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ATIVIDADES DE ENSINO DE FÍSICA ADAPTADAS PARA UMA ALUNA COM NECESSIDADES ESPECÍFICAS: UMA ABORDAGEM FREIREANA A PARTIR DA PEDAGOGIA DA AUTONOMIA

Joaquim Augusto Nogueira Neto, Beatriz Da Cruz Santos

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
23/08/2024
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ATIVIDADES DE ENSINO DE FÍSICA ADAPTADAS PARA UMA ALUNA COM NECESSIDADES ESPECÍFICAS: UMA ABORDAGEM FREIREANA A PARTIR DA PEDAGOGIA DA AUTONOMIA

## TEACHING PHYSICS ACTIVITIES ADAPTED FOR A STUDENT WITH SPECIFIC NEEDS: A FREIREAN APPROACH BASED ON THE PEDAGOGY OF AUTONOMY

Joaquim Augusto Nogueira Neto 1 , Beatriz da Cruz Santos 2

1 Colégio Pedro II/Departamento de Física, joaquim.neto.2@cp2.edu.br

2 Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro/Faculdade de Pedagogia/Colégio Pedro II, bdacruz00@gmail.com

## Resumo

Este trabalho relata uma série de atividades pedagógicas realizadas com uma aluna com necessidades específicas, visando explorar conceitos de física (cinemática, estática e atrito) adaptados às suas habilidades cognitivas e de interação. As atividades foram conduzidas em um contexto de apoio e mediação, buscando seu engajamento e compreensão dos conceitos abordados. Utilizando métodos lúdicos e práticos e a pedagogia freireana, as atividades foram divididas em estudos sobre velocidade de diferentes objetos, identificação de pesos e compreensão do atrito sobre superfícies diversas. A aluna demonstrou um progresso notável ao longo das atividades, evidenciando um entendimento cada vez mais consistente dos conceitos físicos, mesmo utilizando formas não convencionais de comunicação. Suas respostas e interações revelaram uma compreensão surpreendente dos temas estudados, ressaltando a importância de abordagens pedagógicas adaptadas para alunos com necessidades específicas. Este estudo ressalta não apenas o potencial de aprendizagem da aluna, mas também a eficácia de estratégias adaptativas no ensino de conceitos físicos a estudantes com habilidades e formas de comunicação diversas.

: Educação Especial; Ensino de Física; Pedagogia Freireana;

Palavras-chave Estratégias de Ensino Adaptativas

## Abstract

This paper describes a series of pedagogical activities carried out with a student with specific needs, aiming to explore concepts in physics (kinematics, statics, and friction) adapted to her cognitive abilities and interaction skills. The activities were conducted in a supportive and mediated context, seeking her engagement and understanding of the addressed concepts. Using playful and practical methods alongside Freirean pedagogy, the activities were divided into studies on the velocity of different objects, identification of weights, and comprehension of friction on various surfaces. The student demonstrated remarkable progress throughout the activities, showing an increasingly consistent understanding of the physics concepts, even while using non-conventional forms of communication. Her responses and interactions revealed a surprising grasp of the studied themes, emphasizing the importance of adapted pedagogical approaches for students with specific needs. This study highlights not only the learning potential of the student but also the

effectiveness of adaptive strategies in teaching physics concepts to students with diverse abilities and forms of communication.

Keywords : Special Needs Education; Physics Education; Freirean Pedagogy; Adaptive Teaching Strategies.

## Introdução

O ensino inclusivo está intrinsecamente conectado aos princípios de autonomia, ética e dignidade preconizados pela pedagogia de Paulo Freire (FREIRE, 2013). Ao buscar atender às necessidades individuais de todos os alunos, independentemente de suas habilidades ou condições, buscamos proporcionar aos alunos a oportunidade de serem protagonistas de seu próprio processo de aprendizagem.

