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A VISÃO DOS INTÉRPRETES DE LIBRAS DE SUA PRÁXIS E CONHECIMENTO DE FÍSICA

Camila Gasparin

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
20/08/2024
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A VISÃO DOS INTÉRPRETES DE LIBRAS DE SUA PRÁXIS E CONHECIMENTO DE FÍSICA

## THE LIBRAS' INTERPRETERS VIEW OF THEIR PRAXIS AND PHYSICS KNOWLEDGE

## Camila Gasparin

1 Instituto Federal de Santa Catarina, camila.gasparin@ifsc.edu.br

## Resumo

Este trabalho é derivado de dissertação de mestrado e traz a análise das percepções dos intérpretes de Libras sobre a influência dos seus conceitos de Física em sua prática profissional através da resposta a questionários e entrevistas semiestruturadas. A elaboração de conceitos e explicação de fenômenos físicos foram analisados, mostrando misconceptions no conhecimento destes intérpretes mesmo após diversos contatos com estes conceitos em sua prática profissional. Após transcrição e análise das entrevistas conforme análise de conteúdo de Bardin, emergiram dos relatos as categorias: influências à inclusão de surdos nos moldes da legislação atual, aspectos que influenciam sua atuação profissional e relação entre intérprete e professor de Física. Foi possível uma compreensão interessante da visão dos intérpretes do processo educacional inclusivo dos surdos, a postura destes estudantes como sujeitos de sua educação até a forma de vínculo empregatício dos intérpretes com as escolas e gerências educacionais, e a postura dos intérpretes e professores incluindo as formas de influência destas dinâmicas na atuação profissional do intérprete.

Palavras-chave : Inclusão de Surdos, Intérprete de Libras, Conhecimento de Física,

Misconceptions

.

## Abstract

Derived from a master thesis, analyses the Libras' interpreters' perceptions of their physics knowledge influence on their professional praxis through questionnaire answering and semi structured interviews. The concept elaborating and physics phenomena explaining were analyzed, showing misconceptions on these interpreters' knowledge even after many contacts with these concepts on their professional praxis. After interview transcribing and analyzing through Bardin's content analysis, the categories that showed up were: influences deaf inclusion according to current legislation, aspects that influence your professional praxis, and the relationship between interpreter and physics teacher. It was possible to build an interesting understanding of the interpreters' view of the deaf inclusive educational process, from their posture as protagonists of their education to the form of hiring interpreters by schools and educational administrations, and the posture of interpreters and teachers, including the forms of influence these dynamics have on interpreters' professional praxis.

Keywords : Deaf inclusion, Libras interpreter, Physics Knowledge, Misconceptions.

## Introdução

Este artigo deriva da dissertação de mestrado apresentada ao programa de pósgraduação em Educação da Universidade Federal da Fronteira Sul em 2019 com objetivo de compreender as percepções dos intérpretes de Libras de sua práxis profissional em sala de aula com alunos s/Surdos. Aqui, utilizo o termo s/Surdo ao invés de surdo ou Surdo, exceto quando especificado em referências ou pelos intérpretes entrevistados, sendo considerado o Surdo aquele sujeito cuja identidade e a cultura são Surdas, e que é membro da comunidade Surda, e surdo o sujeito que não se identifica como Surdo mas tem perda auditiva que, nesta pesquisa, o qualifique para assistência educacional em sala de aula e/ou fora dela.

A dissertação e este artigo abordam as percepções dos intérpretes das relações entre o intérprete e a comunidade escolar; o intérprete, o conhecimento de Física, o professor, e o estudante s/Surdo; da legislação vigente e sua aplicação.

## A educação de Surdos e o intérprete de Libras

Considerando o amplo e adequado arcabouço teórico brasileiro e catarinense, a educação de s/Surdos tem importantes marcos e determinações de inclusão e respeito à Libras como língua materna desta comunidade (Decreto 5.626/2005), acompanhamento desses alunos por intérprete de Libras (Política da Educação Especial e resoluções do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina, 2006 e 2016), disponibilização obrigatória de Serviços Especializados em Educação Especial (atendimento educacional especializado, profissional de apoio escolar, instrutor da Libras, intérprete da Libras, professor bilíngue, guia intérprete e segundo professor de turma) (Resolução n°100 do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina, 2016).

