REPENSANDO O ENSINO DE FÍSICA COM UMA LENTE DECOLONIAL: UMA REVISÃO DA LITERATURA
Bárbara Beatriz Pedroza Santos, Suiane Ewerling Da Rosa
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2024
- Data
- 20/08/2024
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2024
Texto completo
XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024
## REPENSANDO O ENSINO DE FÍSICA COM UMA LENTE DECOLONIAL: UMA REVISÃO DA LITERATURA
## RETHINKING PHYSICS EDUCATION THROUGH A DECOLONIAL LENS: A LITERATURE REVIEW
Bárbara Beatriz Pedroza Santos 1 , Suiane Ewerling da Rosa 2
1 Universidade Federal do Oeste da Bahia, barbara.s4847@ufob.edu.br
2 Universidade Federal do Oeste da Bahia, suiane.rosa@ufob.edu.br
## Resumo
Este trabalho explora a influência do pensamento colonial na história científica, destacando como o colonialismo não apenas subjugou povos, mas também apropriou-se de seus conhecimentos sem créditos devidos. No contexto do ensino de física, argumentamos que a perspectiva eurocêntrica tradicional reflete-se no currículo, excluindo saberes locais e apartando costumes. Assim, o pensamento decolonial emerge como uma resposta, visando reparar injustiças históricas e promover um ensino mais crítico e inclusivo. Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica sobre essa temática envolvendo o que foi produzido nos últimos sete anos nos eventos bienais da área. Esses materiais foram categorizados em: temas afins e narrativas descolonizadoras para além da consciência sobre o tema. Além disso, essa narrativa foi vinculada aos desafios educacionais, sempre advogando pela (des)colonização do ensino de Física como necessária para transcender a dualidade do eu-colonizado e do eu-consciente.
Palavras-chave : Decolonialidade; Ensino de Física; EPEF; SNEF.
## Abstract
This paper explores the influence of colonial thought on scientific history, highlighting how colonialism not only subjugated peoples but also appropriated their knowledge without due credit. In the context of Physics Education, we argue that the traditional Eurocentric perspective is reflected in the curriculum, excluding local knowledge and distancing from cultural practices. In this sense, decolonial thinking emerges as a response, aiming to rectify historical injustices and promote a more critical and inclusive science education. To achieve this, a literature review was conducted on this theme, encompassing works produced in the last seven years at biennial events. These materials were categorized into related themes and decolonizing narratives beyond awareness of the subject. Additionally, this narrative was linked to educational challenges, consistently advocating for the (de)colonization of Physics Education as necessary to transcend the duality of the colonized-self and the conscious-self.
Keywords : Decoloniality; Physics Education; EPEF; SNEF.
## Introdução
A dominação do pensamento colonial ao longo da história tem sido um obstáculo significativo para o reconhecimento das contribuições científicas de regiões não
XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024
ocidentais. O colonialismo, que é um sistema de dominação em que um país ou grupo de países estende sua autoridade sobre outros territórios e populações fora de suas fronteiras, não apenas subjugou povos e culturas, mas também apropriou-se sistematicamente de seus conhecimentos e descobertas, frequentemente, sem dar crédito aos verdadeiros autores. Muitas descobertas científicas e avanços tecnológicos fundamentais têm raízes em comunidades indígenas, africanas, asiáticas e outras, que foram, quase todas, ignoradas ou deliberadamente apagadas das narrativas históricas. De forma que, apenas uma versão da história foi contada.
É assim que se cria uma história única: mostre um povo como uma coisa, uma coisa só, sem parar, e é isso que esse povo se torna.(...) A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história. (...) A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade, dificultando o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada, enfatizando como nós somos diferentes, ao invés de como somos semelhantes (CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE, 2019, p. 12-14).
