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DA VISÃO MÉDICO-CLÍNICA PARA A SÓCIO-CULTURAL E POLÍTICA: UMA ANÁLISE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA NO ENSINO DE FÍSICA PARA ESTUDANTES SURDOS

Lucas Teixeira Picanço

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
21/08/2024
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## DA VISÃO MÉDICO-CLÍNICA PARA A SÓCIO-CULTURAL E POLÍTICA: UMA ANÁLISE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA NO ENSINO DE FÍSICA PARA ESTUDANTES SURDOS

## FROM MEDICAL-CLINICAL TO SOCIO-CULTURAL AND POLITICAL PERSPECTIVES: AN ANALYSIS OF ACADEMIC PRODUCTION IN THE TEACHING OF PHYSICS TO DEAF STUDENTS

Lucas Teixeira Picanço 1

1

Secretaria Estadual de Educação do Estado do Amazonas - SEDUC-AM, lucas.t.picanco@gamil.com

## Resumo

Este trabalho traz um delineamento da produção acadêmica no Brasil sobre surdez no período de 1987 a 2021, e dá destaque ao ensino de estudantes surdos e mais especificamente o ensino de física para estas pessoas. Como metodologia de pesquisa, utilizou-se a análise de conteúdo e a análise estatística descritiva, para coletar e analisar dados do Catálogo de teses e dissertações da CAPES. Inicialmente, são apresentadas as formas como a sociedade via ou ainda vê o surdo e como esses desejam ser vistos. Esta distinção é fundamental para entender a constatação apresentada neste trabalho de que a produção acadêmica reflete uma mudança de paradigma, indicando que houve, em diferentes períodos históricos, um maior número de pesquisas sobre surdez em determinadas áreas do conhecimento em detrimento de outras, indício que corrobora a hipótese levantada neste trabalho de que a visão do outro sobre a surdez e os diferentes métodos usados na educação de surdos ao longo das décadas refletem diretamente na produção acadêmica.

Palavras-chave : Revisão de literatura; Educação dos Surdos; Ensino de Física.

## Abstract

This paper delineates the academic production in Brazil regarding deafness from 1987 to 2021, with a particular emphasis on the education of deaf students, specifically focusing on the teaching of physics for these individuals. The research methodology employed content analysis and descriptive statistical analysis to collect and analyze data from the Catalog of Theses and Dissertations of CAPES. Initially, the paper presents the ways in which society perceived or still perceives the deaf and how they desire to be perceived. This distinction is crucial for understanding the observation presented in this work, indicating that academic production reflects a paradigm shift. It suggests that in different historical periods, there has been a greater number of research studies on deafness in certain areas of knowledge at the expense of others. This serves as evidence that supports the hypothesis raised in this paper, asserting that the perception of others about deafness and the different methods used in the education of the deaf over the decades directly influence academic production.

Keywords : Literature review; Education of the deaf; Physics teaching.

## Introdução

Este trabalho de pesquisa bibliográfica é um recorte de uma pesquisa de doutorado (PICANÇO, 2022), e busca-se realizar neste um mapeamento do ensino de Física, Ciências e Matemática para estudantes surdos no catálogo de Teses e dissertações da CAPES.

Entretanto para se compreender melhor o cenário atual na perspectiva da Educação Especial e/ou Inclusiva, é preciso analisar, em perspectiva histórica, o tratamento dispensado ao público da educação especial.

Primeiramente é preciso esclarecer ao leitor que, em se tratando dos surdos, vê-se que em sua grande maioria, eles não querem ser vistos pelo viés da deficiência, e, sim, de forma oposta.

O surdo deseja ser visto como um sujeito possuidor de idioma, cultura e identidades múltiplas, sendo social e politicamente constituído diferente, em relação à 'norma' ouvinte (THOMA, 2009). E, a pessoa surda, que atua politicamente em prol de garantir direitos linguísticos e de cidadania, faz essa distinção entre 'ser Surdo' com 'S' maiúsculo (CARVALHO, 2019, p.16) e ser 'deficiente auditivo' (QUADROS, 2006, p. 41).

