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UMA ANÁLISE SOBRE AS QUESTÕES DE FÍSICA PSEUDO-CONTEXTUALIZADAS DA TERCEIRA ETAPA DO PROGRAMA DE AVALIAÇÃO SERIADA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

Isabelle Santos De Castro, Paulo Lima Junior

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
22/08/2024
Linha de pesquisa
Avaliação, Currículos E Políticas Em Educação E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## UMA ANÁLISE SOBRE AS QUESTÕES DE FÍSICA PSEUDO-CONTEXTUALIZADAS DA TERCEIRA ETAPA DO PROGRAMA DE AVALIAÇÃO SERIADA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

## Isabelle Santos de Castro 1 , Paulo Lima Junior 2

1 Universidade de Brasília/ Instituto de Física/ isabellesantos007@gmail.com 2 Universidade de Brasília/ Instituto de Física/ paulolimajr@unb.br

## Resumo

O tópico contextualização no Ensino de Física, embora muito popular, apresenta dificuldades na sua implantação. Comumente em recursos didáticos são encontradas situações onde o contexto pouco ou nada se relaciona com o conteúdo abordado, impedindo que o estudante de fato se depare com situações onde o que aprende se mostre relevante e imerso em uma realidade fora do mundo escolar. Este trabalho visa compreender como esta contextualização está presente na terceira etapa do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da UnB, uma prova popularmente conhecida por sua interdisciplinaridade e contextualização. Feita a análise das questões de diversas edições, é notado que o PAS oferece muitas questões pseudo-contextualizadas ao longo de toda sua história.

Palavras-chave: Contextualização; Ensino de Física; Programa de Avaliação Seriada.

## Introdução

O Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB) é popularmente elogiado pelos seus elementos interdisciplinares e pela construção da prova em torno de obras de arte selecionadas em cada etapa. De acordo com a própria matriz de referência do ano de 2023 , a prova de ciências da natureza pretende promover a interdisciplinaridade e a contextualização das questões por meio da abordagem de questões sociocientíficas: 'uma matriz de avaliação baseada em questões sociocientíficas tem, portanto, uma maneira singularmente crítica e engajada de pensar a interdisciplinaridade e a contextualização no ensino de ciências da natureza, enfatizando a importância da educação científica para a prática da cidadania e participação social' (Universidade de Brasília, 2023).

Não apenas o PAS mostra apreço pela contextualização, como vestibulares e materiais didáticos diversos também a empregam. Sendo este conceito tão popular no Ensino de Física, é válido buscar entender as características desse na prova do

PAS, que tem a contextualização marcada como um de seus princípios desde a sua criação, em 1996 (Universidade de Brasília, 2022).

Uma categorização usual para questões de prova com respeito ao seu grau de contextualização consiste em distinguir questões descontextualizadas, pseudo-contextualizadas, semi-contextualizadas e contextualizadas (Pinheiro e Ostermann 2010; Barros et al, 2007). Essa caracterização possibilita sublinhar os diversos graus de contextualização nas provas. A categoria de pseudo-contextualização, por exemplo, denota uma desconexão entre a questão e o contexto proposto ou até o uso de objetos que não são realmente relevantes para a resolução. À primeira vista existe um contexto, mas a análise da questão revela tratar-se de um contexto meramente alegórico.

Este trabalho se propõe a analisar as questões da terceira etapa do PAS com respeito ao seu grau de contextualização. Ele está, portanto, comprometido com a seguinte questão de pesquisa: Qual o grau de contextualização das questões de Física no PAS? Para responder a essa questão, todas as edições do PAS 3 de 1998 a 2022 foram analisadas empregando um dispositivo analítico inspirado na translinguística de Bakhtin (Lima Junior, 2023). Este método permite reconhecer certos elementos do discurso necessários para o estudo do teor das questões. Acreditamos que essa análise contribuirá para o enriquecimento da contextualização usada em avaliações de Física do ensino básico.

## Revisão da literatura

O conceito de contextualização é precioso para enfrentar a fragmentação disciplinar da ciência escolar e sua falta de conexão típica com as experiências vividas pelos estudantes. A contextualização representa, portanto, uma das principais ferramentas de trabalho para a superação do caráter estritamente propedêutico e desconectado do Ensino de Física.

É importante observar, no entanto, que pode haver muita divergência sobre o que caracteriza uma abordagem contextualizada para o Ensino de Física (Kato, D. S. e Kawasaki, C. S., 2011). Faz parte dos usos da língua que a mesma palavra seja empregada com vários sentidos, não sendo necessária concordância estrita para que haja comunicação. Porém, quanto mais todas as propostas vão se reivindicando contextualizadas, mais o conceito de contextualização vai perdendo força de distinguir o ensino de Física que desejamos do que não desejamos.

Um conceito de contextualização que inclua absolutamente qualquer proposta de ensino e avaliação não serve ao propósito de apontar caminhos inspiradores e afastar práticas que devem ser desencorajadas.

