DESAFIOS DAS ESPECIFICIDADES DO ENSINO DE FÍSICA NA LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO DO CAMPO: ANÁLISE PRELIMINAR NO CASO DA UFSC
Elizandro Maurício Brick, Lucas Albuquerque Do Nascimento
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2024
- Data
- 22/08/2024
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## DESAFIOS DAS ESPECIFICIDADES DO ENSINO DE FÍSICA NA LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO DO CAMPO: ANÁLISE PRELIMINAR NO CASO DA UFSC
## CHALLENGES OF THE SPECIFICITIES OF PHYSICS TEACHING IN THE DEGREE IN RURAL EDUCATION: PRELIMINARY ANALYSIS IN THE CASE OF UFSC
## Elizandro Maurício Brick 1 , Lucas Albuquerque do Nascimento 2
1 Docente da Licenciatura em Educação do Campo e do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica/Universidade Federal de Santa Catarina/Coordenador do Grupo de Pesquisa Prosa, elizandro.m.b@ufsc.br
2 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica/Universidade Federal de Santa Catarina/Membro do Grupo de Pesquisa Prosa, lucas.albuquerque13@hotmail.com
## Resumo
O trabalho aborda a Educação do Campo e a formação de professores da área de Ciências da Natureza e Matemática, abordando o lugar das especificidades da Física e do seu Ensino nas Licenciaturas em Educação do Campo, bem como alguns desafios desse processo. Como objetivo buscou-se investigar o lugar do Ensino de Física no curso de Licenciatura da Educação do Campo da Universidade Federal de Santa Catarina (EduCampo - UFSC) e tendo como base a seguinte questão de pesquisa, a saber: de que forma o Ensino de Física figura no curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFSC (EduCampo)? Partiu-se da necessidade de um reconhecimento da vocação Ético-Crítica das Licenciaturas em Educação do Campo, como uma política originada da luta pelos movimentos sociais do campo, gerando um contexto social específico para a atividade de Ensino de Física. No caso específico da EduCampo - UFSC, além de identificar como a Física e seu Ensino aparecem ao longo do Curso, é analisado mais detidamente o trabalho com a componente curricular de Fundamentos de Física, única componente que traz explicitamente a Física. Dentre os destaques, passíveis de serem feitos a partir da análise preliminar, podemos mencionar a potencialidade e ao mesmo tempo desafio de construção coletiva junto com os estudantes de parâmetros para mobilização da Física e seu Ensino no contexto da Educação do Campo, de maneira descentrar o enfoque estrito e já fragmentado de antemão na Física. Têm sido possível verificar não apenas o engajamento com o processo de estudo, relacionado com problemas reais de comunidades reais, mas também o reconhecimento do papel da Física e da possibilidade da sua mobilização na compreensão de situações que geram vítimas.
Palavras-chave : Ensino de Física. Formação de Professores. Licenciatura em Educação do Campo.
## Abstract
The work addresses Rural Education and the training of teachers in the area of Natural Sciences and Mathematics, addressing the place of the specificities of Physics and its Teaching in Degrees in Rural Education, as well as some challenges of this process. The objective was to investigate the place of Physics Teaching in the
Rural Education Degree course at the Federal University of Santa Catarina (EduCampo - UFSC) and based on the following research question, namely: in what way does Physics Teaching Is physics included in the Degree in Rural Education course at UFSC (EduCampo)? The starting point was the need to recognize the Ethical-Critical vocation of Degrees in Rural Education, as a policy originating from the struggle for social movements in the countryside, generating a specific social context for the activity of Physics Teaching. In the specific case of EduCampo UFSC, in addition to identifying how Physics and its Teaching appear throughout the Course, the work with the curricular component of Fundamentals of Physics is analyzed in more detail, the only component that explicitly brings Physics. Among the highlights, which can be made from the preliminary analysis, we can mention the potential and at the same time challenge of collective construction, together with students, of parameters for mobilizing Physics and its Teaching in the context of Rural Education, in a way to decenter the strict and already fragmented approach in Physics. It has been possible to verify not only the engagement with the study process, related to real problems in real communities, but also the recognition of the role of Physics and the possibility of its mobilization in understanding situations that generate victims.
Keywords : Teaching Physics. Teacher training. Degree in Rural Education.
