TORNANDO-SE UM REVOLUCIONÁRIO QUÂNTICO: UMA ANÁLISE DE ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS EM POSTAGENS RELACIONADAS AO MISTICISMO QUÂNTICO EM MÍDIAS SOCIAIS
Bruna Karl, Isabel Martins
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2024
- Data
- 20/08/2024
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## TORNANDO-SE UM REVOLUCIONÁRIO QUÂNTICO: UMA ANÁLISE DE ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS EM POSTAGENS RELACIONADAS AO MISTICISMO QUÂNTICO EM MÍDIAS SOCIAIS
## BECOMING A QUANTUM REVOLUTIONARY: AN ANALYSIS OF DISCURSIVE STRATEGIES IN POSTS RELATED TO QUANTUM MYSTICISM ON SOCIAL MEDIA
## Bruna Karl 1 , Isabel Martins 2
1 Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde, brunakarl@outlook.com
2 Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde, isabelgrmartins@gmail.com
## Resumo
O presente trabalho representa um recorte de pesquisa de dissertação de mestrado que visou à compreensão do entendimento do fenômeno cultural do misticismo quântico em tempos de pós-verdades por meio de uma análise crítica do discurso (ACD) na mídia social Facebook. Nossas análises exploraram a hibridização de discursos sociais, inclusive daqueles relacionados à própria educação em ciências, na construção de discursos sobre o misticismo quântico. Apresentamos a análise discursiva de algumas destas estratégias, qual seja, aquela que estabelece possíveis conexões entre o misticismo quântico e o desenvolvimento de posturas comprometidas com o ativismo social e ações sociopolíticas no cotidiano. Concluímos pela necessidade de ampliar o repertório cultural do grande público de forma a fundamentar um posicionamento frente aos discursos do misticismo quântico, bem como para realizar ações sociopolíticas cientificamente fundamentadas.
Palavras-chave : Ensino de Física, Educação em Ciências, Análise Crítica do Discurso, Facebook, Física Quântica.
## Abstract
This work represents a section of a master's thesis research project that aimed to understand the cultural phenomenon of quantum mysticism in times of post-truth through a critical discourse analysis (CDA) on the social media Facebook. Our analyses explored the hybridisation of social discourses, including those related to science education itself, in the construction of discourses on quantum mysticism. We present the discursive analysis of some of these strategies, namely that which establishes possible connections between quantum mysticism and the development of attitudes committed to social activism and socio-political actions in everyday life. We conclude that there is a need to broaden the cultural repertoire of the general public in order to base a position on the discourses of quantum mysticism, as well as to carry out scientifically based socio-political actions.
Keywords : Physics Teaching, Science Education, Critical Discourse Analysis, Facebook, Quantum Physics.
## Contexto e objetivos
Neste trabalho, partimos da justificativa de que a física ensinada no espaço escolar deve auxiliar os estudantes a entenderem os seus cotidianos, instigar a curiosidade por novos conhecimentos além daqueles predefinidos nas matrizes curriculares (TERRAZZAN, 1992), bem como analisar criticamente informações supostamente relacionadas à ciência que circulam nas mídias sociais. Assim, apresentamos um recorte de uma dissertação de mestrado, que visou à compreensão do entendimento do fenômeno cultural do misticismo quântico em tempos de pós-verdades por meio de uma análise crítica do discurso (ACD) na mídia social Facebook.
A pesquisa discutiu o papel da educação em ciências e da divulgação científica na construção de posturas críticas em relação ao discurso do misticismo quântico e identificou estratégias discursivas por meio das quais este se apresenta. Nossas análises demonstraram formas pelas quais o discurso do misticismo quântico se constrói por meio da hibridização de discursos sociais, inclusive daqueles relacionados à própria educação em ciências.
Neste trabalho, apresentamos a análise discursiva de duas postagens na rede social que exemplifica uma destas estratégias, qual seja, aquela que estabelece possíveis conexões entre o misticismo quântico e o desenvolvimento de posturas comprometidas com o ativismo social e ações sociopolíticas no cotidiano. A importância da análise deste aspecto nos permite discutir como alusões a elementos discursivos presentes em discursos sociais contemporâneos, inclusive os educacionais, podem ser apropriados no sentido de reforçar o apelo e a suposta relevância de discursos que deturpam conhecimentos científicos.