A colonização refere-se ao processo histórico de dominação territorial, cultural e econômica praticado pelas potências coloniais europeias durante os séculos de expansão imperial. E, por sua vez, a colonialidade é um sistema de poder que persiste além do período colonial formal, permeando todas as esferas da vida social e cultural (QUIJANO, 2005). Sistema de poder esse, que persiste enraizado na modernidade eurocêntrica e se manifesta na imposição de hierarquias raciais, culturais e epistêmicas. Desse modo, para perceber os processos de mudança social e educacional em contextos pós-coloniais é importante compreender que o termo decolonialidade se concentra na crítica e na superação das estruturas de poder colonial presentes em nossas instituições e formas de conhecimento. Já a (des)colonização refere-se aos esforços concretos para desmantelar essas estruturas e foca na luta pela justiça e pela libertação das formas de opressão colonial. Além disso, busca não apenas a independência política, mas também a descolonização das mentes e a reconstrução de identidades e práticas sociais emancipatórias (FANON, 2022).
Neste ínterim, o ensino de física desempenha um papel fundamental na formação de indivíduos e na compreensão dos fenômenos naturais do mundo que nos cerca. No entanto, o modo tradicional, pelo qual a física tem sido ensinada, frequentemente, reflete uma perspectiva eurocêntrica que não captura a essência da diversidade de experiências, culturas e conhecimentos existentes, ou seja, temos adotado, de maneira generalizada,
XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024
um currículo que não representa a miscigenação do povo brasileiro. Todavia, vivenciamos uma época (2023) em que já somos capazes de reconhecer que esse currículo, muitas vezes, exclui ou distorce saberes e conhecimentos locais. E eis que emerge o pensamento decolonial como uma resposta e etapa essenciais para reparar as injustiças históricas e para construir uma compreensão mais completa e precisa do progresso científico em todo o mundo. Portanto, o presente trabalho empreende uma jornada de reflexão crítica sobre a importância de uma educação libertadora que reconheça a diversidade cultural e o poder do diálogo (FREIRE, 1968).
Dessa forma, a presente pesquisa objetiva identificar e analisar as publicações no Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (EPEF) e no Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF), que envolvem Decolonialismo. Tudo isso, dentro do período compreendido entre os anos de 2017 e 2023, que é mais ou menos, o período em que se começou a produzir trabalhos acadêmicos, no Brasil, com essa temática. Assim, a identificação desses trabalhos busca contribuir com o compartilhamento de conhecimentos e práticas entre professores interessados em considerar essa perspectiva na abordagem da sua prática docente.
## Compreendendo os desafios das narrativas eurocêntricas no Ensino
Vivemos em uma sociedade capitalista totalmente governada pela lógica do lucro e da exploração do outro. E a permanência dessa sociedade é sustentada pela reprodução de seus componentes econômicos e ideológicos, isto é, são necessárias instituições encarregadas de garantir que o status quo não seja contestado. Assim, existem mecanismos que produzem e disseminam a ideologia, dentre os quais, temos como aparelho central: 'a escola' que atinge toda a população por um grande período. Nesse sentido, Louis Althusser expõe que a escola atua ideologicamente através de seu currículo. Diretamente através das disciplinas de ciências humanas, que são mais suscetíveis ao transporte de crenças. Mas, indiretamente, por meio de disciplinas consideradas técnicas como a física (1992).
No mundo em que vivemos, a economia e a produção são o centro da dinâmica social. E conforme é explanado por Tomaz Tadeu da Silva em seus escritos (2015), a escola transmite, através das matérias, as crenças que nos fazem acreditar que os arranjos sociais existentes são desejáveis e a cultura dominante é a correta. O currículo que utilizamos hoje, está baseado na cultura dominante, ele se expressa na linguagem
XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024
dominante e é transmitido através do código cultural dominante. De modo que, não proporciona identificação e representatividade naqueles que estão sendo educados e todas essas pessoas acabam acreditando que estão erradas e que seus corpos e costumes deveriam ser diferentes. Tudo isso, porque a cultura não depende da economia, ela funciona como uma economia (BOURDIEU; PASSERON, 1964) e ao praticar papéis subordinados, aprendemos a subordinação. E é por isso que a escola espelha no seu funcionamento as relações sociais de trabalho, inclusive, proletarizando o ofício dos professores (CONTRERAS, 2002) e fazendo com que percamos a nossa autonomia e trilhemos caminhos distantes da nossa subjetividade humana.
