VIVÊNCIAS COM A FÍSICA: POSSÍVEIS SATISFAÇÕES CULTURAIS NA LICENCIATURA EM FÍSICA
João Eduardo Fernandes Ramos, Emerson Ferreira Gomes, Francisco De Assis Nascimento Júnior, Silvana Souza Lima, Luís Paulo Piassi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2024
- Data
- 23/08/2024
- Linha de pesquisa
- Formação E Ação Docente Em Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## VIVÊNCIAS COM A FÍSICA: POSSÍVEIS SATISFAÇÕES CULTURAIS NA LICENCIATURA EM FÍSICA
## EXPERIENCES WITH PHYSICS: POSSIBLE CULTURAL SATISFACTIONS ON TEACHER FORMATION COURSES IN PHYSICS
João Eduardo Fernandes Ramos 1 , Emerson Ferreira Gomes 2 , Francisco de Assis Nascimento Júnior 3 , Silvana Souza Lima 4 Luís Paulo Piassi 5
1 UFPE/Câmpus Agreste/Núcleo de Formação Docente, joao.framos@ufpe.br 2 IFSP/Câmpus Boituva, emersonfg@ifsp.edu.br 3 UFSB/ Campus Sosígenes Costa, francisco.nascimento@ufsb.edu.br 4 SEESP/Profa. PEB II - Especialista Curricular, siluminista@gmail.com 5 USP/Escola de Artes, Ciências e Humanidades, lppiassi@usp.br
## Resumo
Esta pesquisa busca compreender como a satisfação cultural se manifesta na escolha e vivência de estudantes de licenciatura em Física, conectando os princípios de Snyders com o contexto específico do Ensino de Física. A teoria sociocultural de Georges Snyders tem desempenhado um papel significativo na pesquisa educacional no Brasil, sendo explorada em diversas fases de sua produção e aplicada em contextos como leitura, escrita e ensino de ciências. Este estudo se concentra na segunda fase da teoria, na qual Snyders propõe uma renovação do ambiente educacional através da transformação dos conteúdos culturais em uma escola que incorpore uma alegria proveniente do contato com obras de arte, incluindo realizações científicas. Esta pesquisa busca articular a teoria de Snyders com estudos em Ensino de Física, identificando como a satisfação cultural está presente no ensinoaprendizagem de Física e analisando as percepções de estudantes de licenciatura em Física. Quatro possibilidades são exploradas: reconhecimento da Física no cotidiano, identificação da Física em produtos culturais, compreensão da construção histórica e social da Física, e superação de desafios na resolução de problemas. Os resultados da pesquisa, conduzida com estudantes de licenciatura em Física em uma universidade federal, indicam que a maioria dos participantes teve uma relação inicial positiva com a disciplina na educação básica. A escolha de um curso é motivada pelo interesse na Física e na docência. A percepção da Física no cotidiano é associada a sensações positivas, enquanto a relação com a história da Física é menos evidente. A resolução de problemas é destacada como uma parte significativa da cultura da Física.
Palavras-chave : Ensino de Física, Satisfação Cultural, Georges Snyders, Percepção por Licenciandos
## Abstract
This research aims to understand how cultural satisfaction manifests in the choice and experiences of undergraduate Physics students, connecting Snyders' principles with the specific context of Physics Education. Georges Snyders' sociocultural theory has
played a significant role in educational research in Brazil, explored in various phases of its development and applied in contexts such as reading, writing, and science education. This study focuses on the theory's second phase, in which Snyders proposes a renewal of the educational environment through the transformation of cultural content in a school that incorporates joy stemming from contact with works of art, including scientific achievements. The research seeks to integrate Snyders' theory with Physics Education studies, identifying how cultural satisfaction is present in the teaching and learning of Physics and analyzing the perceptions of undergraduate Physics students. Four possibilities are explored: recognizing Physics in everyday life, identifying Physics in cultural products, understanding the historical and social construction of Physics, and overcoming challenges in problem-solving. The research results, conducted with undergraduate Physics students at a federal university, indicate that the majority of participants had an initially positive relationship with the discipline in basic education. The choice of the course is motivated by an interest in Physics and teaching. Perception of Physics in everyday life is associated with positive sensations, while the connection with the history of Physics is less evident. Problemsolving is highlighted as a significant part of Physics culture.
Keywords : Physics Education, Cultural Satisfaction, Georges Snyders, Perception by Students.