O intérprete de Libras, realizando a interpretação simultânea ou consecutiva entre Português e Libras em todos os ambientes escolares, tem sua profissão regulamentada pela Lei n° 12,319/2010, que não exige, e não é intenção julgar a

necessidade de tal, a formação acadêmica de nível superior para atuação profissional, sendo suficiente demonstração de proficiência através do Prolibras, ou certificação através de cursos de educação profissional, extensão universitária, ou formação continuada.

## Metodologia e análise de dados

A pesquisa foi desenvolvida no ano e 2019 com quatro intérpretes que atuam em escolas da rede pública da cidade de Chapecó-SC como trabalho de dissertação de mestrado em Educação da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Com a anuência do comitê de ética da universidade, a pesquisa foi realizada nas escolas, em ambientes que garantiram a privacidade e sigilo das dinâmicas e das informações compartilhadas pelos participantes. Os intérpretes responderam a três questionários de Física e foram entrevistados de acordo com roteiros de entrevista semiestruturados, o que levou as interações a terem durações variadas de acordo com as informações que os participantes desejaram compartilhar. Os questionários de Física foram divididos em três, de acordo com o agrupamento de conteúdos tradicional dos livros didáticos de Física do Ensino Médio aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), especificamente considerando os livros de Barreto Filho e Silva (2016a, b, c). As entrevistas abordaram a formação de Ensino Básico e profissional dos intérpretes, os motivos que os levaram à profissão, suas atuações profissionais, sua visão do ensino de s/Surdos (legislação, aplicação da legislação, cultura e comunidade escolar, relação com o professor de Física), a evolução do seu conhecimento de Física e a relação de desta com sua atuação profissional (Gasparin, 2019, p. 139). A análise dos dados obtidos foi realizada a partir da análise de conteúdo de Bardin (1977) por esta autora permitir interpretar o dito e o não-dito, sem codificação e sem o uso de softwares, se adaptando adequadamente aos dados a serem analisados.

## Análise dos questionários

Foram aplicados questionários para compreender o conhecimento dos intérpretes de Libras quanto a 17 conceitos e 14 fenômenos de Física. As respostas dos

intérpretes (Gasparin, 2019, p. 136, 139) foram comparadas com os conceitos apresentados por Barreto Filho e Silva (2016a, b, c) para os conceitos de posição, velocidade, aceleração, força, energia, inércia, onda, som, luz, trabalho, calor, temperatura, carga elétrica, campo elétrico, campo magnético, radioatividade, e dualidade onda-partícula, e os fenômenos de um carrinho descendo uma montanha russa, uma mola sendo comprimida e solta, um corpo caindo no chão, um passageiro sendo lançado ao ônibus frear bruscamente, um carro se deslocando de uma cidade à outra, dois corpos isolados atingindo a mesma temperatura, uma corda de violão emitindo som, um lápis dentro d'água parecendo quebrado ao observador, apenas um percentual do combustível ser utilizado para deslocar um automóvel, a dilatação de um bloco de metal, o acendimento de uma lâmpada quando do acionamento de um interruptor, a impossibilidade de fazer/receber ligações dentro de elevadores, geração de energia hidrelétrica, e o arco-íris (Gasparin, 2019, p. 136, 139). Todas as questões eram abertas, para que os participantes elaborassem as explicações tanto dos conceitos quanto dos fenômenos e para que ficasse mais claro possível o entendimento dos intérpretes de cada conceito.

Em geral, os participantes tiveram dificuldade em responder adequadamente, misturando conceitos ou incompletude destes, além de misturá-los e confundi-los. Na primeira parte, focada em conceituação, apareceram as misconceptions e confusão entre os conceitos de velocidade e aceleração, e calor e temperatura, conforme estudos na área tradicionalmente mostram, mas os intérpretes também mostraram dificuldade com os conceitos de posição e carga elétrica. Na segunda parte, de explicação de fenômenos, a grande confusão presente envolveu os conceitos de ondas, som, calor e temperatura. Porém, a análise detalhada das respostas mostra que não há total falta de conceituação pelos intérpretes ou conceitos desestruturados. O observado foi a influência de um conceito em outro, gerando uma cadeia de enganos. Por exemplo, os conceitos de posição, velocidade e aceleração mostram a falta de clareza decorrente do conceito de referencial. Trabalhando o conceito de referencial com estes intérpretes, pode-se resolver as

misconceptions observadas, o que também vale para conceitos de energia (interna, térmica, e mecânica e seus tipos).

