RC. Se os exemplos de Kuhn relativos ao geocentrismo o ou flogístico o podem ser entendidos como efetiva substituição e conseqüente abandono de modelos anteriores, o mesmo não

aconteceu com as RC do século XX e a Física Clássica. A recente teoria do Caos, originária de questões da Física Clássica do início do o século XX, demonstra a permanente fertilidade deste conhecimento, jamais abandonado. Em que pesem as apostas, essa teoria não assumiu ainda um conjunto de requisitos próximos aos exemplares típicos das RC. Como todas as investigações, esse campo interdisciplinar por natureza vem amadurecendo com os aportes da Computação, alinhada à RT atual. Mas não é justo, pelo menos até o presente, reconhecermos esse campo "como uma nova ciência" (Gleick, 1990).

Quanto à repercussão das novas teorias da Física no sécululo XX, é preciso registrar que livros textos de referência editados anos depois, eram ainda ancorados na plataforma conceitual da Física Clássica (Meneuvrier, 1918).

## QUESTÕES SOBRE EPISTEMOLOGIA E ENSINO DE FÍSICA

Propomos um conjunto de questões sobre a tensão aqui debatida, porque somos também diretamente responsáveis pelo ensino das contribuições epistemológicas ao ensino de ciências, fundamentados não raro nos escritos dos anos 30 a 60, bastante influenciados pelas RC do século XX. Os textos de referência amplamente utilizados não perguntam onde estão as RC nas ciências da natureza para além da Física, nem discutem explicitamente critérios nítidos para a demarcação de uma RC.

Diante da possibilidade de sugerirmos - pela opção analógica muito recorrente, uma distribuição espectral entre os pólos Ciência Normal e Ciência Revolucionária, preferimos fortalecer os requisitos para um período ser considerado RC, vinculando-o ao desenvolvimento de teorias universais, sejam para implantação de um campo disciplinar ou multidisciplinar, seja para subvbverter, sem necessariamente aniquilar, essas mesmas contribuições amplamente reconhecidas pelos pares e educadores. Mas essa subversão ocorreu pouco, o, somente duas vezes em termos de freqüência na História da Ciência a a partir do século VVII, e apenas no escopo da Física.

Ciência será mesmo o que epistemólogos do século XX proclamaram? Em especial o que escreveram, de maneira entusiasta e com muita razão, nos anos 1930 0 e enorme repercussão a partir da década de 1960?

Não prevalece e as teorias originais com reformulações ou descontinuidades ajustadas ao arcabouço teórico da área (como o neodarwinismo)o), garantida uma continuidade elástica , ou uma evolução não linear o suficiente para não implodir?

Não teriam as duas RC da Física provocado maior prudência dos pesquisadores, que passaram a investigar cautelosamente, sem provocar arrombamentos, na acepção bachelardiana?

Que tipo de influência terá exercido o debate epistemológico o na formação e prática dos pesquisadores desde meados do século anterior até os contemporâneos, hoje em ação? O intenso debate sobre a incomensurabilidade entre paradigmas teria provocado certa a inibição, ou muitos têm buscado corajosamente a ruptura, a, sem êxito até agora?

No cenário contemporâneo da vivirtualização do real estamos desafiados na capacidade analítica quando enfrentamos o conjunto cognoscitivo imagem-objeto e não mais as imagens distintivas dos objetos anteriores. Não estamos d diante de um estranho amálgama " empirismo-o-racionalismo" , um Frankstein da tecnociência muito mais persuasivo porque disfarçado nos equipamentos sofisticados da virtualidade?

A contribuição kuhniana, quque tanto prezamos e enfatizamos, que acabou servindo de " paradigma" para tantos outros campos do conhecimento, não precisa ser reconsiderada, como sugeriu Toulmin décadas passadas? ? As metáforas em favor da n nova aliança , que insistem em desbancar a antiga aliança a a exemplo da escuta poética da natureza (Prigogine e Stengers), fazem mesmo tanto sentidos diante da Tecnociência?

Abuso de termos do tipo Crise de Paradigmas, tão recorrentes na Educação e mesmo em publicações da área de ensino de ciências são compatíveis com o que aconteceu na História da Ciência e no Ensino Profissional de Ciências no século passado?

Dado o imperativo da Tecnociência, os compromissos de financiamento da ciência contemporânea e a formação dos pesquisadores, serão possíveis novas RC pioneiras ou de segunda ordem , à semelhança das passadas?

Enfrentar as controvérsias é mesmo uma das tarefas da formação dos licenciados e pesquisadores da educação científica e tecnológica. a. De nossa parte, temos indicadores que consideramos plausíveis para exercitarmos mais e melhor a a vigilância das nossas convicções e, eventualmente, nossas c certezas epistemológicas.

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