Nessa perspectiva ser surdo é se identificar com o povo surdo, e Strobel (2008) chama a atenção para três formas que identificou de como os surdos são representados ao longo da história: o olhar com base no Historicismo, o olhar com base na História camuflada e o olhar com base na História Cultural. As duas primeiras influenciam na forma como a sociedade via (ou ainda vê) o surdo, e estão ligadas a outros pontos de vista, o religioso e o clínico, algo que a autora identifica como sendo '[...] a surdez no imaginário do outro' (STROBEL, 2008, p. 80).

Do ponto de vista religioso, Strobel (2008) coletou, na literatura de outros autores, exemplos de diferentes religiões que revelam que se atribui à surdez um estigma de castigo de uma divindade, algo que influencia o pensamento de pessoas, já em tempos contemporâneos, pois se atribui à surdez agressões de espíritos (LANE, 1992, apud STROBEL, 2008) ou possessão demoníaca.

Do ponto de vista clínico, surge um tratamento paternalista, no qual a sociedade deve tratar desses indivíduos que necessitam de cuidados, mas que produz

discriminação social ao considerar os surdos cultural e psicologicamente inferiores (LANE, 1992, apud STROBEL, 2008) e faz surgir visões estereotipadas a partir de um 'modelo de enfermidade baseado no grau de surdez' (STROBEL, 2008, p. 46).

Apesar dessas duas visões, observa-se que o povo Surdo do Brasil conseguiu conquistar importantes vitórias políticas que valorizam a sua História Cultural. Destacam-se como exemplos a Lei nº 10.436, que reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como a língua oficial dos surdos (BRASIL, 2002), a lei que regulamenta a profissão do tradutor/intérprete da Libras (BRASIL, 2010) e, mais recentemente, o direito à educação bilíngue como modalidade de ensino independente (BRASIL, 2021).

É nesse universo tão singular, com características peculiares e fascinantes que se desenvolve este estudo, a secção a seguir apresenta a metodologia usada nesta pesquisa bibliográfica.

## Metodologia da pesquisa

Como suporte teórico para a pesquisa bibliográfica, nos inspiramos no modelo proposto por Laurence Bardin (2016), a Análise de Conteúdo, e na análise Estatística Descritiva de Barbetta (2012).

A análise de conteúdo foi usada com a finalidade de traçar uma frequência das características que se repetem no conteúdo dos textos pesquisados, e foi feita em três grandes fases: 1) a pré-análise; 2) a exploração do material; 3) o tratamento dos resultados e interpretação (BARDIN, 2016).

Na fase da pré-análise, foi utilizada como base de dados, o catálogo nacional de teses e dissertações da CAPES, e decidiu-se não restringir o período de coleta, para identificar qual a tendência histórica com relação ao estudo da surdez, obtendose dados desde 1987 até 2021.

Na fase de exploração do material coletado, procedeu-se com a codificação dos dados a partir das unidades de registro e, na fase de tratamento dos resultados e da interpretação, os documentos selecionados foram classificados segundo as suas semelhanças e por diferenciação, com posterior reagrupamento, em função de características comuns, seguindo o método de análise por categorias temáticas.

Procedendo com a análise Estatística Descritiva, inspirada nos apontamentos de Barbetta (2012), foi possível organizar, resumir e apresentar dados quantitativos coletados no catálogo de teses e dissertações da CAPES, e transformá-los em variáveis qualitativas, isto é, '[...] variáveis cujos possíveis resultados são observados na forma de categorias' (BARBETTA, 2012, p. 65).

Nesta fase, identificou-se que os trabalhos coletados se enquadram em oito grandes áreas do conhecimento, sendo essas: Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Engenharias, Linguística, Letras e Artes e Trabalhos Multidisciplinares.

Primeiramente, buscou-se compor o cenário de pesquisas sobre a surdez de uma forma geral, depois o cenário de pesquisas em ensino de surdos, levantando-se assim, em cada área do conhecimento o número de trabalhos que abordam o tema. Em seguida, as buscas foram restringidas para o ensino de Ciências para surdos e, finalmente, o ensino de Física para surdos na perspectiva da educação especial e/ou inclusiva, procedendo às fases descritas anteriormente. A seção a seguir descreve os resultados obtidos, que são apresentados resumidamente em três gráficos.