## Introdução
No contexto brasileiro, a Educação do Campo configura-se como uma política de estado conquistada desde a luta dos movimentos sociais do campo que pautam mais fortemente essa demanda na década de 1990 (Munarim, 2011), sendo materializada em diversos diretrizes operacionais a partir da década de 2000 e no decreto Nº 7.352, de 4 de Novembro de 2010, que dispõe sobre a política de Educação do Campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA).
Pensando especificamente a formação de professores das escolas do campo, ela '(...) poderá ser feita concomitantemente à atuação profissional, de acordo com metodologias adequadas, inclusive a pedagogia da alternância, e sem prejuízo de outras que atendam às especificidades da educação do campo' (Brasil, p. 3, 2010). E as instituições públicas de ensino superior '(...) deverão incorporar nos projetos político-pedagógicos de seus cursos de licenciatura os processos de interação entre o campo e a cidade e a organização dos espaços e tempos da formação' (Brasil, p. 3-4, 2010).
Para a área de Ciências da Natureza e Matemática, Brick e colaboradores (p. 29, 2014) destacam como um desafio teórico-prático a 'promoção de formação de professores que não seja disciplinar/fragmentária, mas por área do
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conhecimento, propiciando adequação dos conteúdos das práticas pedagógicas às peculiaridades locais, a partir de abordagens efetivamente contextualizadas e interdisciplinares'.
As relações entre a Educação do Campo e a formação de professores da área de Ciências da Natureza e Matemática têm sido objeto de atuação de mais de trinta instituições públicas de ensino superior em todo território nacional (Melzer; Brick; Hoffmann, 2021). Também têm sido apontado que o diálogo entre as pesquisas em Ensino de Física e em Educação do Campo, ainda que estágio preliminar, já têm ocorrido (Silva; Rocha, 2020).
Nesse sentido emerge este trabalho tendo como objetivo investigar o lugar do Ensino de Física no curso de Licenciatura da Educação do Campo da Universidade Federal de Santa Catarina (EduCampo - UFSC). Para isto, utilizamos como motivação/desafio a busca de possíveis reflexões para a seguinte questão de pesquisa: De que forma o Ensino de Física figura no curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFSC (EduCampo)? Parte de uma pesquisa mais ampla que tem como problema: Quais são os principais desafios específicos ao ensino de física na EduCampo-UFSC e como eles têm sido enfrentados?
## Marco Teórico-Metodológico
A impossibilidade de neutralidade na pesquisa e no ensino nos remete a situarmos a intencionalidade da presente pesquisa e o fazemos a partir da perspectiva Ético-Crítica de Educação, tendo como fundamento principal, conforme desenvolvido por Brick (2017) e Brick et al. (2014), a Pedagogia do Oprimido (Freire, 2005) de Paulo Freire, a Ética da Libertação (Dussel, 2012) desenvolvida por Enrique Dussel, segundo a qual o processo autêntico de transformação da realidade injusta é protagonizado pela comunidade de vítimas, tal qual as comunidades do campo, das águas e das florestas em relação não apenas ao seu alijamento histórico ao acesso à educação escolar, mas ao sofrimento direto em decorrência do avanço do capital baseado na ideia de desenvolvimento que oculta a intrínseca relação de exploração do trabalho e da natureza em relação ao lugar de produção e reprodução da vida das distintas comunidades que constituem o Brasil profundo.
Nesse sentido, este trabalho, que comunica resultados preliminares de uma pesquisa qualitativa (Lüdke; André, 1986) mais ampla, se trata de uma pesquisa do tipo pesquisa participante (Brandão; Borges, 2007), seja porque estamos presentes
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e implicados no processo, mas sobretudo por reconhecermos nesse tipo de pesquisa a coerência com a perspectiva educacional assumida, ou seja, como um meio de promover pesquisas engajadas com a transformação da realidade injusta, na qual o rigor metódico não se dá pela busca de uma pretensa neutralidade dos pesquisadores que parte de uma dicotomia entre sujeito-objeto, mas, sim pela explicitação das intencionalidades envolvidas no processo.
