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NO-BELL: REFLEXÕES SOBRE O EFEITO MATILDA NA DESCOBERTA DOS PULSARES POR JOCELYN BELL BURNELL

Larissa Do Nascimento Pires, Luiz O. Q. Peduzzi

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
23/08/2024
Linha de pesquisa
Epistemologia, Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## NO-BELL: REFLEXÕES SOBRE O EFEITO MATILDA NA

## DESCOBERTA DOS PULSARES POR JOCELYN BELL BURNELL NO-BELL: REFLECTIONS ON THE MATILDA EFFECT IN THE DISCOVERY OF PULSARS BY JOCELYN BELL BURNELL

## Larissa do Nascimento Pires 1 , Luiz O. Q. Peduzzi²

1 Instituto Federal de Santa Catarina - Câmpus Araranguá, larissa.n.pires@hotmail.com 2

Universidade Federal de Santa Catarina - Câmpus Florianópolis, luizpeduzzi@gmail.com

## Resumo

A reinvestigação da História da Ciência sob uma perspectiva de gênero, dentre vários aspectos, pode elucidar exemplos de mulheres que contribuíram na produção de conhecimento científico e desafios encontrados por elas em suas carreiras científicas. Um dos aspectos amplamente investigados na interface de estudos entre Gênero e História da Ciência consiste no Efeito Matilda, apontado pela historiadora Margaret Rossiter como a atribuição para homens, como orientadores ou parceiros, de pesquisas protagonizadas por mulheres. O objetivo deste artigo é investigar como tal fenômeno se apresentou na trajetória da astrônoma britânica Jocelyn Bell Burnell, que, no final da década de 1960, protagonizou a descoberta dos pulsares, estrelas de nêutrons em rotação, que ampliaram o entendimento sobre o processo de evolução estelar. Defende-se que tais discussões no contexto da educação científica podem possibilitar que discentes e docentes reflitam sobre as potencialidades da ciência, mas também reconheçam suas problemáticas como um corpo de conhecimento que também reproduziu opressões sociais, como de gênero.

Palavras-chave : Mulheres na Ciência. Gênero e Ciência. História da Ciência. Efeito Matilda. Jocelyn Bell Burnell.

## Abstract

The reinvestigation of the History of Science from a gender perspective, among several aspects, can elucidate examples of women who contributed to the production of scientific knowledge and challenges encountered by them in their scientific careers. One of the aspects widely investigated at the interface of studies on Gender and History of Science consists of the Matilda Effect, pointed out by the historian Margaret Rossiter as the attribution to men, as advisors or partners, of research carried out by women. The objective of this article is to investigate how this phenomenon appeared in the trajectory of the British astronomer Jocelyn Bell Burnell, who, at the end of the 1960s, led the discovery of pulsars, rotating neutron stars that expanded the understanding of the process of stellar evolution. It is argued that such discussions in the context of scientific education can enable students and teachers to reflect on the potential of science, but also recognize its problems as a body of knowledge that also reproduced social oppressions, such as gender.

Keywords : Women in Science. Gender and Science. History of Science. Matilda Effect. Jocelyn Bell Burnell.

## Introdução

O aprofundamento de investigações no campo de História das Mulheres na Ciência apresentou sua consolidação nas décadas de 1970 e 1980, '[...] em meio a um movimento das mulheres em maturação e numa época em que cada vez mais feministas assumiam posições de poder na história e na ciência' (SCHIEBINGER, 2001, p. 58). A reinvestigação da História da Ciência sob uma perspectiva de gênero implicou em se evidenciar exemplos de mulheres que contribuíram na produção de conhecimento científico, além de se analisar o viés sexista presente nas práticas e nos resultados da ciência. Colocou-se em debate '[...] a ideia de uma ciência androcêntrica, ou seja, marcadamente masculina, no protagonismo, nos discursos, nas práticas científicas, epistemologicamente' (CABRAL, 2020, p. 192).

Um dos aspectos amplamente investigados na interface de estudos sobre Gênero e História da Ciência consiste no Efeito Matilda, apontado pela historiadora Margaret Rossiter, em homenagem à sufragista norte-americana Matilda Joslyn Gage (1826-1898). Tal efeito consiste na atribuição para homens, como orientadores ou parceiros, de pesquisas protagonizadas por mulheres. Em seu célebre artigo The Matthew Matilda Effect in Science , Rossiter (1993) elenca determinados exemplos de pesquisas desenvolvidas por mulheres ao longo do século XX cuja autoria fora atribuída a seus orientadores, como o caso da astrônoma britânica Jocelyn Bell Burnell.