## Análise e discursão dos resultados

Ao se analisar o ensino de surdos, em uma perspectiva mais ampla, envolvendo diversas áreas de conhecimento, constata-se um considerável volume de pesquisas, nas últimas décadas. Refinando a busca e excluindo resultados que envolvem surdez em animais (equinos e cães), obteve-se um total de 2719 pesquisas. Destas, 550 são teses de Doutorado e 1887 Dissertações de Mestrado de programas de pós-graduação de ensino acadêmico, 237 são dissertações de Mestrado Profissional e 47 trabalhos de ensino profissionalizante (seguindo a nomenclatura adotada na base pesquisada).

A Figura 1 mostra um gráfico com a distribuição anual desses resultados de 1987 a 2021.

Figura 1 - Número de trabalhos por ano relacionados à surdez na Plataforma CAPES

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A linha de tendência (linha pontilhada) destacada na Figura 1, bem como os próprios dados anuais disponíveis na plataforma pesquisada, mostram um significativo aumento no número de pesquisas relacionadas aos termos da surdez, em um período de 1987 a 2021, principalmente nas últimas duas décadas (que correspondem a mais de 90% dos registros na plataforma).

Esses 2719 trabalhos estão divididos na plataforma pesquisada em oito Grandes Áreas do Conhecimento da seguinte maneira: três trabalhos da área das Ciências Agrárias, 63 das Ciências Biológicas, 784 das Ciências da Saúde, 60 das Ciências Exatas e da Terra, 956 das Ciências Humanas, 67 das Ciências Sociais Aplicadas, 48 das Engenharias, 394 da área de Linguística, Letras e Artes e 346 Trabalhos Multidisciplinares.

A Figura 2 apresenta o gráfico da distribuição anual dos trabalhos encontrados, agrupados de acordo com a familiaridade entre as áreas.

Figura 2 - Distribuição anual dos trabalhos de pesquisa relacionados à surdez em grandes Áreas do Conhecimento no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES

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Fonte: Picanço (2022).

Analisando as linhas de tendências (linhas pontilhadas) da Figura 2, é possível observar, mais uma vez, a tendência de crescimento no número de pesquisas relacionadas à surdez em algumas áreas nos últimos 30 anos de que se tem registro. Ao mesmo tempo, observa-se uma diminuição no número de trabalhos nas grandes áreas das Ciências da Saúde e Ciências Biológicas nos últimos 10 anos. Ao passo que é possível notar que, nas grandes áreas das Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas (37% dos trabalhos encontrados) houve um aumento considerável em relação às demais, nos últimos 10 anos.

No entanto, é do interesse desta pesquisa olhar com mais atenção para as áreas das Ciências Exatas e Da Terra, Ciências Humanas e Multidisciplinar, que correspondem a 894 trabalhos (32,88% do total de 2719), dos quais 148 são teses de Doutorado e 606 dissertações de Mestrado de programas de pós-graduação de ensino acadêmico, 132 são dissertações de Mestrado Profissional e oito trabalhos de ensino profissionalizante.

A Figura 3 apresenta um gráfico com a produção anual, nas oito áreas de conhecimento de Educação e Ensino, de 1987 a 2021.

Figura 3 - Distribuição anual dos trabalhos de pesquisa relacionados à surdez nas áreas de Educação e Ensino no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES

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Analisando o gráfico mostrado na Figura 3, constata-se a tendência de crescimento no número de trabalho nessas áreas. Porém, é possível verificar que menos de 10% dos 894 trabalhos das Áreas de Educação e Ensino são da área de Ensino de Ciências e Matemática, algo que representa pouco mais que 3% de todos os registros encontrados no Catálogo de teses e dissertações da CAPES, no período de 1987 a 2021, evidenciando que a pesquisa em ensino de alunos surdos nessa área do conhecimento ainda é escassa. Destes trabalhos referem-se ao ensino de Física

seis dissertações e duas são teses, ressaltando ainda mais a escassez de pesquisas também nesta área do conhecimento.

