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ENSINO DE FÍSICA, HISTÓRIA DA CIÊNCIA E IDENTIDADE: CONTEXTUALIZANDO A PARTIR DE UMA PESQUISA BIBLIOGRÁFICA

Aline Mazzarella, Tainá Carvalho, Andreia Guerra

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
23/08/2024
Linha de pesquisa
Epistemologia, Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ENSINO DE FÍSICA, HISTÓRIA DA CIÊNCIA E IDENTIDADE: CONTEXTUALIZANDO A PARTIR DE UMA PESQUISA BIBLIOGRÁFICA

## TEACHING PHYSICS, HISTORY OF SCIENCE, AND IDENTITY: CONTEXTUALIZING FROM A BIBLIOGRAPHICAL RESEARCH

## Aline Mazzarella 1 , Tainá Carvalho 2 , Andreia Guerra 3

1 Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Educação do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ), alinegcmazzarella@gmail.com

- 2 Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Educação do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ), tainacaarvalho@gmail.com
- 3 Docente do Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Educação do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ), andreia.guerra96@gmail.com

## Resumo

Enfrentamos, de forma mais latente nos últimos anos, problemas que escancaram as desigualdades sociais do mundo no qual vivemos. Nas últimas décadas, pesquisas têm apontado para busca por justiça social nas aulas de ciências e para compreensão de como se constitui a identidade dos estudantes. Considerando o papel da História da Ciência e Ensino de Física, essa pesquisa busca entender como tem se articulado a área com relação ao campo de identidade dos indivíduos. Para tanto, realizamos uma pesquisa bibliográfica, nos debruçando sobre artigos de dois periódicos nacionais, publicados entre os anos de 2002 e 2022, selecionando através de leitura crítica do material. Ao todo, ficamos com 18 artigos que foram analisados e separados conforme categorias de gênero, raça e classe e como eles a relacionavam. Nas considerações finais, apresentamos nossas conclusões, destacando quais temáticas foram mais colocadas e quais carecem de atenção, esperando contribuir com a área ao indicar esses pontos.

Palavras-chave : história da ciência, ensino de física, identidade

## Abstract

In recent years, we have increasingly faced problems that expose social inequalities in our world. Over the past few decades, research has focused on promoting social justice in science classes and understanding how students' identities are formed. This research, considering the role of the History of Science and Physics Teaching, seeks to understand how this field has connects to individual identity. To this end, we conducted a literature review, examining articles from two national journals published between 2002 and 2022, selected through a critical reading of the material. In total, we analyzed eighteen articles, categorizing them according to gender, race, and class, and examining their interrelations. In our final considerations, we present our conclusions, highlighting the most discussed themes and those that require further attention. We hope to contribute to the field by identifying these key points.

Keywords : history of science, physics teaching, identity

## Introdução

A pesquisa aqui apresentada parte do ponto que as questões relacionadas às desigualdades sociais têm se tornado mais latentes frente aos problemas enfrentados pela sociedade contemporânea (tais como a recente pandemia da COVID-19 e o aumento do impacto das mudanças climáticas).

Como pesquisadoras do ensino de física (EF), nos filiamos a autores, como Morales-Doyle (2017), que apontam que a desigualdade na educação em ciências (EC) está incorporada na política, economia e ideologia da sociedade. O autor aponta que a busca por equidade só pode ser alcançada transformando o contexto no qual as injustiças sociais ocorrem, e que as desigualdades de raça, gênero e classe se mostram persistentes e prevalentes na EC (Morales-Doyle, 2017).

Para Brickhouse e Potter (2001) os professores devem tratar de questões a respeito de gênero, classe e raça em aulas de ciência, problematizando a diversidade e identidade na ciência para que melhor se compreenda o envolvimento dessas questões nas ciências escolares e na formação da identidade dos estudantes.

