VINHETAS ETNOGRÁFICAS: UMA FERRAMENTA ANALÍTICA ETNOGRÁFICA PARA A PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA
Daniel Farias Mega, Douglas Grando De Souza
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2024
- Data
- 23/08/2024
- Linha de pesquisa
- Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## VINHETAS ETNOGRÁFICAS: UMA FERRAMENTA ANALÍTICA ETNOGRÁFICA PARA A PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA
## ETHNOGRAPHIC VIGNETTES: AN ETHNOGRAPHIC ANALYTICAL TOOL FOR PHYSICS EDUCATION RESEARCH
Daniel Farias Mega , Douglas Grando de Souza 1 2
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Instituto Federal Catarinense - Campus Concórdia, daniel.mega@ifc.edu.br Programa de Pós-graduação em Ensino de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
2 douglas.grando@ufrgs.br
## Resumo
Conduzir uma etnografia é buscar interpretar e descrever a cultura de um grupo humano. Por conta disso, tem assumido lugar importante em pesquisas interessadas em compreender os saberes e fazeres nos contextos educacionais. Uma dificuldade enfrentada por pesquisadores(as) é apresentar de forma significativa, rigorosa e compreensível em seus relatos etnográficos, especialmente para aqueles que se aproximam pela pesquisa em Ensino de Física. Apresentamos o recurso metodológico da vinheta narrativa, como forma de condensar uma grande quantidade de dados empíricos na trajetória fictícia de uma ou mais personagens em sua interação com a cultura investigada. Ilustramos algumas características do recurso analítico com uma vinheta narrativa criada para uma pesquisa anterior, voltada à interpretação de processos de aprendizagem em um laboratório em uma universidade federal brasileira. Ressaltamos o potencial da ferramenta analítica em contribuir para demonstrar a rigorosidade da pesquisa e convencer leitores(as) sobre o cenário que foi vivido e observado pelo(a) pesquisador(a).
Palavras-chave : Vinheta narrativa; Etnografia; Ensino de Física; Metodologia.
## Abstract
Conducting ethnography is an attempt to interpret and describe the culture of a human group. Consequently, it has assumed an important place in research concerned with understanding knowledge and practices within educational contexts. However, a challenge faced by researchers is presenting in a meaningful, rigorous, and comprehensible manner within their ethnographic reports, particularly for those approaching research in Physics Education. We introduce the methodological resource of narrative vignettes as a mean to condense a large amount of empirical data into the fictional trajectory of one or more characters interacting within the investigated culture. We illustrate some features of this analytical tool with a narrative vignette created for a previous study focused on interpreting learning processes in a laboratory at a Brazilian university. We emphasize the potential of this analytical tool in contributing to demonstrating research rigor and convincing readers about the scenario experienced and observed by the researcher.
Keywords : Narrative vignette; Etnography; Physics Teaching; Methodology.
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## Introdução
A pesquisa em Ensino de Física tem como fenômenos de interesse aspectos ligados a práticas, avaliações, currículos e contextos dos processos educativos envolvendo a disciplina Física. Na investigação pode-se lançar mão de variados recursos metodológicos, associados a duas abordagens distintas: a pesquisa quantitativa e a 1 pesquisa qualitativa. Os fenômenos de interesse da pesquisa em Ensino de Física, devido a sua complexidade , 2 têm sido sobretudo investigados através de metodologias sob abordagem qualitativa.
A pesquisa qualitativa tem origem nas ciências humanas e sociais e possui um enfoque interpretativo de fenômenos complexos (André, 2012). Interpretar os significados compartilhados por grupos humanos é a característica central desse tipo de investigação. Diferentemente da pesquisa quantitativa, que busca descobrir uma realidade objetiva e independente, a qualitativa objetiva interpretar uma realidade socialmente construída (Moreira, 2011).
Com o intuito de contribuir para a pesquisa em Ensino, particularmente em Ensino de Física, o objetivo deste trabalho é apresentar um recurso analítico qualitativo - a vinheta etnográfica -como um instrumento apropriado para auxiliar na compreensão da realidade socialmente construída. Para tal, apresentaremos suas características utilizando exemplos de um estudo sobre processos de aprendizagem no contexto de um laboratório em uma universidade federal brasileira (Mega; Araujo e Veit, 2020). A intenção deste trabalho é apresentar exemplos e discutir a estrutura da escrita etnográfica utilizada, pois defendemos que essa categoria de texto pode abrir novas possibilidades para os pesquisadores da área.
