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QUAIS HISTÓRIAS AS BIOGRAFIAS FEMININAS CONTAM?

Letícia Barbieri Martins, Ana Paula Butzen Hendges, Rosemar Ayres Dos Santos

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIX
Ano
2022
Data
16/08/2022
Linha de pesquisa
03 - Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física / 11 - Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## QUAIS HISTÓRIAS AS BIOGRAFIAS FEMININAS CONTAM? WHAT STORIES DO FEMALE BIOGRAPHIES TELL?

## Letícia Barbieri Martins 1 , Ana Paula Butzen Hendges 2 , Rosemar Ayres dos Santos 3

1 Universidade Federal da Fronteira Sul, leticiabmartins25@gmail.com

2

Universidade Federal da Fronteira Sul, abhendges@gmail.com Universidade Federal da Fronteira Sul, roseayres07@gmail.com

3

## Resumo

Em geral, os livros didáticos (LD) não abordam aspectos históricos, culturais e sociais da participação feminina nas ciências e nas humanidades. Neste trabalho, temos como problemática investigada: De que forma a história das contribuições de mulheres para o desenvolvimento da Ciência-Tecnologia (CT) são apresentadas na coleção de LD de Física do Ensino Médio adotada no ano de 2020 pela escola pública de EM do município de Cerro Largo/Rio Grande do Sul? Objetivando analisar e compreender como as contribuições de cientistas femininas são contempladas nesse material. Os encaminhamentos metodológicos seguiram de acordo com a Análise de Conteúdo, analisando o contexto em que cientistas mulheres foram mencionadas. Os resultados são apresentados na categoria intitulada: Biografias femininas de cientistas. Constatamos que a contribuição feminina é pouco abordada, sem envolver discussões acerca de gênero na CT, as questões históricas, culturais e sociais envolvidas, carecendo mudanças quanto a essa representação, apresentando uma história da CT mais real, humana e inclusiva.

Palavras-chave : Livros Didáticos. Biografias. Cientistas Mulheres. Gênero e Ciência-Tecnologia.

## Abstract

In general, textbooks (TB) do not address historical, cultural and social aspects of female participation in the sciences and humanities. In this work, we have as a problematic investigated: How the history of the contributions of women to the development of Science-Technology (ST) are presented in the TB collection of Physics of High School adopted in the year 2020 by the public school of EM in the municipality from Cerro Largo/Rio Grande do Sul? Aiming to analyze and understand how the contributions of female scientists are contemplated in this material. The methodological referrals followed the Content Analysis, analyzing the context in which women scientists were mentioned. The results are presented in the category entitled: Female Scientist Biographies. We found that the female contribution is little addressed, without involving discussions about gender in the ST, the historical, cultural and social issues involved, lacking changes in this representation, presenting a more real, human and inclusive ST history.

Keywords : Textbooks. Biographies. Women Scientists. Gender and Science-Technology.

## A Ciência-Tecnologia construída no masculino

Por muito tempo houve (e em determinados contextos ainda há) a compreensão de que não se devia esperar que as mulheres tivessem êxito no ramo da ciência-tecnologia (CT) que, em suas origens, foi moldada de acordo com parâmetros androcêntricos, em que as experiências e comportamentos relacionados ao gênero masculino eram supervalorizados (SCHIEBINGER, 2001).

Enquanto a sociedade esperava da mulher delicadeza, zelo e afetividade, associando-a aos cuidados maternos e do lar, sendo uma filha e esposa dedicada, as características dos homens eram marcadas pelo senso de disputa, racionalidade, objetividade e força. Assim, o homem foi visto como único detentor do conhecimento e as características e habilidades desse gênero foram valorizadas e reconhecidas como necessárias para fazer CT (SILVA; RIBEIRO, 2014).

Essas concepções contribuíram para a masculinização do ramo científicotecnológico e da sociedade. Nesse âmbito, Schiebinger (2001, p. 40), compreende que '[...] as mulheres não obterão igualdade com os homens a menos que certos aspectos da ciência e da cultura científica se abram a análise de gênero'.

