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DECOLONIALIDADE E ENSINO DE FÍSICA: UMA ANÁLISE BIBLIOMÉTRICA DAS PUBLICAÇÕES ACADÊMICO-CIENTÍFICAS

Aline Costalonga Gama, Judismar Tadeu Guaitolini Junior

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
23/08/2024
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## DECOLONIALIDADE E ENSINO DE FÍSICA: UMA ANÁLISE BIBLIOMÉTRICA DAS PUBLICAÇÕES ACADÊMICO-CIENTÍFICAS

## DECOLONIALITY AND PHYSICS TEACHING: A BIBLIOMETRIC ANALYSIS OF ACADEMIC-SCIENTIFIC PUBLICATIONS

Aline Costalonga Gama 1 , Judismar Tadeu Guaitolini Junior 2

1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo/Coordenadoria de Física/ Campus Vitória, agama@ifes.edu.br

2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo/Coordenadoria de Física/ Campus Vitória , jguaitolini@ifes.edu.br

## Resumo

Este artigo explora a integração da decolonialidade no Ensino de Física, tendo como objetivo compreender o panorama da produção científica voltada para o Ensino de Física sob uma perspectiva decolonial. Utilizando uma metodologia exploratória e descritiva, a pesquisa foi conduzida através de análise bibliométrica, empregando recursos como o Google Acadêmico e o Portal de Periódicos da Capes. Tal abordagem permitiu quantificar e examinar a evolução das publicações acadêmicas na interseção entre decolonialidade e Ensino de Física, oferecendo uma visão abrangente das tendências atuais e dos principais contribuidores no campo. Os resultados mostram um aumento notável nas publicações a partir de 2018, atingindo um ápice em 2022. A análise ressalta a predominância de artigos em periódicos de alta qualidade e a influência significativa de pesquisadores proeminentes, com destaque para Alan Alves-Brito. A emergência de palavras-chave como 'Formação de Professores' e 'Racismo', além de termos ligados à identidade cultural, como 'educação escolar quilombola' e 'mulheres negras', sublinha a relevância do contexto cultural e das questões raciais na educação científica. Estes achados indicam uma tendência na academia de valorizar abordagens educacionais que confrontam a hegemonia eurocêntrica, promovendo a diversidade de conhecimentos e experiências culturais.

Palavras-chave : Decolonialidade. Ensino de Física. Análise Bibliométrica.

## Abstract

This article explores the integration of decoloniality in Physics Teaching, aiming to understand the landscape of scientific production in Physics Teaching from a decolonial perspective. Using an exploratory and descriptive methodology, the research was conducted through bibliometric analysis, employing resources such as Google Scholar and the Capes Journals Portal. Such an approach allowed for the quantification and examination of the evolution of academic publications at the intersection of decoloniality and Physics Teaching, offering a comprehensive view of current trends and key contributors in the field. The results show a notable increase in publications since 2018, reaching a peak in 2022. The analysis highlights the predominance of articles in high-quality journals and the significant influence of prominent researchers, with emphasis on Alan Alves-Brito. The emergence of

keywords such as 'Teacher Training' and 'Racism', as well as terms related to cultural identity, like 'quilombola school education' and 'black women', underscores the relevance of cultural context and racial issues in scientific education. These findings indicate a trend in academia to value educational approaches that confront Eurocentric hegemony, promoting diversity in knowledge and cultural experiences.

Keywords : Decoloniality. Physics Teaching. Bibliometric Analysis.

## Introdução

O Ensino de Física, tradicionalmente baseado em paradigmas eurocêntricos, enfrenta o desafio crucial de incorporar a decolonialidade. Este movimento visa reconhecer e valorizar saberes e perspectivas não ocidentais, reconhecendo a complexidade da pesquisa científica como um processo humano influenciado por contextos políticos, econômicos, sociais, culturais e locais.

Este artigo adota uma análise bibliométrica de publicações acadêmicocientíficas para explorar como a decolonialidade está sendo integrada no Ensino de Física. Esta metodologia foi escolhida por sua capacidade de quantificar e avaliar tendências em estudos existentes, proporcionando uma visão abrangente da presença e do desenvolvimento de abordagens decoloniais na disciplina. O objetivo é compreender a integração atual de conceitos decoloniais e também identificar os principais autores e trabalhos que estão moldando este campo.