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## A etnografia na pesquisa em Ensino
Etnografia é processo tentativo de descrever, de modo rigoroso e confiável, as culturas humanas. Sua origem remonta à Antropologia, onde aparece sobretudo como um paradigma de pesquisa. Ao longo do século XX, a etnografia foi traduzida e apropriada para diferentes áreas de pesquisa, assumindo importância também nos estudos dos processos educativos.
Como metodologia, a etnografia é apropriada para descrever a cultura de um grupo de pessoas, ou seja, suas crenças, valores, ideias e maneiras de fazer as coisas. O que se busca ao produzir um relato etnográfico é responder a seguinte pergunta: 'O que está acontecendo aqui?' (Wolcott, 1994b, p.12, apud Creswell, 2014, p. 186). Para isso, o pesquisador faz imersão na vida cotidiana do grupo a ser pesquisado, convive por um longo período participando e observando as práticas referentes aquela cultura. Em outras palavras, o pesquisador se converte em um nativo e o objetivo do estudo é narrar em profundidade a cultura em que imergiu.
O termo etnografia também diz respeito ao resultado dos estudos etnográficos - longos textos descritivos e reflexivos das experiências vividas nos coletivos humanos. No entanto, apresentar os dados de um estudo etnográfico não é tarefa fácil, seja pela complexidade de elaborar um texto capaz de informar e convencer o leitor sobra a cultura investigada, seja pela necessidade de descrever a cultura com riqueza de detalhes, o que torna o texto extenso e pouco atrativo. No entanto alguns etnógrafos têm utilizada uma estrutura mais próxima a forma literária fazendo uso de textos menores, caso da vinheta etnográfica.
## A vinheta etnografia
Nesta seção apresentaremos os princípios da construção de uma vinheta etnográfica, ilustrando com excertos de uma vinheta construída a partir de uma 3 pesquisa que integra um trabalho mais amplo. Ele versa sobre o cultivo de
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comunidades de prática no contexto dos Institutos Federias de Educação Ciência e Tecnologia (Mega; Araujo e Veit, 2020). Entre os estudos deste trabalho, foi realizada uma pesquisa etnográfica no contexto de um laboratório de criação de tecnologias livres, o Centro de Tecnologia Acadêmica (CTA). Nele produzimos uma vinheta intitulada Boas-Vindas! Venham colaborar com o CTA .
Uma das características da etnografia é a geração de grande quantidade de dados coletados durante o estudo. Não raro são registradas horas e mais horas de gravações em áudio e vídeo, inúmeros registros fotográficos e vários arquivos contendo notas de campo e reflexões do pesquisador. Analisar e triangular essa montanha de dados e encontrar padrões de comportamento, apresentando o que é relevante para descrever o grupo e descartando o que não é importante, é um desafio que pensamos ser facilitado com o uso das vinhetas.
Uma vinheta é uma descrição focalizada de uma série de eventos considerados representativos, típicos ou emblemáticos observados durante a imersão na cultura do grupo. Ela tem uma estrutura narrativa assemelhada com uma história, que normalmente se limita a um período breve, a um ou alguns personagens chave, a um espaço limitado ou a todos os três (Miles e Huberman, 1994). Ela busca oferecer ao leitor o contexto da pesquisa narrando eventos marcantes de uma maneira compacta, e é isso que a torna uma importante ferramenta.
