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PERSPECTIVA DE GÊNERO NO ENSINO DE FÍSICA: REFLEXÕES SOBRE ABORDAGENS EDUCACIONAIS

Jaqueline May Borsatto, Alisson Antonio Martins, Nanci Stancki Da Luz, Andrea Kominek

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
22/08/2024
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## PERSPECTIVA DE GÊNERO NO ENSINO DE FÍSICA: REFLEXÕES SOBRE ABORDAGENS EDUCACIONAIS

## GENDER PERSPECTIVE IN PHYSICS TEACHING: REFLECTIONS ON EDUCATIONAL APPROACHES

## Jaqueline May Borsatto 1 , Alisson Antonio Martins 2 , Nanci Stancki da Luz 3 , Andrea Kominek 4

1

UTFPR/PPGFCET/GEPEF, jaquelineborsatto@utfpr.edu.br

2

UTFPR/DAFIS/PPGFCET/GEPEF; UFPR/PPGE/NPPD, amartins@utfpr.edu.br

3 UTFPR/PPGTE/GETEC, nancist@terra.com.br

4

UTFPR/PPGTE/GETEC, amvkominek@gmail.com

## Resumo

Este trabalho apresenta reflexões sobre a incorporação de uma perspectiva de gênero no ensino de Física, visando promover uma educação mais justa e inclusiva. Busca-se compreender como as desigualdades de gênero se expressam no currículo escolar da disciplina de Física. Considera-se que a divisão sexual do trabalho influencia a presença de mulheres e homens em determinadas áreas do conhecimento, contribuindo para que a área de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática tenha uma maioria de profissionais masculinos. O conhecimento científico também não se isenta dessas intrincadas complexidades sociais. Por sua vez, as desigualdades se reproduzem desde o período escolar, se ocultando por meio de associações de estereótipos de gênero presentes em recursos didáticos, nas interações de sala de aula ou na universalização de modelos masculinos. Sendo assim, é imprescindível realizar reflexões críticas da perspectiva de gênero no processo do ensino da disciplina de Física na Educação Básica para desenvolver uma ação transformadora.

Palavras-chave : Desigualdade de gênero, Ensino de Física, Divisão sexual do trabalho, Ciência e tecnologia, Mulheres na Ciência.

## Abstract

This work presents reflections on the incorporation of a gender perspective in the teaching of Physics, aiming to promote a fairer and more inclusive education. The objective is to understand how gender inequalities manifest in the school curriculum of the Physics discipline. It is considered that the gender division of labor influences the presence of women and men in certain knowledge areas, contributing to a majority of male professionals in the fields of Science, Technology, Engineering, and Mathematics. Scientific knowledge is also not exempt from these intricate social complexities. In turn, inequalities reproduce from the school period, concealing themselves through associations of gender stereotypes present in educational resources, classroom interactions, or the universalization of male models. Therefore,

it is essential to critically reflect on the gender perspective in the teaching process of the Physics discipline in basic education to foster transformative action.

Keywords : Gender Inequality, Physics Teaching, Sexual Division of Labor, Science and Technology, Women in Science.

## Introdução

Em busca da promoção de uma educação mais justa, equitativa e inclusiva, uma reflexão mais atenta aos modos desigualitários, por vezes implícitos nos corriqueiros processos educacionais, merecem um debruçar pormenorizado, levando em conta as complexas dinâmicas sociais. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo discutir o Ensino de Física a partir de uma perspectiva de gênero.

Para esta dinâmica, inicia-se com uma definição e uma compreensão para o conceito de gênero de modo a estabelecer uma análise crítica de como essa forma de disparidade influencia a participação e o reconhecimento de mulheres na ciência, a qual, por sua vez, derivam concepções tradicionais, mescladas pela sociabilidade, que impactam o ensino de Física, reproduzindo estereótipos e desigualdades. Encerra-se esse conjunto de considerações críticas ponderando-se sobre a necessidade de reavaliar e reformular abordagens educacionais do Ensino de Física sob uma ótica analítica de gênero.

