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Formação Interdisciplinar em Ciências em dois Projetos Pedagógicos.

Bento F. Freitas, Anne L. Scarinci

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
20/08/2024
Linha de pesquisa
Formação E Ação Docente Em Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Formação Interdisciplinar em Ciências em dois Projetos Pedagógicos.

## Interdisciplinary Training in Sciences in two Pedagogical Projects

## Bento F. Freitas 1 , Anne L. Scarinci 2

1 Universidade de São Paulo/ Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP /bento16@usp.br

- 2 Universidade de São Paulo/ Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP /anne@if.usp.br

## Resumo

Conhecimentos interdisciplinares são pressupostos para o desenvolvimento de práticas interdisciplinares no ensino. Para que isso ocorra, é necessário incentivar a formação adequada de licenciandos sobre o tema. Com base nessa perspectiva, objetivou-se compreender o cenário atual do quantitativo de cursos, ingressantes e concluintes de licenciatura em Ciências/Interdisciplinar por meio de dados extraídos dos relatórios do INEP para termos uma dimensão global da oferta desses cursos no Brasil, bem como o perfil desses profissionais entendidos pelos órgãos superiores (MEC). Após esse entendimento, buscamos de forma inicial indícios da formação interdisciplinar em ciências nas Instituições de Ensino Superior da região Sudeste, especificamente dos cursos interdisciplinares em Ciências da USP e da UFABC, onde analisamos preliminarmente os projetos pedagógicos desenvolvidos pelas Universidades contempladas com o edital nº35/2021 do Ministério da Educação. Os resultados mostram que no Brasil há apenas 16 cursos classificados como interdisciplinares pelo MEC. Os projetos pedagógicos dos cursos parecem inovadores e interessantes, de modo que vale a pena investigar as práticas docentes e a formação geral proposta, se de fato se encaixariam numa concepção de interdisciplinaridade.

Palavras-chave : Interdisciplinaridade, Formação Inicial, Projeto Pedagógico.

## Abstract

Interdisciplinary knowledge is a prerequisite for the development of interdisciplinary practices in teaching. For this to occur, it is necessary to encourage adequate training of undergraduate students on the topic. Based on this perspective, the objective was to understand the current scenario of the number of courses entry egress of Science/Interdisciplinary graduates through data extracted from INEP reports to have a global dimension of the offer of these courses in Brazil, as well as the profile of these professionals understood by higher bodies (MEC). After this understanding, we initially sought evidence of interdisciplinary training in science in Higher Education Institutions in the Southeast region, specifically interdisciplinary courses in Science at USP and UFABC, where we preliminarily analyzed the pedagogical projects implemented by the Universities awarded with notice no. 35/ 2021 from the Ministry of Education. The results show that in Brazil there are only 16 courses classified as interdisciplinary by the MEC. The pedagogical projects of the courses seem innovative and interesting in an interdisciplinarity concept.

Keywords : Interdisciplinarity, Initial Training, Pedagogical Project.

## Introdução

Com a promulgação do novo ensino médio, em 2021 o Ministério da Educação (MEC) lançou o edital nº 35/2021 chamando as Universidades para montarem novos cursos Interdisciplinares voltados para uma formação inovadora de professores para o novo ensino médio, pelo que inferimos o MEC tinha a compreensão de que esse novo ensino médio necessitaria de um profissional diferente do que temos hoje.

O edital nº 35/2021 foi ofertado para as cinco regiões do país (Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sudeste e Sul), que produzissem Licenciaturas em Pedagogia, Matemática, Letras Português e Ciências/Licenciatura Interdisciplinar (nosso interesse), sendo que cada região deveria se organizar em uma rede composta por uma Instituição de Ensino Superior (IES) Federal, uma IES Estadual e uma IES Privada sem fins lucrativos, com a Instituição Federal Sede.

Apenas três regiões responderam ao edital (Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste) e foram aprovadas em 14/09/2021, conforme consta no Diário Oficial da União. Na região Sudeste foi contemplada a rede: Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade de Santos (Unisantos).

Assim, gostaríamos de compreender a proposição desses cursos dentro do cenário nacional, tanto em termos de ofertas quanto necessidade social de profissionais, e buscar indícios de interdisciplinaridade nos projetos pedagógicos dos cursos propostos pelas IES da região sudeste, que foram contempladas pelo edital nº 35/2021 do MEC.

## Fundamentação

A interdisciplinaridade surge na segunda metade do século XX onde o trabalhador era um especialista que agia individualmente conforme aponta os relatórios surgidos nos seminários promovidos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 1970, propagando-se nos modos empresariais e foi parar no campo da ciência e da educação devido a necessidade de responder a problemas mais complexos onde o conhecimento disciplinar não era capaz de abranger de forma satisfatória a complexidade das questões apresentadas segundo aponta JAPIASSÚ (1976).

De um modo geral, podemos definir interdisciplinaridade como um termo polissêmico ainda em construção que tenta desfragmentar o conhecimento buscando a integração de teorias, métodos e abordagens de várias disciplinas para oferecer uma compreensão mais completa de um determinado fenômeno ou problema. (FAZENDA 2008).

