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Contribuições iniciais para a conceitualização de autoridade epistêmica no ensino de física

Daniel Pigozzo, Matheus Monteiro Nascimento

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
20/08/2024
Linha de pesquisa
Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CONTRIBUIÇÕES INICIAIS PARA A CONCEITUALIZAÇÃO DE AUTORIDADE EPISTÊMICA NO ENSINO DE FÍSICA

## INITIAL CONTRIBUTIONS FOR A CONCEPTUALIZATION OF EPISTEMIC AUTHORITY IN PHYSICS EDUCATION RESEARCH

Daniel Pigozzo 1 , Matheus Monteiro Nascimento 2

- 1 UFRGS / Instituto de Física, danielpigozzo@protonmail.com
- 2 UFRGS / Instituto de Física, matheus.monteiro@ufrgs.br

## Resumo

Diversas versões do conceito de autoridade epistêmica são articuladas em trabalhos acadêmicos e, como especialistas em Ensino de Física, é importante compartilharmos noções que adequadamente fundamentem futuros estudos que tentem mobilizá-lo. Para explorar e promover uma conceitualização sociocultural de autoridade epistêmica, o presente artigo apresenta uma discussão baseada em leituras como os trabalhos de Zagzebski (2012) e Jäger (2016). De modo complementar à conceitualização, discutimos a relação entre privilégio e autoridade e a dicotomia autoritarismo versus autoridade. Por fim, apresentamos nossas considerações finais focadas em implicações mais gerais para a área de pesquisa em Educação em Ciências de modo a reforçar a relevância da conceitualização explorada.

Palavras-chave : autoridade epistêmica, confiança pública, ensino de física, educação em ciências.

## Abstract

Several versions of the concept of epistemic authority are articulated in publications and academic works and, as researchers in the field of Physics Education, it is important that we share notions that adequately substantiate future studies that try to mobilize it. To explore and promote a sociocultural conceptualization of epistemic authority, this article presents a discussion based on readings such as the works of Zagzebski (2012) and Jäger (2016). In addition to the characterization, we discuss an example of articulation of the concept capable of consolidating the proposed sociocultural perspective. Finally, we present our final considerations focused on more general implications for Science Education research in order to reinforce the relevance of the conceptualization explored.

Keywords : epistemic authority, public trust, physics education, science education.

## Introdução

Atualmente, o conceito de autoridade epistêmica repercute notoriamente em diversos trabalhos acadêmicos. Há, por exemplo, os estudos de Zagzebski (2012), Jäger (2016), Ranschaert (2020), Nichols e Petzold (2021), Agustian (2023) e Lambert et al.

(2023). Especificamente entre pesquisas de Ensino de Física, o conceito é vinculado a práticas pedagógicas, crenças epistêmicas, identidade e justiça social (Holmegaard; Archer, 2022; Zemplén, 2023). Na literatura especializada em geral, destaca-se a noção de que indivíduos vinculados a instituições de ensino e pesquisa (i.e., instituições epistêmicas) têm o potencial de gerar confiança ou chamar atenção de modos semelhantes no debate público. Entretanto, a confiança e a autoridade geradas nem sempre são vinculadas à área de pesquisa, à instituição de origem ou à veracidade dos discursos de tais indivíduos, evidenciando que nem sempre é percebida uma diferença entre pessoas apresentadas como autoridades.

Há diversos contextos e eventos atuais que acabam representando um importante microcosmo da percepção pública da integridade das ciências - como as mudanças climáticas ou a alteração da bula de um medicamento durante uma pandemia - porque ajudam a construir noções sobre o papel social de cientistas. Algo capaz de explicar por que uma organização como a Sociedade Brasileira de Física (SBF) chegou a se pronunciar sobre pseudociência e a presença de terapias integrativas e complementares no Sistema Único de Saúde (Glass et al., 2021). Isto é, porque a SBF reconhece que a integridade e a autoridade de uma área ou instituição estão relacionadas, pelo menos parcialmente, à integridade e à autoridade de todas.

