Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

Contextualização em itens de Física

Jailton Fraga Junior, Paulo Lima Junior

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
23/08/2024
Linha de pesquisa
Avaliação, Currículos E Políticas Em Educação E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2024

Texto completo

## Contextualização em itens de Física

## Contextualization in Physics items

## Jailton Fraga Junior 1 e Paulo Lima Junior 2

1 Universidade de Brasília/Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências/jailtoncfjr@gmail.com

2 Universidade de Brasília/Instituto de Física/paulolimajr@unb.br

## Resumo

A contextualização é um tema que é incentivado nos documentos da educação brasileira. Ainda que não haja um consenso sobre seu significado, assumindo polissemias, seu emprego pode ser observado em diversos exames vestibulares. Pensando as avaliações enquanto criações estéticas, que são frutos de julgamentos que orientam a maneira de elaborar os itens, podemos inferir o princípio estético da avaliação e, ao mesmo tempo, verificar se e como a contextualização está presente. Neste trabalho, analisamos itens de Física presentes em uma prova de ingresso ao Ensino Superior, buscando verificar como a contextualização está presente nessas questões, bem como inferir informações sobre o princípio estético orientador dessa avaliação. Observamos que os itens, apesar de mostrar uma certa evolução ao longo dos anos, ainda não alcançaram uma real contextualização. No entanto, é possível perceber que a contextualização faz parte da estética dessa prova, ou seja, é um fator importante para a maneira de avaliar proposta no exame. Implicações para a educação são discutidas.

Palavras-chave : Contextualização; Estética; Avaliação.

## Abstract

Contextualization is a theme that is encouraged in Brazilian education documents. Although there is no consensus on its meaning, it is used in several exams. Thinking of assessments as aesthetic creations, which are the result of judgments that guide the way items are designed, we can infer the aesthetic principle of the assessment and, at the same time, check whether and how contextualization is present. In this paper, we analyzed Physics items in a College entrance exam, seeking to verify how contextualization is present in these questions, as well as to infer information about the aesthetic principle guiding this assessment. We observed that the items, despite showing a certain evolution over the years, have not yet achieved real contextualization. However, it is possible to see that contextualization is part of the aesthetics of this test, i.e., it is an important factor in the way of assessing proposed in the exam. Implications for education are discussed.

Keywords : Contextualization; Aesthetics; Assessment.

## Introdução

A contextualização é um tema que está presente nos principais documentos da educação brasileira (LOPES, 2002). Esse tema é um dos principais fatores que estão presentes, por exemplo, no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) (PINHEIRO; OSTERMANN, 2010), uma das principais portas de entrada para o ingresso no Ensino Superior. No entanto, ainda que a contextualização seja valorizada e incentivada nos documentos normativos, este ainda é um termo polissêmico dentro do campo educacional, sendo aplicada, portanto, de distintas maneiras.

Lopes et al . (2018) e Pinheiro e Ostermann (2010) analisaram itens em provas quanto à contextualização. Em suas análises, é possível perceber que, em muitos casos, ocorre uma pseudo-contextualização, ou seja, o contexto não é essencial para a resolução da situação proposta. Isso ocorre, por exemplo, em casos onde é possível responder aos itens de Física sem, necessariamente, ter lido o texto antecedente aos itens.

A maneira como a prova será elaborada pode ser pensada como uma criação estética , uma vez que ela é resultado de um julgamento dos atores envolvidos em sua elaboração sobre o que deve ser valorizado ou não no momento da confecção dos itens. Portanto, se um exame valoriza a contextualização e a interdisciplinaridade em seus itens, podemos inferir que esses termos fazem parte do princípio estético dessa avaliação.

Tendo isso em mente, decidimos analisar os itens de Física do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB), um exame vestibular que acontece ao final de cada uma das séries do Ensino Médio, sendo composto, então, por 3 etapas. Analisamos as provas da primeira etapa (1ª série do Ensino Médio) dos anos de 2019 até 2023. Nosso objetivo foi analisar os itens quanto à contextualização, observando como ela está presente e é abordada, de acordo com o princípio estético do certame.

