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EXPLORANDO A RELAÇÃO ENTRE CAPITAL CULTURAL INSTITUCIONALIZADO E O AQUECIMENTO GLOBAL ANTROPOGÊNICO: O PAPEL DO ENSINO DAS CIÊNCIAS NO COMBATE AO NEGACIONISMO

Marcelo De Moura Cabral, Matheus Monteiro Nascimento

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
22/08/2024
Linha de pesquisa
Práticas Educativas Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## EXPLORANDO A RELAÇÃO ENTRE CAPITAL CULTURAL INSTITUCIONALIZADO E O AQUECIMENTO GLOBAL ANTROPOGÊNICO: O PAPEL DO ENSINO DAS CIÊNCIAS NO COMBATE AO NEGACIONISMO

## EXPLORING THE RELATIONSHIP BETWEEN INSTITUTIONALIZED CULTURAL CAPITAL AND ANTHROPOGENIC GLOBAL WARMING: THE ROLE OF SCIENCE TEACHING IN COMBATING DENIALISM

## Marcelo de Moura Cabral 1 , Matheus Monteiro Nascimento 2

1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física, mrcl.m.cbrl@gmail.com

2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Departamento de Física, matheus.monteiro@ufrgs.br

## Resumo

Neste trabalho analisamos a relação entre negacionismo científico e nível de instrução. Investigamos a associação entre o capital cultural institucionalizado e a opinião pública sobre o aquecimento global antropogênico. Como lente teórica nos apoiamos na noção de capital cultural de Pierre Bourdieu. Metodologicamente utilizamos a técnica da Análise de Correspondências Múltiplas (ACM). Nosso objetivo foi verificar se existe convergência entre acúmulo de capital cultural institucionalizado dos respondentes e suas opiniões sobre aquecimento global e mudanças climáticas. Os resultados sugerem que a educação científica formal, no contexto brasileiro, parece ter um efeito positivo no combate ao negacionismo. Entendemos que o conhecimento científico auxilia na compreensão de mundo e de atitudes sociais mais conscientes para a sociedade. Este estudo se torna relevante no contexto de ampliar as discussões sobre o papel da educação científica, em geral, e do ensino de Física em particular, no combate aos negacionismos tão presentes na sociedade contemporânea.

Palavras-chave : Negacionismo científico; capital cultural institucionalizado; aquecimento global antropogênico; educação científica.

## Abstract

In this work, we analyze the relationship between scientific denialism and the level of education. We investigated the association between cultural capital and public opinion on anthropogenic global warming. As a theoretical lens, we rely on Pierre Bourdieu's notion of cultural capital. Methodologically, we used the Multiple Correspondence Analysis (ACM) technique. Our objective was to verify whether there is a convergence between the respondents' accumulation of institutionalized cultural capital and their opinions on global warming and climate change. The results suggest that science education in the Brazilian context appears to have a positive effect in combating denialism. We understand that scientific knowledge helps individuals comprehend the world and fosters more conscious social attitudes in society. This study becomes relevant in the context of expanding discussions about the role of scientific education, in general, and Physics teaching in particular, in combating denialism so present in contemporary society.

Keywords : Science denialism; institutionalized cultural capital; anthropogenic global warming; scientific education.

## Introdução

Com certeza já ouvimos a expressão: Há males que vem para o bem! , mas pensando em termos de negacionismo científico, este não é o caso. Não obstante, em virtude do aumento significativo de grupos obscurantistas, de iniciativas de pessoas em redes sociais na promoção da desinformação e pelo obscurantismo intelectual promovido pelo governo federal da gestão 2019-2022, a comunidade científica teve um forte despertar em relação a necessidade de conscientização de uma melhor comunicação com a sociedade. Casos e exemplos de derradeiras vertentes negacionistas não faltam para corroborar a necessidade de qualificação da comunicação científica. Alguns exemplos como o caso da fosfoetanolamina (pílula do câncer) e da cloroquina para tratamento da Covid-19, entre tantos outros, reforçam de maneira categórica a necessidade de compreensão do negacionismo científico e seu impacto na sociedade (Nascimento, Massi, 2023).

Para compreender o negacionismo científico das mudanças climáticas, é necessário identificar fatores que influenciaram a trajetória de movimentos predecessores ao que vivemos, pois negar especificamente o aquecimento global não é necessariamente o mesmo que negar a ciência. Por isso, a compreensão epistemológica do adjetivo 'negacionismo' torna-se tão fundamental (Guimarães, 2022). Para isto, neste trabalho trataremos do negacionismo climático e do aquecimento global antropogênico. Em trabalho de revisão bibliográfica de Santini e Barros (2022), foi possível vislumbrar divergências de grupos negacionistas obscurantistas em relação às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global como uma variação de critérios que podem enfatizar e desestimular a validação da problemática histórica e crescente da necessidade de atenção aos cuidados em relação ao aquecimento do planeta. A pesquisa aponta as formas de desvalidação por parte de grupos negacionistas, com a preocupação da comunidade científica em relação ao aquecimento global através de desinformação, utilizando mecanismos de redes sociais para isto.

