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O livro didático é um objeto científico em disputa no campo do Ensino de Física?

Bruno Henrique Cerosimo Lous, Tânia Maria Figueiredo Braga Garcia

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIX
Ano
2022
Data
17/08/2022
Linha de pesquisa
10 - Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O LIVRO DIDÁTICO É UM OBJETO CIENTÍFICO EM DISPUTA NO CAMPO DO ENSINO DE FÍSICA?

## IS THE TEXTBOOK A SCIENTIFIC OBJECT IN TEACHING PHYSICS' FIELD?

## Bruno Henrique Cersosimo Lous 1

## Tânia Maria Figueiredo Braga Garcia 2

1 Universidade Federal do Paraná - Doutorando em Educação - NPPD, lousbruno@gmail.com 2 Universidade Federal do Paraná-PPGE-NPPD/CNPq, tanbraga@gmail.com

## Resumo

A Física é um campo do conhecimento e uma disciplina escolar que tem sua constituição e sua história registradas e reconhecidas em diferentes trabalhos acadêmicos. Os manuais escolares usados para o ensino da Física em diferentes períodos históricos têm sido estudados nesse campo; mas apenas a partir de 2009 o PNLD passou a distribuir gratuitamente os livros para as escolas públicas, elaborados a partir das Orientações Curriculares Nacionais, o que produziu um aumento de interesse de pesquisadores pelo tema. A partir desse contexto e com apoio em instrumentos conceituais da sociologia de Pierre Bourdieu, foram formuladas as perguntas orientadoras da pesquisa: Qual é o espaço ocupado pelos livros didáticos nesse campo acadêmico específico? Quem são os autores de livros didáticos que circulam no campo? Como objeto científico, ele é disputado pelos agentes desse campo? Para responder a essas perguntas, foram definidos estes objetivos específicos: a) elaboração de uma revisão sistemática para localizar papers sobre os manuais escolares apresentados no Simpósio Nacional de Ensino de Física (1970-2021) e no Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (1986-2020), identificando pesquisadores dedicados ao tema; b) levantamento de autores e livros didáticos aprovados no PNLD (2009-2021); c) análise da posição desses autores no campo acadêmico do ensino de Física, situando sua produção bibliográfica e sua produção técnica, especialmente sua participação em comissões e associações científicas de relevância no campo, publicizadas em seus currículos. A pesquisa, de natureza documental, reafirma a consolidação de um campo acadêmico de Ensino de Física no Brasil; sustenta o livro didático de Física como um objeto de pesquisa relativamente estudado nesse campo, mas especialmente por pesquisadores iniciantes; e explora elementos que permitem identificar e caracterizar os poucos agentes de maior posição que efetivamente disputam o objeto, neste campo acadêmico

Palavras-chave : Ensino de Física como campo acadêmico. Livros didáticos de Física. Autores de livros didáticos.

## Abstract

Physics is a scientific field and a school subject and its constitution and history are registered and recognized in different academic works. The textbooks used for

teaching Physics in different historical periods have been studied in this field. It was only in 2009, however, that the PNLD began to distribute textbooks free of charge to public schools. These books were produced based on the National Curriculum Guidelines, which caused researchers to be more interested in the subject. From this context and with the support of conceptual instruments from Pierre Bourdieu's sociology (2004), the following questions were formulated to guide the research: What is the space occupied by textbooks in this specific academic field? Who are the authors of the textbooks circulating in the field? As a scientific object, is it disputed by the agents of this field? To answer these questions, the objectives were: a) the elaboration of a systematic review to locate papers on textbooks presented at the National Symposium on Physics Education (1970-2021) and at the Research Meeting on Physics Education (1986- 2020), identifying researchers dedicated to this topic; b) a survey of authors and textbooks approved by the PNLD (2009-2021); c) analysis of the position of these authors in the academic field of Physics teaching, situating their bibliographic production and their technical production, especially their participation in relevant scientific committees and associations in the field, recorded in their curricula vitae. This documental research reaffirms the consolidation of an academic field of Physics Education in Brazil; it sustains the Physics textbook as a research object that has been studied in this field by new researchers; and it explores elements to identify the few high-leveled agents that effectively dispute the object in this academic field.

