Uma análise sobre a representação da mulher cientista na perspectiva de estudantes do ensino médio
Artur Batista Vilar, Thaís Mendonça Marques, Maria Da Conceição De Almeida Barbosa-Lima, Artur Batista Vilar, Maria Da Conceição De Almeida Barbosa-Lima
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2024
- Data
- 23/08/2024
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UMA ANÁLISE SOBRE A REPRESENTAÇÃO DA MULHER CIENTISTA NA PERSPECTIVA DE ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO
## AN ANALYSIS OF THE REPRESENTATION OF WOMEN SCIENTISTS FROM THE PERSPECTIVE OF HIGH SCHOOL STUDENTS
Artur Batista Vilar 1 , Thaís Mendonça Marques 2 , Maria da Conceição de Almeida Barbosa-Lima 3
- 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro - Campus Rio de Janeiro/ Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, artur.vilar@ifrj.edu.br
- 2 Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, thaismmarques13@gmail.com
- 3 Universidade do Estado do Rio de Janeiro / Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, mcablima@uol.com.br
## Resumo
As áreas STEM, acrônimo em língua inglesa para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, possuem uma baixa presença de mulheres, sejam elas estudantes, docentes e/ou pesquisadoras. O perfil docente e discente brasileiro é majoritariamente feminino. Entretanto, nas áreas STEM, com destaque para a Física, há uma concentração de docentes homens, cenário idêntico ao observado nos quadros de pesquisadores e bolsistas de produtividade cadastrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Dessa maneira, este trabalho tem o objetivo de analisar a percepção de estudantes de um curso médio técnico integrado a respeito da representação da figura da mulher cientista. Para isso, os alunos foram estimulados a confeccionar desenhos autorais sobre a temática da presença da mulher nas Ciências. Os desenhos foram elencados em categorias e analisados à luz da teoria histórico-cultural de Vigotski. Os resultados trouxeram importantes informações a respeito da visão dos estudantes sobre questões de gênero, étnicoraciais, materiais, equipamentos e áreas de pesquisas desenvolvidas por essas cientistas.
Palavras-chave : Mulheres nas Ciências; Ensino de Física; Vigotski
## Abstract
The STEM areas, an acronym in English for Science, Technology, Engineering and Mathematics, have a low presence of women, whether they are students, teachers and/or researchers. The Brazilian teaching and student profile is mostly female. However, in STEM areas, with emphasis on Physics, there is a concentration of male teachers, a scenario identical to that observed in the ranks of researchers and productivity fellows registered with the Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Thus, this work aims to analyze the perception of students from an integrated technical secondary course regarding the representation of the figure of the female scientist. To this end, students were encouraged to create original drawings on the theme of the presence of women in Sciences. The drawings were listed in categories and analyzed in the light of Vigotski's historical-cultural theory.
The results provided important information regarding the students' views on gender, ethnic-racial issues, materials, equipment and research areas developed by these scientists.
Keywords : Women in Science; Physics Teaching; Vigotski
## Introdução
O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado anualmente em 11 de fevereiro, foi implementado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e Organização das Nações Unidas Mulheres (ONU - Mulheres), em colaboração com instituições da sociedade civil, tendo como propósito fomentar o papel de mulheres e meninas na ciência de forma plena e igualitária.
Embora as áreas de STEM sejam consideradas fundamentais sob o ponto de vista histórico-político-social, até o momento, a maioria dos países, independente do seu nível de desenvolvimento, ainda não alcançou a igualdade de gênero (UNESCO, 2023).
Sendo assim, pergunta-se: qual a concepção de mulheres cientistas para jovens estudantes do ensino médio e como podemos fomentar a participação de meninas e mulheres nas áreas STEM, em especial, na Física?
## Dados estatísticos
O censo da educação superior realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP, 2019) mostra que, tanto na rede pública quanto na rede privada, o perfil dominante do profissional que atua no ensino superior é do sexo masculino com idade média de 40 anos. Esta realidade não é a mesma quando pensamos na educação infantil e na educação básica. O gráfico da figura 1 apresenta a distribuição entre homens e mulheres que atuam nos diferentes níveis do ensino formal.
Figura 1: Distribuição docente em função do gênero nos diferentes níveis de ensino
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Fonte: INEP, 2019.