A literatura recente evidencia que a negação ao aquecimento global é muitas vezes resultado de um negacionismo organizado, com o financiamento de campanhas de desinformação (Lewandowsky, 2021). A abordagem de

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Lewandowsky dialoga com a ideia de 'ordem de desinformação' ou ainda 'desordem informacional', sendo que esta organização é muitas vezes associada a uma intervenção de ordem político-econômica e de caráter governamental (Bennet, Livingston, 2018; Wardle, 2017). Ou seja, além da compreensão dos processos que levam à desqualificação da ciência por conta de fontes negacionistas, entendemos que existe uma série de informações que são lançadas por grupos com interesses político-econômicos. Esta segunda dimensão de propagação de desinformação tende a ser ainda mais nociva, particularmente pela capacidade de organização e alcance. Esta múltiplas ideologias de interesses dialogam e entrelaçam-se com conjecturas sociais, evidenciando a importância do entendimento do vínculo entre ciência e a sua comunicação com a sociedade. As negações das mudanças climáticas do aquecimento global antropogênico por parte de grupos negacionistas através de métodos e ferramentas que visam alterar resultados produzidos no campo científico, de maneira a deslegitimar os debates que propõem os cuidados da comunidade científica e de ambientalistas que tratam destes casos (Borges de Aguiar et al., 2022).

Em geral, percebe-se que parte dos negacionistas têm o interesse de 'distrair e atrasar' os processos de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, ocasionando não apenas o retardamento das propostas e táticas, como também negando a ação do aquecimento global com caráter antropogênico (Borges de Aguiar et al., 2022). Considerando a importância da comunicação científica no processo de alerta sobre problemas ambientais de ação antropogênica, percebe-se a relevância da educação científica e das pesquisas na área da educação em ciências, em geral, e do ensino de Física em particular (Junges, Massoni, 2018). Esta aproximação se evidencia com o número crescente de editoriais convocando pesquisadores da área, por exemplo, a debater aspectos sobre confiança na ciência (Erduran, 2022) e o fenômeno da pós-verdade (Guerra et al., 2020).

Tem-se observado, contudo, uma tendência de justificar o negacionismo pela falta de informações científicas em circulação pela sociedade. A literatura indica, em contrário, que não é o simples aumento na quantidade de informação que pode fazer uma pessoa ser persuadida a mudar sua atitude (Petty, Cacioppo, 1986). Existe, também, uma latente lacuna nesta questão, que é a pouca produção de investigações empíricas sobre o negacionismo científico (Bavel et al., 2020),

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especialmente a sua relação com a educação formal, aquela aferida por títulos oferecidos por instituições educativas (Ecker et al., 2022, Lewandowski, Oberauer, 2016).

Por isso, no presente trabalho objetivamos explorar a relação entre o capital cultural institucionalizado e o aquecimento global antropogênico a fim de melhor compreender a relação entre nível de instrução e negacionismo científico. Realizamos esta investigação tendo como lente teórica os trabalhos de Pierre Bourdieu, em especial aqueles focados na noção de capital cultural. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa empírica, de caráter quantitativo, que teve como dados os resultados de uma pesquisa sobre a percepção dos brasileiros em temáticas relacionadas ao meio ambiente realizada pelo IPEC - Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica 1 . Utilizamos a técnica da Análise de Correspondências Múltiplas (ACM) para melhor estimar a associação entre nível instrucional e a opinião das pessoas sobre questões relacionadas com as mudanças climáticas.

## Quadro teórico-metodológico

O capital cultural é uma expressão de análise social cunhada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que junto com outros tipos compreendidos de capitais, proporciona uma visão mais analítica e apurada das hierarquias das sociedades capitalistas. Esta definição opera de maneira conjunta com as estruturas de vidas das pessoas, com maior efeito, compreende uma série de fatores que descrevem a cultura de maneira minuciosa, apontando gostos, estilos, valores, processos psicológicos, entre outros (Bourdieu, 2011). Por si só, o capital cultural remete-se a uma indicação de poder, o qual prevalece a posse de informações ou ainda de conhecimentos. A posse e estrutura das diferentes formas apontadas de capitais (sociais, econômicos, simbólicos) compõem as classes sociais ( ibidem ). Entende-se que o capital agindo na forma de cultura entrelaça-se com outras formas de poder para assim originar as distinções de classes, por isso a proposta de capital aqui estudada não se torna exclusiva ou em absoluto superior de outras concepções sociais ( ibidem ). Ainda dentro do capital cultural, Bourdieu classifica-o como: incorporado, objetivado e institucionalizado. O capital cultural institucionalizado

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compreende os títulos escolares (níveis de instrução, por exemplo), já o objetivado mais comumente compreendido, pressupõe bens materiais em forma de cultura (quadros, periódicos, obras de arte, entre outros), e há ainda o estado incorporado do capital cultural, que aponta as normas de níveis de práticas culturais (habilidades musicais, matemáticas e artísticas, conhecimento científico, tipos de esportes…) (Nascimento, 2019).