A partir de eventos como a CPI da Pandemia, por exemplo, surge espaço no debate público para discutir a validade de objetos e métodos de áreas como as ciências biológicas. Nas seções da Comissão, vimos especialistas em microbiologia e divulgação científica como Natalia Pasternak ocupando o mesmo palanque político que Mayra Pinheiro (a 'Capitã Cloroquina', conhecida por defender inadequadamente um tratamento precoce para Covid-19), formada em pediatria, ou seja, uma área de pouca relevância ou proximidade com o tema, criando um cenário de simetria entre visões de mundo e a percepção dessas pessoas como autoridades equivalentes.

Inserindo-nos nesse contexto problemático, nossa questão de pesquisa é: como melhor articular o conceito de autoridade epistêmica para que o Ensino de Física possa demarcar adequadamente quem trabalha com educação e divulgação científica e quem simplesmente enuncia discursos não científicos? Assim, no presente trabalho de natureza teórica, exploramos conceitualizações de autoridade epistêmica para as pesquisas mais atuais de Ensino de Física discutindo diferentes conceitualizações do

conceito feitas em outras áreas, mas também aquelas já articuladas preliminarmente na nossa área, para propor uma síntese que outras pesquisas possam utilizar.

Ao tratar de autoridades epistêmicas atualmente, é preciso reconhecer um período antes, durante e depois da pandemia. Os desafios que surgem em nosso campo de atuação por causa da Covid-19 são em grande parte inéditos e associados à desinformação e descredibilização de instituições epistêmicas (Oliveira, 2020). Com tais preocupações, nas seções a seguir, exploramos o porquê da caracterização epistêmica da noção de autoridade e, por seguinte, a relação entre autoridade e privilégio. Adiante, focamo-nos mais na dimensão educacional de nossas reflexões, levando nosso estudo a uma avaliação do papel da formação e da identidade docente na caracterização da figura docente como uma autoridade epistêmica.

## Autoridade e privilégio

Diferenciando autoridade de autoridade epistêmica no Ensino de Física, independente de temas e abordagens específicos, sempre se lida com a noção de episteme, até quando esse não é o termo usado. As disciplinas - Física, Química, Biologia etc. assim compartimentalizadas por instituições e políticas curriculares representam aquilo considerado conhecimento válido, a episteme, em oposição àquilo que é pensamento infundado ou irrefletido, a doxa. Figuras de autoridade na nossa área cientistas, docentes, jornalistas, pessoas que trabalham em museus e com divulgação científica - apresentam um diferencial ao não representar formas de poder, agir, chamar atenção ou gerar confiança relacionadas apenas a uma posição políticoeconômica (como a detenção de mais ou menos capital) ou hierarquia institucional (como um vínculo empregatício). As figuras de autoridade nas pesquisas em Ensino de Física e Educação em Ciências se diferenciam especialmente porque representam e reproduzem aquilo que é considerado episteme pela comunidade acadêmica.

Até aqui há apenas uma discussão sobre adjetivação. Há sintonia com o que é descrito de fato como autoridade epistêmica? Podemos partir de quaisquer referências já citadas, mas destacamos a obra de Zagzebski (2012) entre elas, por ser bastante extensa e notória no campo da epistemologia, área temática de grande relevância no Ensino de Física. Em um primeiro olhar, nossa discussão inicial vai de encontro à teoria de Zagzebski já que logo na introdução de sua obra é dito que:

Filósofos da moral e da política compreensivelmente focam na autoridade sobre as ações, assumindo presumivelmente que autoridade sobre as crenças é um tópico para a epistemologia. Mas epistemólogos também não discutem isso. Se ocasionalmente usam o termo 'autoridade epistêmica,' fazem-no apenas por cortesia. O que querem dizer no lugar de uma autoridade epistêmica é um especialista. (p. 16, tradução nossa)

Isto é, a discussão a partir da adjetivação pode ser entendida como a descrição de 'autoridade epistêmica' como 'expert'. Entretanto, o que distingue nossa discussão e a coloca, de fato, em sintonia com a teoria de Zagzebski é reconhecermos que autoridade epistêmica não se define apenas a partir de noções de poder e agência. Devemos nos atentar a quais mecanismos fazem determinada figura de autoridade epistêmica chamar atenção ou gerar confiança no público. A teoria de Zagzebski é que o conceito de autoridade epistêmica deve estar centrado não na autoridade em si, mas no sujeito que a percebe, estando relacionado à autonomia intelectual e à construção de confiança, tanto em si quanto na figura de autoridade em questão.