Gaia (2015) afirma que a enorme discrepância de gêneros na educação infantil é explicada pelo fenômeno da feminização da docência nos anos escolares iniciais, padrão este que se propaga durante os dois ciclos do ensino fundamental.
Neste ponto é interessante notar que a formação para atuar nos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio é a mesma. Sendo assim, embora o(a) docente possa atuar nos dois níveis, há uma clara relação consolidada no mercado de trabalho de que quanto maior for o grau de complexidade dos conteúdos ministrados, maior a presença de docentes do sexo masculino. Nesse viés, no ensino superior e na pósgraduação em áreas STEM os homens constituem maioria, o que pode ser explicado pelo fenômeno da segregação vertical 1 (Cabrera, 2019).
Especificamente na área de Física, no Brasil, de acordo com o INEP (2019), a participação das mulheres encontra-se em torno de 25% a 30% na graduação, de 15% a 20% na pós-graduação, e 10% quando consideramos o nível de bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.
## Metodologia
Utilizaremos a abordagem qualitativa como referencial metodológico deste trabalho, levando em consideração a observação participante, com foco na valorização do processo e na tomada e análise dos materiais desenvolvidos pelos estudantes (Ludke; Andre, 1986).
Para uma investigação sobre a percepção que estudantes do ensino médio tem a respeito da mulher cientista, pesquisadora ou inventora, foi solicitado que os alunos elaborassem desenhos autorais sobre a temática das meninas e mulheres nas Ciências. Os alunos em questão eram meninos e meninas matriculados no primeiro e no quarto semestre de um curso de ensino médio técnico integrado em Controle Ambiental de uma escola localizada na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Os critérios de seleção dos estudantes participantes e de suas obras não tiveram como parâmetro a qualidade técnica dos desenhos, mas sim o potencial expressivo em relação à análise da questão proposta.
As atividades foram realizadas durante a pandemia de coronavírus (COVID-19). Assim, devido ao isolamento social, utilizamos o Google Classroom, como Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem (AVEA) e o Google Meet como a plataforma que propiciou a comunicação por áudio e vídeo em encontros síncronos com os estudantes. Após a entrega das atividades, os alunos puderam refletir e dialogar com a turma e o professor sobre as obras desenvolvidas e sobre o que elas representavam.
## Resultados e discussões
'Por mais individual que pareça, toda criação sempre contém em si um componente social' (Vigotski, 2021, p. 33). Neste contexto, faremos uso da Teoria HistóricoCultural de Vigotski na análise da produção dos estudantes, sempre levando em consideração que a percepção dos alunos do ensino médio sobre mulheres cientistas está embasada em suas realidades históricas, sociais e culturais.
Para tal, dentre os 47 desenhos entregues, selecionamos doze que se enquadram como representantes das seguintes categorias por nós definidas: i) vidrarias, equipamentos e presença de equipamentos de proteção individual (EPI); ii) empoderamento feminino; iii) questões étnico-raciais; iv) área de atuação e, por fim, v) representação de cientistas renomadas.
## i) Vidrarias, equipamentos e presença de EPI
Parte considerável das ilustrações entregues representaram a mulher cientista acompanhada de jalecos, utilizando vidrarias e óculos de proteção. Entendemos
esses resultados como um reflexo do contexto em que esses alunos estavam inseridos, já que eram matriculados em um curso técnico de uma instituição que, historicamente, valoriza as atividades experimentais e cobra, de maneira rigorosa, a utilização de EPI nas atividades de ensino e pesquisa experimental. Esse fato nos leva a conjecturar que tal representação não seria tão significativa se fosse feita por estudantes do ensino médio regular.
Figura 2: Representação de cientistas com vidrarias, equipamentos e EPI
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Fonte: os autores, 2020
## ii) Empoderamento feminino
O machismo estrutural, a dupla jornada de atividades e o questionamento da capacidade das mulheres que atuam na área científica também estiveram presentes em muitas das ilustrações desenvolvidas pelos estudantes.
A imagem da direita da figura 3 traz expressões desencorajadoras e preconceituosas comumente ouvidas por meninas e mulheres nas mais diversas áreas e ambientes profissionais ou de estudo. Em um primeiro momento a personagem retratada questiona seu talento e capacidade, mas acaba por se fortalecer e empoderar, não deixando que tais vozes ecoem e, por fim, reafirma a sua plena capacidade de atuação como cientista.