Portanto, quando olhamos para um curso de formação interdisciplinar em Ciências é importante ressaltar que colocar na grade disciplinas de cada área das ciências naturais não é fazer interdisciplinaridade. Os conhecimentos disciplinares precisam ser colocados em colaboração uns com os outros, na tentativa de solucionar problemas mais complexos. Assim, para se alcançar a formação docente de forma interdisciplinar são necessárias algumas mudanças, seja nas organizações curriculares dos cursos de Licenciaturas e/ou durante as práticas pedagógicas tanto de professores quanto dos alunos.

## Metodologia

A pesquisa iniciou-se com o objetivo de analisar o cenário atual dos cursos interdisciplinares em ciências no Brasil e de forma inicial como a interdisciplinaridade aparece nos Projetos Pedagógicos dos cursos de Licenciaturas Interdisciplinares em Ciências, elaborados a partir do edital nº 35/2021, para num momento posterior desta investigação, realizarmos entrevistas com os participantes dos cursos, no âmbito de compreender a formação docente para atuação nesses cursos através de uma prática interdisciplinar. Para este trabalho trazemos a fase de pesquisa documental.

Para compreendermos melhor a situação da oferta de Licenciaturas Interdisciplinares em Ciências no Brasil, para além do edital n°35/2021, buscamos nos relatórios do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e no banco de dados do Ministério de Educação - Sistema e-MEC dados sobre a quantidade de cursos, ingressantes e concluintes.

Em nossa análise inicial dos projetos interdisciplinares, encontramos o Projeto Pedagógico da Licenciatura em Ciências da Natureza da Universidade Federal do ABC. Requeremos junto ao MEC, através de e-mail, quais Universidades foram contempladas com o referido edital para buscarmos outros Projetos Pedagógicos tidos como inovadores. Focando na região Sudeste, entramos em contato com a Unisantos e a USP e obtemos apenas o Projeto Pedagógico da USP. No momento da escrita

desse trabalho essas duas universidades ainda não têm seus cursos em funcionamento.

## Formação Inicial em Física segundo os relatórios de Gestão do MEC

Primeiramente, de um ponto de vista bem pragmático, quisemos entender a oferta e necessidade de mais cursos de formação inicial para a formação de professores de ciências. Extraímos do Censo da Educação Superior de 2022 - INEP, dados sobre os cursos de Licenciatura, Bacharelado e Programas Interdisciplinares em Física, já incluídos os presenciais, à distância, de autarquias Federal, Estadual, Municipal e Privada, conforme a tabela 1.

Tabela 1 - Censo da Educação Superior de 2022 - INEP

Comparando o número de matrículas versus o número de concluintes, podemos perceber que, mesmo em Ciências Naturais - formação de Professor, em que o número de matrículas ultrapassa o número de vagas ofertadas, a quantidade de concluintes é muito baixa. Fazendo uma média simples, a porcentagem de concluintes em relação ao número de matriculados no geral na tabela 1 é em torno de 8,6%. Quando comparamos com o número de vagas ofertadas esse número cai para 3,5%. Esses dados apontam que as Universidades e Faculdades de Física/Ciências não estão conseguindo reter os alunos ingressantes nos cursos.

## Atuação dos professores de Física/Ciências no Brasil segundo INEP

Para avaliar qual seria a demanda da sociedade por esse perfil profissional, construímos, a partir de dados do INEP, a tabela 2.

XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024

Tabela 2 - Porcentagem de formandos por área de conhecimento - INEP (2022)

No relatório de 2007, chama nossa atenção que apenas 9% por cento dos professores que trabalham na Educação Básica, especificamente no Ensino Médio, possuíam Formação Específica - que era entendida como Licenciatura em Física ou Ciências Naturais ou Bacharelado em Física com complementação pedagógica.

A partir de 2014, a nota técnica Nº 020/2014 do INEP alterou o termo Formação Específica para Formação Adequada , sendo essa formação conforme quadro 1:

Quadro 1 - Descrição da Formação Adequada - INEP, 2014.

Essa nova compreensão aumenta a porcentagem de professores de física com formação adequada, de 2007 para 2022, de 9% para 54%. Ressalta-se, entretanto, que é agora considerado adequado para docência em física um profissional formado em qualquer bacharelado, com complementação pedagógica em qualquer área(!).

Outro dado relevante apresentado no relatório de 2022, que não incluímos na tabela, é que a grande maioria dos 54% 'adequados' estão trabalhando em instituições federais e privadas de ensino, o que gera uma distorção em sua distribuição, uma vez que a rede pública estadual representa 83,66% por cento das matrículas do Ensino Médio, revelando um grande desafio para levar esses profissionais com formação 'adequada' para rede pública estadual, que contém o maior número de alunos matriculados no Brasil.

Em suma, há enorme demanda social, muito maior que o número de vagas ofertadas pelas IES, conquanto nem as vagas atualmente ofertadas tem produzido profissionais formados.