## Referencial teórico

Os agentes envolvidos no campo educacional estão a todo momento fazendo escolhas. Escolhem como abordar determinado assunto (SASSERON,

3

## XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024

2018), como avaliar os estudantes (DANTAS; MASSONI; SANTOS, 2017), quais maneiras de pensar, agir e falar são mais adequadas dentro do pensamento científico (ANDERHAG; WICKMAN; HAMZA, 2015). O fator em comum de todas essas escolhas é que elas são baseadas em julgamento. Julgamos qual material didático utilizar para determinada prática (LIMA JUNIOR, 2023), quais alunos estão aptos para seguirem no curso universitário (BARBOSA; FRAGA JUNIOR; LIMA JUNIOR, 2023) ou quais tipos de questões devem estar presentes em uma avaliação (NASCIMENTO; CAVALCANTI; OSTERMANN, 2018).

Por tratarmos de julgamentos, estamos diante de uma questão estética . Wickman (2006), apropriando-se dos escritos críticos kantianos, mais especificamente dos escritos sobre o julgamento (KANT, 2007), nos mostra que a estética vai além de simplesmente beleza. Ela está atrelada tanto ao julgamento da qualidade das coisas (sendo que essa qualidade não está na natureza das coisas, mas sim, fora imputada às coisas) quanto ao julgamento das experiências prazerosas e agradáveis. Portanto, juízos de beleza sobre questões de Física, metodologias de ensino, graduandos de Física, entre outros, não são meramente constatações, ou seja, observações sobre qualidades objetivas, mas sim, são juízos de valores atribuídos em vista de nossos valores e propósitos (LIMA JUNIOR, 2023).

Tendo isso em vista, é coerente pensarmos que as avaliações educacionais passam por um crivo estético dos agentes envolvidos em sua elaboração. Esses profissionais imprimirão na prova a estética que orientou seus julgamentos no momento da confecção do certame. Portanto, a forma das questões de Física são construções estéticas . A sua elaboração foi pensada valorizando maneiras de avaliar em detrimento de outras. Sendo assim, quando olhamos para o PAS e vemos que suas questões são, ou pretendem ser, contextualizadas, estamos diante de um princípio estético dessa avaliação. A partir da análise de como está presente essa contextualização nos itens de Física, podemos depreender o princípio estético por trás de sua elaboração.

## Método

Para a seleção de itens de Física do PAS 1, realizamos uma leitura das provas ao longo dos últimos 5 anos (2019 em diante). Procuramos avaliar a presença de textos contextualizadores e como eles estavam atrelados aos itens de

4

## XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024

Física. Fizemos uma tabela onde classificamos os itens de acordo com os níveis de contextualização que criamos a posteriori . Os níveis de contextualização tiveram inspiração e foram adaptados da classificação feita por Pinheiro e Ostermann (2010):

- 1) descontextualizado: os itens não eram antecedidos por algum texto ou imagem contextualizadora;
- 2) mal contextualizados: os itens eram antecedidos por algum elemento textual ou artístico, mas não eram essenciais para a resolução dos itens. Ou seja, era possível resolver o que era proposto sem realizar uma leitura/observação dos elementos antecedentes às questões;
- 3) pouco contextualizados: os itens eram antecedidos por algum elemento textual ou artístico e eram importantes para a resolução dos problemas propostos. No entanto, o contexto trazido nos itens em questão não se aproxima da realidade dos estudantes que estão fazendo a prova; e
- 4) muito contextualizados: similar ao nível 3, com a diferença de que a resolução dos problemas acrescentava ao entendimento científico por trás do contexto do estudante. Ou seja, resolver os itens agregava também ao conhecimento dos estudantes para que eles pudessem agir com relação às situações de seu cotidiano utilizando seus conhecimentos de Física.