## A análise crítica do discurso como referencial teórico-metodológico
Uma pesquisa ancorada na ACD busca formas de tornar práticos os desenvolvimentos teóricos sobre discurso por meio de análises de contextos discursivos da vida social (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999). A pesquisa que adota a ACD precisa identificar um problema que tenha como base as relações de poder, a naturalização de discursos particulares como sendo universais, e a
distribuição de natureza assimétrica de artifícios materiais e simbólicos presentes em práticas sociais (RESENDE; RAMALHO, 2019). Este problema é denominado de problema social e, no caso desta pesquisa, ele se enuncia como: o chamamento para ação sociopolítica com base em argumentações inapropriadas sobre física quântica (FQ). Enunciado o problema social, buscamos sua representação semiótica. Neste caso, identificamos discursos que se remetem ao misticismo quântico na mídia social Facebook. Realizado o reconhecimento de um problema social e de sua representação semiótica, analisa-se a conjuntura na qual este problema está inserido e conjunto de textos que se remetem à representação semiótica do problema, explorando efeitos de sentidos de formulações discursivas concretas à luz dos aspectos conjunturais. Por fim, enuncia-se soluções possíveis para que os obstáculos identificados na conjuntura sejam superados.
## Análise de conjuntura
A conjuntura deste problema envolve (i) aspectos histórico-filosóficos sobre o fenômeno cultural do misticismo quântico; (ii) discussões acerca dos conceitos de ação sociopolítica; e (iii) a prática social do letramento científico.
Segundo Pessoa Júnior (2011), o misticismo quântico é proveniente de interpretações da Teoria Quântica no âmbito do naturalismo animista, apresentando também vieses subjetivistas ou possíveis mesclas entre a Teoria Quântica e elementos religiosos. Nesta perspectiva, contemplar o fenômeno do misticismo quântico como decorrente de representações sociais e apropriações culturais do conhecimento científico, envolve a mobilização de aspectos das relações entre ciência e sociedade.
Entretanto, o que podemos observar no ensino de ciências tradicional é uma baixa promoção de arcabouços sociocientíficos, sociotecnológicos, socioeconômicos e sociopolíticos para criticidade frente às informações que circulam na sociedade e nas mídias sociais. Neste sentido, o letramento científico se faz necessário, pois demanda engajamento e participação sociais no reconhecimento de questões científicas, seja em promover relações destes conceitos com atividades cotidianas ou na mensuração de valores, crenças e atitudes presentes em textos, argumentos etc. (SØRVIK; MORK, 2015). Hodson (2014) defende que, mais fundamental que a ação coletiva, é a preparação para que esta ação possa ocorrer. Este processo de preparação contempla a investigação de possibilidades de ação em um determinado contexto,
avaliação da conformidade e da viabilidade, além de possíveis resoluções de problemas que possam vir a surgir durante a ação. Desta forma, é papel do ativista reconhecer quais ações possuem maiores níveis de urgência e factibilidade e registrálas em algum banco de dados para que elas possibilitem outras ações.
Nos aproximando do contexto educacional, o que podemos observar é a ausência de temáticas relativas à FQ nos currículos de física das escolas de educação básica. Pigozzo, Nascimento e Lima (2022, p. 78) destacam que há uma 'lacuna na formação acadêmica de licenciados e bacharéis [em física] para lidar com o tema, especialmente pela falta de conhecimento sobre os conceitos de FQ costumeiramente vinculados com o misticismo quântico [grifos nossos]'. Nesta perspectiva, há uma imprescindibilidade de se abordar alguns aspectos fundamentais da física não somente no ensino superior, mas também na educação de nível básico para que se estimule interpretações e ponderações críticas de mundo. Estes aspectos são compostos por conhecimentos da Física que possibilitam discussões sobre ciência e tecnologia 'tanto para uma familiarização com fenômenos naturais e artefatos tecnológicos contemporâneos quanto para a apropriação de referências conceituais na legitimação de discursos' (REZENDE JUNIOR; CRUZ, 2009, p. 306).