## Explorando as dimensões do gênero: uma análise conceitual

De acordo com Piscitelli (2009), o gênero se conceitua como uma forma de desnaturalizar concepções e pré-concepções arraigadas, nas quais se justificam discriminações por meio de atribuições de qualidades e traços de temperamento diferentes a homens e mulheres, delimitando seus espaços de atuação. Este conceito mantém sua relação com a referência sexual que naturaliza distribuições desiguais de poder em uma estrutura social mais ampla. A apropriação do conceito de gênero desponta como possibilidade de questionar posicionamentos teóricos estabelecidos, oferecendo uma lente crítica para examinar as estruturas sociais.

Para Harding (1986), é concebível teorizar o gênero como uma categoria analítica na qual a humanidade pensa e organiza sua atividade social. Afinal, seus significados impregnam sistemas de crenças, instituições e até mesmo fenômenos aparentemente livres de gênero, como furacões, montanhas, navios, nações e planejamentos urbanos. A diferenciação de gênero é uma forma fundamental pela

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qual os indivíduos se identificam como pessoas, constituem suas relações sociais e simbolizam processos naturais e sociais significativos.

Segundo Scott (1995), o gênero, ao adquirir status de análise, abre possibilidades para a reflexão sobre estratégias políticas feministas, uma vez que permite aos historiadores entenderem as diferenças socialmente construídas entre os sexos ao longo do tempo. Esta categoria é, portanto, uma forma de compreender as interações complexas entre diversas formas de relações humanas, oferecendo uma historicização e desconstrução dos termos da diferença sexual.

Assim, ao integrar a análise de gênero no ensino de Física, pode-se não apenas ampliar a compreensão dos estudantes sobre as nuances históricas das relações de gênero, mas, também, enriquecer suas percepções da ciência como uma disciplina profundamente entrelaçada com as complexidades sociais. Dessa forma, a abordagem de gênero oferece uma base crítica para a reflexão política feminista e proporciona uma lente única para ampliar a compreensão das interações entre ciência e sociedade no contexto do ensino de Física.

## Divisão sexual do trabalho: influências nas áreas de ciência e tecnologia

De acordo com Hirata (2007, 2009), as atividades científicas estão inseridas nos processos de divisão sexual do trabalho, os quais, historicamente têm associado os homens à esfera produtiva e as mulheres à esfera reprodutiva, conferindo maior valor social às atribuições designadas aos homens. As mulheres frequentemente trabalham em áreas como estética, humanidades e o cuidado com o próximo. Profissões de liderança, dominação e força física são predominantemente destinadas aos homens, incluindo áreas como política, engenharia e ciências.

Essa divisão sexual do trabalho no universo acadêmico reflete-se nas distribuições desproporcionais dos gêneros nos cursos superiores. As áreas associadas à competitividade, racionalidade e objetividade são majoritariamente masculinas. Conforme dados do Censo do Ensino Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), as mulheres são minoritárias nos campos de Computação e Tecnologia da Informação e Comunicação (13,3%), Engenharia (21,6%) e Matemática e Estatística (32,7%), enquanto predominam nas áreas de Bem-estar (88,3%), Ciências Sociais e Comportamentais (70,4%) e Línguas (68,9%) (INEP, 2021).

A Física é uma disciplina tradicionalmente associada aos campos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), não apenas proporcionando um conhecimento fundamental subjacente a esses saberes, mas também enfrentando os mesmos desafios de sub-representação feminina na graduação. Portanto, a Física, enquanto disciplina escolar, está imersa nessa distribuição desigual de gênero por áreas do conhecimento, sujeita a reproduzir em seu currículo estereótipos que limitam a percepção dessas carreiras como possibilidades para as mulheres.

## Perspectivas de gênero na produção do conhecimento científico

A ciência não é um reflexo objetivo da realidade, mas uma construção humana, influenciada por fatores sociais, culturais, políticos e históricos. Os fenômenos naturais investigados pela Física, a forma como são concebidos, realizados e interpretados os experimentos, feitas as teorias e descobertas científicas, são moldados por condições sociais e pelo contexto em que a atividade científica ocorre. Portanto, é pertinente incorporar perspectivas de gênero na reflexão crítica do processo de produção desse conhecimento, desde sua concepção até sua transposição na forma de seu ensino.

