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O espaço apropriado e o docente licenciado em Física: Uma dualidade disposicional no território de São Paulo

Felipe Muneratto, Graciella Watanabe

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XX
Ano
2024
Data
20/08/2024
Linha de pesquisa
Avaliação, Currículos E Políticas Em Educação E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O ESPAÇO APROPRIADO E O DOCENTE LICENCIADO EM FÍSICA: UMA DUALIDADE DISPOSICIONAL NO TERRITÓRIO DE SÃO PAULO

## THE APPROPRIATE SPACE AND THE TEACHER LICENSED IN PHYSICS: A DISPOSITIONAL DUALITY IN THE TERRITORY OF SÃO PAULO

## Felipe Muneratto 1 , Graciella Watanabe 2

1 Universidade Federal do ABC/Centro de Ciências Naturais e Humanas, felipe.muneratto@aluno.ufabc.edu.br

21 Universidade Federal do ABC/Centro de Ciências Naturais e Humanas, graciella.watanabe@ufabc.edu.br

## Resumo

Considerando as desigualdades intrínsecas às cidades, sua segregação e as diferenciações de apropriações do solo urbano pelos agentes sociais no território, este trabalho desdobrou-se em um diálogo entre a desigualdade educacional e o espaço urbano. Para tanto, propôs compreender, para as disciplinas de Física, Química e Biologia, como se dava (ou não) a representação de docentes licenciados, na área de saber em que leciona, além de sua espacialização pelo território. Tem-se como recorte, docentes que lecionam em escolas da rede estadual e privada, localizadas nos distritos da porção leste da cidade de São Paulo (Zona Leste). Ainda, na complementaridade urbana, uma articulação entre a posição georreferencial da escola e as áreas delimitadas e compreendidas como "favelas", pontuando-as no espaço. Para tanto, fez-se uso dos microdados do INEP, como Catálogo de Escolas e Censo Escolar de 2019, com técnicas de geoprocessamento e estatística. Depreende-se dos dados, que para ambas as redes de ensino, a Física é a área disciplinar com a menor representação de docentes com licenciatura na área disciplinar específica (cerca de 14,09% para a rede estadual e 40% para a rede privada), se comparado à Química e Biologia, que aliás, são as com as maiores representações, respectivamente. Ainda, para a Física, há uma diminuta tendência de menores representações de docentes com licenciatura em escolas localizadas nas proximidades de favelas se comparado com as mais distantes. Assim, ainda que introdutório, o estudo possibilita desdobramentos e potencialidades na interdisciplinaridade para problemas complexos, como os educacionais. Em especial, nas reflexões para um protagonismo do Ensino de Física, na promoção de políticas públicas, e na representação da formação docente de licenciandos em Física.

Palavras-chave : Desigualdade. Espacialização. Docência. Estudos Urbanos.

## Abstract

Considering the inequalities intrinsic to cities, their segregation and the differences in appropriation of urban land by social agents in the territory, this work unfolded in a

dialogue between educational inequality and urban space. To this end, it proposed to understand, for the subjects of Physics, Chemistry and Biology, how the representation of licensed teachers occurred (or not) in the area of knowledge in which they teach, in addition to its spatialization across the territory. The sample includes teachers who taught in state and private schools, located in the districts of the eastern portion of the city of São Paulo (East Zone). Furthermore, in urban complementarity, an articulation between the areas delimited and understood as favelas, punctuating them in space, and the georeferential position of the school. To this end, INEP microdata was used, such as the School Catalog and 2019 School Census, with geoprocessing and statistical techniques. It appears from the data that for both education networks, Physics is the subject area with the lowest representation of teachers with a degree in the specific subject area (around 14.09% for the state network and 40% for the private network), compared to Chemistry and Biology, which, in fact, are those with the largest representations, respectively. Furthermore, for Physics, there is a smaller tendency for fewer representations of teachers with degrees in schools located close to favelas compared to those further away. Thus, although introductory, the study allows for developments and potential in interdisciplinarity for complex problems, such as educational ones. In particular, in the reflections for a leading role in Physics Teaching, in the promotion of public policies, and in the representation of teaching training for Physics graduates.