Isso vai ao encontro da ética freireana, que preza pela valorização do outro, pelo respeito à singularidade e pela promoção da equidade. O ensino inclusivo reforça a dignidade de cada estudante ao criar um ambiente acolhedor e justo, onde todos têm acesso igualitário aos recursos necessários para seu pleno desenvolvimento, corroborando assim com os fundamentos da pedagogia de Paulo Freire, conforme podemos observar.

Como educador, devo estar constantemente advertido com relação a este respeito que implica igualmente o que devo ter por mim mesmo. Não faz mal repetir a afirmação várias vezes feita neste texto - o inacabamento de que nos tornamos conscientes nos fez seres éticos. O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros. (FREIRE, 2013. p. 58)

Em relação ao ensino inclusivo temos um conjunto de leis que regulamentam sua inserção na educação pública no país, como a LDB 9394/96 (Leis de Diretrizes e Base) nas quais a obrigatoriedade da oferta de educação inclusiva para pessoas com necessidades especiais se faz presente no artigo 4 parágrafo terceiro, conforme citamos abaixo.

Art. 4 - O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de: (...) III - atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino. (BRASIL, 2018, p. 13)

Numa perspectiva pedagógica freireana e em conformidade com as leis apresentadas, o presente trabalho se destina a realizar um relato de atividade

realizada com a estudante Maria, cujo uso da identidade e imagem foi gentilmente autorizado por sua mãe e tutora. Maria é estudante da 2ª série do ensino médio regular do Colégio Pedro II, localizado na cidade do Rio de Janeiro e possui parecer médico de malformação cerebral, retardo intelectual moderado e atraso motor com artrogripose, apresentando necessidade constante de fisioterapia motora.

Em atendimento à lei, o Colégio Pedro II possui um Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (NAPNE 1 ), disponibilizando mediadores (as) e cuidadores (as) para o acompanhamento dos estudantes cuja necessidade especial exija.

Apesar da existência do NAPNE, os professores e professoras enfrentam uma série de dificuldades ao tentar implementar um ensino que se proponha verdadeiramente inclusivo. Um dos principais desafios é a diversidade de necessidades dos alunos que chegam à escola, o que exige estratégias adaptativas, diferenciadas e muitas das vezes individualizadas para garantir a participação e o aprendizado desses estudantes, o que demanda uma maior quantidade de profissionais envolvidos.

No artigo 'Desafios e possibilidades da inclusão escolar de crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika: o olhar docente' (BATISTA, MOUTINHO, 2019) as autoras relatam a falta de recursos e suportes adequados, tanto materiais quanto humanos para lidar com crianças portadoras da síndrome, o que se aplica para os casos de crianças e adolescentes com paralisia ou malformação cerebral.

A necessidade de capacitação e formação contínua dos professores em práticas inclusivas, juntamente com a resistência institucional e social a mudanças no sistema educacional, também representam desafios consideráveis. (MESSINA, 2001)

Além disso, a superação de estereótipos e preconceitos em relação à diversidade, bem como a garantia de um ambiente inclusivo e acolhedor para todos os alunos, são desafios constantes enfrentados por professores e professoras e por todos aqueles que participam do processo de ensino-aprendizagem no âmbito escolar (FRANÇA, SANTOS, SOUSA, 2019).

Pensamos que apesar dos desafios que incluem a realização de uma pesquisa que permita nos familiarizarmos com a educação inclusiva, a importância deste ensino é indiscutível, pois oferece uma educação justa, diversificada e enriquecedora para todos os alunos, promovendo a igualdade de oportunidades e o respeito à individualidade de cada estudante. Lembramos as palavras de Freire:

Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que-fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade.(FREIRE, 2013. p. 30-31)

## Apresentação da estudante

Após o retorno ao presencial em março de 2022, após a pandemia de COVID-19, os professores conheceram Maria presencialmente no Colégio Pedro II e começaram a adaptar o conteúdo do período letivo às necessidades da estudante. Compreendendo o conteúdo e a dinâmica escolar, estratégias personalizadas foram desenvolvidas para garantir sua plena integração nas atividades acadêmicas e sociais, maximizando seu potencial de aprendizado e interação na escola.