Nesse viés, a fim de contribuir com uma nova visão da CT e das/os cientistas, a busca por informações sobre a vida dessas/es personagens, o ambiente cultural geral de uma época, as concepções alternativas do mesmo período, as controvérsias e dificuldades da aceitação de novas ideias (MARTINS, 1990) se faz necessário, contribuindo para o entendimento da relação da CT com a cultura e a sociedade (PEDUZZI, 2001).

Para que isso ocorra, às/aos professoras/es cabe o estudo da cultura científico-tecnológica da época, reviver a história percorrida pelas/os pesquisadoras/es, lendo cuidadosamente e de forma aprofundada materiais originais da época das/os cientistas, visto que, os materiais secundários nem sempre apresentam uma versão com muita precisão da história da CT (SEQUEIRA; LEITE, 1988; MARTINS, 1990).

Entretanto, as fontes de pesquisa utilizadas para explorar esse assunto, como em um estudo realizado por Reis, Silva e Buza (2009) com 12 professoras/es de escolas públicas são, majoritariamente, os livros didáticos (LD) e a internet. Enquanto na internet o material que enfoca aspectos da história da CT se encontra disperso, no caso dos LD um dos problemas é abordar a história da CT separada dos conteúdos, em pequenos textos que enfocam algumas curiosidades científicotecnológicas, ou anedotas que mostram os inventos do passado de algumas/alguns cientistas e dando enfoque às principais personagens, deixando de enfatizar que a CT é um processo de construção do ser humano, homem e mulher, meninos e meninas, em sociedade (REIS; SILVA; BUZA, 2009).

Assim, pouco ou nada se tem acesso aos materiais originais da época a fim de compreender a história da CT. Os textos que são oferecidos no LD são muito superficiais e na internet são inúmeras as informações apresentadas, sendo necessário buscar a confiabilidade do documento a ser analisado, isso demanda tempo e dedicação, o que para muitas/os professoras/es é inviável devido a

excessiva carga horária de trabalho, além da desmotivação profissional que, muitas vezes, as/os permeia.

Frente às exclusões/barreiras da mulher na CT e na sociedade e a relativa presença do LD como ferramenta para o ensino de ciências na Educação Básica, no presente trabalho, realizamos a análise de uma coleção de LD de Física do Ensino Médio (EM), utilizada no ano de 2020 pelas/os professoras/es da escola pública pertencente ao município de Cerro Largo, microrregião noroeste do estado do Rio Grande do Sul (RS), objetivando analisar e compreender de que forma a história das contribuições de cientistas femininas são abordadas nesse material.

Assim, temos como problemática investigada: De que forma a história das contribuições de mulheres para o desenvolvimento da CT são apresentadas na coleção de LD de Física do EM adotada pela escola pública de EM do município de Cerro Largo/RS?

## Percurso teórico-metodológico

Trata-se de uma pesquisa qualitativa (LÜDKE; ANDRÉ, 2013), apoiada em dados coletados por intermédio da pesquisa documental (GIL, 2008) em uma coleção de LD de Física do EM, aprovada pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) 2018 e intitulada 'Física' de Guimarães, Piqueira e Carron.

A metodologia de análise segue de acordo com a Análise de Conteúdo (AC) de Bardin (2006), a qual é organizada em três fases: 1) pré-análise; 2) exploração do material; 3) tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Na primeira fase realizamos uma leitura flutuante da coleção de LD e delimitamos que analisaríamos as biografias femininas, visto que, é um espaço destinado a contar a trajetória da cientista abordada. Também, efetuamos o recorte de trechos do texto dessas biografias, conforme os objetivos da pesquisa.

Na segunda fase, orientadas pelo referencial teórico, realizamos a descrição do corpus investigado, considerando os recortes do texto e agregando-os em categorias simbólicas. A fase final da AC diz respeito ao tratamento dos dados, inferência e interpretação, onde é dado significado e validade aos resultados brutos encontrados, culminando com nossas interpretações inferenciais acerca do que foi encontrado.