Embora apresente um formato literário, é uma construção feita a partir dos dados extraídos da observação participante, documentos e outros instrumentos. Portanto, vários indivíduos participantes da pesquisa são a fonte desses dados. A redação da vinheta é construída através dos padrões de comportamento que emergem dos dados, segundo Erickson (1990, p. 50, tradução nossa) ' essa narrativa é analítica, certas características da ação social e do significado são destacadas, outras são apresentadas com menos destaque ou não são mencionadas'. Vejamos a parte inicial da vinheta produzida por nós no estudo já referido:
Quando Duda chega ao campus do vale e desembarca do ônibus, se dirige ao conjunto de prédios que abrigam o Instituto de Física da UFRGS. No primeiro deles uma pequena placa, fixada na parede ao lado do grande portão
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azul, identifica o laboratório: 'Tecnologia com Ciência -Centro de Tecnologias Livres'.[...]. Embora desenvolva projetos no CTA somente a dois anos, Duda pode ser considerada(o) um(a) colaborador(a) que faz parte do núcleo central, por esse motivo, possui as chaves do portão. [...]. Ele(a) é mantenedor(a) da III Hackatona CTA - Relógio IF, importante projeto organizado pelo centro. Embora as atividades sejam realizadas de maneira colaborativa, um ou dois membros são designados para organizar cada atividade. Ele(a) 'não é autoridade do projeto. É um facilitador' . 4
Podemos notar que nossa vinheta mostra um dia sob a perspectiva de um colaborador do laboratório, um personagem fictício. Esse personagem é compósito, formado pela união de informações de diferentes dados de pesquisa produzidos na convivência com os participantes do estudo. Aspecto importante é o formato narrativo que adota 'um dia na vida'. Como o pesquisador etnográfico fica imerso por longos períodos no campo de estudo a vinheta abre, por exemplo, a possibilidade de condensar todos os eventos observados em uma narrativa de um dia típico na vida dos participantes.
Certamente o pesquisador etnográfico observa diversos atores durante sua imersão em campo e verifica padrões de comportamento dentro daquela cultura. Um verdadeiro padrão dentro de um determinado grupo social pode ser entendido como um comportamento real partilhado pelos membros do grupo, ou que se acredita desejável, legítimo ou correto (comportamento ideal). De acordo com Angrosino (2009), podemos reconhecer padrões considerando se declarações e comportamentos de alguém da comunidade, também é verificada em outros atores no dia a dia. Podemos ainda analisar se as declarações e comportamentos foram feitos de maneira espontânea/voluntária ou se, de alguma forma foram conduzidos pelo pesquisador. Nesse sentido, a observação participante toma um peso maior frente a uma entrevista, por exemplo. No segundo método de coleta o entrevistador pode 'provocar' o entrevistado, diferentemente do que ocorre em declarações públicas, que tem maior probabilidade de refletir um comportamento espontâneo dentro do grupo investigado.
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Quando optamos por apresentar os resultados de nossa investigação com a vinheta 'Boas-Vindas! Venham colaborar com o CTA', criamos um personagem, Duda. Ela foi construída como tendo um comportamento padrão (ideal) de um colaborador do CTA. Em outras palavras Duda é um(a) colaborador(a) típico(a) do CTA. Um grupo social possui pessoas diferentes que, quando 'compartilham uma prática', assumem comportamentos e ações que refletem estilos reconhecidos como mostra de afiliação e um discurso compartilhado que reflete uma perspectiva de mundo. Abaixo, reproduzimos outro trecho da vinheta:
No evento organizado por Duda os(as) participantes estão projetando e construindo um relógio, que será instalado no auditório do Instituto de Física da Universidade. Para os(as) colaboradores(as) o relógio que irão criar, prototipar e fabricar não é somente um objeto, mas sim um hiperobjeto, quer dizer '[...] um objeto que foi criado com ferramentas livres, pode ser utilizado com software livre e sua documentação é livre' (PEZZI et al., 2017, p. 213). Uma das principais incumbências de Duda é fazer com que os(as) participantes do evento documentem todos os passos do projeto no site do Centro de Tecnologia Acadêmica. A página está no ar e lá encontram-se disponíveis arquivos editáveis, códigos-fonte, diagramas esquemáticos e links para repositórios, bem como a descrição de como as etapas do projeto estão sendo realizadas. Essa prática permite que pessoas interessadas em desenvolver projetos semelhantes tenham acesso aos erros e acertos do projeto atual.
Um dos padrões culturais dentro do laboratório investigado, por exemplo, é a utilização de ferramentas livres ( Softwares livres ) para o desenvolvimento dos seus hiperobjetos e a rigorosa documentação dos seus projetos. Na vinheta narrativa esses episódios são expostos como um comportamento de Duda, no entanto foram observados em diversos momentos e protagonizados por diferentes atores durante a observação participante. Atentemo-nos a esta passagem.