Keywords : Teaching Physics as a field; Physics textbooks; Textbook authors

## Introdução

O livro é um objeto da cultura escolar (Vinão, 2006). Como objeto naturalizado deste cotidiano, é necessário um esforço para tornar estranho aquilo que é natural e abrir espaço para questionar sua existência nesse campo. Os manuais escolares são uma produção da cultura escolar, mas ao mesmo tempo produzem essa cultura e, apesar de sua permanência e seu significado, Garcia (2011) argumenta sobre sua invisibilidade na vida escolar, na formação de professores e na pesquisa acadêmica.

Até pouco tempo, esse objeto era pouco valorizado no campo cientifico, situação que vem se alterando nas últimas décadas, em razão de transformações em diferentes campos disciplinares. No caso brasileiro, a existência de um Programa Nacional do Livro Didático afetou as relações da pesquisa com os manuais escolares e gerou crescimento no número de trabalhos sobre o tema. No caso particular da Física como disciplina escolar do Ensino Médio, os livros didáticos já são distribuídos às escolas públicas há mais de uma década.

De acordo com Bourdieu (2004, p. 31) os objetos científicos podem ser analisados a partir de disputas e da concorrência em determinado campo, que segundo o autor produz uma 'forma particular de illusio , que é o interesse científico'. Assim, aceitando essa argumentação, foram elaboradas as perguntas que guiaram a pesquisa aqui apresentada: Qual é o espaço ocupado pelos livros didáticos no campo do ensino de Física? Quem são os autores de livros didáticos que

## circulam pelo campo? Como objeto científico, ele é disputado pelos agentes deste campo?

A partir dessas perguntas foi possível traçar objetivos tais quais: a) realizar revisão sistemática para localizar trabalhos sobre os manuais escolares apresentados no Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF) e Encontro de Pesquisadores em Ensino de Física (EPEF) para identificar pesquisas dedicadas ao tema; b) identificar autores de livros didáticos de Física aprovados entre 2009 e 2021, inicialmente no Programa Nacional do Livro didático para o Ensino Médio - PNLEM (Implantado em 2004, pela resolução n o 38 do FNDE) e posteriormente agregado ao Programa Nacional do Livro Didático - PNLD (a partir de 2012 e até 2021); c) analisar a posição desses autores no campo acadêmico do Ensino de Física, situando sua produção bibliográfica e sua produção técnica, especialmente sua participação em comissões e associações científicas de relevância no campo, publicizadas em seus currículos.

Ressalta-se que esta pesquisa é de natureza documental e tem caráter exploratório, na qual se pretendeu tatear as disputas relacionadas ao objeto livro didático de Física no campo de Ensino de Física. Decidiu-se por utilizar a sociologia de Bourdieu como aparato teórico para discutir a temática e, por isso, destacam-se alguns conceitos como o conceito de campo. Segundo Bourdieu (2004, p. 20-21) para se entender uma produção cultural não basta referir-se ao conteúdo textual dessa produção, tampouco referir-se ao contexto social pretendendo estabelecer uma relação direta entre o texto e o contexto. A hipótese do autor consiste em supor que, entre os polos do conteúdo textual e o polo do contexto existe um universo intermediário, que ele chama de campo, espaço no qual estão inseridos os agentes e as instituições que produzem, reproduzem ou difundem os capitais do campo.

Além disto, mesmo reconhecendo ausência de consenso, foi utilizado o conceito de subcampo que, segundo Passiani e Arruda (2017, p.71) ao analisar o significado de campo cultural, é admitido por Bourdieu, embora raramente por ele utilizado. Neste trabalho, entendeu-se o Ensino de Física como um campo, tratou-se das suas especificidades a partir da distinção de dois subcampos, como resultado do diálogo entre a teoria de Bourdieu e os estudos empíricos realizados: o subcampo da Pesquisa em Ensino de Física e o subcampo da Didática e Metodologia do Ensino de Física. A partir desses elementos, construiu-se a problemática relacionada ao livro didático de Física como elemento desse campo.

