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CIÊNCIA E LITERATURA OU LITERATURA E CIÊNCIA? PRODUÇÃO DE CORDEL NO ENSINO DE FÍSICA

Lívia Freitas, André Rodrigues

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
20/08/2024
Linha de pesquisa
Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CIÊNCIA E LITERATURA OU LITERATURA E CIÊNCIA? PRODUÇÃO DE CORDEL NO ENSINO DE FÍSICA

## SCIENCE AND LITERATURE OR LITERATURE AND SCIENCE? CORDEL PRODUCTION IN PHYSICS TEACHING

## Lívia Freitas 1 , André Rodrigues 2

1 Instituto de Física/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências/Universidade de São Paulo, livia\_dfreitas@usp.br

2 Instituto de Física/Departamento de Física Aplicada/Universidade de São Paulo, rodrigues.am@usp.br

## Resumo

Este é um trabalho de estudo de caso que aborda aspectos relacionados à Literatura brasileira no Ensino de Física em uma escola pública da cidade de São Paulo (SP). Desenvolvemos duas sequências didáticas em que na primeira trabalhamos resolução de problemas abertos, leitura e produção de cordéis em aulas experimentais e na segunda mantivemos a leitura e produção de cordéis, mas discutimos aspectos éticos da ciência e mudanças climáticas. As duas sequências foram desenvolvidas com turmas de primeira série do Ensino Médio. Nossa pesquisa está baseada na Teoria da Atividade Histórico-Cultural que compreende a atividade como um sistema complexo a ser compreendido integralmente. Ao analisar os resultados obtidos, entendemos que a produção de cordéis possui alta complexidade, tomando o foco dos estudantes em detrimento de discussões conceituais sobre os temas trabalhados em sala de aula. Dessa forma, buscamos entender como são estabelecidas essas relações entre literatura e ciências no ensino.

Palavras-chave : Ensino de Física; Ciências e Literatura; Teoria da Atividade Histórico-Cultural.

## Abstract

This is a case study that addresses aspects related to Brazilian Literature in Physics Teaching in a public school in the city of São Paulo (SP). We developed two didactic sequences in which in the first we worked on solving open problems, reading and producing strings in experimental classes and in the second we maintained reading and producing strings, but discussed ethical aspects of science and climate changes. The two sequences were developed with first grade high school classes. Our research is based on the Cultural-Historical Activity Theory, which understands activity as a complex system to be understood completely. When analyzing the results obtained, we understand that the production of twine is highly complex, taking the students' focus to the detriment of conceptual discussions on the topics worked on in the classroom. In this way, we seek to understand how these relationships between literature and science are established in teaching.

Keywords : Physics Education; Science and Literature; Cultural-Historical Activity Theory.

## Introdução

As discussões acerca do papel da leitura e da escrita no ensino formal de ciências têm grande relevância, pois essas atividades de leitura e escrita estão envolvidas em todas as áreas do conhecimento, sendo responsabilidade dos educadores de diferentes áreas trabalhá-las (NAVAS, 2020). Porém, muitas dessas discussões estão no campo teórico e acreditamos ser necessário entender como essas questões se desenvolvem na sala de aula.

Para isso, decidimos investigar a leitura e produção textual no ensino de física por meio do cordel , uma literatura tipicamente brasileira. Nessa perspectiva, realizamos uma revisão bibliográfica exploratória em que encontramos poucos trabalhos que exploram a produção textual, com a maioria dos artigos utilizando a leitura dos cordéis em sala para explorar conceitos de interesse. Outra questão interessante, é que a maioria desses artigos apontam o uso do cordel como uma tarefa prazerosa e motivadora no ensino de Física. Desse modo, temos como pergunta de pesquisa: o que os estudantes expressam na escrita de poemas sobre temas da física? Para responder a esta pergunta, desenvolvemos duas sequências didáticas em uma escola pública da cidade de São Paulo (SP). Elas foram desenvolvidas em dois momentos diferentes e possuem objetivos distintos. No primeiro momento, trabalhamos uma sequência didática com desenvolvimento de problemas abertos (BARKOVICH; CARREÑO, 2013) sobre astronáutica e a leitura e a produção de cordéis para estruturar os problemas desenvolvidos e, no segundo, trabalhamos discussões sobre ética na ciência e mudanças climáticas e a leitura e a produção de cordéis sobre esses temas. O grande diferencial entre esses momentos são os espaços que a Física e a literatura ocupam durante as aulas. Portanto, buscamos entender se a Física se sobrepõe à literatura e vice-versa, fazendo um comparativo entre esses dois momentos.