## Análise das entrevistas

A análise das entrevistas realizas com os intérpretes a partir da transcrição destas e sua análise de acordo com a análise de conteúdo (Bardin, 1977) trouxe três categorias. A primeira categoria a emergir das entrevistas foi 'influências à inclusão dos surdos nos moldes da legislação atual', com as subcategorias de 'protagonismo surdo na escola', e 'falta de concursos públicos ou editais ACTs inadequados e suas consequências'. Apesar do completo arcabouço legal amparando a educação de s/Surdos no Brasil, três dos entrevistados não consideram que a inclusão seja efetiva no espaço escolar por não se dar completamente com todos os sujeitos desta comunidade, o que os leva a questionar qual a acessibilidade ao conteúdo, socialização, e liberdade de ir e vir efetiva que os s/Surdos têm direito na escola, principalmente em momentos nos quais o intérprete, por um motivo ou outro, não esteja presente. Os intérpretes relataram o não-protagonismo Surdo nas escolas, a não-politização Surda, falta de conhecimento da legislação que rege seus direitos, e a consequente falta de luta por estes direitos. Isto reforça a importância da ampla participação dos Surdos nas associações de Surdos, convivência na comunidade Surda, e compartilhamento da cultura Surda da qual esse conhecimento político e legal também faz parte. Por último relacionado às influências à educação dos s/Surdos nos moldes da legislação, temos a forma de contratação dos intérpretes para atuação em sala de aula com estes estudantes. Bastante inadequada, a contratação é majoritariamente temporária, levando à mudança anual de intérpretes nas escolas, falta de plano de carreira, licença capacitação, garantias trabalhistas a médio e longo prazo. Além disso, os editais são inadequados em suas exigências para candidatura às vagas, seja quanto à formação quanto ao conhecimento de Libras necessário para tal.

Isso leva à segunda categoria presente nas entrevistas, 'aspectos que influenciam sua atuação profissional', que podem ser internos ou externos à atuação direta do intérprete. O aspectos que apareceram durante as conversas foram: o conhecimento

e o domínio da Libras pelos intérpretes, sua visão sobre sua função e atuação; as condições ambientais e de nível de ensino para sua atuação profissional; a falta de sinais (em Libras para determinados conceitos); a atitude do professor em relação ao aluno s/Surdos, a Física e a evolução de seus conhecimentos, e a falta de contexto ou sentido no trabalhado pelo professor; a questão da concretude do raciocínio do surdo e sua dificuldade de abstração; o papel da família e sua atuação na educação dos s/Surdos; a Libras como língua materna e seus efeitos na aprendizagem da Língua Portuguesa; as dificuldades em relação a disciplinas específicas, em especial às ciências. De forma muito importante, a terceira categoria emerge daqui, sendo a 'relação entre intérprete e professor de física', com as subcategorias 'postura do intérprete frente ao professor e do professor frente ao intérprete' e 'necessidade de preparação antes da interpretação'.

É essencial lembrar da primeira parte, da análise dos questionários, ou seja, que os intérpretes não têm o mesmo conhecimento de Física que o professor da disciplina. E nem se esperaria que tivessem. Assim, eles têm dúvidas de conceitos que podem levá-los a escolhas equivocadas de sinais para a interpretação. Isto pode ser solucionado estreitando os laços entre professores e intérpretes para que a preparação das aulas seja feita em conjunto, proporcionando escolhas midiáticas adequadas, adaptação necessária de atividades, esclarecimento de dúvidas conceituais dos intérpretes, e tempo para a preparação da interpretação por parte deste. Sempre lembrando que o papel do intérprete em sala de aula é comunicacional, ou seja, ele é a ponte comunicativa entre o professor e o estudante s/Surdo, não um segundo professor ou o professor titular do estudante.

## Conclusões e implicações educacionais

A análise dos questionários mostrou a presença de misconceptions no conhecimento de Física dos intérpretes de Libras que atuam em salas de aula com alunos s/Surdos, porém também mostra que estas podem ser resolvidas com o trabalho em conceitos chave como referencial, energia e seus tipos. Isto pode acontecer na colaboração próxima entre o intérprete e o professor de Física,

colaborando para garantir a melhor oportunidade educacional ao aluno s/Surdo incluído.