## Análise textual
Neste trabalho, priorizamos uma pesquisa empírica realizada na mídia social Facebook, partindo do suposto de que as mídias sociais são espaços propícios à existência de discursos das mais diversas naturezas (PIVARO; GIROTTO JÚNIOR, 2020), sejam elas científicas, pseudocientíficas, anticientíficas, negacionistas e de pós-verdades. Além disso, após uma breve investigação realizada pelas autoras nas mídias sociais, esta mostrou-se ser a que mais fomenta discussões acerca da FQ em contextos não científicos. Para definição do corpus , utilizamos a funcionalidade 'pesquisa' da plataforma para buscar vídeos publicados em português e no cenário brasileiro que incluíam os qualificadores 'Quântico' e 'Quântica'. Neste trabalho, apresentamos a análise da descrição de um destes vídeos, que relacionava argumentos de natureza sociopolítica na construção e defesa de elementos do misticismo quântico.
Na ACD, as análises são feitas a partir de marcas discursivas que simbolizam 'formas e significados textuais associados a maneiras particulares de representar, de
(inter)agir e de identificar(-se) em práticas sociais situadas' (VIEIRA; RESENDE, 2016, p. 114). Para esta pesquisa, priorizamos as seguintes categorias analíticas: representação de atores sociais e modalidade. A primeira identifica os atores da enunciação e permite uma interpretação sociossemântica, que inclui posicionamentos ideológicos (VIEIRA; RESENDE, 2016; RESENDE; RAMALHO, 2019). A segunda é responsável por identificar o quanto as pessoas se comprometem ao fazerem perguntas, afirmações, ofertas e/ou demandas. (VIEIRA; RESENDE, 2016).
Os fragmentos de análise dizem respeito às descrições de dois vídeos disponíveis na plataforma do Facebook intituladas, respectivamente, (i) D1: ' REVOLUCIONÁRIO QUÂNTICO I, II, III ' (ARGENTON, 2020) e (ii) D2: ' Mec. Quântica : O ATIVISMO QUÂNTICO - Amit Goswami ' (WEB, 2017). Até o momento do mapeamento, em junho de 2022, estas publicações contavam com menos de mil visualizações e apareciam nos resultados da busca com o qualificador 'Quântico'. Abaixo, apresentamos alguns fragmentos de texto que sustentam as nossas análises, e ressaltamos que as descrições podem ser encontradas na íntegra por meio de acesso aos links disponibilizados em nota de rodapé 1 .
Sob lentes da categoria analítica de representação de eventos e atores sociais, percebemos que o texto D1 representa, e interpela o leitor, por meio do uso do pronome de tratamento ' você ', (i) construindo-o como um potencial agente (' é você quem dita ') e convidando-o a uma ação coletiva, por meio do uso do pronome pessoal nós (' Vamos ') e (ii) nomeando-o como alguém que possui as qualidades necessárias para a missão que está sendo convocado (' revolucionário quântico '). Quem realiza a convocação é um destes revolucionários, cuja formação passa pela interação com outro ator social, representado de forma pessoal, nomeada e específica: ' Hélio Couto ' ou ' HC '. Quem convoca o faz de forma autônoma e voluntária, o que reforça o caráter agentivo e ativista daqueles comprometidos com a missão de divulgar o que é apresentado como mecânica quântica. A liderança de quem faz o apelo ao engajamento social em torno da causa é reforçado pelo verbos conjugados no imperativo afirmativo (' divulgue ' e ' auxilie '). No caso de D2, temos a identificação de outro ator social, também representado de forma pessoal, nomeada e específica. Os elementos de identificação do ator social são: nome (' Amit Goswami '), formação
acadêmica (' Doutor em Física, estudioso da Parapsicologia ') e profissão (' escritor '). O autor de D2 se utiliza da convocação deste ator social para explicar o que é o ativismo quântico e, por meio de um processo de intertextualidade com citação direta, ressalta que este tipo de ativismo é uma forma para alcançar um novo paradigma, além da ' busca pela transformação pessoal e da nossa sociedade a partir de fundamentos que não o materialismo: a física quântica, o desenvolvimento espiritual e nosso poder criativo ' (WEB, 2017).