## Referencial teórico

Utilizamos como referencial teórico para este trabalho a Teoria da Atividade Histórico-Cultural (TACH). A TACH (ENGESTRÖM, 2001) permite compreender o processo de ensino-aprendizagem inserido em uma estrutura contextual ampla em que as ações dos sujeitos ganham sentido. A atividade como elaborada por

Engeström (2001) é mediatizada por artefatos culturais e é direcionada a um objeto. Abaixo segue um esquema como proposto por Vygotski (1991), que embasa a TACH, e que exemplifica como a relação entre sujeito e objeto é mediada por ferramentas (signos ou instrumentos internos e/ou externos).

FIGURA 1. Estrutura da ação mediada esquematizada por Vygotski.

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Fonte: Vygotski, (1991, p. 45).

No esquema acima, a letra S representa o sujeito da atividade, a R representa a resposta ou objeto e a X representa a ferramenta . No nosso contexto, entendemos que essa estrutura nos ajuda a enxergar o problema como uma unidade, chamando-nos atenção para todas as variáveis envolvidas. Podemos entender o cordel como ferramenta para a aprendizagem do ensino de física ou como objeto de estudo nele mesmo. Olhar para o problema por meio desta perspectiva possibilita a compreensão de como a literatura interfere no processo de ensino aprendizagem de conteúdos científicos e vice-versa.

## Metodologia

A pesquisa foi realizada em uma escola pública que participa do Programa de Ensino Integral (PEI) na cidade de São Paulo - SP. O PEI possui um conjunto de disciplinas dividido em formação geral básica (que possui disciplinas como português e matemática) e parte diversificada (que possui disciplinas diferentes das que estão presentes na grade de disciplinas das escolas regulares). Nós trabalhamos em duas dessas disciplinas. Nesta escola, as aulas têm 45 minutos e é recomendado que todas as atividades sejam realizadas no horário da aula, pois os estudantes passam o dia na escola desenvolvendo diferentes tarefas.

Aplicamos duas sequências didáticas em dois momentos diferentes na escola. Chamaremos a primeira aplicação de momento 1 e a segunda de momento 2 . O momento 1 ocorreu no último bimestre de 2022 junto com a professora da turma, que possui formação em Licenciatura em Física, na disciplina de práticas experimentais em uma turma de primeira série do Ensino Médio. Essa é uma

disciplina para desenvolver experimentos na área de ciências da natureza. Como a professora é licenciada em Física, utilizamos experimentos dessa área. Todas as produções desenvolvidas neste momento foram realizadas em grupos de 5 alunos.

Já o momento 2 foi realizado no terceiro bimestre de 2023 com outra turma de primeira série em aulas da disciplina orientação de estudos . Essa disciplina do PEI tem como objetivo auxiliar os alunos em temas que eles têm dificuldade com relação à Língua Portuguesa e/ou a Matemática. A professora dessa disciplina, que tem formação em Educação Física, ministrava aulas com temas voltados para a Língua Portuguesa. Nesse segundo momento as produções foram realizadas em duplas. As sequências podem ser conferidas em detalhes nas figuras abaixo.

FIGURA 2. Sequência desenvolvida em 2022.

Fonte: autores. FIGURA 3. Sequência desenvolvida em 2023.

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XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024

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Fonte: autores.

Nossa estratégia metodológica consiste em uma pesquisa qualitativa aplicada de estudo de caso único (YIN, 2001). A coleta de dados consistiu em gravações audiovisuais das aulas e de interações entre os integrantes de um grupo/dupla previamente selecionados, notas de campo, questionário e as produções dos estudantes.