## Introdução
A teoria sociocultural de Georges Snyders (1917-2011) vem sendo debatida em diversos contextos da pesquisa em educação no Brasil seja na divulgação e no norteamento de suas diferentes fases de produção (Giolo, 1994; Carvalho, 1999), na sua contextualização na educação brasileira (Vieira; Almeida, 2016; Vieira, 2016; Cunha et al, 2019) ou como fundamentação para a leitura e escrita na educação em ciências (Souza; Almeida, 2005; Zanetic, 2006). Em pesquisas anteriores (Piassi, 2007; Gomes, 2016; Ramos, 2016; Nascimento Jr, 2018), Snyders foi uma referência basilar para pensar a presença de obras artísticas e produções culturais no ensino e divulgação em ciências.
Esta pesquisa articula a teoria do pedagogo francês com a área de Ensino de Física, em diversos trabalhos que serão mencionados no corpo do texto, identificando de que forma o arcabouço teórico de Snyders permita verificar presença da satisfação cultural em processos de ensino e aprendizagem em Física e analisar as percepções de estudantes de um curso de Licenciatura em Física.
## Snyders: da alegria na escola à satisfação cultural
Georges Snyders foi um pedagogo francês cuja produção pode ser dividida em duas fases: a primeira está vinculada a uma pedagogia progressista, do período da década
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de 1960 até o início da década de 1980; a segunda fase se volta para a presença dos interesses culturais dos educandos na escola e de que forma a satisfação cultural estaria presente no espaço escolar. A segunda fase será o foco deste trabalho.
Preocupado com a falta de alegria dos alunos na escola, que se apresenta aos alunos 'como um medicamento amargo' (Snyders, 1988, p. 12), Snyders propõe a renovação da escola a partir de uma transformação dos conteúdos culturais, que passa tanto pelos alunos quanto pelos professores. Para isso ele defende uma escola na qual esteja presente 'uma alegria que brota de um encontro com as obras de arte, desde os grandes poemas de amor até as realizações científicas e técnicas.' (Snyders, 1988, p. 13). Segundo o autor, se faz necessária uma transformação dos conteúdos culturais uma vez que há culturas capazes de dar satisfação e dela a alegria. Satisfação aqui entendida como um estado emocional de contentamento, prazer ou realização derivado da experiência positiva em relação a algo. Que por sua vez, podemos associar comum sentimento de alegria.
Olhando especificamente para a cultura, em busca desta satisfação, Snyders observa a presença de dois tipos de cultura: a primeira, decorrente da 'experiência direta da vida (Snyders, 1988, p. 30) em seus interesses culturais como brincadeiras, jogos, música etc.; e a elaborada, que está presente no conhecimento formal, escolar, científico e nas obras de arte. O pedagogo francês afirma que o espaço escolar é um ambiente onde a 'cultura primeira' trazida pelo estudante deve ser incorporada ao processo educacional, no sentido que traz a satisfação ao educando (Snyders, 1988, p. 36).
O pensador francês associa a cultura primeira à denominada 'alegria simples' (Snyders, 1988, p. 24), que são aquelas satisfações decorrentes das atividades cotidianas dos estudantes, sejam suas brincadeiras, seus jogos, e os seus interesses culturais como a música, o cinema e, particularmente em nossos tempos, suas séries de televisão e os jogos de videogame. Essa alegria, num primeiro momento, permite ao jovem ambicionar e se aprofundar em suas satisfações culturais em que, num "movimento próprio", tornam-se complexas e aprofundadas, lançando "apelos à cultura elaborada" e "nesse movimento de ultrapassagem, cessam pouco a pouco de serem simples e tornam-se cada vez mais satisfações' (Snyders, 1988, p. 25).
Em linhas gerais, a cultura primeira mostra-nos a aparência do mundo, enquanto a cultura elaborada mostra o mundo como ele é. A ideia, para Snyders, não é revogar a cultura de massas, nem tapar os olhos para a cultura primeira, mas sim, a partir da dialética continuidade-ruptura, possibilitar as satisfações procuradas pelos indivíduos. Continuidade no sentido do esforço para vincular o novo ao que já constitui a experiência e o gosto, e ruptura uma vez que existem coisas que ultrapassam e até mesmo transcendem o habitual.
Vale ressaltar que parte dessa visão de Snyders possui relação com o seu próprio histórico de estudante. Renata de Almeida Vieira (2016) relata a experiência do pedagogo com seu professor de física em que o entusiasmava ao ensinar sobre os raios convergentes e divergentes, mas que dedicava pouco tempo para explicar aos alunos o mundo da técnica que os rodeava e os atraía, demonstrando, entre outras coisas, sobre o funcionamento do rádio, sobre a marcha de um motor.