## A Física e o Ensino de Física: configurações de um campo

Para Silveira, Bufrem e Caregnato (2015), nos eventos os iniciantes são desafiados por aqueles que têm mais experiência e sua conduta e atividade científica são testadas. Dessa forma, segundo as autoras, a experiência desses pesquisadores é transformada em prática científica. Nos eventos os experientes procuram manter a relevância de suas ideias e, portanto, neles podem ser observadas relações de poder entre membros da comunidade.

Nessa direção, foram considerados os dois eventos do campo do Ensino de Física - SNEF e EPEF - para evidenciar temáticas de interesse dos pesquisadores, entendendo-as como objetos que poderiam ou não estar em disputa no campo. Foram analisadas as categorias propostas para submissão de trabalho nesses

eventos desde 1970 até 2018. Além disto, utilizou-se o trabalho intitulado 'Didática da Física', de Nardi e Castiblanco (2015), no qual foram definidos alguns 'objetos de pesquisa' no campo da Pesquisa em Ensino de Física.

Segundo os autores (Nardi e Castiblanco, 2015, p.432), os 'objetos de pesquisa da pesquisa em Ensino de Física podem ser agrupados em grandes temáticas integradoras: uma que trata dos diversos contextos onde são estudados os problemas de ensino e aprendizagem da Física; outra que define os objetivos ao ensinar Física; e outra que aborda os processos de ensino e aprendizagem dentro da sala de aula. Ainda, os autores entendem que a pesquisa na área tem caráter multidisciplinar, recebendo aportes das ciências da educação, das ciências exatas, das ciências humanas e da área de ensino de ciências. Acerca da identificação específica de um conjunto de ações que caracterizam o fazer dos pesquisadores a partir das publicações na área na última década, Nardi e Castiblanco (2015, p. 426) indicam que estes campos de ação seriam a formação inicial e continuada de professores; atuação de professores em diferentes níveis educacionais, condições formais e informais de educação, estudo sobre os objetivos de ensino da Física, currículos e políticas, processos de ensino e aprendizagem, comunicação na sala de aula, planejamento e desenvolvimento de sequências didáticas, dispositivos didáticos, uso de recursos como laboratórios e tecnologias, a relação entre professores, alunos e conteúdos, divulgação científica e transposição didática.

Segundo Lous (2022, p. 72) os temas que foram consolidados nos eventos, ao longo de sua história são: a) Ensino, Aprendizagem e Avaliação; b) Formação e Prática Docente; c) Filosofia, História e Sociologia no Ensino de Física; d) Currículo; e) Alfabetização Científica e Abordagem CTS; f) Materiais, Métodos e Estratégias de Ensino de Física; g) Ensino de Física nos Diferentes Estágios do Ensino; h) Tecnologia da Informação e Comunicações; i) Cultura, Ciência e Arte; j) Divulgação Científica e Ensino Não Formal; k) Educação e Política.

Ao se comparar os elementos destacados pelos autores (Nardi e Castiblanco, 2015) e o os temas levantados por Lous (2022), verifica-se que tal constatação dos autores, aliada à percepção de que a área de Ensino de Física tem características multidisciplinares, convergem para a afirmação sobre a natureza dos temas estabelecidos dentro dos principais eventos da área. Seja no evento mais amplo, o SNEF, no qual pesquisadores iniciantes e professores podem se apresentar como autores de trabalho incluindo relatos de experiências didáticas, seja no EPEF, evento criado para valorizar a pesquisa e os pesquisadores, os temas foram se desdobrando e se especificando ao longo das décadas em torno dos elementos que constituem os processos de didatização (como os métodos, a avaliação entre outros), mas também em torno dos processos de formação de professores, admitidas ainda outras temáticas relacionadas a politicas educativas ou novas demandas.