## Biografias femininas de cientistas

O enfoque dado nos LD à história da CT, na maioria das vezes, é apresentada de forma separada dos conteúdos, inseridas em 'caixinhas' ou algo que lhes conferem maior destaque e dando enfoque às/aos principais cientistas ou personagens importantes para os ramos da CT (REIS, SILVA, BUZA, 2012). Nos LD analisados, isso foi exposto em forma de biografias, encontradas em seções denominadas 'Em construção', as quais totalizam trinta e uma nos três volumes, sendo 11 no volume 1 e 10 no volume 2 e 3. Dentre essas seções, trinta são referentes a personagens homens, enquanto uma, inserida no volume 3 (V3), apresenta a biografia de duas personagens mulheres: Marie Curie e Irène JoliotCurie.

Até meados da década de 2000, encontrar coleções que reduziam a história da CT a biografias muito sucintas de cientistas de grande destaque era comum, isso se não apenas colocavam uma foto ou retrato da ou do cientista, acompanhada da menção dos anos de nascimento e morte (BRASIL, 2017). De forma gradual, '[...] as coleções foram incorporando narrativas sobre o desenvolvimento de determinados conceitos ou teorias, entrelaçadas com biografias e fatos de vida de seus protagonistas' (BRASIL, 2017, p. 28). Mas,

poucas são as coleções que vão além dessa visão e incluem uma abordagem de fatores sociais, políticos, econômicos e culturais, que influenciaram as atividades dos cientistas, o desenvolvimento de conceitos e teorias, os debates científicos, as colaborações e as disputas entre vários grupos de cientistas. (BRASIL, 2017, p. 28).

Soihet (2003) destaca que as biografias femininas devem buscar compreender o condicionamento social e sexual e a interação entre sua vida pública e privada, restituindo a multiplicidade das experiências femininas, dos caminhos trilhados para se afirmar como indivíduos plenos. Dessa forma, é possível compreender os preconceitos e papéis de gênero construídos socialmente e que afetaram/afetam as mulheres que buscam se consolidar na carreira da CT, porém, isso não foi observado na biografia analisada.

A primeira personagem apresentada na biografia é Marya Salomee Sklodowska, conhecida mundialmente como Marie Curie e a qual Chassot (2004) comenta ser quase a única cientista mencionada em aula, bem como, nos LD. Inicialmente, é informado sobre o local e ano do seu nascimento, seguido do local e ano de falecimento, bem como o motivo da fatalidade. Após, é abordado sobre sua infância e juventude, as quais foram marcadas pelas dificuldades financeiras da família e pelo sofrimento ao perder a irmã mais velha e, depois, sua mãe, buscando consolo nos livros. O termo 'consolo' acaba por menosprezar o interesse de Marie pela CT, sua curiosidade e vontade de aprender. Acreditamos que Marie não buscou consolo, ela buscou conhecimento.

Em seguida, de forma cronológica, no LD são listados alguns acontecimentos vividos por Marie, que nos permitem interpretar que ela não sofreu nenhuma limitação devido ao seu gênero: com 16 anos terminou a educação secundária, recebendo uma medalha de ouro de melhor aluna do ano; matriculou-se em uma escola clandestina para mulheres e começou a lecionar; trabalhou como governanta para ajudar uma de suas irmãs a estudar; no final de 1891, foi para Paris e matriculou-se na Sorbonne com o nome de Marie, formando-se em Física (1893) e em Matemática (1894); lecionou Física na Escola Normal Superior para meninas, onde introduziu o método de ensino baseado em demonstrações experimentais; assumiu o cargo de assistente em 1904 no laboratório dirigido por seu marido; foi a primeira mulher titular de uma cadeira na Sorbonne; descobriu a radioatividade do tório e isolou quimicamente o polônio em 1898, e o rádio em 1910; foi agraciada com dois Prêmios Nobel: o primeiro, de Física, em 1903, juntamente com seu marido e Henri Becquerel, e o segundo, de Química, em 1911.