A limitação desse trabalho é a não-observação em sala de aula da atuação dos intérpretes nas aulas de Física, uma vez que há diversos trabalhos que exploram como os intérpretes atuam nestas situações e os eventuais equívocos quanto aos sinais utilizados, a exemplo de Botan (2012). Na dissertação que embasa este artigo, o foco foi o conhecimento de Física e a visão dos intérpretes quanto a ele e à legislação vigente quanto ao ensino de s/Surdos, especificamente aplicado à cidade e estados de realização da pesquisa, preenchendo a lacuna de pesquisa destes aspectos pouco ou não-abordados em outros estudos.

Uma futura pesquisa pode ser a elaboração, aplicação, e avaliação de um curso de formação continuada em ciências, ou especificamente em Física, para os intérpretes que atuam em salas de aula do Ensino Médio. O levantamento dos conhecimentos de Física dos intérpretes antes e depois do curso, bem como da atuação em sala de aula também antes e depois do curso, pode trazer clareza da relação entre o conhecimento de Física dos intérpretes e sua interpretação, citada pelos intérpretes entrevistados nesta pesquisa.

## Referências

BARDIN, L. Análise de Conteúdo . 1. ed. Lisboa: Edições 70, 1977.

BARRETO FILHO, B.; SILVA, C. X. Física aula por aula: Mecânica . 1° ano. 3a edição. São Paulo: FTD, 2016a.

\_\_\_\_\_\_. Física aula por aula: Termologia, Óptica e Ondulatória . 2° ano. 3a edição. São Paulo: FTD, 2016b.

\_\_\_\_\_\_. Física aula por aula: Eletromagnetismo, Física Moderna . 3° ano. 3a edição. São Paulo: FTD, 2016c.

BOTAN, E. Ensino De Física Para Surdos: Três Estudos De Casos Da Implementação De Uma Ferramenta Didática Para O Ensino De Cinemática .

Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências Naturais) - Instituto de Física, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá 2012.

BRASIL. Decreto Nº 5.626 de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da União , p. 28, de 23 de dez. 2005.

\_\_\_\_\_\_. Lei Nº 12.319 de 01 de setembro de 2010. Regulamenta a profissão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS. Presidência da República, 01 de setembro de 2010. Diário Oficial da União , 02 de set. 2010.

CONSELHO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DE SANTA CATARINA. Resolução n° 112. Fixa normas para a Educação Especial no Sistema Estadual de Educação de Santa Catarina. Online . Florianópolis, 12 de dez. 2006. Disponível em: https://www.fcee.sc.gov.br/informacoes/legislacao/legislacao-especifica-daeducacao-especial/460-resolucao-112-atualizada/file. Acesso em: 21 de jan. 2024.

\_\_\_\_\_\_. Resolução CEE/SC n° 100. Estabelece normas para a Educação Especial no Sistema Estadual de Educação de Santa Catarina. Online . Florianópolis, 13 de dez. 2016. Disponível em: https://www.cee.sc.gov.br/index.php/legislacaodownloads/educacao-basica/outras-modalidades-de-ensino/educacaobasica/educacao-basica-ensino-especial-resolucoes/1606-resolucao-2016-100-ceesc/file. Acesso em: 21 de jan. 2024.

GASPARIN, C. As percepções dos intérpretes de Libras sobre a influência dos seus conceitos de Física na sua prática profissional . Dissertação (Mestrado) Universidade Federal da Fronteira Sul, Chapecó, 2019. Disponível em: https://rd.uffs.edu.br/handle/prefix/3327. Acesso em: 21 de jan. 2024.

\_\_\_\_\_\_. O tradutor-intérprete de Libras escolar, seu conhecimento de Física e a sua percepção de sua práxis . Chapecó: Ed. UFFS, 2022. Disponível em: https://rd.uffs.edu.br/handle/prefix/6349. Acesso em: 21 de jan. 2024.

SANTA CATARINA. Política para Educação de Surdos no Estado de Santa Catarina. Fundação Catarinense de Educação Especial - FCEE. Online . São José: FCEE, 2004. Disponível em: https://www.fcee.sc.gov.br/downloads/bibliotecavirtual/educacao-especial/cas/92-politica-dos-surdos. Acesso em: 21 de jan. 2024.

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