Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

A EPISTEMOLOGIA DE LUDWIK FLECK NA ÁREA DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA: UM OLHAR PARA OS EPEFs

Lucas Carvalho Pacheco, Cristiane Muenchen

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
20/08/2024
Linha de pesquisa
Epistemologia, Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2024

Texto completo

## A EPISTEMOLOGIA DE LUDWIK FLECK NA ÁREA DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA: UM OLHAR PARA OS EPEFs

## THE LUDWIK FLECK'S EPISTEMOLOGY IN THE AREA OF PHYSICS TEACHING: A LOOK AT THE EPEFs

Lucas Carvalho Pacheco 1 , Cristiane Muenchen²

- 1 Universidade Federal de Santa Maria/ PPGEMEF, lclucascarvalhopacheco@gmail.com
- 2 Universidade Federal de Santa Maria/ Departamento de Física, cristiane.muenchen@ufsm.br

## Resumo

De acordo com os pressupostos epistemológicos de Ludwik Fleck, a construção do conhecimento científico é determinada por sua gênese sócio-histórica. No campo da Educação em Ciências, diversos levantamentos evidenciam uma crescente evolução de trabalhos publicados nesta área que utilizam a Epistemologia de Ludwik Fleck. Nesse sentido, o problema que permeia este estudo é: como a epistemologia de Ludwik Fleck vem sendo utilizada na área de Pesquisa em Ensino de Física? Para responder este problema, foi realizado um levantamento bibliográfico nas atas dos EPEFs, com recorte temporal de 2010 até 2022. A análise de dados foi balizada pelos pressupostos da Análise Textual Discursiva (ATD), na qual emergiram as seguintes categorias: Caracterização do processo de produção do conhecimento, Articulação entre Fleck e outros autores, Análise de discursos e/ou fenômenos, e, por fim, Circulação de Saberes Docentes. De forma geral, observou-se que os pressupostos epistemológicos de Fleck têm contribuído para a demarcação do espaço escolar como um espaço de circulação de ideias e, também, como um espaço de produção de conhecimento.

Palavras-chave : Epistemologia. Ludwik Fleck. Ensino de Física.

## Abstract

For the Epistemology of Ludwik Fleck, the construction of scientific knowledge is determined by its socio-historical genesis. In the field of Science Education, several surveys show a growing evolution of works published in this area that use Ludwik Fleck's Epistemology. In this sense, the problem that permeates this study is: how has Ludwik Fleck's epistemology been used in the area of Physics Teaching? To answer this problem, a bibliographical survey was carried out in the minutes of the EPEFs, with a period from 2010 to 2022. Data analysis was guided by the assumptions of Discursive Textual Analysis (ATD), in which the following categories emerged: Characterization of the process of production of knowledge, Articulation between Fleck and other authors, Analysis of discourses and/or phenomena, and, finally, Circulation of Teaching Knowledge. In general, it was observed that Fleck's epistemological assumptions have contributed to the demarcation of the school space as a space for the circulation of ideas and, also, as a space for the production of knowledge.

Keywords : Epistemology. Ludwik Fleck. Teaching Physics.

## A Epistemologia de Ludwik Fleck

Ludwik Fleck foi um médico e microbiologista que desenvolveu suas pesquisas no âmbito do diagnóstico da tifo e da sífilis. Contudo, dedicou horas de estudos à Filosofia e Sociologia da Ciência, publicando sua principal obra no campo epistemológico em 1935, intitulada Gênese e desenvolvimento de um fato científico (2010), influenciado pela Escola Polonesa da Filosofia da Medicina (MUENCHEN; DELIZOICOV, 2010). Embora publicada em 1935, em alemão, esta obra foi ganhar notoriedade apenas na segunda metade do século XX, especialmente com a publicação do livro The Structure of Scientific Revolutions (KUHN, 1962), em que o epistemólogo e físico estadunidense Thomas Kuhn citou a obra de Fleck, em seu prefácio.

Segundo Fleck (2010), a construção do conhecimento científico é determinada pela sua gênese sócio-histórica, em que as interações entre sujeito e objeto são realizadas no interior de um Coletivo de Pensamento e mediadas por um terceiro fator: o Estado de Saber. Ao descrever a trajetória histórica do conceito da Sífilis, Fleck coloca que o processo de construção do conhecimento é o resultado de interações sociais, 'uma vez que o respectivo 'estado do saber' ultrapassa os limites dados a um indivíduo' (FLECK, 2010, p. 82). Assim sendo, o conhecimento é construído a partir de um coletivo de pessoas que são portadoras de um Estilo de Pensamento e não de um ou outro pesquisador. Este coletivo de pessoas é denominado Coletivo de Pensamento, em que é estruturado a partir de um Círculo Esotérico e Exotérico. O Círculo Esotérico é formado pelos 'especialistas', em que seus pensamentos e ações são pertencentes ao Estilo dominante de Pensamento. No que tange ao Círculo Exotérico, o mesmo é formado pelos 'leigos' ou 'leigos formados', que passam a interagir com o Círculo Esotérico a partir da circulação intracoletiva de ideias (FLECK, 2010).