E como os estudos em Ensino de Física permitem trazer esses elementos de satisfação no processo de ensino e aprendizagem? Temos a tese de que que a Física se permite encontrar em algumas situações quando a(o) estudante:
I) reconhece a Física no seu cotidiano, na prática ou em experiências - alguns estudos da área nos demonstram a importância do cotidiano (Pierson, 1997); do lúdico (Ramos, 1990) e da experimentação (Araújo; Abib, 2003; Laburú, 2005) para o ensino de ciências.
II) identificar que a Física está presente nos produtos culturais e midiáticos que estão dentro de seus interesses culturais - o diálogo entre ciência, arte e cultura é um caminho possível para debater temas que conectam os estudantes com seus interesses culturais, seja na literatura (Zanetic, 2006), na música (Moreira; Massarini, 2006), na cultura popular (Fernandes et al. , 2009) entre outras linguagens.
III) percebe que a Física possui uma construção histórica e social, que está sujeita a equívocos e evoluções nesse processo - para isto temos estudos que reforçam a necessidade desse debate na formação de professores (Vital; Guerra, 2017), pesquisas que mostram a importância dos debates da natureza da ciência e da presença de fontes primárias (Oliveira; Martins; Silva, 2020) e a importância de problematizar aspectos de gênero (Tosi, 1998) e raça (Rosa; Alves-Brito; Pinheiro, 2020) no percurso da história da ciência.
IV) atende ou amplia as suas expectativas na resolução de problemas de Física, superando os seus desafios pessoais, seja: na resolução de problemas (Gaspar, 2018); no desenvolvimento da criatividade e da iniciativa de estudantes (Clement; Terrazan; Nascimento, 2003), influência na participação ativa, motivação e interesse dos estudantes (Mourão; Sales, 2018); e propiciam atributos do ensino investigativo (Carvalho, 2018).
A partir dessas quatro possibilidades, nos lançamos na investigação de identificar como esses elementos se fazem presentes nas vivências de estudantes de um curso de licenciatura em Física. Nosso objetivo é tentar entender como se dá essa satisfação cultural ao buscar uma licenciatura em Física.
## Metodologia
Para realização desta pesquisa, utilizamos uma abordagem qualitativa, se valendo do uso de um questionário aberto como instrumento de pesquisa. A pesquisa foi realizada com estudantes de um curso de licenciatura em Física em uma Universidade Federal no estado de Pernambuco.
O questionário foi elaborado com sete questões abertas. As duas primeiras serviram para identificação do ano e período de ingresso no curso e o gênero ao qual a pessoa se identifica. As duas questões seguintes, buscaram investigar a relação dos entrevistados com a disciplina de Física durante o período da educação básica, e o que levou o estudante a escolher o curso de Física-Licenciatura como graduação. Nosso objetivo com estas questões foi identificar quais alegrias e sensações os participantes iriam relacionar com essas vivências. Isso é relevante no sentido de tentarmos identificar se de alguma forma a busca por um curso superior pode se configurar como uma busca por uma cultura elaborada, a partir da vivência na escola.
As quatro questões seguintes foram: "Quais são as suas percepções ou sensações quando: Reconhece a Física no seu cotidiano ou nos resultados dos experimentos. Se puder, cite exemplos.', "Quais são as suas percepções ou sensações quando: Identifica o protagonismo da Física em filmes, músicas, jogos eletrônicos, quadrinhos, livros etc. Se puder, cite exemplos.', "Quais são as suas percepções ou sensações quando: Percebe que a Física possui aspectos históricos e humanos na ciência. Se puder, cite exemplos.', e "Quais são as suas percepções ou sensações quando: Resolve problemas ou questões desafiadoras em Física. Se puder, cite exemplos.".
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Elas buscavam analisar as percepções dos licenciandos quanto a vivências relacionadas à Física. Estas questões foram construídas a partir das 4 teses apresentadas anteriormente. As respostas dos participantes estão escritas em itálico .
## Resultados
Tivemos a participação voluntária de 14 estudantes, dos quais sete foram do sexo feminino e sete do masculino. A maioria dos participantes, sete, iniciou o curso no ano de 2023. Três ingressaram no ano de 2022, dois em 2021 e dois em 2020. O que destacamos desta relação é que boa parte dos participantes vivenciaram o ensino médio de forma remota ou híbrida e os que já estavam no curso em 2020 e 2021 tiveram contato com a graduação de forma remota e presencial.