Reconhecemos assim a vocação Ético-Crítica das Licenciaturas em Educação do Campo, como uma política originada da luta protagonizada pelos movimentos sociais do campo, contexto social da atividade de Ensino de Física na qual estamos envolvidos e para a qual compreendemos que deve estar direcionada. É a atividade de Ensino de Física no contexto da EduCampo-UFSC, ou o contexto institucional na qual esta atividade está prevista, articulada com outras atividades, que neste estudo figura como objeto da investigação a ser caracterizado e analisado preliminarmente. Dessa forma lançaremos mão de análise documental do Projeto Político do Curso em vigência, identificação de menção ao Ensino de Física por intelectuais precursores da Educação do Campo e de registros e memórias da auto observação dos autores.
## Ensino de Física demandado pela Educação do Campo: Ensino de Física Ético-Crítico
O conceito de Educação do Campo se contrapõe à ideia de Educação Rural ou educação no meio Rural como até então figurava nas normativas vigentes. Nele a expressão 'do Campo' tem forte vinculação com a afirmação também realizada por Freire (2005) em sua Pedagogia do Oprimido, se tratando de uma Educação e uma pedagogia desde as comunidades do Campo, comunidades historicamente oprimidas pelos interesses da classe dominante.
Segundo Caldart (2012), a Educação do Campo precisa ser compreendida 'como um conceito em construção (...) sem se descolar do movimento específico da realidade que a produziu' (ibid. p. 259), se referindo à prática social em processo de constituição histórica, 'combinando luta pela educação com luta pela terra, pela Reforma Agrária, pelo direito ao trabalho, à cultura à soberania alimentar e ao território' (ibid. p. 263), em que os sujeitos do campo são protagonistas dos processos pedagógicos desde sua realidade existencial mas, para além dela, tendo em vista a totalidade que está além dos processos pedagógicos.
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## Ensino de Física no contexto da Licenciatura em Educação do Campo da UFSC
O currículo do curso EduCampo-UFSC está condicionado a uma educação emancipatória que necessita de uma relação entre a interdisciplinaridade, trabalho coletivo docente e estudos das realidades tanto como problematizações iniciais e situações em práticas educativas (UFSC, 2015).
O Ensino de Física surge de forma difusa em uma série de componentes curriculares relacionados à dimensão metodológica, tais como Saberes e Fazeres I, II, III, IV, V e VI (234 horas-aula); Laboratório de Ensino I e II (108 horas-aula); Estágios, em disciplinas como Estágio Ensino Fundamental I e II (180 horas-aula); Estágio Ensino Médio I e II (180 horas-aula); Estudos Orientados I, II, III e IV (216 horas-aula) e componentes diversificadas como História da produção científica e tecnologia aplicada à agricultura (36 horas-aula) e Aprofundamento temático V Gênero (36 horas-aula). Aparecem de forma difusa porque ainda que tenham ou possam ter relações diretas, não figuram nem nas ementas nem nos programas das referidas disciplinas nenhuma menção específica à Física ou ao Ensino de Física, ainda que se refiram a objetos abordados nessa área como, por exemplo, 'Qualidade de vida das populações humanas', 'Relação dos sistemas Ciência e Tecnologia e produção agrícola no Brasil', 'Direitos das mulheres e os movimentos sociais de mulheres do campo' e entre outros.
De forma mais explícita, mas ainda difusa, o Ensino de Física aparece nas componentes curriculares Fundamentos de Ciências da Natureza e Matemática I, II, III, IV, V e VI (576 horas-aula). Nessas componentes não aparece Física ou Ensino de Física nas ementas, que sugerem a abordagem interdisciplinar na área de Ciências da Natureza e Matemática de temas, por exemplo, 'Qualidade de vida das populações humanas', 'Energia solar, terra e agricultura' e 'Meios de produção e trabalho no campo'.
Já na componente Fundamentos de Física, com 54 horas-aula da segunda fase do curso temos a menção explicita da seguinte forma na ementa:
Conceitos básicos de Física -equilíbrio e energia -mobilizados na Educação Básica para a compreensão da Terra como um sistema, considerando o contexto e a realidade das escolas do campo e as possibilidades de interações com as outras áreas do saber (UFSC, 2015, p. 83, grifo nosso).