Nessa perspectiva, a circulação de ideias pode ser intracoletiva (entre os Círculos Exotéricos e Esotéricos) ou intercoletiva (entre diferentes Coletivos de Pensamento). Segundo Fleck (2010), a circulação de ideias nos Coletivos de Pensamento científico ocorre a partir de quatro formas sociais de pensamento, sendo elas: Ciência dos Periódicos, Ciência dos Manuais, Ciência dos Livros Didáticos e, por fim, Ciência dos Manuais.

Com base em todas as discussões epistemológicas realizadas nos parágrafos anteriores, o problema que permeia este estudo é: Como a Epistemologia de Ludwik Fleck vem sendo utilizada na área de Pesquisa em Ensino de Física?

## Aspectos Metodológicos

Para responder ao problema de pesquisa proposto, foi realizado um estudo bibliográfico de natureza qualitativa nas atas dos Encontros de Pesquisa em Ensino de Física (EPEF), desde 2010. Este recorte temporal justifica-se por ter um significativo aumento do número de produções que utilizam a Epistemologia Fleckiana nesta segunda década do século XXI (LORENZETTI; MUENCHEN; SLONGO, 2018; SOUZA; MARTINS, 2021). Ao todo, dos 1155 trabalhos publicados nos EPEFs desde 2010, apenas 15 emergem com a palavra de busca 'Fleck', ou seja, aproximadamente 1,3% do total de trabalhos publicados. Após a leitura na íntegra destes trabalhos, foram selecionados apenas os que utilizam a Epistemologia Fleckiana no desenvolvimento do estudo. Desta forma, retirando os estudos que apenas citam a Epistemologia Fleckiana, o corpus de análise deste estudo é composto por treze trabalhos, sendo eles expostos no quadro a seguir.

Quadro 1 corpus de análise do estudo

XX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2024Fonte: Autores

Neste levantamento bibliográfico, foram retirados os seguintes dados: título, ano, autores(as) e instituição, além de terem sido retirados excertos que caracterizam a utilização de Fleck no estudo. No que tange à análise de dados, a mesma foi balizada pelos pressupostos da Análise Textual Discursiva (ATD), por meio dos processos de Unitarização, Categorização e Comunicação (MORAES; GALIAZZI, 2007). Na ATD, as unidades de significado são excertos que buscam responder ao problema de pesquisa. A partir desta análise, emergiram as seguintes categorias: Caracterização do processo de produção do conhecimento, Articulação entre Fleck e outros autores, Análise de discursos e/ou fenômenos, e, por fim, Circulação de Saberes Docentes.

## A Epistemologia de Ludwik Fleck: um breve panorama na Pesquisa em Ensino de Física

Antes de adentrar nas discussões referentes às categorias emergentes, acredita-se ser pertinente realizar um breve panorama da Epistemologia de Ludwik Fleck na área de Pesquisa em Ensino de Física. Observando os dados retirados da análise, evidencia-se que o ano de 2020 foi ano com o maior número de trabalhos publicados que utilizam Fleck no desenvolvimento da pesquisa, como pode ser observado no gráfico a seguir.

Gráfico 1 - Trabalhos publicados que utilizam a Epistemologia Fleckiana por ano

Fonte: Autores

<!-- image -->

A partir deste gráfico, observa-se uma nítida presença da Epistemologia de Ludwik Fleck na área de Pesquisa em Ensino de Física, porém uma presença constante na última década, com pelo menos um trabalho publicado por ano. Ainda, pode-se observar no gráfico a seguir as instituições onde estes trabalhos foram produzidos.