Selecionamos então uma questão que, dentre todos os outros itens que tínhamos à disposição, considerando o período analisado, era o mais próximo de uma contextualização, de acordo com a classificação que apresentamos neste trabalho. Vale salientar que não pretendemos lançar uma nova classificação de itens de Física quanto à contextualização, mas sim utilizá-la como suporte para discutir a natureza dos itens e sua elaboração.

## Análise

A imagem e texto contextualizadores selecionados para este trabalho discorrem sobre a estátua do discóbolo, de Míron (vide Figura 1), utilizados na prova do PAS 1 no ano de 2019. No texto contextualizador, são dadas algumas informações sobre a estátua e é apresentado um modelo o qual reproduz a estátua e apresenta um diagrama de forças.

## XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024

Vemos, portanto, que essa bateria de itens, segundo nossa classificação, estaria mais localizada no nível 3, onde é perceptível a importância dos elementos contextualizadores para a resolução dos itens 68 e 72. No entanto, podemos nos perguntar: qual o contexto onde essa obra de arte está inserida? Será que esse contexto se assemelha à realidade dos estudantes de 1º ano do Ensino Médio de Brasília?

Pensando as questões como enunciados direcionados a um leitor suposto (LIMA JUNIOR, 2023), podemos inferir o tipo de leitor que é esperado por esse exame. O problema consiste, portanto, na distância entre o leitor esperado e o leitor real, já que, em pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de Brasília sobre os hábitos culturais da população do Distrito Federal, vemos que as visitas aos museus ainda se configuram como um hábito altamente elitizado (CORREIO BRAZILIENSE, 2023).

Outro problema que podemos observar no estilo dessa prova é a utilização de obras de artes como uma espécie de 'muleta' para discussão de assuntos de disciplinas das Ciências da Natureza, no geral, e de Física, em específico, visando, talvez, uma interdisciplinaridade entre as Artes e as Ciências Naturais. Esse tipo de utilização descaracteriza as Artes enquanto área de conhecimento e campo de produção humana.

Diante do exposto até aqui, vemos que a ideia de contextualização por trás do item de Física aqui apresentado está longe de uma real contextualização, apontada por Pinheiro e Ostermann (2010). No entanto, ainda que haja problemas na forma como foi implementada, essem item, dentro do período analisado, representa um grande progresso rumo a uma mudança na forma de abordar questões de Física em exames vestibulares.

Podemos depreender da estética do item de Física selecionado que a contextualização é um princípio que norteou sua elaboração. No entanto, para além de simplesmente contextualizar, é necessário ter em mente quem são os estudantes aos quais os itens são direcionados e elaborados, para que a contextualização esteja, de fato, inserida ou próxima do cotidiano dos estudantes que realizam a prova, evitando recair em uma pseudo-contextualização (LOPES et al., 2018; PINHEIRO; OSTERMANN, 2010).

Figura 1 Texto contextualizador e questões de Física do PAS 1 do ano de 2019

<!-- image -->

<!-- image -->

Fonte: CEBRASPE. Retirado de: https://cdn.cebraspe.org.br/pas/arquivos/461\_PAS\_1\_2019\_Matriz.pdf

## Conclusão

A contextualização é um tema que está presente nos principais documentos normativos da educação brasileira (LOPES, 2002; PINHEIRO; OSTERMANN, 2010). Ainda que seja um termo polissêmico (LOPES, 2002), o que pode levar a confusões sobre a maneira de contextualizar, ela está presente em exames vestibulares, como o caso do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB).

## XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024

Sabendo que decidir por utilizar uma determinada maneira de avaliar em detrimento de outras é um julgamento e, por conseguinte, uma questão estética (LIMA JUNIOR, 2023; WICKMAN, 2006), apresentamos, neste trabalho, um exemplo de uma bateria de itens de Física do PAS 1, aplicado em 2019, para investigarmos o princípio estético por trás desses itens e como ele é manifestado.