Em meados do final da década de 1960, a então estudante de doutorado Jocelyn Bell identificou os primeiros objetos astronômicos que viriam a ser reconhecidos como pulsares: estrelas de nêutrons em rotação, as quais possibilitaram uma ampliação do entendimento sobre a evolução estelar. Em 1974, o trabalho veio a ser reconhecido no Prêmio Nobel de Física; porém, somente o orientador de Bell, o astrônomo Antony Hewish, recebeu a láurea. Considerando tal contextualização, o objetivo deste trabalho é apontar reflexões, direcionadas ao ensino de Física, sobre a presença do Efeito Matilda no processo de descoberta dos pulsares. Assim, aqui se pretende responder: 'Como o Efeito Matilda se manifesta na descoberta dos pulsares e como tal discussão pode contribuir para o ensino de Física?'.

Com base em pressupostos metodológicos da Análise Documental (CELLARD, 2012), para a escrita deste estudo biográfico, consideramos relatos publicados pela cientista em artigos e em entrevistas (BELL BURNELL, 1977; 2000; 2004; 2010), além de fontes secundárias que discorrem sobre a trajetória da astrônoma (WADE, 1975; BARTUSIAK, 2017; COMBES; DURRET, 2020). Articulamos tal discussão biográfica com referenciais feministas do campo de Gênero e Ciências: além de Margaret Rossiter, consideramos reflexões de Sharon McGrayne e Londa Schiebinger.

## Efeito Matilda e o Prêmio Nobel: o que vem a ser?

De acordo com a historiadora Margaret Rossiter, o Efeito Matilda representa a 'subvalorização sistemática de contribuições de mulheres para a ciência e literatura' (ROSSITER, 1993, p. 334). Tal efeito é derivado do chamado Efeito Mateus, cunhado pelo sociólogo da ciência Robert Merton, consistindo na 'desvalorização ou apropriação dos trabalhos de cientistas menos conhecidos ou em posições inferiores na hierarquia acadêmica pelos cientistas de maior renome e nível hierárquico' (SANTANA; SANTOS, 2020, p. 179).

Bessa e Moreira (2021) argumentam que tal fenômeno ocorre de maneira sutil, por muitas vezes as mulheres ocuparem o lugar de 'assistentes' ou serem consideradas 'menos produtivas' em comparação aos homens. Desta forma, pelo fato de mulheres serem '[...] menos bem inseridas nos quadros, confrontadas a menores atenções de seus superiores hierárquicos e de seus colegas, o valor de suas contribuições poderia ser minimizado' (LOWY, 2020, p. 237). Assim, configuram-se '[...] casos onde a participação feminina na atividade científica tem seu mérito diminuído ou completamente atribuído ao trabalho masculino' (SANTANA, 2021, p. 38).

O Efeito Matilda pode se manifestar tanto no âmbito de publicações como de premiações. Sepulveda e Silva (2021) argumentam a recorrência desse fenômeno no contexto de láureas, como o Prêmio Nobel. Longe de serem casos pontuais, várias edições do Prêmio apresentam a omissão do nome de mulheres cientistas nas indicações, como: Frieda Robscheit-Robbins em Medicina no ano de 1934, Rosalind Franklin em Medicina no ano de 1962, Chien Shiung-Wu em Física no ano de 1957 e Lise Meitner em Física no ano de 1944. Ainda, a própria Rossiter (1993)

cita a ausência de Jocelyn Bell Burnell como sendo problemática, em tempos de existência de movimentos feministas:

[...] nas décadas de 1960 e 1970, mulheres mais jovens associadas, como a astrofísica Jocelyn Bell na Inglaterra [...] colaboraram em importantes trabalhos científicos, mas não participaram dos prêmios Nobel [...] concedidos a essas descobertas. Até então, no entanto, havia crítica feminista suficiente para que essas decisões fossem chamadas de 'controversas' (ROSSITER, 1993, p. 329).

