A FENOMENOLOGIA E A HERMENÊUTICA NO ENSINO DE FÍSICA: UMA ANÁLISE EM PERIÓDICOS BRASILEIROS
Ana Paula Carvalho Do Carmo, Robson Simplicio De Sousa
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 17/08/2022
- Linha de pesquisa
- 10 - Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A FENOMENOLOGIA E A HERMENÊUTICA NO ENSINO DE FÍSICA: UMA ANÁLISE EM PERIÓDICOS BRASILEIROS
## THE PHENOMENOLOGY AND HERMENEUTICS IN PHYSICS TEACHING: AN ANALYSIS IN BRAZILIAN JOURNALS
Ana Paula Carvalho do Carmo 1 , Robson Simplicio de Sousa 2
1 Universidade Federal do Paraná/ Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências, Educação Matemática e Tecnologias Educativas, anapaula-cdc@hotmail.com
2 Universidade Federal do Paraná/ Departamento de Educação, Ensino e Ciências, robsonsimplicio@hotmail.com
## Resumo
As pesquisas e práticas voltadas ao Ensino de Ciências têm valorizado aspectos cognitivos em detrimento das experiências de mundo dos alunos, de suas percepções, sensações e interpretações. A fenomenologia e a hermenêutica, áreas da filosofia que se relacionam, contribuem para uma visão do modo com que compreendemos o mundo de forma mais ontológica e sensível. Esta pesquisa, após traçar um panorama que evidencia a amplitude das contribuições da hermenêutica e da fenomenologia para o Ensino de Ciências, objetiva responder a pergunta de pesquisa: 'o que aparece de fenomenologia e hermenêutica nas pesquisas nacionais em Ensino de Física?'. Para isso, analisamos os artigos encontrados na Revista Brasileira de Ensino de Física e no Caderno Brasileiro de Ensino de Física enquadrados nos critérios de análise estabelecidos. Os resultados nos permitiram elaborar três categorias que mostram possíveis respostas à pergunta de pesquisa, bem como apontam para uma escassez de discussões pertinentes à área.
Palavras-chave : Fenomenologia, Hermenêutica, Ensino de Física.
## Abstract
Research and practices aimed at Science Teaching have valued cognitive aspects to the detriment of students' world experiences, their perceptions, sensations and interpretations. Phenomenology and hermeneutics, areas of philosophy that are related, contribute to a vision of the way we understand the world in a more ontological and sensitive way. This research, after outlining an overview that shows the breadth of the contributions of hermeneutics and phenomenology to Science Teaching, seeks to answer the research question: "what appears from phenomenology and hermeneutics in national research in Physics Teaching?". For this, we analyzed the articles found in the Revista Brasileira de Ensino de Física and in the Caderno Brasileiro de Ensino de Física that fit the established analysis criteria. The results allowed us to elaborate three categories that show possible answers to the research question, as well as point to a lack of discussions relevant to the area.
Keywords : Phenomenology, Hermeneutics, Physics Teaching.
## Introdução
Neste trabalho, faremos um sobrevoo histórico a respeito da fenomenologia e da hermenêutica, apresentaremos autores que fundamentam uma articulação entre estas áreas e como tal relação possui contribuições para o Ensino em Ciências (EC).
Em seguida, temos como objetivo analisar como a fenomenologia e a hermenêutica se mostram nas pesquisas em Ensino de Física.
A fenomenologia como conceito existe há cerca de dois séculos, seu surgimento foi motivado pelo resgate da primazia da percepção dos fenômenos, sendo seu principal precursor Edmund Husserl (ØSTERGAARD, DAHLIN e HUGO, 2008). A força motriz que levou Husserl aos estudos fenomenológicos, segundo Østergaard, Dahlin e Hugo (2008), se pautou em reconhecer a incapacidade das ciências naturais de se conectar com o mundo da vida. Isso, pois os modelos abstratos científicos apresentam foco exclusivo na cognição e tendem a ser considerados mais reais do que nossa própria realidade, de modo a marginalizar a experiência dos sentidos (DAHLIN, 2001; ØSTERGAARD, DAHLIN e HUGO, 2008).
Os estudos sobre fenomenologia passaram por transformações ao longo da história. Husserl, por exemplo, mesmo valorizando a percepção, acreditava que os fenômenos se deixariam ver sem qualquer interferência, abrindo espaço para acessar suas essências (KAHLMEYER-MERTENS, 2015). Vários filósofos posteriores criticaram a visão husserliana, tais como Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty (ØSTERGAARD, DAHLIN e HUGO, 2008). Estes tinham um ponto em comum contrário à ideia de Husserl, pois defendiam a impossibilidade de estabelecer um fundamento epistemológico para toda a ciência.