Sobre Marie assumir o cargo de assistente no laboratório dirigido por Pierre Curie, é importante registrar que não existiam muitas expectativas de sucesso feminino sem o amparo masculino, visto que, a sociedade científica assumia o

homem como quem conduzia e organizava a pesquisa, considerando a mulher como mera auxiliar, a força muscular (FARIAS, 2018).

A questão do amparo masculino se evidencia em um recorte da biografia, em que se pode interpretar que ela ficou famosa depois de seu casamento com Pierre: 'Em 1895, ao se casar com o físico-químico Pierre Curie (1859-1906), Marie passou a usar o nome Marie Curie e se tornou a mundialmente famosa Madame Curie.' (V3, p. 245). Quanto a isso, afirma-se que, no tempo em que a mulher não era vista como capaz de produzir CT, ser filha ou se casar com um homem dessa área lhes abriam portas para a pesquisa, visto que, elas tinham maiores acessos a referenciais, discussões e instrumentos científico-tecnológicos, por exemplo. Assim, muitas personagens femininas contribuíram com as experiências, descobertas ou teorias de seus pais, irmãos e/ou maridos, tendo seus nomes encobertos pelos deles (SCHIEBINGER, 2001; CHASSOT, 2004).

Também, outro excerto parece abrir uma brecha para discussão acerca das condições da mulher na sociedade e na CT: 'Marie Curie superou todas as dificuldades que lhe eram impostas, pois, além de mulher, era cientista.' (V3, p. 245). Porém, nota-se que as dificuldades não são mencionadas, nem os motivos e sacrifícios sofridos para superá-las, cabendo à/ao professora/professor buscar essas informações na tentativa de proporcionar uma contextualização e um posicionamento crítico das/os estudantes frente ao assunto.

Quando a Polônia foi subjugada pela Rússia, a intenção quanto ao papel da mulher na sociedade era serem uma boa dona de casa, cuidar do marido e dos filhos, e isso deveria ser ensinado nas escolas. O estudo e conhecimento das ciências ficava sob responsabilidade dos meninos. Marie, muito por incentivo do pai, viajou para a França para estudar na Sorbonne. Mas, enquanto a educação secundária e universitária nesse país estava em ascensão, a sociedade era fechada e não tinha interesse em discutir, por exemplo, o papel da mulher na sociedade, acarretando em fortes preconceitos para com as estrangeiras e as mulheres que estudavam (FARIAS, 2018).

Existiram/existem muitas restrições para as mulheres e que, se solteiras, tornam sua vida ainda mais difícil, por exemplo: talvez Marie não preferisse fazer seus estudos noturnos trancada em casa, mas como era impensável uma moça desacompanhada solteira andando pelas ruas escuras, com o perigo de ser confundida com uma prostituta, ela o fazia. Então, estar casada propiciava uma maior respeitabilidade nos espaços públicos. Por isso, o casamento de Marie com Pierre lhe abriu muitas portas para iniciar o seu trabalho na França, pois também era mais fácil para a sociedade assumir que um casal desenvolvia uma pesquisa, sendo o homem o cérebro (FARIAS, 2018).

Além disso, comenta-se na biografia que duas paixões marcaram a vida dessa cientista: a primeira foi a família (Pierre, e as filhas Irène e Eve Denise) e a segunda a ciência. Os laços maternais e a prioridade dada à família tornam-se evidentes. Nas biografias masculinas presentes nos LD, os laços paternais não são romantizados da mesma maneira, estipulando que, de certa forma, por ser mulher e ter filhos/as o 'lado mãe' e 'lado esposa' precisasse falar mais alto, o que persiste na sociedade atual.

Depois do casamento de Marie, ela sofreu com a dupla jornada de trabalho e isso só piorou com o nascimento da primeira filha Iréne. É importante destacar que Pierre dividia com Marie as tarefas domésticas (FARIAS, 2018), mas ainda assim há

uma sobrecarga maior para a mulher, principalmente com relação às/aos filhas/os, tornando o caminhar profissional das mulheres, mais nitidamente das cientistas, mais árduo que o dos homens.