Na primeira pergunta, observamos que a maioria dos participantes, oito, realizou comentários positivos em relação a vivência com a Física na educação básica. Três tiveram uma relação inicial ruim que depois mudou, e três não tiveram boa relação. Destacamos das respostas dois aspectos, o primeiro, os participantes que destacaram pontos negativos em relação à escola. Nesse caso, foi usado palavras como 'desgosto' para exemplificar essa relação. O que pontuamos aqui, é que, no diálogo com a ideia de alegria na escola de Snyders, o movimento observado parece exatamente o oposto. O estudante apresenta um interesse, mas a escola não dá condições de que isso se torne uma cultura elaborada.
O segundo aspecto que destacamos é o desafio de um curso como uma motivação para a sua realização, ou seja, o desafio como incentivo a busca pela cultura elaborada. Importante notar que este mesmo desafio pode ter um sentido contrário, mas, não é o caso.
A segunda questão, apresenta como respostas características tanto o interesse de aprofundamento na cultura elaborada da Física quanto um interesse na profissão docente. Isso aparece em afirmações como 'gosto de física e gosto de ensinar' e 'interesse em ser professor' . Quanto ao interesse pela Física, palavras como curiosidade e paixão surgem para destacar esse interesse. Há também a ideia do desafio positivo, presente em ideias tais 'querer entender mais' . Interpretamos esse resultado do interesse atrelado a sentimentos positivos com a cultura elaborada.
Na terceira questão, relativa a reconhecer a Física no cotidiano, foi possível identificar sensações positivas, ao ponto de alguns terem o interesse em compartilhar o que é identificado, 'Sempre que vejo algo no dia a dia que tem alguma relação com a física eu falo para minha mãe: "A física explica isso" haha' . A resposta destacada é interessante, pois, a marca do riso, uma das principais marcas associadas a alegria, foi adicionada na escrita. Os fenômenos que foram citados envolvem temas de astronomia, 'quando olho a lua, e ver que ela não cai na Terra' , de mecânica clássica, 'uma das coisas perceptíveis é sempre nas minhas idas de ônibus, quando comento com um amigo sobre velocidade, inércia ou outras coisas do tipo' e termodinâmica, 'por exemplo o processo de esfriamento do café, ou a dilatação dos materiais de casa' .
Portanto, o que observamos é que a defesa, muito comum em pesquisas da área e na fala de estudantes, da presença do cotidiano na Física, encontra um eco nas alegrias defendidas pelo Snyders. De fato, olhar para a cultura primeira e mostrar o que está por trás dela. Esta primeira tese, é talvez, a que mais dialoga com a teoria de Snyders e a que se faz mais presente quando pensamos o ensino de Física.
Na quarta questão, é possível identificar que alguns dos participantes possuem uma vivência cultural com a Física, no entanto, ainda focado numa preocupação quanto a precisão científica de conceitos em obras midiáticas, por exemplo, ' Nesses momentos eu fico feliz, as pessoas a minha volta me faz (sic) perguntas. Mas, as vezes fico aborrecido quando a física exposta está errada '. No entanto, parte dos participantes possuem uma baixa percepção dessa relação.
A quinta questão, em reconhecer a história da Física, foi a com menos percepção e profundidade. Compreendemos que os participantes, em sua maioria, não tiveram contato com essa noção. Já a sexta questão, sobre os desafios em resolução de problemas, foi a que mais teve respostas positivas, com expressões do tipo 'Me sinto motivada a continuar', 'Me sinto satisfeito, é uma coisa que me traz prazer' e 'Me sinto em paz' . Nos dá uma indicação que essa cultura é de fato muito forte na Física, talvez não à toa que estudantes a relacionem como uma 'matemática aplicada'.
## Considerações Finais
Buscando investigar as motivações, interesses e atitudes em relação a Física, dos ingressantes no curso de licenciatura em Física, pudemos observar que um diálogo com as teses propostas que acabam reforçando resultados anteriores da pesquisa na
área de ensino. A defesa de Snyders em relação a alegria e a busca por um saber elaborado é algo que ainda ecoa na vivência dos estudantes. Reforçamos a necessidade de continuar este estudo buscando conhecer a vivência de estudantes ainda na educação básica e ao final do curso e com o ingresso na profissão docente.
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