Duda precisa tomar um café. Entre o arquivo de aço onde os colaboradores mais assíduos possuem suas gavetas e uma pequena mesa de madeira, que contém a cafeteira e algumas bolachas, está posicionado um tanque de fibra, desses utilizados para lavar roupa. No CTA ele serve como pia. É corriqueiro que os(as) colaboradores(as) passem várias horas na sala e precisem fazer algumas refeições ali mesmo. A água da torneira do tanque é utilizada apenas para lavar a louça. Um cartaz escrito em um pedaço de papel colocado acima da torneira alerta 'Não beba desta torneira'. Duda pega água de uma garrafa plástica. De tempos em tempos, os(as) colaboradores(as) precisam enchê-la no bebedouro localizado no corredor do prédio ao lado. A discussão sobre a
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limpeza do local já foi pauta de encontros semanais. Alguns utilizam canecas, copos e talheres e não os mantêm limpos. Isso gerou certo conflito e os colaboradores se comprometeram a ser mais proativos na limpeza do espaço. Este tipo de 'conflito' é sempre resolvido abertamente e com muita conversa. Todos os colaboradores se sentem à vontade para expor o que pensam, seja o assunto que for.
Narrar a ida de Duda até a cafeteira para tomar um café pode parecer um evento cotidiano que pouco acrescenta à compreensão da cultura investigada, no entanto, na etnografia o leitor é convidado a enxergar a história através dos olhos do pesquisador e a descrição detalhada do ambiente faz com que a pessoa que lê entre na cena e se sinta dentro da história , dito de outra forma o leitor se ambienta e tem a possibilidade de entender a realidade vivida no grupo estudado. O trecho em questão foi um recurso utilizado para descrever a sala em que as práticas da comunidade eram desenvolvidas. Entretanto essa passagem não se limita a isso. Ela possibilita introduzir uma importante característica na prática do CTA, a maneira com que resolvem impasses dentro do laboratório, ilustrada pelo conflito quanto à organização e limpeza do espaço.
Por fim, reconhecemos que a utilização de personagens fictícios é incomum, mas não inédita na literatura, estando presente, por exemplo, no trabalho etnográfico desenvolvido por Wareing (2010). Nele o autor constrói uma vinheta que apresenta resultados de um estudo sobre a experiência vivida por mentores de cursos de graduação e seus alunos em cursos da área da saúde e assistente social. A vinheta conta a história de Michele personagem fictícia e a narrativa se baseia na experiencia vivida por 11 participantes da pesquisa. Além deste estudo Humphreys e Brown (2008, apud MANN, 2013), Mann (2013) e Wenger (2001) também fazem uso de vinhetas narrativas, onde o ator principal é um personagem compósito, condensando a narrativa em um personagem.
## Considerações Finais
Este trabalho buscou apresentar o recurso da vinheta narrativa como uma importante ferramenta para a análise e apresentação de pesquisas em Ensino de
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Física, com suas funções probatórias e analíticas, funcionando como um elemento de retórica para os pesquisadores. Ela tem o potencial de convencer o leitor sobre o cenário que foi vivido e observado pelo pesquisador. Sua estrutura, que apresenta detalhes concretos e padrões da cultura pesquisada, tem o poder de capturar a atenção do leitor.
## Referências
ANDRÉ, M. E. D. A. DE. Etnografia na prática escolar . 18 Ed ed. Campinas: Papirus, a 2012.
ANGROSINO, M. Etnografia e Observaçao Participante . Porto Alegre: Artmed, 2009.
CRESWELL, J. Investigação Qualitativa e projeto de pesquisa . 3 o ed. Porto Alegre: Penso, 2014.
ERICKSON, F. Qualitative methods in research on teaching. Research in Teaching and Learning , v. 2, n. 400, p. 119-161, 1990.
MANN, C. An ethnographic study of the studant experience of Making meaning and identity through a new veterinary curriculum . [s.l.] University of Nottingham, 2013.
MEGA, D. F.; ARAUJO, I. S.; VEIT, E. A. Centro de Tecnologia Acadêmica da UFRGS como Comunidade de Prática e possibilidade de criação de espaços não formais de aprendizagem: um estudo etnográfico. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências (Belo Horizonte) , v. 22, p. 1-28, 2020.
MILES, M. B.; HUBERMAN, M. Qualitative Data Analysis: A methods sourcebook . 2 o ed. Londres: SAGE Publications Ltda., 1994.
MOREIRA, M. A. Metodologias de Pesquisa em Ensino . São Paulo: Livraria da Física, 2011.
WAREING, M. Using vignettes to explore work-based learning: Part 1. British Journal of Nursing , v. 19, n. 18, p. 1112-1117, set. 2010.
WENGER, E. Comunidades de Practica: Aprendizaje, significado e identidad . Barcelona: Paidós, 2001.
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