Como parte dessas estratégias, foi realizada a contratação da cuidadora/mediadora Beatriz, uma das autoras deste trabalho. A função crucial de Beatriz é fornecer suporte adicional e individualizado à Maria, auxiliando-a não apenas nas atividades didáticas, mas também no seu cotidiano escolar. A presença da mediadora tem sido fundamental para facilitar a comunicação, compreensão do material, participação em atividades e interação social, contribuindo significativamente para o envolvimento e desenvolvimento da estudante no contexto educacional.

Maria é uma jovem alegre, afetuosa e sociável, o que facilita sua interação com colegas, professores e demais envolvidos na escola. Apesar de suas condições clínicas, ela é inteligente, capaz de aprender e participar das atividades em grupo e individuais, promovendo sua inclusão social no ambiente escolar. Nosso foco inicial foi acompanhar de perto suas aulas regulares e as atividades do NAPNE, buscando oferecer suporte personalizado em diversas disciplinas, especialmente em Português e Matemática.

Na disciplina de Português, a aluna tem habilidade na leitura, mas enfrenta desafios na interpretação de textos complexos, compreendendo-os de forma literal. Na Matemática, ela reconhece formas geométricas básicas, conta até 100 e realiza operações simples de adição e subtração até o número 10, utilizando os dedos como apoio para essas operações.

Maria se expressa de maneira não verbal, utilizando uma combinação de sons, gestos e, em certos momentos, recorre à escrita em um tablet para se comunicar quando há dificuldades de compreensão. Sua comunicação, apesar de não ser por meio da fala, é multifacetada e adaptativa, permitindo que ela expresse suas necessidades, pensamentos, emoções e interaja com o ambiente ao seu redor.

## Aplicação das atividades de ensino de Física: Conceitos da Mecânica

Durante as atividades realizadas com Maria, a primeira consistiu em um jogo da memória composto por 8 pares de cartas. Durante a interação com o jogo, foram identificadas algumas cartas contendo diferentes meios de locomoção e personalidades públicas.

Imagem 1: Itens do jogo da memóriaFonte: Os autores, 2022

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A partir dessa identificação, propusemos a Maria um desafio adicional, solicitando que ela organizasse os meios de transporte de acordo com sua velocidade, estabelecendo uma ordem do meio de locomoção mais veloz para o menos veloz. Essa atividade teve como objetivo não apenas estimular a memória e a interação lúdica, mas também desenvolver a capacidade de análise, comparação e classificação de elementos baseados em características específicas, como a velocidade de locomoção.

Durante a segunda atividade, direcionada ao estudo da cinemática, optamos por realizar a dinâmica na rampa de acesso às salas de aula, um local propício para observar o movimento de algumas bolas que seriam colocadas para rolar.

Maria recebeu um conjunto contendo três bolas de diferentes esportes para realizar a atividade. O objetivo foi solicitá-la a observar o movimento de cada bola enquanto rolavam pela rampa e, ao término do percurso, identificar qual das bolas foi a mais rápida.

Inicialmente a estudante cometeu alguns erros na identificação da bola mais veloz. Contudo, à medida que repetimos a atividade, ela demonstrou uma evolução significativa, conseguindo, após algumas tentativas, acertar de forma consistente, identificando corretamente qual das bolas havia rolado com maior rapidez pela rampa.

Esse processo revelou não apenas a capacidade de observação de Maria, mas também sua capacidade de aprendizado e adaptação ao identificar, de maneira cada vez mais precisa as diferenças de tempo para chegar ao final da rampa entre as bolas em movimento, contribuindo para sua compreensão dos conceitos relacionados à cinemática.

Na terceira atividade, o foco esteve relacionado à estática. Apresentamos a Maria diversas massas utilizadas em experimentos de laboratório e solicitamos que ela identificasse qual delas era a mais pesada. Durante essa dinâmica, notamos de maneira clara que ela conseguia discernir com precisão qual era a massa mais pesada, evidenciando que a compreensão do conceito de peso já fazia parte do seu repertório cognitivo.