## Resultados e discussão

No primeiro momento de aplicação demos enfoque aos problemas abertos a fim de trabalhar com os estudantes aspectos epistemológicos da ciência, história da ciência e conceitos de Física, mais especificamente Leis de Newton. Dessa forma, o cordel entrou como mecanismo para estruturar os conhecimentos desenvolvidos ao longo do bimestre. Os estudantes se envolveram em todas as partes do processo, mas expressaram dificuldades tanto para o desenvolvimento dos problemas abertos quanto para a escrita do cordel. Na resolução dos problemas abertos, ficou evidente o receio em tentar diferentes soluções e durante a escrita, eles apresentaram dificuldades em entender questões de rima e métrica, já que muitos não lembravam de ter estudado esses assuntos em anos escolares anteriores. Esses aspectos ficam evidentes nas estrofes escritas pelos alunos e que já foram expostas em trabalhos anteriores ( ver FREITAS e RODRIGUES, 2023).

Esperávamos que o conteúdo do cordel se concentrasse nos conceitos discutidos ou nos procedimentos realizados pois solicitamos que os cordéis fossem

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escritos para divulgação na escola, mas os estudantes aproveitaram da estrutura do poema para falar sobre os sentimentos que afloraram durante a resolução dos problemas abertos, como as expectativas frustradas e a satisfação de ver os lançamentos. Para além disso, percebemos que durante a produção dos versos, os alunos discutiram muito mais sobre a estrutura de rima do texto do que sobre o conteúdo que seria escrito. Utilizando a estrutura da TACH, entendemos que no momento da produção do poema o cordel se tornou objeto da atividade, em que o foco estava em utilizar as ferramentas disponíveis para aprender e dominar a forma do cordel em vez de ser utilizado como ferramenta para estruturação do conhecimento científico, que era o que esperávamos. Assim, o conteúdo do texto, o conceito de rima e materiais básicos como lápis, papel e borracha, por exemplo, se tornaram as ferramentas para a atividade de escrita das estrofes.

Compreendemos então que a produção textual do poema tem um fator de complexidade maior que o previsto inicialmente e reestruturamos a sequência didática. No segundo momento, planejamos dar mais atenção às aulas sobre leitura e escrita do cordel, tratando-o como objeto da atividade para que, uma vez dominado, ele pudesse ser utilizado pelos estudantes como ferramenta para a aprendizagem de conhecimentos científicos, em que este seria o objeto da atividade. Novamente os estudantes se envolveram em todos os processos e apresentaram dificuldades. Assim como os alunos da turma anterior, eles comentaram que não estudaram conteúdos como rima e métrica no ensino fundamental, o que adiciona mais complexidade à tarefa. Os estudantes conseguiram relacionar as discussões que promovemos com atividades realizadas em outras disciplinas, como Filosofia e Física, que já trabalharam temas semelhantes, e com notícias recentes em redes sociais. Novamente, a dificuldade maior foi em construir o poema respeitando a quantidade de versos, rimas e métrica. Em contrapartida, devido o maior tempo para desenvolver discussões, os estudantes conseguiram se aproximar mais da estrutura do cordel e articular melhor os conhecimentos sobre o tema. Percebemos então que, na sequência desenvolvida em 2022, os estudantes precisaram articular muitos conhecimentos novos e complexos: compreensão da dinâmica de resolução de problemas abertos, conceitos envolvidos no processo, estrutura do cordel e sua produção. Enquanto na segunda sequência, os estudantes já possuíam certa bagagem sobre a temática científica trabalhada e focaram na aprendizagem e

domínio da forma de escrita do cordel. Mesmo os estudantes conhecendo outras formas de poemas, o movimento para transformar esse conhecimento em uma forma nova não é tão simples quanto pode parecer. Com esse panorama conseguimos responder a nossa pergunta 'o que os estudantes expressam na escrita de poemas sobre temas da física?'. A produção de poemas nas condições empregadas de: baixo hábito e habilidade de leitura e escrita dos estudantes, pouco conhecimento sobre a composição de poemas e o pouco tempo para a discussão aprofundada dos conceitos físicos e literários apropriados, resultou na marginalização dos conhecimentos científicos desenvolvidos e no destaque dos conhecimentos literários. Para que os professores e alunos consigam utilizar a produção literária como apoio para a aprendizagem de Física, estes precisam dominar primeiro as formas de expressão literária sugerida.