## Metodologia da pesquisa
O processo de seleção dos trabalhos a serem analisados levou em consideração os últimos sete anos, que compreende o período de 2017 a 2023, pois é justamente o intervalo temporal de fortes mudanças no contexto político e subjetivo brasileiro e que nos permitirá garantir que a revisão bibliográfica seja um recorte alinhado com as preocupações atuais e as inovações que têm moldado o pensamento decolonial nos últimos anos. Além disso, esse é um tema tão emergente que as publicações são quase todas recentes. Todavia, vale a pena ressaltar a existência de uma tendência crescente para publicações nos anos subsequentes. Ainda mais, entendendo que o pensamento decolonial representa um grande passo na tomada de consciência e de uma dependência cultural, simbólica, linguística e epistemológica, originada na modernidade colonial (ARDILES et al., 1973).
Para isso, a análise dos trabalhos foi realizada, de forma criteriosa, considerando aqueles que abordam explicitamente a temática da decolonialidade no ensino de física e os que potencialmente contribuem para a construção de um ensino decolonial e afro diaspórico. Ou seja, foram incluídos trabalhos que contribuem para a perspectiva da valorização dos saberes tradicionais para o ensino de física, mesmo que não conste esclarecidamente que trata de (des)colonização. Vale salientar que esse tipo de olhar exige um trabalho árduo que é verificar manualmente cada trabalho produzido por esses eventos no período temporal adotado. Nesse sentido, a escolha dos termos de busca incluiu palavras-chave como "decolonialidade", "eurocêntrico", "pós-colonialismo", "descolonização", "educação antirracista", "Povos Indígenas", "Cultura indígena", "povos tradicionais", "Astronomia cultural", "comunidades indígenas", "relações étnico-raciais",
XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024
"Astronomia indígena", "Representatividade", "Constelações indígenas", "Colonização", "Cultura" e "Etnoastronomia".
Logo, segue o Quadro 1 com o número de trabalhos encontrados em cada evento por ano, no período já delimitado.
Quadro 1: Número de trabalhos obtidos no EPEF e SNEF nos anos de 2017 a 2023.
## XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024
SABERES DE POVOS ORIGINÁRIOS DO BRASIL.
Fonte: Elaborado pelos autores (2023)
Assim, o processo metodológico baseou-se na teoria de categorização da análise de conteúdo, uma abordagem que visa desvelar padrões e significados subjacentes nos textos dos artigos científicos (BARDIN, 2010). Além disso, a análise de conteúdo feita busca identificar e codificar unidades de significado relevantes, proporcionando uma compreensão profunda e sistemática do material textual. No contexto específico deste estudo, a aplicação desta teoria visa categorizar os treze artigos selecionados de modo que a categorização divida-os em: perspectivas temáticas do corpus de análise e narrativas descolonizadoras para além da consciência sobre o tema.
## Perspectivas Temáticas do Corpus de Análise
Dos artigos identificados, quatro deles estão relacionados à astronomia indígena, sendo um deles do EPEF (T2) e 3 do SNEF (T1, T4 e T7), além disso, no quesito mais geral de Decoloniadade, temos três trabalhos: um publicado no EPEF (T5) em 2020 e dois no SNEF (T8 e T9) em 2019 e 2022. Temos também três trabalhos, um de 2019 do SNEF (T3) e os outros dois de 2022 (T11 e T13) no EPEF, que podem ser classificados como reflexões sobre a relação dos povos indígenas com o Ensino de Física. Logo, como temas em comum temos o primeiro grupo voltado para a astronomia indígena, o segundo grupo para aspectos mais gerais sobre decolonialidade e, por fim, a articulação entre ensino de física e povos indígenas. E essa foi a primeira categoria, totalizando dez trabalhos.
A análise da categorização desses trabalhos revela padrões temáticos significativos no contexto do Ensino de Física e da perspectiva decolonial. A identificação de quatro artigos relacionados à astronomia indígena destaca um interesse crescente em valorizar e incorporar os conhecimentos tradicionais, particularmente os relacionados à cultura Guarani-Mbyá. Além disso, há presença de trabalhos dedicados à decolonialidade no ensino de Física, incluindo abordagens inovadoras como histórias em quadrinhos, sinalizando uma resposta à necessidade de revisitar e reformular as práticas pedagógicas, desafiando a perspectiva eurocêntrica tradicional.
XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024
Sobre o conjunto de trabalhos centrados na decolonialidade no ensino de física, destaca-se a preocupação sobre a conscientização crescente referente a necessidade de repensar o currículo para incluir representatividade étnico-racial e perspectivas africanas. Essa abordagem está alinhada com a busca por uma educação científica mais inclusiva e contextualizada. Já sobre as reflexões sobre a relação dos povos indígenas com o Ensino de Física, destaca a importância de integrar práticas culturais e tradicionais no ambiente educacional, promovendo uma compreensão mais holística e respeitosa da diversidade cultural.
## N arrativas descolonizadoras para além da consciência sobre o tema
Esta categoria contempla os três trabalhos restantes, sendo eles, T6, T10 e T12. Focada em narrativas descolonizadoras, estes trabalhos evidenciam um esforço em romper com as perspectivas tradicionais sobre a ciência, propondo uma reconstrução das narrativas e uma análise crítica das histórias de origem do universo. Essa abordagem visa ir além da simples consciência sobre o tema, buscando construir uma compreensão mais abrangente e equitativa da ciência.
Além disso, ao refletir sobre a influência profunda do pensamento colonial nas práticas pedagógicas e na construção do conhecimento científico, a autora do presente trabalho criou dois termos: "eu-colonizado" e "eu-consciente" que se articulam com os desafios de ensinar ciência/física. Assim, ao abordar o conceito de "eu-colonizado", considera-se a tendência histórica de reproduzir modelos eurocêntricos que resultam na exclusão de perspectivas não ocidentais, saberes locais e na marginalização de grupos étnicos e culturas diversas. E isso cria uma dinâmica em que os estudantes, professores e o próprio sistema educacional internalizam e perpetuam visões de mundo ancoradas no colonialismo, impactando a qualidade e a equidade no ensino de física.
Já o termo "eu-consciente" sugere a necessidade de uma abordagem reflexiva e crítica. Educadores e educandos conscientes buscam transgredir as limitações do pensamento eurocêntrico, reconhecendo a diversidade cultural, étnica e epistêmica. Isso implica em repensar o currículo tradicional e adotar uma perspectiva crítica e/ou pós-crítica e também descolonial que valorize saberes locais, promova a representatividade e enfrente as injustiças históricas presentes no ensino de física. Essa
XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024
consciência também se relaciona com a capacidade de questionar ativamente as estruturas opressivas, fomentando uma educação mais inclusiva e crítica.
## Considerações finais
Os resultados obtidos nesta revisão apontam para a crescente conscientização sobre a imperativa necessidade de (des)colonizar o ensino de Física. Fica evidente que a influência arraigada do pensamento colonial na ciência e educação persiste, ressaltando a urgência de superar o currículo tradicional e eurocêntrico. A categorização cuidadosa dos temas afins das narrativas descolonizadoras destacam a complexidade e a riqueza desses debates, reiterando a importância crítica de enfrentar os desafios educacionais com determinação. Precisamos transcender as dualidades históricas, entre o eu-colonizado e o eu consciente e assim, contribuir para a construção de um cenário educacional, no Ensino de Física, mais inclusivo, equitativo e reflexivo.
## Referências bibliográficas:
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única . Companhia das Letras, 2019. 12-14 p.
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado . Rio de Janeiro, 1992.
ARDILES, Osvaldo. Hacia una filosofía de la liberación. Buenos Aires: Editorial Bonum, 1973.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo . São Paulo: Edições 70, 2010
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. Les héritiers: les étudiants et la culture. Paris: Les Éditions de Minuit, 1964
CONTRERAS, José. Autonomia de professores . Trad. Sandra Trabuco Valenzuela. São Paulo: Cortez, 2002. 296p
FANON, Frantz. Os condenados da terra . Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S. A., 1968.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e terra, v. 1, 1987.
QUIJANO, Aníbal. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, p. 117-142, 2005.
TADEU, Tomaz. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo . Autêntica, 2016.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.