## O campo do Ensino de Física na perspectiva do estudo dos manuais escolares

Constatada a ausência de temática relacionada aos livros didáticos, de forma explicitamente referida, seja nos objetos identificados por Nardi e Castiblanco (2015), seja no levantamento realizado por Lous (2022), indagou-se acerca da

presença e da posição dos livros didáticos de Física no campo. Eles têm uma característica institucional particular no Brasil: são distribuídos gratuitamente desde 2009 - primeiramente pelo PNLEM e a partir de 2012 pelo PNLD - às escolas públicas brasileiras, após processos de avaliação das obras e de sua escolha pelos professores. Neste sentido, tomando como base a análise realizada por Lous (2022) acerca das obras aprovadas no PNLEM de 2009, PNLD de 2012, 2015 e 2018, destaca-se a presença repetida de diversos autores das coleções aprovadas nas várias edições do programa. Ainda, considerando o pressuposto de que os autores são agentes importantes do campo, que disputam esse objeto a partir dos seus capitais, entende-se que ao analisar a formação e atuação desses autores podem ser encontradas pistas para entender novos elementos da configuração do campo.

Segundo Lous (2002, p. 103) é possível verificar que entre os 53 autores de livros didáticos de Física distribuídos entre o PNLEM de 2009 e o PNLD de 2012, 2015 e 2018, 35 são professores do Ensino Médio e 15 são professores do Ensino Superior, tomando como referência as informações disponíveis nos currículos na Plataforma Lattes e também nos currículos apresentados ao início de cada livro das coleções aprovadas. Essa constatação remete à compreensão de que a autoria é pouco disputada pelos professores pesquisadores do campo, uma vez que estes são minoria no grupo de autores. Ainda segundo o autor (Lous, 2022, p. 128), há uma predominância de coleções de mesma autoria que participaram de 3 dos 4 processos do PNLD, seguido de coleções da mesma autoria que participaram nos 4 processos do PNLD, representando juntos cerca de 70% do total de autores. Destaca-se que é possível inferir pelos dados apresentados por Lous (2022) que a coleção de autoria de Benigno Barreto Filho e Claúdio Xavier da Silva esteve presente nas maiores tiragens dos três anos, a coleção de autoria de Bonjorno, Clinton, Eduardo Prado e Casemiro esteve presente em dois dos três anos e que a coleção da editora SM, ainda que com autores diferentes, também esteve presente entre as maiores tiragem em dois dos três anos que participou do processo do PNLD.

Por outro lado, a presença mais significativa de professores do Ensino Médio sugere a baixa valorização desse capital - a autoria de livros didáticos - no subcampo da Pesquisa em Ensino de Física resultado que dialoga com outros trabalhos de mapeamento realizados, como a pesquisa de Cunha (2021). O autor verificou que, nos eventos do campo do Ensino de Física, poucas mesas redondas, palestras ou conferências abordaram o tema dos manuais escolares, tema que tem maior representação em comunicações orais e pôsteres, lugares sociais concedidos aos pesquisadores iniciantes.

Acerca dos trabalhos apresentados nestes eventos, no levantamento realizado quanto ao período entre 2015 e 2020, pode-se afirmar que:

A) Há um volume significativo de pesquisas sobre livro didático de Física. Nos eventos analisados, as pesquisas sobre livro didático de Física representam de 3 a 8% das pesquisas totais. Essa afirmação considera que a inclusão da disciplina no PNLD ocorreu há cerca de uma década, tempo relativamente curto quando comparado a outros campos, como a língua materna ou a matemática, que desde 1985 fazem parte do programa, fato que é entendido por autores como Garcia (2013) como indutor de pesquisa no tema e, assim, como fator de valorização do objeto científico naqueles campos.