Embora a revisão da literatura indique esforços para incorporar abordagens decoloniais no Ensino de Física, este ainda é um processo em desenvolvimento. Este estudo objetiva contribuir para este campo emergente, destacando a importância de repensar a abordagem da Física para promover uma educação científica mais abrangente e socialmente responsável, o que inclui a valorização de conhecimentos tradicionais e locais, desafiando o eurocentrismo.

## Fundamentação Teórica

A decolonialidade, conceito-chave neste estudo, refere-se ao processo de desvencilhamento das estruturas de poder, saber e ser que emanam do colonialismo. No contexto educacional, se manifesta como uma crítica à hegemonia eurocêntrica, promovendo a inclusão de saberes e perspectivas marginalizadas. Sua importância na educação reside na criação de espaços inclusivos e representativos, que valorizem as diversas formas de conhecimento e experiência cultural.

A colonialidade do poder, conforme conceituada por Aníbal Quijano (2005), refere-se a um padrão de poder duradouro que tem suas raízes na colonização e que continua a influenciar as estruturas globais de poder. Este padrão é caracterizado pela interligação entre colonialismo, modernidade, capitalismo e eurocentrismo, estabelecendo uma divisão racial do trabalho e instituições sociais. A colonialidade do poder não apenas reflete uma herança histórica de desigualdades e relações de dominação baseadas em raça, mas também continua a afetar as práticas sociais, econômicas e políticas atuais.

Catherine Walsh (2019), explora a interculturalidade como uma prática e perspectiva alternativa que desafia a colonialidade do poder. Ela discute como essa abordagem, enraizada nas experiências dos movimentos indígenas, questiona e reformula o conhecimento, a política, e as estruturas sociais dominantes.

Ballestrin (2013) aponta que a decolonialidade desafia as estruturas de poder, conhecimento e ser -herdadas do colonialismo -, propondo uma nova perspectiva epistemológica que valoriza as vozes e saberes subalternizados e busca superar a lógica dominante ocidental. A colonialidade do ser desvela os impactos psicológicos e existenciais da dominação colonial, revelando como as identidades são formadas e deformadas pelo legado colonial (Ballestrin, 2013).

A teoria decolonial, aplicada ao Ensino de Física, ressalta a necessidade de identificar e confrontar as estruturas e conteúdos coloniais persistentes na educação científica. A decolonialidade valoriza as contribuições de culturas diversas, fomentando um ensino que desafie as narrativas predominantes e enriqueça a compreensão científica através da inclusão de variados modos de conhecer e existir.

De acordo com Dantas Junior (2022), em um estudo fundamentado nas teorias de currículo multicultural, decolonial e afrocentricidade, e alinhado às diretrizes nacionais para o Ensino de Física no Ensino Médio profissional, percebe-se que a ênfase em cálculos e uma perspectiva eurocêntrica na construção do conhecimento frequentemente excluem as filosofias e histórias das ciências que englobam contribuições de grupos historicamente marginalizados nos currículos.

Com a implementação das leis brasileiras nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, e nº 11.645, de 10 de março de 2008, que modificaram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996), tornou-se obrigatório

o ensino de História e Cultura Afro-brasileiras, Africanas e Indígenas em todas as escolas de Ensino Médio. Isso levou à necessidade de reconsiderar a formação dos professores, especialmente em disciplinas como Física, onde há um desafio em integrar esses conhecimentos diversificados (Dantas Junior, 2022).

Alan Alves-Brito e Kaleb Ribeiro Alho (2022) destacam um desafio significativo na educação antirracista brasileira: a necessidade de integrá-la em áreas tradicionalmente distantes das discussões sobre etnia e raça. Em seu trabalho, eles exploram como a educação focada nas relações étnico-raciais pode ser utilizada para questionar as concepções tradicionais de desenvolvimento e progresso, que são intrínsecas à ciência moderna.

Assim, repensar o Ensino de Física sob uma lente decolonial é uma resposta ao desafio de superar paradigmas eurocêntricos, e também um compromisso com a valorização de saberes e perspectivas diversificadas, essenciais para a formação de uma compreensão científica mais abrangente e socialmente responsável.