Østergaard, Dahlin e Hugo (2008) apontam para um crescente interesse nos estudos sobre fenomenologia motivado por suas contribuições como filosofia do conhecimento, como abordagem de pesquisa qualitativa e como campo da Educação em Ciências. Independente da área que estuda o assunto, é consenso a ideia de que é impossível descrever os fenômenos de modo a resgatar suas essências. Cada ser que observa irá, com base em suas vivências e tradições, perceber algo diferente sobre o que o cerca. Logo, mesmo quando deixamos que o fenômeno se mostre, estamos vivenciando experiências interpretativas/hermenêuticas já que nossas précompreensões dialogam no processo (EGER, 1992; HERMANN, 2002; SOUSA E GALIAZZI, 2018).
Grondin (2012) divide as acepções de hermenêutica em clássica, metodológica e universal. A clássica refere-se a hermenêutica como arte de interpretar, baseada em estabelecer regras para a análise de textos sagrados. Wilhelm Dilthey concedeu à hermenêutica um caráter mais lógico, epistemológico e metodológico. Para ele, a compreensão tinha como intuito recriar os sentidos vividos pelo autor. Martin Heidegger, por sua vez, cunhou uma hermenêutica existencialista, baseada em uma função fenomenológica. Enquanto a fenomenologia era vista em moldes idealistas, a hermenêutica era vista como relativista, Heidegger, então, corrige uma pela outra, inaugurando uma fenomenologia hermenêutica (KAHLMEYERMERTENS, 2015). O filósofo Hans-Georg Gadamer, articulando as visões de Heidegger, Husserl e Dilthey, propõe uma hermenêutica universal da linguagem, conhecida como hermenêutica filosófica (HF), na qual toda compreensão é hermenêutica e, portanto, universal (SOUSA e GALIAZZI, 2017).
A articulação entre fenomenologia e hermenêutica promove mudanças no EC. Østergaard (2017, p. 559, tradução nossa) ressalta que 'os alunos não têm a oportunidade de descobrir algo novo ou questionar a teoria existente; em vez disso, espera-se que eles a confirmem'. O ensino pautado em fundamentos fenomenológicos e hermenêuticos visa resgatar a percepção, a experiência sensorial,
mas, também busca reconhecer a impossibilidade de descrever e compreender fenômenos científicos em suas plenitudes (DONELLY, 1999; DAHLIN, 2001; TOSCANO e QUAY, 2021).
Por ser uma ciência natural, a Física possui uma tendência em valorizar o cognitivo e o abstrato e, portanto, seu ensino carece de um olhar fenomenológico e hermenêutico. Há décadas existe literatura estrangeira que estuda as implicações desse olhar especificamente para o Ensino de Física (WAGENSCHEIN, 1995; EGER, 1992; SHAW, 2010; HUANG, 2012). Tendo isso em vista, buscamos analisar como esta articulação tem se mostrado nos trabalhos em Ensino de Física a nível nacional. A pesquisa foi realizada com artigos presentes na Revista Brasileira de Ensino de Física e no Caderno Brasileiro de Ensino de Física adequados aos nossos critérios de escolha. Dentre as discussões levantadas a partir da análise está a escassez de publicações que retratam o tema dessa pesquisa, algumas possibilidades encontradas voltadas à formação de alunos e professores, bem como discussões que permitem ampliar as compreensões sobre o assunto.
## Metodologia
A pesquisa realizada neste trabalho possui caráter qualitativo, pois busca descrever fenômenos com maior foco no processo do que nos resultados (BOGDAN e BLIKEN, 1994). Buscamos responder a pergunta de pesquisa: 'o que aparece de fenomenologia e hermenêutica nas pesquisas nacionais em Ensino de Física?'.
Procuramos na Plataforma Sucupira revistas nacionais de qualis A1 e A2 direcionadas para o Ensino de Física. Adotamos como critérios de escolha a classificação de periódicos quadriênio (2013 - 2016), a área de Ensino. São elas: Revista Brasileira de Ensino de Física e Caderno Brasileiro de Ensino de Física.
Inserimos nos sites das revistas as palavras-chaves 'hermenêutica' e 'fenomenologia', de modo que somente os artigos que as mostrassem no título, resumo ou palavras-chave foram selecionados. Identificamos os trechos dos artigos encontrados que respondiam a nossa pergunta de pesquisa, formando com isso, nosso corpus de análise, ou seja, o material textual que será analisado.
Para analisar os resultados, baseamo-nos na Análise Textual Discursiva (MORAES e GALIAZZI, 2016). Separamos e codificamos o material de análise em unidades de significado (US), de forma a desconstruir o corpus original. A partir disso, relacionamos as US semelhantes de onde emergiram categorias. Após isso, descrevemos as categorias e realizamos um movimento interpretativo à luz de referenciais teóricos em que as novas compreensões são comunicadas.