Para este trabalho, utilizamos exclusivamente a noção de capital cultural institucionalizado, efetuando a análise destes dados através da ferramenta de Análise de Correspondência (AC), para explicar as características dos perfis com a compreensão e entendimento sobre o aquecimento global. De acordo com Nascimento et al. (2017), a AC pode ser definida como um método destinado a análise da associação de variáveis categóricas, permitindo a construção de um mapa de relação entre variáveis. A AC possui a característica de natureza multivariada, sendo utilizada para análise da relação entre duas (AC simples) ou múltiplas variáveis categóricas, a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) ( ibidem ).

Os dados fazem parte de uma pesquisa realizada na cidade de São Paulo em novembro de 2021. O objetivo da pesquisa foi levantar as percepções dos paulistanos acerca de questões relacionadas ao meio ambiente. O universo amostral foi de pessoas com mais de 16 anos. A amostra foi composta por 800 respondentes de forma representativa para cada uma das regiões da cidade de São Paulo. O nível de confiança utilizado é de 95%. Para realização da análise selecionamos quatro perguntas do questionário mais a variável indicativa do nível de instrução do respondente, totalizando cinco variáveis. São elas: O quanto você considera que está preocupada(o) com a questão do aquecimento global ou das mudanças climáticas? (Preocupação). Você acredita que esses problemas ambientais são causados principalmente pela ação humana ou são resultados de mudanças naturais do meio ambiente? (Causa). Qual o grau de responsabilidade da população com maior renda na busca de soluções para os problemas ambientais da cidade de São Paulo? (Classe alta). Qual o grau de responsabilidade da população de baixa renda na busca de soluções para os problemas ambientais da cidade de São Paulo? (Classe baixa). Nível de instrução do respondente (Instrução).

## Resultados e discussões

A Figura 1 mostra a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) realizada com o conjunto de variáveis. Podemos notar que respondentes com ensino médio completo (EM\_Com) e superior completo (ES\_Com) estão fortemente associados com as respostas que consideram a existência do aquecimento global e que sua causa é antropogênica. Este resultado vai ao encontro do apontado recentemente pela pesquisa Global Views On Climate Change 2 , realizada pela empresa Ipsos para a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP28).

Figura 1. Resultado da ACM realizada com dados do IPEC .

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Entende-se que possuir um capital cultural institucionalizado conforme estruturado por Bourdieu, permitiu à luz da compreensão dos respondentes tanto com ensino médio como superior completos, a participação humana na problemática do aquecimento global, bem como sua causa. Quer dizer, os resultados sugerem que a educação científica formal, no contexto brasileiro, parece ter um efeito positivo no combate ao negacionismo. Percebe-se ainda que embora os respondentes que possuem ensino médio completo apontam mais efusivamente a relação antropogênica como causal, ambos grupos destacam a responsabilidade não derivativa de capital econômico em relação a ações de contenção desta problemática. Por relativa diferença, ainda é possível analisar que entre possuidores de ensino médio completo (EM\_Com) e de ensino superior completo (ES\_Com) existe uma divergência entre a responsabilidade pela ação antropogênica,

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## XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024

apontando ES\_Com como posicionado em uma mescla para a responsabilidade a ambas classes econômicas. De maneira geral, é notável, através dos respondentes que a preocupação com aquecimento global e mudanças climáticas, torna-se mais saliente em grupos com capital institucionalizado. Ainda é possível entender a causa antropogênica por estes mesmo grupos ES\_Com e EM\_Com, como possuindo a instrução e conhecimento para posicionamento em relação a aceitação pelas diversidade de classes econômicas e parcelas de procura por melhorias nas atividades em relação a mudanças climáticas, sendo que o ES\_Com, ainda entende como a responsabilidade maior de ambas classes em comparação com EM\_Com.

## Considerações finais

Através da ACM foi possível traçar uma tendência de construção social para entendimentos em diferentes momentos ou estruturas de instrução de capital institucionalizado dos respondentes. Entendemos que o processo de conhecimento auxilia na compreensão de mundo e de atitudes que podem trazer uma responsabilidade social mais atuante e consciente para a sociedade, e também mais participativa.

A proposta do trabalho de obter uma relevância ou não, do grau de instrução (e divulgação científica educativa), obteve uma convergência entre os acúmulos do capital cultural institucionalizado dos respondentes de acordo com as respostas. Isto apresenta uma significativa relação entre o negacionismo científico com as atitudes e responsabilidades sociais para o combate ao aquecimento global e mudanças climáticas. Porém não o determina como absoluto, e sim, evidencia a relevância do grau de instrução para este entendimento. Estes fatores, associado a uma redução de incentivos no Brasil no governo anterior (2019-2022), promove a necessidade de ação na educação científica, mas denota que não apenas este processo servirá garantidamente como uma melhoria de resultados, e sim, como parte do processo de responsabilidade social através de capitais culturais diversos e principalmente incentivos a educação e noção de classe.

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