Desse modo, a recorrência deste fenômeno no Prêmio Nobel, '[...] reconhecido como uma das mais importantes premiações científicas, garantindo aos laureados ainda mais poder e prestígio na comunidade, [...] é um reflexo da segregação hierárquica pela sub-representação das mulheres nas áreas científicas e tecnológicas' (SANTANA, 2021, p. 40).

## A Descoberta dos Pulsares

Durante o seu doutorado, iniciado no ano de 1965, Jocelyn Bell (Figura 1) atuou no Grupo de Radioastronomia de Cambridge, trabalhando no Mullard Radio Astronomy Observatory (MRAO). Até o ano de 1967, a pesquisadora contribuiu na construção do radiotelescópio Interplanetary Scintillation Array : em agosto, durante a coleta de sinais de quasares - objetivo do seu doutorado - a cientista identificou sinais com pulsos regulares, que '[...] era um tipo de objeto totalmente inesperado e totalmente novo, que se comportava de uma maneira que os astrônomos nunca esperaram' (BELL BURNELL, 2010).

A partir da publicação do artigo Observation of a Rapidly Pulsating Radio Source (HEWISH et al., 1968), na Revista Nature , tais sinais foram compreendidos como manifestações de objetos astronômicos denominados pulsares. A relevância científica de tal descoberta foi reconhecida no Prêmio Nobel de Física, em 1974. O primeiro pulsar '[...] oficialmente conhecido como PSR 1919+21 por suas coordenadas celestes, nunca será esquecido - não apenas por sua descoberta, mas também pela polêmica que mais tarde o cercou' (BARTUSIAK, 2017, p. 2). Segundo Jocelyn Bell Burnell (Figura 1), 'acho que havia um sentimento bastante difundido entre a minha geração [...] de que as coisas tinham sido um pouco injustas' (BELL BURNELL, 2000, p. 79).

Figura 1 - A astrônoma Jocelyn Bell Burnell em 1987Fonte: AIP Emilio Segrè Visual Archives, John Irwin Slide Collection

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O Comitê Nobel concedeu a láurea aos radioastrônomos Martin Ryle e Antony Hewish: 'Ryle por suas observações e invenções, em particular da técnica de síntese de abertura, e Hewish por seu papel decisivo na descoberta de pulsares' (NOBEL PRIZE, 2022). Embora Hewish, em seu discurso na premiação, tenha agradecido Bell '[...] pelo cuidado, diligência e persistência que levou à nossa descoberta tão cedo no programa de cintilação' (HEWISH, 1974, p. 183), a omissão da cientista gerou polêmicas na comunidade científica; também havendo repercussão no âmbito midiático: 'Na revista Great's Britain Observatory , os editores brincavam ironicamente entre si que o Nobel agora significava 'No-Bell'' (BARTUSIAK, 2017, p. 2).

Por exemplo, o astrônomo Fred Hoyle direcionou suas críticas ao Comitê Nobel por considerar que o instante decisivo da descoberta havia ocorrido com a cientista. Ele ressalta, em um comentário transcrito por Wade (1975), a importância do trabalho desenvolvido pela cientista:

Há uma tendência de interpretar mal a magnitude da realização de Miss Bell, porque parece tão simples - apenas pesquisar e pesquisar em uma grande massa de registros. A conquista veio de uma vontade de considerar como uma possibilidade séria um fenômeno que todas as experiências anteriores haviam sugerido que era impossível. [...] Eu acrescentaria que minha crítica ao Prêmio Nobel foi dirigida contra a própria comissão de premiações, não contra o professor Hewish. Parece claro que o Comitê não se preocupou em entender o que aconteceu neste caso.

Segundo Wade (1975), Hewish concedeu uma resposta moderada a estas declarações, '[...] dizendo, com efeito, que Burnell vinha usando seu telescópio, sob suas instruções, para fazer um levantamento do céu iniciado por ele' (p. 358).

Segundo o radioastrônomo, em outro relato, 'para ser honesto, não acho que teria importância quem tinha sido meu aluno [...] a descoberta dos pulsares era inevitável depois que a pesquisa começou' (HEWISH, 2010). De acordo com McGrayne (1998, p. 373), na Revista Science , Hewish comentou que 'Jocelyn era uma garota muito boa, mas estava apenas fazendo seu trabalho. Ela percebeu que essa fonte estava fazendo isso. Se ela não tivesse percebido, teria sido negligente'.