## Procedimentos Metodológicos

Este estudo, classificado como uma pesquisa básica, exploratória e descritiva, desenvolveu-se a partir de fontes adquiridas por meio de pesquisa bibliográfica. Para explorar e avaliar os dados, realizou-se uma análise bibliométrica.

Os dados foram extraídos utilizando o Google Acadêmico, de livre acesso, e o Portal de Periódicos da Capes, através da CAFe (Comunidade Acadêmica Federada), serviço oferecido pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).

A pesquisa foi realizada em 19 de dezembro de 2023, utilizando os descritores "Ensino de Física" e "Decolonial*", com aspas duplas e o operador lógico AND, incluindo variantes da palavra decolonial. A busca inicial no Google Acadêmico gerou aproximadamente 322 resultados, excluindo simples citações, enquanto no Portal de Periódicos Capes, a pesquisa avançada resultou em 8 trabalhos.

Após a filtragem, os trabalhos foram analisados individualmente. Aqueles considerados relevantes para o tema de estudo foram selecionados e salvos, resultando em 42 trabalhos acadêmicos selecionados. Todos estavam presentes no Google Acadêmico e 5 (em duplicidade) no Portal de Periódicos da Capes.

Para a análise dos dados, utilizou-se o Zotero, juntamente com os softwares Excel (categorização) e VOSviewer, versão 1.6.17 (mapeamento bibliográfico). Os resultados e as discussões são apresentados na seção subsequente.

## Resultados Alcançados

A Figura 1 apresenta uma análise temporal da quantidade de trabalhos publicados entre os anos de 2018 e 2023, além do quantitativo e da distribuição percentual dos diferentes tipos de trabalhos acadêmicos identificados na pesquisa.

Figura 1: Evolução anual do número de publicações relacionadas ao tema da investigação e composição das publicações acadêmicas.

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Fonte: Elaboração própria dos autores mediante dados da pesquisa (2023).

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A análise dos dados ilustrados na Figura 1 indica um incremento significativo na produção acadêmica a partir de 2018, alcançando um ápice em 2022 com um total de 16 trabalhos publicados. Este padrão reflete a relevância contemporânea do tema e o interesse crescente da comunidade acadêmica em incorporá-lo em suas pesquisas. Esta tendência permite inferir que a Física, frequentemente categorizada como 'ciência dura', vem se comprometendo com um ensino que adota uma perspectiva decolonial. Além disso, verificou-se que os artigos científicos predominam, totalizando 22 publicações, o que corresponde a 52,38% do total. Seguem-se dissertações de mestrado, trabalhos de conclusão de curso (TCC) de graduação, teses de doutorado, resumos e trabalhos completos publicados em anais de eventos científicos, além de capítulos de livros e TCCs de especialização. Estes resultados demonstram um interesse diversificado e crescente pela temática.

No processo de mapeamento das interconexões entre autores e coautores dos trabalhos analisados, realizado por meio do software VOSviewer, identificaramse 57 autores distintos.

Figura 2: Mapa de coautoria entre pesquisadores da decolonialidade no Ensino de Física.Fonte: Elaboração própria dos autores mediante dados da pesquisa (2023).

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Os autores com maiores interconexões têm seus nomes ilustrados na Figura 2, na qual os agrupamentos coloridos distintos indicam a formação de grupos diferenciados de coautoria, refletindo comunidades acadêmicas com interesses em comum. O tamanho dos nós representa a quantidade de publicações atribuídas a cada pesquisador, variando de acordo com um volume mais significativo de trabalhos ou uma maior frequência de citações, estabelecendo-se, assim, como figuras centrais na comunidade científica. Verificou-se que o pesquisador Alan Alves-Brito tem uma influência destacada no campo de estudo, tendo autoria e/ou coautoria em sete trabalhos. Já Fernanda L. de S. Farias, Emerson F. Gomes, Katemari Rosa, Vitor Acioly, Jorge F. Dantas Junior, Carlos Mometti e Cristiano A. dos Santos registraram duas publicações cada sobre o tema investigado.