As pesquisas relacionadas às questões de identidade dos estudantes têm crescido nos últimos anos, começando a ganhar destaque na EC no final do século XX, sendo ainda um campo em constante ampliação (Gurgel; Pietrocola; Watanabe, 2014; Danielsson et al. , 2023). Tytler e Ferguson (2023) defendem que o foco na identidade no EF fornece uma base para compreensão da ligação pessoal de longo prazo com os estudantes, como uma medida para entender as suas atitudes em relação à ciência.

Neste trabalho, nos filiamos a autores que apontam ser a identidade socialmente produzida, maleável e múltipla (Tytler; Ferguson, 2023). E assim, ela se constitui num conjunto de características que os estudantes compreendem a respeito de si mesmos, tendo relação com seu passado, com o futuro que imaginam para si mesmos e as maneiras com as quais se colocam na sociedade em que vivem (Brickhouse; Potter, 2001; Gurgel; Pietrocola; Watanabe, 2014).

Importante enfatizar que concordamos com Tytler e Ferguson (2023) quando situam que o processo de construção de identidade se dá não apenas com o

autoconhecimento que temos sobre nós mesmos, mas também com o conhecimento dos outros, isto é, como as outras pessoas (família, amigos, professores) nos enxergam. O reconhecimento por parte de outras pessoas é importante quando trabalhamos com o conceito de identidade científica, porque o processo de se tornar cientista é uma negociação de identidades próprias e atribuídas por outros. E, como destaca Avraamidou (2020) estes outros não estão dissociados do fato da ciência tradicionalmente se colocar em uma posição elitista na qual certos grupos são marginalizados e excluídos da prática científica (Avraamidou, 2020). E essa marginalização e exclusão estão relacionados às categorias de gênero, raça e classe, que se interseccionam na construção das identidades científicas ou não.

Dessa forma, concordamos com Avraamidou (2020) quanto ao uso da lente da interseccionalidade para entender como uma pessoa se relaciona com as ciências, e em particular com a física, mas também os porquês de alguém não se relacionar ou deixar de fazê-lo. Gurgel, Pietrocola e Watanabe (2014) destacam que se consideramos que uma pessoa se caracteriza por seu grupo social, também é importante termos em mente que o grupo social em si é historicamente constituído pelas atividades que compõem esse grupo.

As questões acima nos remetem a História da Ciência (HC) e ensino, uma vez que a literatura aponta que a HC pode ser um caminho para construir imagens de cientistas que problematizem a visão elitista apontada (Gandolfi, 2018). As aproximações entre a HC e o EF têm sido defendidas desde a década de 1950 (Matthews, 1995) e suas contribuições no ensino, segundo Gandolfi (2018) vão além do auxílio na aprendizagem de conceitos científicos. A autora aponta que a HC tem potencial de fomentar reflexões a respeito de como os conceitos foram desenvolvidos pela comunidade científica, ao incluir discussões sobre a Natureza da Ciência. Gandolfi (2018) também destaca o potencial da HC na humanização dos cientistas, ao mostrar que o trabalho científico é realizado por pessoas normais, não geniais, promovendo uma visão histórica e cultural de quem são os cientistas, de onde eles vieram e como construíram o conhecimento.

As considerações anteriores nos levaram a desenvolver uma pesquisa bibliográfica (Gil, 2017), com vistas a responder à seguinte pergunta: 'Quais pontos podem ser destacados a respeito da articulação entre identidade e história da

ciência e ensino de física, a partir da leitura e análise de artigos de dois periódicos da área?'. Para responder a essa pergunta, nos debruçando sobre artigos do Caderno Brasileiro de Ensino de Física (CBEF) e da Revista Brasileira de Ensino de Física (RBEF).

## Metodologia de Pesquisa

Realizamos uma pesquisa bibliográfica, que, por definição, é desenvolvida sobre um material que já está elaborado (Gil, 2017). Dentre as etapas que envolvem o processo, destacamos a busca de fontes, leitura do material, fichamento e organização lógica do assunto abordado (Gil, 2017). Como nosso foco é o EF, escolhemos trabalhar com os artigos de dois periódicos nacionais: o CBEF, do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina, lançado oficialmente em 1984, e a RBEF, da Sociedade Brasileira de Física, publicado desde 1979.