Como resultados, vimos que a contextualização é um fator que vem sendo implementada na elaboração dos referidos itens de Física, se aproximando do nível 3 de contextualização (pouco contextualizado) em nossa classificação. No entanto, se pensarmos que a prova foi elaborada direcionada a um leitor suposto (LIMA JUNIOR, 2023), vemos que a contextualização presente nos itens da prova não condizem com a realidade dos estudantes, onde o consumo de artes, sobretudo aquelas expostas em museus, ainda é elitizado (CORREIO BRAZILIENSE, 2023).

Esperamos, com este trabalho, contribuir para a discussão sobre a construção de itens avaliativos, elucidando que, por haver escolhas (julgamentos) no processo elaborativo das avaliações, podemos inferir o princípio estético que orienta a prova. Com isso, esperamos também contribuir para uma visão que esteja atenta à maneira como as avaliações são feitas, celebrando determinadas maneiras em detrimento de outras e privilegiando (ou não) determinados estudantes.

## Referências

ANDERHAG, P.; WICKMAN, P.-O.; HAMZA, K. M. Signs of taste for science: a methodology for studying the constitution of interest in the science classroom. Cultural Studies of Science Education , v. 10, n. 2, p. 339-368, jun. 2015.

BARBOSA, R. D. C.; FRAGA JUNIOR, J.; LIMA JUNIOR, P. Em que medida o desempenho acadêmico contribui para a evasão? O caso de um curso de Licenciatura em Física. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 45, p. e20230210, 2023.

CORREIO BRAZILIENSE. 55% da população do DF não leu nenhum livro nos últimos três meses . Disponível em:

&lt;https://www.correiobraziliense.com.br/euestudante/cultura/2023/06/5101863-55-dapopulacao-do-df-nao-leu-nenhum-livro-nos-ultimos-tres-meses.html&gt;. Acesso em: 16 jan. 2024.

DANTAS, C. R. DA S.; MASSONI, N. T.; SANTOS, F. M. T. DOS. A avaliação no Ensino de Ciências Naturais nos documentos oficiais e na literatura acadêmica: uma temática com muitas questões em aberto. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação , v. 25, p. 440-482, 27 abr. 2017.

KANT, I. Critique of Judgement . Oxford ; New York: Oxford University Press, 2007.

LIMA JUNIOR, P. A ESTÉTICA DA CRIAÇÃO DOS RECURSOS DIDÁTICOS: UM REFERENCIAL ANALÍTICO BASEADO NAS IDEIAS DO CÍRCULO DE BAKHTIN: un marco basado en las ideas de Bourdieu y Bajtín. Investigações em Ensino de Ciências , v. 28, n. 2, p. 169-192, 5 set. 2023.

LOPES, A. C. Os Parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio e a submissão ao mundo produtivo: o caso do conceito de contextualização. Educação &amp; Sociedade , v. 23, n. 80, p. 386-400, set. 2002.

LOPES, T. B. et al. Análise quanto à pseudo-contextualização nas provas da primeira fase das três últimas edições da OBMEP (2015-2017). Kiri-Kerê Pesquisa em Ensino , n. 4, 9 jun. 2018.

NASCIMENTO, M. M.; CAVALCANTI, C.; OSTERMANN, F. Uma busca por questões de Física do ENEM potencialmente não reprodutoras das desigualdades socioeconômicas. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 40, n. 3, 2018.

PINHEIRO, N. C.; OSTERMANN, F. Uma análise comparativa das questões de física no novo ENEM e em provas de vestibular no que se refere aos conceitos de interdisciplinaridade e de contextualização. In: ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, 12, Águas de Lindóia, 2010. Anais … Águas de Lindóia: Sociedade Brasileira de Física, 2010.

SASSERON, L. H. Ensino de Ciências por Investigação e o Desenvolvimento de Práticas: Uma Mirada para a Base Nacional Comum Curricular. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , p. 1061-1085, 15 dez. 2018.

WICKMAN, P.-O. Aesthetic experience in science education: learning and meaning-making as situated talk and action . Mahwah, N.J: Lawrence Erlbaum Associates, 2006.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.