Após a láurea, a cientista concedeu declarações compreendendo sua ausência pelo fato de que o Comitê Nobel não costumava reconhecer estudantes de pós-graduação, além de considerar que a responsabilidade pelo sucesso deveria ser direcionada aos orientadores e às pesquisas de longa data (MCGRAYNE, 1998). Segundo a própria pesquisadora, '[...] acredito que rebaixaria os Prêmios Nobel se fossem concedidos a estudantes de pesquisa, exceto em casos muito excepcionais, e não acredito que este seja um deles' (BELL BURNELL, 1977, p. 688). Todavia, Combes e Durret (2020) destacam que, posteriormente, ao adentrar em discussões sobre a presença das mulheres da ciência, Bell Burnell considerou a possibilidade de sua ausência estar associada à uma discriminação de gênero:

Indiscutivelmente, meu status de estudante e talvez meu gênero também foram minha ruína com relação ao Prêmio Nobel, que foi concedido ao professor Antony Hewish e ao professor Martin Ryle. Naquela época, a ciência ainda era percebida como sendo realizada por homens ilustres liderando equipes de lacaios não reconhecidos que cumpriam suas ordens e não contribuíam de outra forma senão conforme as instruções! (BELL BURNELL, 2004, p. 489).

É possível observar que a participação de Bell Burnell em discussões de gênero na ciência aconteceu gradualmente (MCGRAYNE, 1998), considerando os diferentes posicionamentos da cientista em relação ao visível Efeito Matilda vivenciado por ela. Como reitera a própria cientista, 'em parte, acho que foi à medida que fui ficando mais velha que tive uma perspectiva das coisas, que vi mais claramente as injustiças [...] Eu não estava terrivelmente alerta - não estava nem um pouco alerta - como feminista naquela época' (BELL BURNELL, 2000, p. 30).

## Considerações Finais

A escrita sobre as trajetórias de cientistas mulheres apresenta a possibilidade de romper com um modelo de representação da ciência como o descrito por Lima (2019, p. 38-39), '[...] que apenas destaca a presença de homens como líderes de pesquisa, como cientistas de destaque e como vencedores de

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grandes prêmios reguladores'. Neste sentido, centralizar o estudo em um episódio de descoberta científica que apresenta estreita relação com o Prêmio Nobel permite refletir sobre como tais láureas podem evidenciar fenômenos de omissão da contribuição de mulheres cientistas.

Como aponta Schiebinger, '[...] a ciência moderna é um produto de centenas de anos de exclusão das mulheres, [e] o processo de trazer mulheres para a ciência exigiu, e vai continuar a exigir, profundas mudanças estruturais na cultura, métodos e conteúdo da ciência' (2001, p. 37). Acrescentamos à citação da historiadora que tais mudanças estruturais podem ser ensejadas por meio de ações na educação científica. É de suma importância demonstrar aos discentes e docentes as potencialidades da ciência, mas também fazê-los refletir suas problemáticas como um corpo de conhecimento que também reproduziu - e ainda reproduz - opressões sociais, como de gênero. Ainda persistem preconceitos '[...] mais simbólicos e culturais do que jurídicos ou burocráticos - advindos da secular cultura patriarcal [que] ainda desestimulam as mulheres a se inserir nos diferentes campos científicos' (FREITAS; PEREIRA, 2017, p. 199).

Em outras palavras, modificações também são igualmente requeridas na abordagem de contribuições femininas no contexto escolar, de forma que estudantes acessem visões mais adequadas e críticas sobre o desenvolvimento científico e tecnológico - e que mais meninas sejam motivadas a adentrar e a permanecer no mundo científico.

## Referências

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BELL BURNELL, J. Oral History Interviews. Entrevista Concedida a David DeVorkin. Niels Bohr Library &amp; Archives, American Institute of Physics , 2000.

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CABRAL, C. G. Sobre nomes e (re)nomes: gênero, história e ensino da engenharia no Brasil. In: GROSSI, M. P; REA, C. A. Teoria Feminista e Produção de Conhecimento Situado : Ciências Humanas, Biológicas, Exatas e Engenharias. Florianópolis: Tribo da Ilha e Devires, 2020. p. 185-199.

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FREITAS, M. A.; PEREIRA, E. G. A inexpressiva representação feminina nas academias científicas e no Prêmio Nobel. Ex æquo , n. 36, p. 189-202, 2017.

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