A busca pelos artigos foi desenvolvida utilizando como base os dados da pesquisa de tese de doutorado da segunda autora deste artigo. A base em questão é composta por artigos que se inserem na HC e ensino e contém tanto artigos da CBEF quanto RBEF com ao menos um dos autores brasileiros. A coleta foi realizada procurando, na página eletrônica de cada periódico, ano a ano, todos os artigos que articulavam HC e EF, totalizando, considerando apenas os dois periódicos citados, 154 artigos, publicados dentre os anos de 2002 e 2022.

Na elaboração desta pesquisa, a busca teve foco em artigos que tratassem, junto à HC e EF, aspectos da identidade. A busca por palavras-chave (utilizando gênero, raça, classe, identidade) nas páginas eletrônicas não foi satisfatória, uma vez que a maioria dos artigos ficavam de fora do levantamento inicial. Dessa forma, a leitura foi no corpo do texto dos 154 artigos da base de dados mencionada no parágrafo anterior, buscando por trabalhos que mencionavam identidade de forma mobilizante ou através de citações. A partir da leitura crítica do material disponível, totalizamos 18 artigos que se enquadravam na temática de identidade.

Para organização do assunto abordado, escolhemos separar por temáticas de análise: identidade, gênero, raça e classe. Essas temáticas foram escolhidas porque nem sempre os artigos que falavam de gênero, raça e/ou classe explicitamente indicavam intenção de tratar um aspecto da identidade. Essas temáticas foram

escolhidas por considerarmos as três como categorias que se interseccionam, quando tratamos da identidade dos estudantes (Danielsson, et al, 2023).

## Análise dos resultados

Nesta seção, trazemos os resultados organizados pelas temáticas destacadas anteriormente. Adiantamos que nem todos os artigos da anteriormente citada base poderão ser mencionados devido ao espaço reservado, trazendo apenas aqueles que mais se destacaram. Enfatizamos, também, que mesmo quando um artigo poderia se encaixar em mais de uma temática, optamos por colocá-lo na que mais se mobilizava, deixando para comentar sua interseccionalidade posteriormente.

Dentre os 18 artigos selecionados, a temática mais citada foi a de gênero, com 11 artigos problematizando a participação de mulheres na ciência. Sete dos artigos trabalham a representatividade feminina, trazendo Marie Curie (três dos trabalhos), Maria Goeppert-Mayer, Cecilia Payne e Chieng Wu (dois dos trabalhos). Esses artigos destacam os feitos notáveis dessas mulheres cientistas como uma forma de trazer visibilidade feminina na ciência. Segundo Maia Filho e Silva (2019), transformar a invisibilidade dessas mulheres em visibilidade emancipa suas histórias e desmitifica a ideia de que ciência é exclusivamente para homens. Os outros quatro artigos que tratam da questão de gênero problematizam a ausência de mulheres nas narrativas históricas sem fazer referências a exemplos de mulheres que participaram da construção da ciência. Um desses quatro artigos, contudo, ao descrever o desenvolvimento da fissão nuclear no contexto do andamento de pesquisas de bombardeamento de urânio, destaca como a participação de Lise Meitner foi invisibilizada em prol de seus colegas de trabalho do sexo masculino e alerta para que não se imagine mulheres na ciência como geniais e especiais ao abordar o assunto (Cordeiro; Peduzzi, 2014).

A temática ligada à raça foi mobilizada em apenas um dos artigos da base analisada. O artigo em questão, de autoria de Alves-Brito, Bootz e Massoni (2018) chama atenção para as leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatórias a inclusão de ensino da História da África, da Cultura Afro-Brasileira e Indígena nos currículos brasileiros, e traz uma proposta de sequência didática para discutir as relações étnicoraciais na educação em ciências. O fato de que, dentre 18 artigos, esse seja o único

no qual a temática racial está centralizada aponta para o fato de que essa temática carece de atenção de pesquisadores da área.