Historicamente, a ciência se constituiu como uma atividade masculina, excluindo sistematicamente as mulheres de seus espaços de pesquisa. O desenvolvimento da ciência moderna é fortemente marcado pela tradicional divisão do trabalho, que designava as ocupações reprodutivas como encargo das mulheres, inclusive na produção de concepções que propunham a incapacidade feminina no exercício da inteligência e racionalidade, conduzidas pelas teorias do determinismo biológico (Massarani, 2023).

As exclusões das mulheres no campo científico ainda persistem, embora sua forma tenha se alterado, tornando-se menos explícitas, sob pretexto de uma falsa igualdade alcançada. O fato de essas barreiras se tornarem sutis não as torna menos impactantes. Discriminações arbitrárias fomentadas pela sub-representação das mulheres em cargos de poder, assim como seu reduzido número entre os integrantes do STEM, mantêm uma estrutura complexa que se desdobra ao longo de suas carreiras, apresentando armadilhas e desafios transparentes, como um labirinto de cristal (Luz; Githay, 2016; Lima, 2013).

Para Garcia e Sedeño (2002), a presença histórica de mulheres em ciências e tecnologia, embora menor que a dos homens, não é tão pequena como geralmente se afirma. Contudo, preconceitos e concepções antiquadas obscurecem sua contribuição. Decorrem segregações institucionais das mulheres motivadas por teorias sustentadas por bases supostamente científicas, dentre as quais tentavam vincular a superioridade masculina em habilidades matemáticas e espaciais, contrastando com as habilidades verbais delegadas às mulheres.

De acordo com Harding (2003), os padrões da ciência podem ser utilizados em diversas ocasiões para a perpetuação de problemas sociais, ao invés de colaborar para sua solução. A persistência dos padrões sexistas na ciência contribui para a marginalização de pesquisadoras mulheres e para a sub-representação de suas contribuições no âmbito acadêmico. A falta de diversidade de gênero nas instituições científicas limita as diferentes perspectivas, abordagens e prioridades de pesquisa que poderiam ser essenciais para uma compreensão abrangente e objetiva dos fenômenos estudados (Harding, 1986).

## Perspectivas de gênero no Ensino de Física

O ensino de ciência e tecnologia na educação básica precede um campo de disputas complexas, permeadas por questões de ordem política. Garcia e Sedeño (2002) discorrem sobre os desafios pedagógicos que envolvem a prática educativa. As autoras defendem a transformação dos currículos, salientando o papel crucial do 'currículo oculto' na perpetuação de barreiras e dificuldades do acesso feminino, que se dissimulam sob a aparência de uma igualdade ilusória.

O 'currículo oculto' compreende as relações sociais que ocorrem na sala de aula e que, também, fazem parte do currículo a ser aprendido pelos estudantes. Ele 'consiste em descrever os processos sociais que moldam nossa subjetividade como se fosse às nossas costas, sem nosso conhecimento consciente' (Silva, 2000, p. 80). Diferentemente do currículo formal, o 'currículo oculto' contém elementos não explicitamente abordados, mas que têm impactos significativos na formação de atitudes, escolhas de carreira e na construção do conhecimento científico.

Nesse sentido, o gênero pode operacionalizar um instrumento analítico tanto no currículo formal quanto no 'currículo oculto', desvendando a opacidade presente no cotidiano da sala de aula. Garcia e Sedeño (2002) argumentam que, distantes de

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vivenciarem igualdade de circunstâncias em relação aos meninos, as meninas enfrentam desvantagens notáveis, tanto nos programas formais, que abordam os conteúdos a serem ensinados, quanto nos programas ocultos, que englobam aspirações, expectativas e comportamentos de docentes e discentes.

Garcia e Sedeño (2002) destacam que mesmo em escolas mistas, o ensino envolve a universalização de modelos masculinos, perpetuando estereótipos de gênero, de modo que o feminino seja desvalorizado e oculto. Essa prática sistêmica impacta na percepção geral dos estudantes em relação às atribuições e alocações de gênero na sociedade e nas disciplinas acadêmicas.

Livros didáticos, exercícios, exemplos cotidianos, ilustrações fictícias, imagens ou figuras de pessoas, contextualização de conteúdos, entre outras abordagens do conhecimento físico, constantemente reverberam estereótipos de gênero e contribuem para a construção de narrativas que, muitas vezes, marginalizam a participação de mulheres no domínio científico. Os materiais didáticos de Física se destacam pela quantidade limitada de representações visuais de mulheres, ou quando presentes, estas são frequentemente retratadas em papéis tradicionalmente associados ao ambiente doméstico, contextos familiares ou preocupações com o corpo ideal (Rosa; Silva, 2016; Garcia; Sedeño, 2002).