Outro ponto que destacamos na biografia é sobre o Prêmio Nobel de Química que Marie Curie recebeu: 'Após 32 anos, nenhuma outra mulher havia conquistado o Prêmio' (V3, p. 245), o que veio a acontecer com Irène, filha de Marie, em parceria com seu marido Frédéric, pela descoberta da radioatividade artificial. Mas, em nenhum momento é realizada uma reflexão crítica sobre a falta de representatividade das mulheres na CT, nem mesmo por meio de uma pergunta norteadora ou pesquisa referente ao assunto. O que é proposto é uma leitura complementar do livro intitulado 'Gênio obsessivo: o mundo interior de Marie Curie', de Barbara Goldsmith, o qual, em uma busca pela internet, não foi encontrado disponível na forma online, o que, de certa forma, inviabiliza sua leitura por parte das/os estudantes.

Quanto à Irène Joliot-Curie, a estrutura da biografia segue semelhante a anterior, apresentando o nascimento e infância, podendo notar pela escrita uma forte relação entre a cientista e sua mãe: 'Conviveu toda a sua infância e juventude com o trabalho de sua mãe sobre a radioatividade, e essa convivência se transformou em uma estreita e prazerosa relação de trabalho.' (V3, p. 246).

Em seguida, são apresentados alguns acontecimentos: em 1914 concluiu o Colégio Sévigné; em 1918, tornou-se assistente de sua mãe no Instituto do Rádio da Universidade de Paris; em 1925, apresentou sua tese de doutorado sobre as partículas alfa do polônio; em 1926, casou-se com Jean-Frédéric Joliot (1900-1958), assumindo ambos o sobrenome Joliot-Curie; em 1927, nasceu a primeira filha, Hélène e, cinco anos mais tarde, o filho Pierre; em 1933, na sétima Conferência de Solvay, que reuniu os físicos mais importantes do mundo, três mulheres estavam presentes: Marie Curie, Irène Joliot-Curie e Lise Meitner; participou da fundação do Centre National de La Recherche Scientifique (Centro Nacional de Pesquisas Científicas) em 1939; em 1934, com seu marido, conduziram à criação da radioatividade artificial e em 1935 receberam o Prêmio Nobel de Química; durante os anos 1950, a saúde de Irène entrou em declínio, vindo a óbito em 1956.

Acerca da Conferência de Solvay, celebrada desde 1911 e que reúne os principais nomes da Física e química para debater avanços e discutir resoluções de questões diversas, sua quinta edição, realizada no ano de 1927, representa um marco simbólico. Dentre os 29 presentes na edição (a partir de registro fotográfico), uma mulher, Marie Curie, a primeira a participar de uma Conferência de Solvay (BOLZANI, 2017). Já na sétima edição da Conferência, de 1933, 3 mulheres se fizeram presentes, de um montante de 41 cientistas registrados em fotografia.

Essa participação feminina, dentre as outras edições da Conferência que marcaram presença de cientistas mulheres, embora de forma muito reduzida, representou uma importante conquista, porém, continuou a evidenciar o universo masculinizado da CT, o qual deve ser problematizado no ensino, fato que não ocorreu na biografia, visto que, apenas foi mencionado o episódio da Conferência, sem haver discussão acerca da ausência de presença feminina e os motivos disso.

Ao lermos a análise dessa coleção de Física, a qual foi realizada por uma equipe de pessoas montada pelo Ministério da Educação, é mencionado que a seção 'Em Construção' '[...] traz biografias de cientistas, apresentando-os vinculados ao seu contexto social e às suas limitações' (BRASIL, 2017, p. 37).

Porém, constatamos que, pelo menos não de forma significativa, principalmente nas biografias femininas (analisadas de forma mais profunda), as limitações sofridas devido ao seu contexto social não são postas.