Gráfico 2 - Instituições em que os trabalhos foram produzidosFonte: Autores

<!-- image -->

Com base neste gráfico, percebe-se a relevância da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) na produção e disseminação de conhecimentos que utilizam a Epistemologia Fleckiana em suas análises e/ou discussões. É importante destacar que este dado vai ao encontro dos estudos de Lorenzetti (2008) e Lorenzetti, Muenchen e Slongo (2018), que evidenciam a UFSC como um importante centro de estudo de Ludwik Fleck no país. Por fim, pode-se analisar, a partir do quadro 1, os autores mais recorrentes que utilizam a Epistemologia Fleckiana na área de Pesquisa em Ensino de Física. Dentre todos os autores, destacam-se aqueles que publicaram mais de um trabalho nos últimos sete EPEFs, sendo eles: Henrique César da Silva,

Eliéverson Guerchi Gonzales, André Ferrer Martins, João José Caluzi e Joselaine Setlik.

## Como vem sendo utilizada a Epistemologia de Ludwik Fleck na Pesquisa em Ensino de Física?

Como supracitado, a partir da ATD emergiram quatro categorias. Nesse sentido, salienta-se, desde já, que estas categorias não serão aprofundadas o quanto deveriam, por conta do limite de páginas.

A categoria 'Caracterização do processo de produção do conhecimento' emergiu, especialmente, a partir dos trabalhos T1, T5, T6, T11, T12 e T13. Dentre as características principais destes trabalhos, está a discussão dos processos de produção do conhecimento científico da Ciência da Natureza/Física e sua importância na formação de professores. Nesse sentido, pode-se observar os excertos a seguir:

[...]analisar à luz da epistemologia de Ludwik Fleck (1986-1961) a construção da teoria eletromagnética clássica (T6\_U1).

Em função de tudo isso, a partir de 2012, temos despendido esforços no sentido de introduzir particularmente duas modificações na disciplina de História da Física e Epistemologia na formação de professores de Física [..] a ciência como um processo histórico-evolutivo em que ideias e teorias sofrem pequenas e contínuas mutações que, com o passar do tempo, modificam estilos de pensamento de uma época para outra, como argumenta Ludwik Fleck (T5\_U1, grifo nosso).

A partir desse recorte histórico, envolvendo a disputa entre duas hipóteses científicas, pode-se refletir tanto no que se refere à prática individual do cientista frente a um problema do seu objeto de pesquisa quanto aos elementos sociais que o cerca. Percebe-se, do ponto de vista da teoria fleckiana, que Lenard e Einstein não compartilhavam do mesmo estilo de pensamento (T13\_U1).

Além disso, cabe destacar o T1, em que utilizou a Epistemologia Fleckiana para caracterizar um processo de produção do conhecimento no campo da Pesquisa Ensino de Física/Educação em Ciências, como evidenciado no excerto a seguir:

Nessa pesquisa procura-se caracterizar os processos da produção de conhecimentos que culminaram com a proposição dos 3MP, pelo grupo de investigadores em ensino de Ciências/Física. Assim, uma análise com base em critérios epistemológicos se apresenta como um dos fundamentos para a compreensão desses processos (T1\_U1, grifo nosso).

No que tange à categoria 'Articulação entre Fleck e outros autores', destacam-se os trabalhos T2 e T9, em que articulam os pressupostos de Fleck com Freire e Bakhtin, como pode-se observar a seguir:

[...] é necessário que o educador problematizador conheça dialogicamente os diversos estilos de pensamento dos coletivos com os quais pretende dialogar

criticamente, pois isto contribui para o sucesso da sua intervenção pedagógica, uma vez que, segundo Fleck (1929), as características dos indivíduos interferem no processo de construção do conhecimento e que para Freire 'a ação educativa e política não pode prescindir do conhecimento crítico dessa situação, sob pena de se fazer 'bancária' ou de pregar no deserto' (FREIRE, 1970, p. 87) (T2\_U1, grifo nosso).

[...] pensamos a epistemologia de Ludwik Fleck, que enfatiza aspectos sociais na construção dos conhecimentos científicos, em proximidade de uma concepção dialógica de mundo, convergindo com a teoria da linguagem de Mikhail Bakhtin (T9\_U1).

Diante dos excertos anteriores, pode-se observar que alguns trabalhos do campo da Pesquisa em Ensino de Física buscam articular os pressupostos de Fleck do campo epistemológico com pressupostos, essencialmente, de outros campos como o Educacional e o da Linguagem. No que se refere a categoria 'Análise de discursos e/ou fenômenos', observou-se que a Epistemologia Fleckiana vem sendo utilizada na análise de discursos e/ou fenômenos - sociais e/ou físicos. Nesse sentido, destacam-se os trabalhos T7 e T8, em que utilizaram a Epistemologia de Fleck para analisar discursos e fenômenos, como o fenômeno social do Terraplanismo.