Keywords : Inequalities. Spatialization. Teaching. Urban Studies.

## Introdução

A formação docente perpassa diversos desafios, e que não são apenas contemporâneos (especialmente considerando a historicidade da formação docente do Brasil). Porém, é latente a necessária preconização e melhoria das condições de trabalho, reconduzindo, por exemplo, 'a docência uma profissão atraente socialmente em razão da sensível melhoria salarial e das boas condições de trabalho' (SAVIANI, 2009, p. 154). Soma-se ao debate, o contexto de evasões nos cursos de Licenciatura, especialmente ao da Física, ou ainda a não paridade de gênero, seja na graduação, seja aos incentivos em carreiras STEM (MONTEIRO, 2020; HENDGES, SANTOS, 2023). Não obstante, em uma camada mais específica, enquanto reflexo à escola (no contexto das Ciências da Natureza), quanto às dificuldades do ensino de determinados conteúdos, como Astronomia, seja pela ausência na formação, ou pelo docente ser de outra área disciplinar (SLOVINSCKI; BRITO; MASSONI, 2023).

Nesta direção, caberia refletir como esta desigualdade estaria disposta por um território urbano, segregado, como o da capital paulista. Em uma leitura sociológica da cidade, a sua consolidação tende a ser a representação de disputas de poder e de classes, sobre o solo urbano. Desta disputa, decorre-se uma apropriação

diferenciada do território urbano (VILLAÇA, 2001). Diante disto, aproximando-se de Bourdieu (2020), a dominação do espaço, não deixa de ser, uma externalização do exercício de dominação, e a segregação, assim é dela resultante. Contemplando esta leitura bourdieusiana, considerando esta apropriação, de um espaço apropriado, os índices de capital econômico e cultural, portanto, se entrelaçam disposicionalmente entre os agentes sociais no território (BOURDIEU, 2013). Talvez, em uma aproximação direta desta reflexão, seja a consolidação de áreas como favelas, com desafios na perenidade de infraestruturas urbanas, na disponibilidade de bens e serviços, ou mesmo, na qualificação do espaço, com oferta de equipamentos públicos de saúde, cultura e lazer.

Isto posto, a cidade de São Paulo, possui cerca de 1.749 áreas compreendidas como favelas cadastradas pela Secretaria de Habitação, com uma estimativa de 399.798 domicílios (HABITASAMPA, 2022). Assim, é através deste recorte contínuo, que este trabalho introdutório se desdobra para um olhar da desigualdade educacional. Ademais, não se pretende uma estigmatização negativa destas áreas, porém, na legitimidade de ações do Estado para uma transformação social, e inclusive, no pilar educacional.

Nesta direção, portanto, instiga-se compreender como as cidades, diversas e segregadas, se relacionam com a escola. Isto posto, este trabalho pretende investigar como se dá, a partir das disciplinas de Física, Química e Biologia, a distribuição de docentes com ou sem licenciatura específica na disciplina em que leciona, na rede estadual e privada, na porção territorial leste da cidade de São Paulo .

## Metodologia e principais resultados

Para a estruturação metodológica, fez-se uso dos microdados, disponibilizados pelo Inep, do Censo Escolar de 2019 e do Catálogo de escolas. Nesta direção, portanto, incorpora-se o pensamento reflexivo de Pierre Bourdieu (2020), seja no recorte e classificação do mundo social, o qual é um contínuo e já classificado, seja nas estruturações e modelagens estatísticas e à sua não simplificação de problemas complexos, como os educacionais.

Como uma oportunidade e complementaridade, apresenta-se um diálogo com a representação simbólica do território segregado paulistano (VILLAÇA, 2001),

especialmente nas delimitações de áreas compreendidas como favelas. Aliás, o interesse nesta representação se expressa como uma potencialidade de compreender (ou não) uma sobreposição das desigualdades, sociais, educacionais, econômicas. Para tanto, fez-se uso de técnicas de geoprocessamentos e arquivos georreferenciados, de tais espaços, disponibilizados pelo município de São Paulo (HABITASAMPA, 2022). Ademais, a cidade de São Paulo possui cerca de 96 distritos, distribuídos por cinco regiões: (i) Zona Central, (ii) Zona Sul; (iii) Zona Oeste; (iv) Zona Norte; (v) Zona Leste 1 . Assim como nosso objetivo delimitado, este trabalho, desdobra-se em um recorte espacial para a Zona Leste da cidade, que contempla cerca de 33 distritos 2 , e este recorte apresentado, deve-se a um projeto de pesquisa, mais amplo, contemplando demais zonas. No que tange a dimensão desta espacialidade, esta área da cidade possui uma população estimada, para 2021, em 4.156.298 (REDE NOSSA SÃO PAULO, 2022).