B) Há diferentes autores, com diferentes referenciais teóricos e há diferentes temas que são abordados sobre o livro didático de Física. Isso pode ser atribuído ao

fato de que o tema está ainda em processo de expansão, tendência que ainda não se expressa nas curvas de crescimento e que necessitam ser acompanhadas. Por outro lado, há concentração das pesquisas em torno de uma temática - análise dos conteúdos - e lacunas em outras, como no que se refere aos usos dos livros e às apropriações resultantes.

## Os manuais escolares: um objeto de disputa no campo do Ensino de Física

- O conjunto de materiais empíricos analisados (mapeamento de trabalhos realizado nas atas dos dois eventos, estudos de revisão bibliográfica disponíveis e uma obra de compilação de pesquisas para análise dos objetos científicos) permite sintetizar alguns resultados. Estes contribuem para compreender, ainda que de forma exploratória, a presença dos livros didáticos no campo do Ensino de Física em particular nos subcampos da Pesquisa em Ensino de Física e no subcampo da Didática e Metodologia do Ensino de Física.
- a) Pode-se afirmar que os eventos têm relevância no campo do Ensino de Física, em especial para fortalecer agentes e capitais no subcampo da Pesquisa em Ensino. Em particular, interessa indicar que houve um crescimento no volume de pesquisas acerca do objeto e, portanto, afirma-se que houve uma valorização do objeto no subcampo da Pesquisa em Ensino de Física. Pode-se justificar tal afirmação a partir dos dados sobre quantas pesquisas acerca do objeto 'livro didático de Física' foram apresentadas nos últimos cinco (5) anos nos dois eventos. Isto é, entre os EPEFs e os SNEFs realizados no período entre 2015 e 2020, foram encontrados 106 trabalhos no tema dentre um total de 2167 trabalhos, assim representando aproximadamente 5% dos trabalhos totais. Os resultados dialogam com mapeamentos realizados por outros pesadores que também observaram a presença crescente do tema em períodos anteriores, o que se associa (pelo menos em parte) à inclusão da disciplina no programa nacional de distribuição gratuita de livros. Esse resultado quantitativo pode ser tomado como indício de que no subcampo da Pesquisa em Ensino de Física o livro didático ganhou relevância nesse período como um objeto científico, uma vez que os dados evidenciaram haver mais agentes produzindo e mais produções acerca deste tema. Alguns nomes se mantiveram como destaques ao longo do tempo, em ambos os eventos ou privilegiadamente em um deles, muitos reconhecidos pelo papel formativo que desempenharam, seja na formação de professores seja na formação de pesquisadores. São cinco décadas de existência do campo de Ensino de Física, que certamente configuraram habitus , lutas, disputas, estratégias e capitais nesse campo específico.
- b) Ao analisar os indícios apresentados anteriormente e retomados sinteticamente nessa finalização do trabalho, comparados com o trabalho de Nardi e Castiblanco (2015), pode-se ressaltar que apesar deste aumento quantitativo dos trabalhos e sua valorização no campo, o objeto ainda se caracteriza como de pouco valor simbólico nesse campo. Em contraponto com o afirmado, apesar da percepção de que o objeto é relevante no conjunto de pesquisas do campo, ainda não se evidenciou sua valorização na proposição de temas gerais dos eventos - os manuais escolares permanecem invisibilizados pela sua inclusão em outros temas como também na proposição de problemáticas que orientam cada evento na

definição de focos temáticos para as conferências, mesas, palestras. Mas Nardi e Castiblanco, 2015, p. 20) fazem uma ressalva, no sentido de que 'os objetos de pesquisa da área são diversos, com tendência a aumentar à medida que se desenvolvem estudos mais específicos e, também, à medida que vão mudando as perspectivas do que é ciência, o que é ensinar Ciências, o que é formar professores de Ciências.' Neste sentido, é possível afirmar que ainda que não seja reconhecido no campo como um objeto relevante, à medida que se consolidarem as tendências de aumento de produção e de pesquisadores interessados, o objeto pode se tornar visível e talvez um objeto de maior disputa.