Ainda assim, esses trabalhos trazem uma mudança de postura importante. Realizando a leitura flutuante nos títulos e resumos (BARDIN, 2016) observa-se que os trabalhos mais antigos fazem referência ao termo 'deficiente auditivo' enquanto os trabalhos mais recentes fazem referência ao termo 'surdo', algo que parece simples, mas que corrobora a tese levantada de mudança de paradigma.

Observa-se também, que o enfoque das estratégias usadas nas pesquisas direta ou indiretamente estão apoiadas na Língua de Sinais, seja na criação ou adoção de sinais para a tradução de conceitos científicos, seja na interação entre aluno(s), professores e/ou intérpretes ou na criação de tecnologia assistiva de acessibilidade em Libras, sendo esse outro aspecto positivo que corrobora a hipótese levantada por esse artigo.

## Conclusão

Considerando os dados obtidos no catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, fica evidente que o ensino de Física para surdos vem sendo desenvolvido de forma pontual ao longo das últimas cinco décadas e ainda carece de muito investimento e pesquisa, uma vez que ainda é demasiadamente incipiente, algo que foi constatado por Picanço (2022) em sua tese de Doutorado.

Contudo, conforme o que foi exposto na secção anterior, podemos chegar a três constatações importantes:

- a) observa-se uma diminuição no número de trabalhos nas grandes áreas das Ciências da Saúde e das Ciências Biológicas, e aumento do número de trabalhos nas Grandes áreas das Ciências Humanas e das Ciências Sociais Aplicadas;
- b) A designação dada aos sujeitos pesquisados muda ao longo do tempo de 'portador de deficiência auditiva', 'pessoa com surdez' ou 'deficiente auditivo' para 'surdo';
- c) O enfoque das pesquisas mais recentes passa a ser ou considerar efetivamente a Língua de Sinais aplicada ao conteúdo disciplinar.

Assim sendo, defende-se neste trabalho que esses três indícios encontrados na produção acadêmica, são um reflexo da mudança de paradigma do modelo clínico para modelo sócio - cultural e político da surdez. E, esses indícios sinalizam que houve, em diferentes períodos históricos, um maior número de pesquisas sobre surdez em determinadas áreas do conhecimento em detrimento de outras, algo que pode ter se refletido em uma paulatina mudança da visão do outro sobre a surdez e os diferentes métodos usados na educação de surdos ao longo das décadas.

## Referências

BARBETTA, Pedro Alberto. Estatística Aplicada às Ciências Sociais . 8. ed. Florianópolis: UFSC, 2012. 318 p.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições, 2016. v. 70.

BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 abr. 2002 . Dispõe sobre a Língua Brasileira de SinaisLibras e dá outras providências. Brasília: Diário Oficial da União, 2002.

BRASIL. Lei nº 12.319, de 1º set. 2010 . Regulamenta a profissão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS. Brasília: Diário Oficial da União, 2010.

BRASIL. Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021 . Altera a Lei nº 9.394, de 20 dez. 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), para dispor sobre a modalidade de educação bilíngue de surdos. Brasília: Diário Oficial da União, 2021a.

CARVALHO, Luiz Cláudio. Lendas da identidade: o conceito de Literatura Surda em perspectiva. Curitiba: Appris, 2019.

PICANÇO, Lucas Teixeira. CONSTRUINDO SIGNIFICADOS SOBRE O CONCEITO DE ENERGIA: RESULTADOS DE UMA UNIDADE DE ENSINO INCLUSIVA APLICADA A ESTUDANTES SURDOS DO ENSINO MÉDIO EM TEMPOS DE PANDEMIA. Tese (Doutorado em Ciências e Matemática) - Ensino de Ciências e Matemática, Universidade Luterana do Brasil, Curso de Doutorado, Canoas, 2022.

QUADROS, Ronice Müller (Org.). Estudos surdos I . Petrópolis: Arara Azul, 2006.

STROBEL, Karin Lilian. Surdos : vestígios culturais não registrados na história. 2008. 176 f. Tese (Doutorado) - Curso de Doutorado em Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008b. Cap. 6. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/91978. Acesso em: 26 abr. 2022.

THOMA, Adriana da Silva. Identidades e diferença surda constituídas pela avaliação. In : THOMA, Adriana da Silva. Cultura e avaliação: a diferença surda na escola. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2009.

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