No que diz respeito à modalidade, identificamos que os autores de D1 e D2 se comprometem em termos de verdade, o que pode ser visto pelo uso das modalidades epistêmica (ex. verbo 'ser' conjugado na terceira pessoa do singular do presente do indicativo - D1: ' é hora '; D2: ' é a busca pela transformação pessoal e da nossa sociedade '), e deôntica, isto é, (i) aparecem em D1 com o uso do verbo 'precisar' conjugado na terceira pessoa do singular no presente do indicativo (' o salto precisa ') para indicar uma necessidade em termos pessoais (' revolucionários quânticos atuando ') e de acontecimento de um fenômeno (' o salto quântico ') e (ii) em D2 à medida que o autor da descrição afirma, se utilizando do verbo modal 'dever' conjugado na terceira pessoa do singular no presente do indicativo, que a ' mudança na visão de mundo deve refletir em nosso comportamento, deve refletir em quem somos '. Desta forma, as modalidades deônticas e epistêmicas encontradas são categóricas e afirmativas, não permitindo espaços para que o leitor tenha dúvidas acerca das informações fornecidas na descrição.
Em relação à conjuntura, percebemos que estes fragmentos de análise evocam aspectos concernentes à Natureza da Ciência (NdC) por meio da referência à paradigma (D1: ' é hora de mudar de paradigma '; D2: ' o ativismo quântico é uma maneira de ir atrás dessa ideia, desse novo paradigma '), que se remete também a enunciados típicos do misticismo quântico identificados por Pessoa Júnior (2011, p. 293) e a aplicação do qualificador ' quântico ' a âmbitos não científicos (D1: ' revolucionários quânticos '; D2: ' ativismo quântico '). No que diz respeito à convocação do leitor para o ativismo, estes discursos não se relacionam com as ideias associadas ao ativismo científico, uma vez que este último baseia-se no conhecimento das bases epistemológicas e sociológicas do conhecimento científico enfatizadas por Hodson (2014).
Por fim, o desenvolvimento dos dispositivos eletrônicos (' celular ', ' GPS ', ' televisão ' e ' rádio '), e da FQ são mencionados de forma aligeirada e espaço-temporalmente descontextualizados em D1. O uso de expressões (' Mecânica Quântica ') e afirmações sem fundamentação (D1: ' 90% da civilização hoje é baseada na MQ [mecânica quântica]'; D2: ' As descobertas da física quântica nos permite, pela lógica científica, compreender que a consciência é a base de tudo, e não a matéria ') não são suficientes para mimetizar discursos científicos. Assim, perspectivas voltadas à promoção do letramento científico podem nos auxiliar no entendimento dos aspectos sociocientíficos, sociotecnológicos, socioeconômicos e sociopolíticos envolvidos no desenvolvimento da FQ e dos dispositivos eletrônicos mencionados, promovendo relações destes com as atividades cotidianas. Além disso, auxiliam no reconhecimento de crenças, atitudes e valores presentes na argumentação das descrições (SØRVIK; MORK, 2015) e que representam uma concepção particular dos autores dos textos. Isto reforça a importância da inserção de conteúdos relativos à Física Moderna e Contemporânea em geral, e da FQ, em particular, nos currículos de Física para que seja possível reconhecer com propriedade as referências conceituais presentes na validação de discursos (REZENDE JUNIOR; CRUZ, 2009).
## Considerações finais
As análises apresentadas exemplificam como os discursos do misticismo quântico em redes sociais podem mobilizar elementos discursivos que se assemelham a elementos presentes em outros discursos, inclusive aqueles da educação em ciências. Reforçam, assim, a necessidade de ampliar o repertório cultural do grande público por meio de práticas promotoras do letramento científico, em particular aquelas que dizem respeito à natureza, escopo e validação de teorias científicas.
## Agradecimentos e apoios
As autoras agradecem o apoio do CAPES/PROEX e da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ)/Programa Bolsa Nota 10.
## Referências
ARGENTON, Lucas Radin. Revolucionário Quântico I, II, III . 28 mar. 2020. Facebook: Lucas Radin Argenton. Disponível em: https://fb.watch/rx4qofmFbN/. Acesso em: 07 abr. 2023.
CHOULIARAKI, Lilie; FAIRCLOUGH, Norman. Discourse in Late Modernity : Rethinking Critical Discourse Analysis. Grã-Bretanha: Edinburgh University Press, 1999.
HODSON, Derek. Becoming Part of the Solution: Learning about Activism, Learning through Activism, Learning from Activism. In : BENCZE, Larry; ALSOP, Steve (ed.). Activist Science and Technology Education . New York: Springer Dordrecht, 2014.
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