Três dos dezoito artigos selecionados apresentaram preocupação com menção à classe, de diferentes maneiras. Por exemplo, dois dos artigos selecionados apontam para a importância da classe social na construção do conhecimento (Jardim; Guerra, 2017; 2018). Mas apenas o artigo de Valero et al. (2022) trata a questão da classe social como mobilizante ao longo do trabalho. Os autores e autoras trazem uma análise marxista ao estabelecer a ciência como produto da ação de um homem enquanto trabalhador, objetivando, assim, a ciência a favor da classe trabalhadora.

Dos três artigos restantes da análise, escolhemos atribuir uma categoria separada, denominada identidade por ser explicitamente o que os trabalhos articulam. Dois dos textos trabalham com a construção da identidade do professor através da matriz curricular da licenciatura. O terceiro texto traz as possibilidades de História e Filosofia da Ciência em contexto escolar destacando estudantes na adolescência e o papel dos educadores e das instituições escolares no auxílio da construção de suas identidades, propondo um resgate de tradições e do sentimento de pertencimento de coletividade (Santos; Forato; Silva, 2021).

Como dito no início dessa seção, alguns dos artigos selecionados (três, especificamente) mostravam uma correlação entre si, interseccionando diferentes temáticas, ainda que brevemente e através de citações. O artigo citado anteriormente de Jardim e Guerra (2018), por exemplo, traz a participação de mulheres de classe alta na construção do conhecimento. Maia Filho e Silva (2021) trazem a discriminação de raça, gênero e classe ao se falar do Prêmio Nobel não concedido à cientista chinesa Chien Wu. Alves-Brito, Bootz e Massoni (2018), por sua vez, chamam atenção para a sub-representação de mulheres nas ciências exatas, principalmente na Física, considerando a situação ainda pior quando se destaca a sub-representação de negros, negras e indígenas. Esses são exemplos de como as diferentes categorias sociais podem ser relacionadas, embora a quantidade de artigos (3 de 18) seja pouca.

## Considerações finais

O objetivo dessa pesquisa foi compreender quais pontos poderiam ser destacados com relação à articulação entre os campos de identidade e HC e EF, realizando uma pesquisa bibliográfica cuja base eram publicações de dois importantes

periódicos com espaço para HC e ensino: o CBEF e a RBEF. Através da leitura crítica dos materiais, identificamos 18 artigos que se enquadravam na temática escolhida.

Os resultados indicam que a temática de gênero tem sido a mais mobilizada nos últimos anos, em sua maioria ligada à representatividade em torno da figura de uma mulher cientista. Quando se olha para classe e raça, contudo, percebemos que são temáticas que carecem de mais atenção por parte de pesquisadores da área.

Considerando a natureza socialmente produzida, maleável e múltipla (Tytler; Ferguson, 2023) da identidade, nos atentamos para artigos que trouxessem a interseccionalidade e mobilizassem mais de um aspecto identitário, mas encontramos apenas três que o fizeram. Consideramos esse um dado importante porque, sendo a identidade uma construção própria e dos outros, grupos desfavorecidos e subrepresentados têm essas identidades em constante conflito frente aos sistemas de opressão como desigualdades e estereótipos sociais (Avraamidou, 2020).

Gandolfi (2018) destaca que a HC tem possibilidade de desafiar centenas de anos de visões tendenciosas a respeito das comunidades científicas, ao mostrar que diferentes culturas, pessoas e sociedades estão ligadas ao desenvolvimento científico. Entendemos, com essa pesquisa, que as correlações entre HC e EF têm crescido nos últimos anos. Contudo, a quantidade pequena de artigos encontrados que tratam a identidade (ou gênero, classe e raça) nesse contexto indica que essa parte da área ainda está em construção e, ao apontar esse resultado, esperamos contribuir para a articulação da área.

## Agradecimentos

- O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior -Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 e do CNPq.

## Referências bibliográficas

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