Isto posto, o corpus desta pesquisa, deu-se em um recorte para docentes que lecionavam as disciplinas de Física, Química ou Biologia em escolas localizadas na porção da Zona Leste da cidade de São Paulo. No entanto, algumas ponderações sobre a escola foram realizadas. A escola estava contida no Censo Escolar e possuía turmas e matrículas do Ensino Médio (regular); Havia informações georreferenciadas da escola, e portanto, também estava indicada como uma escola no Catálogo de Escolas; Era uma escola da rede estadual ou privada; E não era uma Escola Técnica Estadual (ETEC) 3 . Tem-se, assim, 2.161 docentes e 441 escolas.

As escolas, foram espacializadas pela porção leste da cidade, com a distinção de escolas localizadas em (i) 'Até 100 metros de uma favela', (ii) 'Maior que 100 metros e menor ou igual a 200 metros', (iii) 'Maior que 200 metros e menor ou igual a 300 metros', e em escolas localizadas à uma distância (iv) 'Maior que 300 metros' de uma área designada como favela, conforme figura 1.

Figura 1: Mapa com a espacialização das escolas, na zona leste, na cidade de São Paulo

Fonte: Elaboração própria, 2023.

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As tabelas 1 e 2 indicam as representações de docentes que lecionavam Física, Química e Biologia, e possuíam (ou não) a licenciatura específica da área do saber, para a rede estadual e privada, respectivamente. Na horizontal, há as porções do território em referência ao distanciamento às áreas compreendidas como favelas.

## Localização da escola

Tabela 1: Distribuição e representação docentes licenciados na área disciplinar em que leciona, para Física, Química e Biologia na rede estadual

*Não é válido realizar a somatória de docentes, para cada uma das porções do território paulistano, ou na mesma porção. Isto deve-se, porque um mesmo professor pode lecionar em escolas localizadas 'Até 100 metros' e na porção 'Até 300 metros', ou na mesma porção, porém com mais de eixo disciplinar. Esta mesma ponderação é válida para a tabela 2.

Fonte: Elaboração própria, 2023.

Dos dados da rede estadual, depreende-se, na porção Leste da cidade de São Paulo, que a disciplina de Física possui as menores representações de licenciados na disciplina específica, com apenas 14,09%. Química e Biologia, são respectivamente, 52,16% e 89,91%. Ainda, ao realizar uma leitura lateralizada, incorporando as distinções da espacialização em relação às áreas compreendidas como favelas, tende a haver, ainda que diminuta, uma sub-representação de docentes com licenciatura em Física, que lecionam Física. Sendo, 10% as localizadas em até 100 metros de uma favela, até 16,06% para aquelas com distâncias superiores a 300 metros.

Para a rede privada, não é diferente, há diferenciações na representação docente entre as porções do território, ainda que em quantidades absolutas menores, se comparado à rede estadual. Na porção de até 100 metros de uma favela, dos 9 docentes que lecionam Física, nenhum possuía licenciatura em Física. Em comparação, para a mesma espacialidade, Química possuía 5 docentes (de um total de 9), e Biologia 7 docentes (de um total de 9). Ao comparar entre as áreas do saber, a Física também é o eixo disciplinar com as menores representações de licenciados na disciplina específica na rede privada. Tem-se cerca de 40% de docentes que possuíam licenciatura em Física, que lecionam Física; 60,27% com licenciatura em Química, que lecionava Química; e Biologia, com 80,16%. A tabela 2 está estruturada para tais depreensões.

## Localização da escola

Tabela 2: Distribuição e representação docentes licenciados na área disciplinar em que leciona, para Física, Química e Biologia na rede privada

Física

Fonte: Elaboração própria, 2023.