Além dos pontos destacados acima, ambas aplicações têm pontos de semelhança interessantes. Um deles é a insegurança das professoras para planejar e executar essas propostas. As duas professoras envolvidas se sentiram pouco confortáveis em participar do planejamento das atividades, considerando também que elas tinham pouco tempo para se dedicar a isto e, consequentemente, protagonizaram pouco as aulas mais expositivas - ao explicar os problemas abertos e conceitos envolvidos, no primeiro momento, e ao explicar o cordel, guiar a discussão sobre mudanças climáticas e orientar a produção de cordéis, no segundo momento. Entendemos então que essas propostas levam tempo em sala de aula e de planejamento e preparação do professor, o que pode causar distanciamento ao professor que não tem proximidade com esses temas. Outro fator importante é que em ambos os casos não observamos aprendizagem significativa de conceitos físicos novos, então entendemos que a produção de cordéis pode servir melhor como uma ferramenta para a expressão de sentimentos e percepções dos estudantes sobre determinado assunto que para a organização sistemática de conhecimentos científicos.

## Conclusão

Este trabalho organiza alguns mecanismos em sequências que envolvem a leitura e a produção de cordéis no ensino de física, considerando a Teoria da Atividade Histórico-Cultural como referencial teórico. A partir de nossos dados e

análise, observamos que o cordel, como uma produção literária, possibilita novas ferramentas de expressão para que os alunos lidem com as emoções associadas a resolução dos problemas abertos, mas que a produção de poemas é uma tarefa complexa, que muitas vezes é destacada na literatura sobre o tema apenas como tarefa lúdica e motivadora, e que deve primeiro ser tratada como objeto da atividade para depois ser utilizada como ferramenta para a aprendizagem de conhecimento científico. Os resultados apresentados nos ajudam a entender a complexidade de propostas como essa e podem ajudar o planejamento de professores que pretendem trabalhar com esta temática.

## Referências

BARKOVICH, M.; CARREÑO, A. Un modelo para la distribución de semáforos en una calle como problema integrador en los cursos introductorios de las carreras de Ingeniería. Latin American Journal of Physics Education , [s. l.], v. 7, n. 1, p. 63-67, Março 2013. Disponível em:

http://www.lajpe.org/march13/9\_LAJPE\_734\_Mateo\_Barkovich\_preprint\_corr\_f.pdf. Acesso em: 5 out. 2023.

ENGESTRÖM, Y. Expansive learning at work: toward an activity theoretical reconceptualization. Journal of Education and Work , v. 14, n. 1, p. 133-156, 1 fev. 2001. DOI: https://doi.org/10.1080/13639080020028747. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/13639080020028747. Acesso em: 19 out. 2021.

FEITOSA, S. dos S. et al. Uma sequência didática utilizando a literatura de cordel e a arte das histórias em quadrinhos para inserção de tópicos de Física Quântica no Ensino Médio. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , ago. 2020. Disponível em:

v. 37, n. 2, p. 662-694, 12 https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/2175-7941.2020v37n2p662.

Acesso em: 15 ago. 2022.

FREITAS, L.; RODRIGUES, A. Ciência e literatura: produção de cordéis e resolução de problemas abertos. Revista De Enseñanza De La Física , v.35, n. extra, p. 131-138. Disponível em:

https://revistas.unc.edu.ar/index.php/revistaEF/article/view/43287. Acesso em: 10 dez. 2023.

NAVAS, Diana. Literatura e ciência: campos antagônicos ou complementares?. Cienc. Cult. , São Paulo , v. 72, n. 1, p. 37-40, Jan. 2020 . Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci\_arttext&amp;pid=S0009-672520200001 00012&amp;lng=en&amp;nrm=iso. Acesso em: 21 nov. 2023.

VYGOTSKI, L. S. A formação social da mente . 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2001. v. 13.

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