Destacamos que além de ter uma característica introdutória e com uma carga horária pequena, figura na ementa a relação entre conceitos básicos de Física
com a realidade das escolas do campo e a interação com outras áreas do saber. Neste trabalho, tendo em vista que se trata de um recorte de uma pesquisa maior, abordaremos a seguir desafios específicos vivenciados no Ensino de Física na componente Fundamentos de Física buscando considerar as demandas da Educação do Campo por vislumbrar a possibilidade de um Ensino de Física menos comprometido com a autoafirmação do campo e mais com a transformação da realidade injusta.
## Desafios e enfrentamentos de realizar o Ensino de Física: Alguns temas e recortes da Física
Pode-se destacar que mobilizar o ensino de física na Educação do Campo exige a explicitação das intencionalidades a que se dirige o estudo da realidade que se vai efetuar, conforme adverte Brick (2017), sobretudo se estamos promovendo a formação inicial de educadores do campo, que precisam vivenciar os desafios, assimilar os princípios e finalidades da licenciatura e da política da qual estão fazendo parte, bem como de colocar em prática esses princípios sem negar suas próprias histórias de vida.
Dessa forma a oferta da disciplina Fundamentos de Física têm sido direcionada por uma lado à sensibilização da relevância histórica da Física como parte das Ciências da Natureza, área, juntamente com a Matemática, que a EduCampo-UFSC habilita para a docência no segundo ciclo do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Nessa parte aborda-se a primeira parte da ementa, 'Conceitos básicos de Física - equilíbrio e energia - mobilizados na Educação Básica para a compreensão da Terra como um sistema' (UFSC, 2015), lançando mão de distintas abordagem, mas com um enfoque conceitual, explicitamente relacionado com o que Vieira Pinto (2003) chama de curiosidade ingênua, ou seja, aquela que não incide sobre ela mesma. Por outro lado, cerca de 50% da componente curricular, diluída ao longo de toda ela, têm sido direcionada para orientação de um trabalho em grupos que se destina ao estudo da realidade de alguma comunidade do campo do ponto de vista Físico, mas coerente com o que é demandado pela Educação do Campo.
A segunda parte da componente é iniciada com um processo coletivo de explicitação dos desafios que cada integrante da disciplina percebe em relação a mobilização da Física e do seu Ensino no contexto da Educação do Campo. Depois de explicitado no quadro todos os desafios mencionados a discussão têm se dado
em torno de buscarmos consensos que representem desafios coletivos de todos os integrantes da turma para que assim parametrizam o trabalho de estudo da realidade. Por exemplo, na oferta de 2023.2 essa síntese,
Quadro 1 - Critérios para estudo da realidade do ponto de vista da Física na disciplina Fundamentos de Física (oferta 2023.2).
Fonte: Elaborado pelos próprios autores (2024).
Abordaremos exemplos de temas, contextos locais e intencionalidades distintas que poderiam direcionar estudos da realidade do ponto de vista da Física, considerando ou não o ponto de vista e lutas das comunidades do Campo.
Quadro 2 - Contextos, assuntos e enfoque de estudo considerando os desafios de mobilizar o Ensino de Física na Educação do Campo (oferta 2023.2).
Fonte: Elaborado pelos próprios autores (2024).
Conforme é possível observar na primeira coluna da Tabela 2, há uma explicitação do contexto, da comunidade impactada com a situação estudada e na terceira coluna é realizado um esforço em explicitar a intencionalidade que mobiliza o estudo, ainda que transcenda às especificidades da Física e do seu Ensino.
## Reflexões 'finais'
Dentre os destaques, passíveis de serem feitos a partir da análise preliminar, podemos mencionar a potencialidade e ao mesmo tempo desafio de construção coletiva junto com os estudantes de parâmetros para mobilização da Física e seu Ensino no contexto da Educação do Campo, de maneira descentrar o enfoque estrito e já fragmentado de antemão na Física. Têm sido possível verificar não apenas o engajamento com o processo de estudo, relacionado com problemas reais de comunidades reais, mas também o reconhecimento do papel da Física e da possibilidade da sua mobilização na compreensão de situações que geram vítimas.
Também é possível apontar o quanto o papel da Física e do Ensino de Física ainda é difuso no curso analisado, em parte talvez, pela própria contemporaneidade do desafio de mobilizar uma Física e assim, realizar um Ensino de Física, engajado com a transformação da realidade injusta das populações do Campo.
## Referências
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