Ademais, docentes preconizam concepções acerca de determinados conteúdos baseados no simples fato de reproduzirem associações sociais a papéis destinados a homens e mulheres. Tal como carros e circuitos elétricos para o contexto de ação e movimento, comumente associado aos meninos, em contrapartida de imagens, sons, lentes, configurando o contexto da imagem e beleza para as meninas (Borsatto, 2021). As interações decorrentes dessas explorações de conteúdos da disciplina de Física estão sujeitas a perpetuar desigualdades e moldar percepções distorcidas sobre as capacidades de cada gênero no âmbito científico.

Diferenças de tratamento baseadas nas distintas expectativas em relação às capacidades de meninos e meninas, conscientemente ou de forma inconsciente, expressam-se nas diferentes atitudes a serem tomadas por esses estudantes, induzindo a própria interiorização dos estereótipos de gênero (Garcia; Sedeño, 2002). Diante desse cenário, destaca-se a necessidade de adotar uma abordagem analítica fundamentada na perspectiva de gênero para o ensino de Física, de forma

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## XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024

a expor, não apenas, as problemáticas e preconceitos existentes, mas, também, propiciando um ambiente educacional que promova a equidade, incentivando a participação e excelência de todos os estudantes, independentemente do gênero.

Nesse sentido, é fundamental examinar as políticas públicas e as práticas educacionais para contextualizar os conteúdos de Física por meio, por exemplo, de uma análise dos estereótipos de gênero presentes nos materiais didáticos para o ensino de Física, analisando-se as contribuições das cientistas mulheres, ponderando os desafios que elas enfrentaram e ainda enfrentam para permanecer e progredir nessa área. Em termos de ação docente, é necessário desenvolver estratégias que promovam a inclusão e a equidade de gênero no ensino da Física em sala de aula, considerando as motivações das meninas nesta disciplina escolar.

## Considerações finais

Ponderando sobre as possibilidades de que mais mulheres possam ingressar em áreas relacionadas aos conhecimentos aprendidos no contexto da disciplina de Física, assim como em áreas de STEM, é essencial adotar estratégias que incentivem e promovam a participação feminina nesses campos. A repercussão da história da ciência de figuras femininas silenciadas e esquecidas, o estudo empírico e a reflexão sobre a exclusão das mulheres na ciência e na tecnologia têm se configurado como alguns caminhos significativos trilhados por pesquisadoras/pesquisadores para desconstruir narrativas unilaterais e inspirar as futuras gerações. Nessa pauta, é interessante acrescentar a possibilidade de sensibilizar os/as docentes, ou futuros docentes, para a reflexão crítica e transformadora em sua realidade.

A defesa da utilização analítica de uma perspectiva de gênero no Ensino de Física representa um compromisso no reconhecimento e confronto das disparidades de gênero que podem se reproduzir nas dinâmicas de sala de aula. Para evitar o silenciamento e a exclusão de grupos subordinados, faz-se necessário incorporar uma criticidade sobre elementos sutis, reprodutores de estereótipos que dicotomizam os indivíduos acerca de suas habilidades, capacidades e intelectualidades.

## Referências

BORSATTO, Jaqueline May. Mulheres no ensino de física: percepções e práticas docentes sobre gênero na disciplina de física no ensino médio . 2021. Dissertação (Mestrado em Formação Científica, Educacional e Tecnológica) Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2021.

GARCÍA, M. I. G., & SEDEÑO, P. E. Ciencia, Tecnología y Género. Revista Iberoamericana CTS-I, (2), 1-19. 2002. Disponível em https://digital.csic.es/handle/10261/9488 Acesso em 13 dez 2023.

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LIMA, Betina Stefanello. O labirinto de cristal: as trajetórias das cientistas na Física. Revista Estudos Feministas . vol. 21, no. 3, Florianópolis, set./dez.2013. p. 883-903. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ref/v21n3/07.pdf. Acesso em 13 dez 2023.

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