Localizadas na última unidade do V3, nas páginas 245 a 246, no capítulo de Física nuclear, o qual pode não ser abordado devido a pouca carga horária destinada ao componente de Física, podemos perceber que os fatos apresentados nas biografias obedecem a uma ordem cronológica, sem que as relações e os papéis sociais desempenhados pelas mulheres no contexto em que estão inseridas sejam abordados, levando a uma errônea interpretação histórica, cultural e social de igualdade de condições e direitos entre os gêneros.

Em nenhum momento das biografias são mencionadas as dificuldades sofridas por essas cientistas para se inserirem no ramo da CT. Mulheres que se aventuravam em 'carreiras masculinas' sofriam com os julgamentos e imposições de uma sociedade patriarcal e androcêntrica. Algumas adquiriram destaque, sendo exigido delas mais do que dos homens e não sem antes passar por exclusões de gênero, outras tiveram suas contribuições ignoradas e plagiadas por uma figura do sexo masculino, e são muitas que continuam sendo apagadas da história da CT por não haver discussões acerca delas e dos papéis e preconceitos de gênero existentes no contexto em que estavam inseridas.

## Considerações finais

Se a Universidade se preocupa com uma formação cultural mais ampla, com o desenvolvimento da visão crítica em relação à CT e à construção do conhecimento científico-tecnológico, embora não seja a solução de todos os problemas, o ensino de História e Filosofia da CT na formação inicial e continuada de professoras/es é uma das possibilidades na busca por soluções (MARTINS, 1990).

Nos LD de Física analisados, constatamos que a contribuição feminina é pouco abordada, sem envolver discussões acerca do tema 'gênero e CT', as questões históricas, culturais e sociais envolvidas. Assim, os LD analisados tendem a dar continuidade com a exclusão feminina no ramo científico-tecnológico.

Com as discussões realizadas no decorrer dessa pesquisa, espera-se que, nos LD e nas aulas, se tenha um olhar mais cuidadoso para as histórias femininas e que essas contemplem as limitações e dificuldades sofridas pelas mulheres devido às imposições de uma sociedade que não aceitava/aceita que a CT, também, é coisa de mulher.

## Referências

BARDIN, L. Análise de conteúdo . Tradução: Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70. 225p.

BOLZANI, V. da S. Mulheres na ciência: por que ainda somos tão poucas? Ciência e Cultura , v. 69, n. 4, São Paulo, p. 56-59, out./dez. 2017. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. PNLD 2018 : Física - Guia de Livros Didáticos Ensino Médio. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria da Educação Básica, 2017. 111 p.

CHASSOT, A. A Ciência é masculina? É, sim senhora! Contexto e Educação. Editora UNIJUÍ , Ano 19, nº71/72, p. 9-28, jan./dez. 2004.

FARIAS, R. M. da S. O legado científico de Marie Curie: Desafios e perspectivas da mulher na ciência. 2018. 88 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática), Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, 2018.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social . 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008. 220p.

LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. A Pesquisa em educação: abordagens qualitativas . 2 ed. Rio de Janeiro: E.P.U., 2013, 128 p.

MARTINS, R. de A. Sobre o papel da História da ciência no ensino. Boletim da Sociedade Brasileira de História da Ciência , p. 3-5, 1990.

PEDUZZI, L. O. Q . Sobre a utilização didática de história da ciência. In: PIETROCOLA, M. (org.) Ensino de física: conteúdo, metodologia e epistemologia numa concepção integradora. Florianópolis: Editora da UFSC, 2001.

REIS, A. S. dos.; SILVA, M. D. B.; BUZA, R. G. C. O uso da história da ciência como estratégia metodológica para a aprendizagem do ensino de química e biologia na visão dos professores do ensino médio. História da Ciência e Ensino Construindo Interfases , v. 5, p. 1-12, 2009.

SCHIEBINGER, L. O feminismo mudou a ciência? Tradução: Raul Fiker. Bauru, SP: EDUSC, 2001, 384 p.

SEQUEIRA, M.; LEITE, L. A história da ciência no ensino-aprendizagem das ciências. Revista Portuguesa de Educação , v. 1, n. 2, p. 29-40, 1988.

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