A questão que nos chega é: com qual frequência nossas estudantes são alvos deste preconceito no ambiente escolar, muitas das vezes, inclusive, por parte de seus professores? A ilustração responde por si e deve nos servir de alerta.
Figura 3: Representação de cientistas no contexto do empoderamento feminino
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Fonte: os autores, 2020
## iii) Questões étnico-raciais
Muitas das cientistas representadas apresentavam cabelos crespos, cacheados ou com outros traços negroides, conforme ilustrado na figura 4. Um dos desenhos retratava uma jovem cientista com traços condizentes com a ascendência oriental da jovem que o fez. Há uma nítida intenção de pertencimento dessas alunas, ainda que o meio acadêmico esteja tão permeado pelo racismo e machismo estruturais e institucionais.
Figura 4: Representação de cientistas no contexto das questões étnico-raciais
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Fonte: os autores, 2020
## iv) Área de atuação
A quase totalidade dos desenhos apresentou as cientistas em atividades de cunho experimental. Uma menor amostragem trazia a representação de mulheres em áreas que remetiam à pesquisa teórica ou na Astronomia. Notamos, também, uma prevalência da representação de mulheres atuando nas áreas de Química e Biologia, em detrimento da Física. Entendemos que isso pode ser explicado por um menor estímulo à realização de práticas experimentais em Física para estes sujeitos da
pesquisa, o que nos soou como alerta e como um indicador avaliativo do processo de ensino de Física para estes e outros alunos do curso.
Figura 5 - Representação das áreas de atuação das mulheres cientistas
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Fonte: os autores, 2020
## v) Cientistas renomadas
Algumas das ilustrações traziam representações de cientistas renomadas nacional e internacionalmente. Temos de destacar que, dentre todas, Marie Curie foi representada mais vezes. Há aí que se evidenciar, mais uma vez, a importância da representatividade.
Figura 6: Representação de cientistas mulheres renomadas
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Fonte: os autores, 2020.
## Considerações finais
A visão da representação da figura de um cientista pode ir muito além da imagem de um homem branco, de meia idade, trajando um jaleco roto, com os seus cabelos brancos e esvoaçados. É através da busca e da valorização da representatividade que meninas e mulheres se perceberão cada vez mais potencialmente pertencentes aos ambientes e cargos nas áreas de ensino e pesquisa.
A utilização dos desenhos autorais foi uma estratégia metodológica eficaz, permitindo que analisássemos, através da Teoria Histórico-Cultural de Vigotski, o contexto em que esses estudantes estão envolvidos, a visão de inclusão e pertencimento da presença feminina nos meios em que estão inseridas, servindo, também, de alerta e como estratégia de avaliação para o processo de ensino e aprendizagem de Física daquele grupo.
Podemos, desta maneira, concluir que as mais variadas ações e políticas de inclusão e representatividade de meninas e mulheres nas Ciências em desenvolvimento já atingem de maneira perceptível o seu público-alvo. Entendemos, também, que este é um caminho fundamental para o estabelecimento de um cenário menos desigual nas mais diversas áreas, com destaque para a presença de pesquisadoras e docentes na área da Física.
## Referências
CABRERA, Ana. Desigualdade de género em ambiente universitário. Faces de Eva: Revista de Estudos Sobre a Mulher , n. 41, p. 47-65, 2019.
GAIA, R. S.P. Gênero e docência na educação infantil: reflexões acerca das relações entre a prática do cuidado e a atuação masculina em uma profissão culturalmente feminina. Revista Eletrônica Diálogos Acadêmicos , v. 9, n. 2, p. 99-109, 2015.
INEP. Censo Escolar da Educação Superior 2019. Brasília, DF: Ministério da Educação/Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira , 2012. Disponível em: https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/estatisticas\_e\_indicadores/res umo\_tecnico\_censo\_da\_educacao\_superior\_2019.pdf. Acesso em: 17 abr. 2021.
LUDKE, M.; ANDRÉ, M. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. Em Aberto, v. 5, n. 31, 1986.
UNESCO. Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência. 2023. Disponível em: < https://www.unesco.org/pt/days/women-girlsscience#:~:text=O%20Dia%20Internacional%20de%20Mulheres,mulheres%20e%20 meninas%20na%20ci%C3%AAncia.>. Acesso em: 17 jan. 2024.
VIGOTSKI, L. S. Imaginação e criatividade na infância. Tradução de João Pedro Fróis. 1° ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014. 128 p.
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