## Formação Interdisciplinar em Ciências

Cursos Interdisciplinares não são inovação do edital n°35/2021. Fazendo uma busca no sistema e-MEC com a palavra 'Interdisciplinaridade', encontramos 161 cursos que contêm esta palavra na composição do nome. Filtrando apenas Licenciatura, encontramos 16 cursos, conforme a tabela 3. Neste momento não analisamos se tais cursos são de fato interdisciplinares, ou se na verdade se encaixariam melhor na definição de pluridisciplinares.

Tabela 3 - Cursos Interdisciplinares em Ciências - Sistema e-MEC (2022)

O último curso da tabela é o que atendeu ao edital 35, ofertado pela UFABC. Faz mister notar, portanto, que o MEC tomou a decisão de, em vez de requerer uma adaptação nos cursos já existentes, solicitaram a elaboração de novos - exigindo que sejam inovadores e especificamente adequados aos novos objetivos de formação. Quais são, portanto, as inovações que esses novos cursos implementaram? Para isso, analisamos de forma inicial os projetos pedagógicos dos cursos Interdisciplinares do edital n°35/2021 da região sudeste, das duas universidades que os disponibilizaram, e montamos a tabela 3 com as principais especificações.

Tabela 3 - Comparativo dos Projetos Pedagógicos - LIC/USP e LCNE (UFABC).

Ambos apresentam como objetivo uma formação de Licenciandos em Ciências para escola básica através de uma abordagem Interdisciplinar, enquanto a LIC/USP traz uma proposta inter-transdisciplinar, o que nos parece bastante inovador.

Embora a palavra Interdisciplinar apareça com muita frequência no projeto pedagógico dos dois cursos, quando olhamos para o perfil do egresso, ela não aparece de forma explícita no LCNE/UFABC. Outro fato que chamou nossa atenção foi que a avaliação apresentada no LCNE/UFABC é calculada através de uma fórmula, o que lembra muito os cursos tidos como tradicionais. A LIC/USP não apresentou a forma de como serão avaliados os Licenciandos.

Em relação à organização curricular, o LIC/USP apresenta uma proposta Interdisciplinar para a formação específica e Transdisciplinar para formação geral. Já o documento a LCNE/UFABC trabalha com eixos que são aparentemente Interdisciplinares; dentro dos eixos, as disciplinas se parecem com as dos cursos tradicionais - portanto, para avaliarmos a efetiva interdisciplinaridade, precisaríamos de uma complementação de dados. Quanto à formação pedagógica, a LIC/USP destina uma parte a projetos com protagonismo dos Licenciandos. Ambos os cursos mereceriam um aprofundamento de pesquisa.

## Considerações Finais

Apesar de já existirem cursos interdisciplinares de formação de professores, o Edital nº35/2021 trouxe uma nova demanda para formação inicial docente, atrelada ao novo ensino médio, como o próprio edital diz: 'propostas inovadoras'. Em princípio, nos preocupou uma possível superficialidade na formação, em vista das epistemologias específicas de cada ciência, por outro lado, notamos que, na prática, a grande maioria de professores que ministram a disciplina de física são de formação acadêmica diversa, naturalizada como adequada pelos órgãos superiores.

Trouxemos com este trabalho, um pequeno resumo dos projetos pedagógicos dos cursos da USP e UFABC, pertencente ao edital nº35/2021. Constatamos que o projeto da UFABC mescla algumas inovações com alguns aspectos dos cursos tidos tradicionais. Já o projeto da USP se distancia mais da estrutura dos cursos tradicionais - mas esse projeto não foi (ainda) aprovado pelos órgãos colegiados da Universidade.

Parece ser relevante investigarmos as práticas pedagógicas dos cursos, de modo a compreender como as epistemologias de cada área do saber estão sendo contempladas -afinal, a interdisciplinaridade apenas é possível quando há conhecimento disciplinar - e se essas práticas de fato contribuem para a formação do professor que dará conta dos objetivos do novo Ensino Médio. Principalmente, nos interessa também saber que ações possibilitam passar de uma mera justaposição de disciplinas para uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar.

## Referências

ARAUJO, E. P. R. de; TOLEDO, M. C. M. de; CARNEIRO, C. D. R. A evolução histórica dos cursos de Ciências Naturais na Universidade de São Paulo . TERRAE, v. 10, n. 1-2, p. 28-38, 2014a.

SANTOS, R.A; VIANA, D.M. A história da legislação dos cursos de Licenciatura em Física no Brasil: do Colonial ao digital a distância. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 32, n. 4, 4403 (2010).

INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Sinopse Estatística da Educação Básica 2022 . Brasília. Acesso em: 20.11.2023.

SILVA, J. P.; NERIS, N. S.; VILELA, M. V. F.; CARBO, L. Os espaços de atuação profissional do licenciado em Ciências da Natureza no Brasil: um delineamento a partir da compreensão dos sistemas estaduais de ensino . Educação (UFSM), v. 46, n. 1, p. 691-27, 31 jul. 2021.

FAZENDA, I. C. A. Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro: efetividade ou ideologia . 6 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

LUZ, A. S. As licenciaturas interdisciplinares no cenário nacional: implantação e processo .2018. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2018.

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