Ao utilizar novamente o software VOSviewer para a análise das palavraschave empregadas pelos autores, constatou-se uma proeminência de termos como 'Ensino de Física', 'Decolonialidade', 'Formação de Professores' e 'Racismo'. Na Figura 3, observamos ainda que termos como 'ensino de física', 'currículo' e 'decolonialidade' emergem como centrais no mapa, sugerindo que são conceitoschave e áreas de enfoque proeminentes nos estudos analisados. A proximidade e a cor compartilhada entre termos como 'educação científica' e 'antirracismo' denotam uma interseção temática, indicando uma abordagem integrada que combina essas áreas na pesquisa atual. O tamanho dos termos, como 'racismo', que é proeminente,

reflete sua prevalência na literatura, destacando uma discussão significativa sobre essas questões. Além disso, a conexão entre termos relacionados à identidade cultural, como 'educação escolar quilombola' e 'mulheres negras', enfatiza a importância do contexto cultural e das questões de raça na educação em ciências.

Figura 3: Mapa de termos relacionados à decolonialidade no Ensino de Física.Fonte: Elaboração própria dos autores mediante dados da pesquisa (2023).

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Buscando dar ênfase na avaliação das revistas científicas onde os artigos deste estudo foram veiculados, utilizamos o Qualis-Periódicos referente ao quadriênio 2017-2020, desenvolvido pela Capes, como métrica para avaliar a qualidade das publicações científicas. Ao analisar os dados coletados, é notável a predominância de artigos publicados em revistas classificadas como A1, nível mais elevado de qualidade segundo o sistema Qualis, correspondendo a 31,81% do total (7 publicações). Seguem ainda trabalhos com Qualis A2, A3, A4, A5 e C. A diversidade de revistas e a presença de publicações em periódicos de destaque reflete a relevância e a disseminação do tema, e representa um esforço significativo de acadêmicos para trazer a decolonialidade para o Ensino de Física. Desafiando narrativas estabelecidas e promovendo uma educação científica mais equitativa e socialmente consciente.

## Considerações Finais

Este estudo, inserido no contexto desafiador de decolonizar a disciplina de Física, buscou, por meio de análise bibliométrica, explorar como a decolonialidade está sendo integrada no Ensino de Física. Apesar do baixo quantitativo de trabalhos localizados, totalizando 42, os resultados revelaram um aumento significativo na

produção acadêmica relacionada à decolonialidade no Ensino de Física desde 2018, alcançando um pico em 2022. A predominância de artigos científicos, especialmente em periódicos de alta classificação, indica uma crescente conscientização e interesse da comunidade acadêmica neste tema.

A pesquisa destacou a centralidade de autores como Alan Alves-Brito na rede de coautoria, além da relevância de conceitos-chave como 'ensino de Física', 'decolonialidade' e 'formação de professores'. Apesar dos avanços significativos identificados, o estudo também revelou uma rede de coautoria relativamente restrita, sugerindo a necessidade de maior diversificação do diálogo acadêmico.

Para futuras pesquisas, recomenda-se uma abordagem mais abrangente, incluindo outras bases de dados para expandir a análise. Seria valioso também realizar uma análise detalhada dos trabalhos identificados, explorando como a decolonialidade está sendo implementada no Ensino de Física e traduzindo práticas pedagógicas em experiências de aprendizagem efetivas e transformadoras. Em conclusão, este estudo contribui para o entendimento da incorporação da decolonialidade no Ensino de Física, evidenciando um movimento crescente e crucial na educação científica. Ele lança luz na necessidade de continuar explorando e desafiando as narrativas eurocêntricas na ciência, incentivando uma educação mais equitativa e representativa das diversas realidades globais.

## Referências

ALVES-BRITO, Alan; ALHO, Kaleb Ribeiro. Educação para as Relações ÉtnicoRaciais: um ensaio sobre alteridades subalternizadas nas Ciências Físicas. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências , v. 24, p. e37363, 2022.

BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política , n. 11, p. 89 -117, 2013.

DANTAS JUNIOR, Jorge Ferreira. Para um ensino de Física afrocentrado no currículo do Ensino Médio Integrado de um Instituto Federal. Práxis Educativa , v. 17, e2219347, 2022.

QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas . Buenos Aires: CLACSO, 2005. p.117-142.

WALSH, Catherine. Interculturalidade e decolonialidade do poder: um pensamento e posicionamento 'outro' a partir da diferença colonial. Revista Eletrônica da Faculdade de Direito de Pelotas , v. 5, n. 1, 2019.

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