- c) Pode-se falar em uma distinção entre aqueles que pesquisam sobre os livros didáticos e aqueles que os produzem. A partir do levantamento realizado foi possível distinguir que apenas cerca de 25% dos autores das coleções apresentam publicações sobre Ensino de Física. Isto indica a existência de agentes diferentes em ação no subcampo que privilegia a Pesquisa e no subcampo que privilegia a produção de livros didáticos. A distinção entre professores que atuam no ensino superior e no ensino médio também foi identificada a partir dos dados que mostram a predominância de professores de ensino médio como autores de livros.
- d) Além disso, constatou-se a baixa disputa pela produção de livros didáticos, indicando a permanência de uma distinção entre a universidade e a educação básica quando se trata de autoria dessas obras. Destaca-se a partir dos dados que há uma predominância de coleções de mesma autoria que participaram de três das quatro edições do PNLD, seguido de coleções de mesma autoria que participaram das quatro edições do PNLD, representando juntos cerca de 70% do total de autores.

## Conclusões

Em síntese, a partir das análises realizadas tomando os manuais escolares como foco, aponta-se a possibilidade de reconhecer a configuração de dois subcampos do campo de Ensino de Física, o subcampo de Pesquisa em Ensino de Física e o subcampo de Didática e Metodologia do Ensino de Física, verificando-se neste último a maior disputa pela produção de livros didáticos para o ensino da Física. Destaca-se que estes campos guardam relações entre si, entre as práticas, os agentes e lutas. Ainda, em ambos os subcampos há agentes institucionais que o tensionam e modificam as disputas acerca do objeto livro didático de Física.

Particularmente, em cada campo se destacam lutas distintas, também. No subcampo da Pesquisa em Ensino de Física destacou-se que o livro didático de Física não possui visibilidade para agentes com capital acumulado no campo, ainda que as pesquisas sobre este objeto sejam cada vez mais frequentes. No subcampo da Didática e da Metodologia de Ensino de Física destacou-se que o livro didático é pouco disputado em sua produção e nos processos de sua escolha. Percebe-se a repetição dos autores das obras aprovadas e a repetição de autores nas obras com maior tiragem nos ciclos trienais do PNLD.

Os resultados apresentados neste trabalho sugerem aprofundamentos nas análises a partir desses referenciais teóricos e metodológicos que derivam das teorizações proposta pela Sociologia de Pierre Bourdieu, ainda pouco explorada no estudo das relações em que se inserem os manuais escolares de forma ampla e os livros didáticos de Física, em suas especificidades.

## REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. Os usos sociais da ciência : Por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: UNESP, 2004. ISBN 85-7139-530-6.

CASTIBLANCO, Olga L.; NARDI, Roberto. Os "objetos de estudo" da pesquisa em ensino de Física: Segundo pesquisadores brasileiros. Revista Ensaio , Belo Horizonte, v. 17, ed. 2, p. 414-433, 30 jan. 2022.

GARCIA, Tânia M. F. B. Cotidiano escolar, livros didáticos e formação docente. In: Fonseca, Selva Guimarães; GATTI JR., Décio (ORG). Perspectivas do ensino de história: ensino, cidadania e consciência histórica. Uberlândia, MG: Editora da Universidade Federal de Uberlândia, v. 1 p. 359-369.2011

LOUS, Bruno H. C. O livro didático é um objeto científico em disputa no campo do ensino de Física? Orientadora: Tânia Maria Figueiredo Braga Garcia. 2022. 135 p. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2022.

PASSIANI, Enio; ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Cultura. In: Vocabulário Bourdieu . 1. ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2017.

VIÑAO, Frago El libro de texto y las disciplinas escolares : una mirada a sus orígenes. In Escolano, Agustín. Curriculum editado y sociedad del conocimento. p. 109-133. Valencia: Tirant lo Blanch. 2006.

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