Com um foco direcionado mais ao sujeito e não exclusivamente à figura de autoridade, segue-se à noção de que toda forma de autoridade epistêmica carrega também um privilégio epistêmico. Isto é, possibilita posições sociais e políticas únicas baseadas em percepções superficiais de confiabilidade, inteligência e sinceridade. A teoria de Zagzebksi aborda a noção de privilégio mais especificamente na questão sobre a confiança da pessoa em si mesma, em sua própria noção de conhecimento válido.

Em autoras como Janack (1996) encontramos um verdadeiro aprofundamento de tal discussão de forma a expandir e questionar tal entendimento, visto que, especialmente no contexto dos Estados Unidos no qual ela se concentra, a reprodução social materializada pelas instituições epistêmicas e as credenciais que elas fornecem aos indivíduos com maior nível de formação é algo inalienável da construção de uma autoridade epistêmica. Isto é, não é que não exista privilégio epistêmico ou que ele não esteja relacionado a percepções de autoeficácia, mas que ele está muito mais relacionado às autoridades já associadas a comunidades acadêmicas tradicionais e menos relacionado a autoridades epistêmicas de comunidades marginalizadas, por exemplo, porque a elas não são acessíveis as mesmas possibilidades de mobilidade social e reconhecimento de amplo público.

Concordamos com Janack e entendemos que privilégio epistêmico está relacionado a autoridades epistêmicas valorizadas por comunidades acadêmicas tradicionais, mas também relacionado a instituições e campos do conhecimento específicos. Isto é, há

uma maior disposição discursiva para reconhecer como válidas e relevantes as asserções de representantes de áreas de pesquisa e campos do conhecimento específicos, vinculados a instituições epistêmicas previamente valorizadas. Nosso entendimento está alinhado a outras pesquisas de Ensino de Física que defendem práticas pedagógicas preocupadas com justiça social e a necessidade de deslocar a autoridade epistêmica tradicional de professores e livros didáticos para evidências e consensos compartilhados (Mitchell-Polka et al., 2020; Taylor et al., 2022).

Ao mesmo tempo, como já dito, há desafios inéditos relacionados a pandemia de Covid-19 e a uma descredibilização de autoridades e instituições científicas (Oliveira, 2020). Mas como o privilégio existe paralelo a descredibilização? Há uma explicação plausível no trabalho de Nascimento e Massi (2023) que trata do negacionismo científico em uma abordagem bourdiana e por uma perspectiva transversalista de ciência e afirma que há 'um enfraquecimento das fronteiras do campo científico' que abre 'espaço para os interesses e valores do campo político' e, consequentemente, abre espaço para uma heteronomia. Isto é, enquanto pode ser identificado de fato uma descredibilização do campo científico, ela está mais associada à perda de autonomia do que à perda de autoridade; algo que está relacionado a outros microcosmos sociais, especialmente ao contexto educacional como um todo.

## Implicações educacionais

No contexto educacional, até quando não caracterizarmos autoridade como epistêmica mesmo sendo essa a sua natureza, o que se destaca é a figura docente. Independentemente de sua formação ou identidade, há uma estrutura institucional, uma demanda por atenção, uma expectativa de confiança e uma posição social de privilégio em sala de aula estando à frente de discentes, ou seja, há um conjunto de fatores que informam que a figura docente é uma figura de autoridade. Não só isso, mas outras figuras como as pessoas que trabalham em museus e com divulgação científica por serem representantes de uma área de um conhecimento e, por que não, de uma episteme, se configuram também, de fato, como autoridades epistêmicas.

Apesar disso, há uma relativa independência entre a formação e identidade da figura docente e a consolidação de sua autoridade epistêmica. Como toda área de atuação profissional, a profissão docente reflete contradições existentes na sociedade em geral. Assim, destaca-se a dificuldade de pessoas com identidades marginalizadas

que atuam como docentes em serem reconhecidas como autoridades epistêmicas, apesar de serem, tanto por definição, como discutido, quanto por sua atuação. Isto é, uma pessoa racializada e com alguma deficiência, notável ou não, pode não ser tão facilmente reconhecida como autoridade ou como um modelo a ser seguido quanto outros perfis de docentes (Bell et al., 1997; Maylor, 2009; Pritchard, 2010; Silva, 1998). Não é uma questão de identitarismo, como detratores que defendem um status quo de injustiça e desigualdade costumam denunciar, porque, apesar de ser uma profissão de perfil majoritariamente feminino, ainda é um campo de conflitos interseccionados à luta de classes, como as questões sobre raça e deficiência destacadas antes.