O cenário atual de esvaziamento do sentido da contextualização precisa ser enfrentado mantendo esse conceito em discussão. A presença de textos que se afirmam contextualizados sem sê-lo precisa ser denunciada.

Análises de vestibulares de universidades e o próprio exame nacional do ensino médio (ENEM) revelam que diferentes questões apresentam graus de contextualização muitos diversos (Barros et al, 2007; Hohenfeld e Sousa, 2017;

Pinheiro e Ostermann, 2010). Uma classe de questões ilustra bem o esvaziamento de sentido da contextualização: são as questões pseudo-contextualizadas . Elas se mostram vazias ao trazer um contexto desconectado ou pouco relevante, camuflando uma questão que, em essência, é descontextualizada. Trata-se de uma prática 'para inglês ver' que doura a pílula sem alterar o remédio. Em termos do conteúdo de física, não é raro encontrar questões de prova que atendem a estas características e que poderiam ser parodiadas pelo comando: 'João tem 4 maçãs e come uma. Calcule a massa do sol'.

A identificação de uma questão pseudo-contextualizada segue a proposta feita por Pinheiro e Ostermann (2010). Esta categoria engloba contextualizações que não são realmente necessárias para a questão em si e que poderiam ser removidas ou ignoradas sem prejuízo da resolução. Dentro desta categoria, são identificados dois tipos de questões:

- 1) Questões que descrevem objetos específicos sem incluir suas especificidades. Por exemplo, uma questão que decide abordar o movimento do Bondinho do Pão de Açúcar, mas requer somente informações genéricas maquiando sob uma aparência contextual a redução típica da situação concreta às suas representações inespecíficas (fala-se no bondinho, mas estamos pensando em bloquinhos ideais quaisquer pendurados em fios retos tracionados).
- 2) Questões com contexto desconexo. O contexto não se mostra necessário para a solução, oferece informações que não são aproveitadas. Por exemplo, uma questão que se propõe a explicar a história do estudo de ondas sonoras, com nomes de cientistas da época e datas importantes para pedir para que o estudante identifique características de uma onda qualquer.

## Métodos

As questões foram escolhidas dentro do caderno de ciências da natureza, que apresentassem conteúdo típico da física, sem muito critério, da primeira edição em 1998 até a mais recente na época, de 2022, com o intuito de visualizar questões bem variadas e verificar quais poderiam se enquadrar na pseudo-contextualização.

Todas as questões de Física foram selecionadas e analisadas segundo o dispositivo analítico desenvolvido por Lima Junior (2023) com base na filosofia da linguagem do círculo de Bakhtin. As questões foram analisadas e caracterizadas considerando especificamente: (1) o conteúdo temático (o que elas dizem); (2) os estilos de linguagem (recursos lexicológicos e gramaticais empregados); e (3) a construção composicional (a forma de organização do todo da questão). Todos esses três elementos estão conectados entre si e ligados à esfera da atividade humana que, no caso, é a avaliação de conhecimento da Física Escolar.

O reconhecimento dos conteúdos, estilos e composições favoreceu a identificação das questões pseudo-contextualizadas conforme exposto por Pinheiro e Ostermann (2010).

## Análise

O uso de pseudo-contextualizações não é incomum no PAS. Embora a prova tenha a interdisciplinaridade e a contextualização impressas em seu compromisso nuclear, há diversas questões de Física, antigas e atuais, que não se ajustam a esse compromisso. Neste artigo, este fato está ilustrado nas 4 imagens abaixo:

Figura 1 Questão Chuveiro

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Fonte: Universidade de Brasília, 2022

Figura 2 Questão InternetFonte: Universidade de Brasília, 2006

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Como é possível perceber, as questões apresentadas nas Figuras 1 e 2 ilustram casos de pseudo-contextualização. Nelas, objetos específicos são citados sem que haja necessidade de considerá-los para chegar à resposta. Os comandos contam estórias que podem ser ignoradas uma vez que as perguntas formuladas visam informações genéricas.

Na questão do chuveiro (Figura 1) respostas podem ser facilmente obtidas sem a necessidade de saber que se trata de um chuveiro, bastando o estudante ter conhecimento teórico sobre circuitos, seus esquemas e equações. Em última instância, a questão avalia se o estudante consegue calcular o valor de resistência total, potência e corrente elétrica, tal como ocorre em questões descontextualizadas.

Na questão da Internet (Figura 2), são expostos diversos equipamentos e processos de comunicação. No entanto, as alternativas avaliam se o estudante tem alguns conhecimentos gerais sobre velocidade orbital de satélites e propagação de ondas eletromagnéticas quaisquer. A internet e seu uso para informação sequer voltam a ser citadas e os aparelhos são explorados apenas para compor uma imagem, tornando a prova mais amigável e ilustrada. O estudante que ignore o contexto e vá direto às alternativas deve ser capaz de encontrar a única afirmativa incorreta.