Uma observação notável surgiu quando apresentamos pesos diferentes feitos de materiais distintos. Ao erguer um peso de ferro seguido por um de plástico, ambos com as mesmas dimensões, Maria identificava perfeitamente o de ferro como o mais pesado. No entanto, quando segurava o peso de metal com a mão esquerda e o de plástico com a direita, ela passava a apontar o de plástico como o mais pesado.

Isso nos levou à constatação interessante de que a destreza e a habilidade de Maria variam entre as mãos. A estudante leva os alimentos à boca e escova os

dentes com a mão direita, porém escreve com a esquerda, justamente por ser esta a mão com mais firmeza.

Na última atividade proposta, o objetivo era introduzir à Maria o conceito de atrito. Para isso, utilizamos diferentes tapetes posicionados sobre uma mesa e colocamos algumas massas sobre esses tapetes. Em seguida, pedimos a ela para arrastar as massas puxando-as por uma cordinha previamente amarrada nelas.

Durante essa dinâmica, solicitamos que identificasse o tapete em que foi mais fácil movimentar os corpos. À princípio Maria teve algumas dificuldades para compreender o propósito da atividade, mas com o tempo e repetição, demonstrou uma significativa evolução. Passou a acertar consistentemente na maioria dos casos, evidenciando a compreensão do conceito de atrito e sua relação com a dificuldade de deslocamento sobre diferentes superfícies.

Um momento importante ocorreu ao final da atividade, quando perguntamos a ela qual tapete seria melhor para que ela pudesse passar com sua cadeira para se deslocar. Maria surpreendeu ao indicar que sem os tapetes seria mais fácil se locomover com a cadeira. Essa resposta revelou um entendimento notável sobre a relação entre a presença de tapetes (aumentando o atrito) e a facilidade de movimentação, demonstrando uma compreensão surpreendente e contextualizada do conceito de atrito e sua aplicação prática em situações de sua vida cotidiana.

Essas experiências ilustram a capacidade de aprendizado de Maria em associação com seu ambiente imediato, resultando em uma compreensão prática e aplicável dos conceitos físicos apresentados.

## Momentos da atividade e conclusões

Encerramos nossa exposição destacando alguns dos momentos pedagógicos da atividade conduzida com Maria e chamamos a atenção para a observação da primeira imagem.

A expressão de felicidade de Maria ao identificar figuras com experiências similares, como a jornalista Samara Andresa 2 , que possui paralisia cerebral, é crucial. Isso não apenas promove um senso de pertencimento e acolhimento, mas

também fortalece sua autoestima e confiança, criando um ambiente educacional inclusivo. Esse reconhecimento impulsiona o engajamento de Maria na aprendizagem, alinhando-se aos princípios da pedagogia freireana, que valoriza a identidade do aluno e sua inclusão plena na educação.

Imagem 2: Registro de alguns momentos das atividades com MariaFonte: Os autores, 2022.

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A proposta visava promover não apenas a diversão durante o jogo, mas também estimular habilidades cognitivas, como a organização e o raciocínio lógico de forma apropriada ao nível de compreensão e interação da Maria e nesse sentido nos sentimos muito felizes com os resultados obtidos.

## Referências

BRASIL . Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDB. 9394/1996. BRASIL, 2018.

MESSINA, G. Mudança e inovação educacional: notas para reflexão. Cadernos de pesquisa , p. 225-233, 2001.

BATISTA, G. M.; MOUTINHO, A. K. Desafios e possibilidades da inclusão escolar de crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika: o olhar docente. Revista Educação Especial , v. 32, p. 1-22, 2019.

FRANÇA, D.; SANTOS, R. A. O.; SOUSA, K. O. Estratégias de combate ao preconceito. REPECULT-Revista Ensaios e Pesquisas em Educação e Cultura (Qualis B1) , v. 4, n. 7, p. 18-39-18-39, 2019.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. 46ª edição. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 2013.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.