## Conclusões

Este trabalho desdobrou-se no reconhecimento das desigualdades inerentes às cidades e em uma tentativa de diálogo com o espaço urbano. Neste sentido, em uma promoção interdisciplinar, buscou-se compreender como se dava a representação de docentes com ou sem licenciatura específica, na disciplina que leciona, para Física, Química e Biologia. Com uma estruturação a partir do Censo Escolar de 2019 e do Catálogo de escolas, do INEP, e tendo como recorte espacial a porção leste da cidade de São Paulo, articulou-se conhecimentos de geoprocessamento e estáticas. A espacialização das escolas e a proximidade (ou não) com as áreas vulneráveis mostrou-se como uma oportunidade a ser desdobrada

Dos dados, depreende-se que a Física é a área disciplinar com as menores representações de docentes com licenciatura em Física, tanto na rede estadual quanto na rede privada, embora esta última apresente uma porcentagem quantitativamente maior. Tais discrepâncias dialogam com a literatura, invariavelmente, em relação aos desafios e déficits da formação do docente na educação básica (BRASIL, 2007; BOF; CASEIRO; MUNDIM, 2023), e também, são uma das facetas dos desafios do ensino de Física no Brasil (MOREIRA, 2018). Em uma perspectiva comparativa entre as localidades propostas, ainda que diminuta, ao estabelecer uma relação com a localização da escola, tem-se também na Física, as menores representações de docentes licenciados em Física para as localidades próximas às favelas. Esta representação é ainda menor, quando comparada à rede privada. Ademais, este estudo não deve ser concebido como uma crítica a docentes que lecionam disciplinas, mesmo sem formação com licenciatura disciplinar específica. O que se põem em debate é como, por que, e o que é possível ser realizado para a transformação deste contexto educacional. Ainda, na proposta de

uma alternativa interdisciplinar e uma aproximação de estudos urbanos, especialmente, e mais especificamente, em uma propositura potencial para formação de políticas públicas e para o fortalecimento do Ensino de Física.

## Referências

BOF, A. M.; CASEIRO, L. Z.; MUNDIM, F. C. Carência de professores na educação básica: risco de apagão? Caderno de Estudos de Pesquisas em Políticas Públicas, v. 9, 2023.

BOURDIEU, P. Sociologia geral, vol 1: lutas de classificação: Curso Collège de France (1981-1982). Petrópolis: Vozes, 2020. 191 p.

BOURDIEU, P. Espaço físico, espaço social e espaço físico apropriado. Estudos Avançados, n. 27, v. 79, 2013.

BRASIL. Ministério da Educação. Escassez de professores no Ensino Médio: propostas estruturais e emergenciais, 2007.

HABITASAMPA. Secretaria Municipal de Habitação, 2023. Disponível em: http://www.habitasampa.inf.br/

HENDGES, A. P. B.; SANTOS, R. A. Relações Entre Gênero e Ciência-Tecnologia no Ensino de Ciências Brasileiro: O que Dizem as Pesquisas? Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 23, 2023.

MONTEIRO, M. N. O professor de Física na escola pública estadual brasileira: desigualdades reveladas pelo Censo escolar de 2018. Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 42, e20230110, 2020.

MOREIRA, M. A. Uma análise crítica do ensino de Física. Estudos Avançados, n. 94, v. 32, 2018.

REDE NOSSA SÃO PAULO. Mapa da desigualdade. 2022. Disponível em: https://www.nossasaopaulo.org.br/wp-content/uploads/2023/01/Mapa-da-Desigualdade-2022\_MAPAS\_23.pdf

SLOVINSCKI, L.; BRITO, A. A.; MASSONI, N. T. Um diagnóstico da formação inicial de professores da área de ciências da natureza na perspectiva do ensino de astronomia. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 45, e20230110 (2023)

SAVIANI, D. Formação de professores: aspectos históricos e teóricos do problema no contexto brasileiro. Revista Brasileira de Educação v. 14 n. 40 jan./abr. 2009.

VILLAÇA, F. Espaço intra-urbano no Brasil. 2. ed. São Paulo: Studio Nobel, 2001. 392 p.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.