Considerando o TP [Terraplanismo] um fenômeno social contemporâneo, com características próprias de pensamentos que se formam em torno de um grupo com certo fechamento, acreditamos que seja oportuno estudá-lo a partir do campo da sociologia do conhecimento. E, nesse terreno, pretendemos considerar, para a continuidade da pesquisa, o referencial teórico oferecido por Ludwik Fleck (1896-1961) (T7\_U1).

O que nos interessa, aqui, é destacar que conceitos da sociologia de Fleck são úteis para reinterpretar o discurso de Snow (T8\_U1).

Na quarta e última categoria, intitulada 'Circulação de saberes docentes', os trabalhos utilizam do referencial epistemológico de Ludwik Fleck para estudar e demarcar a escola enquanto um espaço de 'circulação de ideias' (categoria fleckiana), como pode ser observado nas unidades de significado a seguir:

Pressupomos que a escola funciona numa região de circulação de discursos e práticas que ligam o científico com a sociedade mais ampla. Esse espaço é tecido por uma variada gama de textos em circulação, tanto escritos, imagéticos, quanto audiovisuais. É o que o Fleck (2010) chamaria de círculo exotérico, o dos não especialistas que interagem por sua vez com o círculo esotérico, o dos especialistas (T3\_U3, grifo nosso)

Entre as inúmeras questões que remetem à complexidade e especificidade desses saberes, está a da sua circulação . Como esses saberes se constituem enquanto textos para poderem circular se a forma artigo, característica da circulação esotérica não se adéqua à natureza dos saberes da docência? (T4\_U2, grifo nosso)

- [...] a epistemologia histórico-social de Fleck (2010) contribui para dar visibilidade ao lugar do professor como membro de uma comunidade exotérica de produção de conhecimentos escolares e saberes docentes (T4\_U3).

Como pode ser observado nas unidades de significado anteriores, a circulação de saberes docentes auxilia na circulação de ideias, tanto no âmbito de conhecimentos científicos da Física - ligando o saber científico com a sociedade mais ampla - quanto no âmbito de circulação de conhecimento científico do campo de Pesquisa em Ensino de Física. Outrossim, o excerto T4\_U3 salienta que a Epistemologia de Fleck auxilia na demarcação do professor enquanto sujeito de um círculo exotérico de produção de conhecimentos escolares e de saberes docentes.

## Considerações Finais

Com base nas discussões realizadas ao longo dos parágrafos anteriores, este estudo almejou apresentar um panorama da Epistemologia de Ludwik Fleck na área de Pesquisa em Ensino de Física. Além disso, buscou-se evidenciar como este referencial epistemológico vem sendo utilizado nesta área, desde 2010.

De maneira geral, observou-se que os pressupostos epistemológicos de Fleck tem contribuído para a demarcação do espaço escolar como um espaço de circulação de ideias e, também, como um espaço de produção de conhecimento. Além disso, alguns autores da área utilizam da Epistemologia Fleckiana para a compreensão da produção do conhecimento científico, tanto na área de Física quando na área de Pesquisa em Ensino de Física/Educação em Ciências.

Salienta-se, novamente, que algumas discussões não foram aprofundadas neste estudo por conta da limitação de número de páginas. Por fim, incentiva-se pesquisas que utilizam a Epistemologia Fleckiana em seus aspectos teóricometodológicos.

## Referências

FLECK, Ludwik. Gênese e desenvolvimento de um fato científico . Belo Horizonte/MG: Fabrefactum, 2010.

KUHN, Thomas Samuel. The Structure of Scientific Revolutions . 1 ed., enlarged. Chicago and London: University of Chicago Press, 1962.

LORENZETTI, Leonir. Estilos de Pensamentos em Educação Ambiental : Um Estudo a partir das Dissertações e Teses. Tese (Doutorado em Educação Científica e Tecnológica) Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008.

LORENZETTI, Leonir; MUENCHEN, Cristiane; SLONGO, Ione. A crescente presença da epistemologia de Ludwik Fleck na pesquisa em educação em ciências no Brasil. Revista Brasileira de Ensino de Ciências e Tecnologia , v.11, p.373-404, 2018.

MORAES, Roque; GALIAZZI, Maria do Carmo. Análise textual discursiva . Ijuí: Unijuí, 2007.

MUENCHEN, C.; DELIZOICOV, D. Os Três Momentos Pedagógicos: um olhar históricoepistemológico. In: XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, Águas de Lindóia, 2010.

SOUZA, B.A.; MARTINS, A.F.P. Um panorama da epistemologia de Ludwik Fleck em periódicos brasileiros da área de pesquisa em ensino de ciências. Revista Insignare Scientia, v.4, n.6, 2021.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.