Figura 3 Questão Quebra-cabeças

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Fonte: Universidade de Brasília, 2012

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Figura 4 Questão Urna Eletrônica

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Fonte: Universidade de Brasília, 2019

Em questão da categoria com contextos desconexos da questão, o PAS da UnB também oferece amostras. Na questão do quebra-cabeças (Figura 3), a imagem de um circuito elétrico está seccionada pelo recorte de um quebra-cabeças faltando uma peça. No comando, é solicitado que o estudante identifique a peça que falta para resultar em tal valor de corrente e segue com opções de peças de exato mesmo formato, mas valores de resistência distintos. Assim, qual seria a necessidade do quebra-cabeças? Parece que a única função do quebra-cabeças é repaginar a imagem de uma questão bastante tradicional, mas em nada interfere no que a questão busca avaliar de fato: saber calcular o valor de resistência total e corrente elétrica nas representações teóricas dos circuitos elétricos reais.

A questão da urna eletrônica (Figura 4) evoca este objeto para a questão mas imediatamente o abandona, de forma que o segundo parágrafo e a imagem são destinados somente à explicação do circuito, e mesmo nas alternativas o contexto eleitoral reaparece apenas para fornecer números para um cálculo de probabilidade.

Aqui a urna eletrônica perde totalmente seu espaço na pergunta para uma questão comum de circuitos elétricos.

Tais questões deixam perceptível que as questões de Física do PAS, não são realmente contextualizadas, apresentando contextos insatisfatórios para, de fato, integrar conhecimentos teóricos tradicionais da Física.

## Conclusão

Assim como os mais diversos recursos didáticos, a avaliação do PAS não supera a dificuldade de articular bem a contextualização na prova de física, de modo que questões pseudo-contextualizadas podem ser encontradas em diferentes anos desde sua criação.

Isto reflete o esvaziamento do conceito de contextualização, abrindo espaço para elaboração de questões que apenas pareçam contextualizadas à primeira vista. Mesmo que as matrizes do programa de avaliação seriada proponham um conceito mais profundo e interdisciplinar, este parece não tocar a maioria das pessoas que elaboram e selecionam as questões.

Esta análise sobre a terceira etapa do PAS reforça que a contextualização ainda não é tão bem compreendida no Ensino de Física, ou que se reduz a um discurso de legitimação e maquiagem dos estilos de avaliação mais tradicionais com os quais a comunidade pode estar comprometida. Conhecer como a contextualização se comporta é um dos primeiros passos para entender quais tipos desta são ou não caros para uma proposta de ensino que busca expor a intimidade de conhecimentos científicos com todos os outros âmbitos da vida humana e da cultura, de forma que a ciência não seja vista como uma atividade isolada distante dos estudantes.

## Referências

BARROS, P. R.; MACÊDO, J. A.; REIS, A. C.; HOSOUME, Y. Uma reflexão sobre as questões de uma reflexão sobre as questões de vestibulares abordadas em três instituições de ensino superior. Simpósio Nacional de Ensino de Física, XVII. São Luís, 2007. Anais[...] . São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007. HOHENFELD, R. M. A. D.; SOUSA, E. C. Categorização dos itens de física da prova de ciências da natureza e suas tecnologias do exame nacional do ensino médio. Enseñanza de las Ciencias , Nº extraordinario (2017): 5275-5279, 2017. KATO, D. S.; KAWASAKI, C. S. As concepções de contextualização do ensino em documentos curriculares oficiais e de professores de ciências. Ciência &amp; Educação , v. 17, n. 1, p. 35-50, 2011 LIMA JUNIOR, P. A estética da criação dos recursos didáticos: um referencial analítico baseado nas ideias do círculo de Bakhtin. Investigações em Ensino de Ciências , v. 28(2), p. 169-192, 2023.

MACHADO, N. J. Interdisciplinaridade e contextuação. In: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Exame Nacional do

Ensino Médio (Enem): fundamentação teórico-metodológica . Brasília: O

Instituto, 2005, cap.1, p. 41-53.

PINHEIRO, N. C; OSTERMANN, F. Uma análise comparativa das questões de física no novo ENEM e em provas de vestibular no que se refere aos conceitos de interdisciplinaridade e de contextualização. Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, XII . Águas de Lindóia, 2010. Anais[...] . São Paulo: Sociedade Brasileira de Física, 2010.

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Documento Norteador do PAS (UnB). 1ª versão, Brasília, dezembro de 2022.

\_\_\_\_\_\_. PAS - Programa de Avaliação Seriada, 2023. Matriz de referência do PAS 3. Disponível em:

&lt;https://pas.unb.br/index.php?option=com\_content&amp;view=article&amp;id=71:pas-3&amp;catid= 2&gt;. Acesso em: 14 de nov. de 2023.

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