Entre as referências sobre o assunto no campo educacional, há as contribuições únicas de Paulo Freire que dialogam significativamente com a dimensão sociocultural que do debate e com questões de classe. Destacamos especialmente suas reflexões sobre o debate autoridade versus autoritarismo que, dialogando com a noção de que há um privilégio epistêmico associado a autoridades epistêmicas específicas, levam à teorização da existência de um autoritarismo epistêmico. Isto é, dado um contexto em que é possível ter privilégios, é relativamente fácil imaginar um abuso desses privilégios, corrompendo-se o ideal de autoridade como descrito por Freire em que há uma forma de consentimento bem compreendido entre as partes da relação de poder (Ruckstadter; Ruckstadter; Souza, 2021; Freire, 2011; Pitano; Ghiggi, 2010).

## Considerações finais

No presente trabalho, exploramos o conceito de autoridade epistêmica para contribuir no modo como tratamos de indivíduos e instituições de destaque no debate público e que podem ser temas ou sujeitos de pesquisas no Ensino de Física. Estudos teóricos sobre diferentes concepções de um mesmo conceito como o nosso, em especial aqueles que se aprofundam em referências fora de nossa área, podem contribuir para mobilizações mais coerentes e uníssonas do conceito.

Para responder diretamente nossa questão sobre como melhor articular o conceito de autoridade epistêmica para demarcar adequadamente quem trabalha com educação e divulgação científica e quem simplesmente enuncia discursos não científicos, destacamos uma síntese das nossas reflexões: autoridade epistêmica é um potencial que certos indivíduos apresentam de gerar confiança ou chamar atenção associado mais fortemente à sua formação acadêmica em instituição de ensino superior do que

à disciplina curricular ou área de pesquisa específica. Isto é, uma figura de autoridade epistêmica é uma pessoa percebida como alguém capaz de representar e reproduzir aquilo que é considerado episteme pela comunidade acadêmica; uma percepção que, por sua vez, não está apartada de um contexto de reprodução de contradições, privilégios e desigualdades sociais possibilitadas pelos sistemas de ensino.

Assim, como uma implicação da conceitualização, destacamos que nosso trabalho se justifica não só por possibilitar reflexões sobre formação e identidade docente a partir de um conceito específico, mas porque facilita o entendimento de que os contextos nos quais não se problematiza casos em que indivíduos de identidades marginalizadas tenham mais dificuldade de serem reconhecidas como autoridades epistêmicas ou nos quais não se condena casos de abuso da autoridade epistêmica, (isto é, casos de autoritarismo epistêmico) são contextos que fomentam e reproduzem não apenas o racismo e o capacitismo, mas também o cientificismo e a tecnocracia. Isso porque enquadram injustiças como algo aceitável em um status quo no qual pessoas já percebidas como experts, especialmente em questões científicas, continuam com uma posição de poder em uma realidade social desigual.

Por fim, reforçamos o entendimento de que as dimensões moral e política que estão na gênese da teoria de Zagzebski (2012), mas que perpassam outras conceitualizações como o trabalho de Janack (1997), não podem ser ignoradas ou desprezadas. Mesmo que as conexões entre diferentes referências e as reflexões que fizemos sobre elas acabem não reverberando entre futuras pesquisas de Ensino de Física e Educação em Ciências, consideramos importante o resgaste e o destaque dessas obras para que, mesmo que uma alternativa teórica algum dia se consolide na nossa área, o histórico de contribuições de outras áreas não seja esquecido. Além disso, destacamos que uma possível continuidade ou lacuna a ser preenchida em nossa exploração é um maior contato com o conceito de instituições epistêmicas justamente porque pode dar uma noção maior de materialidade ao debate.

## Referências

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