## Resultados
Identificamos cinco artigos referentes a fenomenologia (ROSA, LIMA e CAVALCANTI, 2022; VIOL, et al., 2021; HORVATH, 2013; VIEIRA e LARA, 2013; SOUZA e DANTAS, 2010) e um referente a hermenêutica (SANTOS, MELLO e SILVA, 2021). Um dos trabalhos traz a palavra 'fenomenologia' em seu título, mas não a retoma em todo o artigo. Outro citou a palavra 'fenomenologia' apenas uma vez no resumo, de modo que nenhum dos artigos desenvolveu os conceitos fenomenológicos ou os tomou como centralidade.
Cada artigo recebeu um código A1, A2, A3 etc. Unitarizamos dezoito US que foram codificadas pela sua ordem de aparição, por exemplo, A1.1, A6.5. O processo de categorização possibilitou o aparecimento de três categorias: 'A fenomenologia no
Ensino de Física se vincula com uma análise empírica de modo a promover compreensão", 'O fenômeno no Ensino de Física como modo de considerar seu caráter histórico e prático' e 'A hermenêutica no Ensino de Física como valorização da tradição e da linguagem' que serão descritas e interpretadas a seguir.
## A Fenomenologia no Ensino de Física se vincula com uma análise empírica de modo a promover compreensão
Nesta categoria, obtivemos quatro US, presentes em três, dos seis artigos analisados. A primeira ideia que emerge aponta para a fenomenologia associada a resultados empíricos. A US A1.1 apresentada a seguir demonstra essa descrição
Na sequência, são discutidos aspectos fenomenológicos, ou seja, resultados empíricos obtidos em experimentos com sistemas quânticos. Nesse momento não é discutido o que o princípio significa, mas como que os resultados experimentais traduzem tal princípio (ROSA, LIMA e CAVALCANTE, 2022, p. 3).
A US A1.2 também apresenta a mesma ideia de fenomenologia, apontando para suas contribuições na compreensão de um fenômeno.
Além disso conexão do Princípio da Incerteza com sua fenomenologia pode tornar a compreensão, tendo em vista a aplicação do conceito, mais nítida, além de ressaltar a importância da experimentação, mesmo que mental, em uma teoria Física (ROSA, LIMA e CAVALCANTE, 2022, p. 12)
No início deste trabalho, apresentamos, de acordo com Østergaard, Dahlin e Hugo (2008), as ramificações dos estudos da fenomenologia como filosofia do conhecimento, como abordagem de pesquisa qualitativa e como campo da Educação em Ciências. É possível notar um distanciamento entre tais subdivisões e a forma com que a fenomenologia aparece nos trechos presentes nesta categoria (A1.1; A1.2; A.1; A3.1). Nota-se, na verdade, uma aproximação entre a fenomenologia que aparece com uma tradição empirista que remete ao conceito de fenomenismo de Ernst Mach. Este consiste em reduzir os objetos físicos e os atos psíquicos a agregados ou complexos de sensações. A ciência, sob esta ótica, se baseia puramente na descrição dos elementos, resultados empíricos (FISSETE, 2009). A unidade de significado A1.2, por sua vez, aponta para considerar a cognição daquele que compreende o fenômeno.
As contribuições da fenomenologia à educação, em especial ao Ensino de Física, não se resumem a uma forma de facilitar a compreensão de resultados empíricos de experimentos, conforme os artigos analisados apontam, tampouco tratálos como fatos isolados desvinculados de aspectos históricos. Vários autores já fazem uma crítica a essa tendência da pesquisa e da prática educativa em valorizar exclusivamente a cognição em detrimento das experiências dos sentidos (DONELLY, 1999; DAHLIN, 2001; TOSCANO e QUAY, 2021). Os resultados desta pesquisa corroboram a ideia tendo em vista a baixíssima quantidade de artigos que abordam o assunto nas principais revistas brasileiras da área, bem como a falta de centralidade e profundidade de discussão.
Uma educação fenomenológica não intenta acabar com um ensino pragmático, com modelos abstratos, mas em começar pela experiência do aluno para que ele os perceba (DAHLIN, 2001). Uma perspectiva fenomenológica no Ensino de Física, contribui para uma formação integral do aluno, que supera uma postura de
dominação entre sujeito e objeto, supera uma perspectiva instrumental, mas valoriza uma experiência ontológica (TOSCANO e QUAY, 2021).
## O fenômeno no Ensino de Física como modo de considerar seu caráter histórico e prático
Esta categoria foi formada pela aproximação de cinco US, todas pertencentes ao mesmo artigo. Aqui, o fenômeno não é retrato somente por seu caráter empírico e estático, mas vinculado com um caráter histórico e prático. Tal ideia pode ser vista na US A5.2, apresentada abaixo.
Este trabalho tem como objetivo mostrar que alguns temas de Física Nuclear podem ser abordados em nível conceitual no Ensino Médio. Trata-se de um esforço na busca de esclarecer fenômenos de grande importância histórica e utilidade prática no mundo moderno (SOUZA e DANTAS, 2010, p. 138)
## A mesma ideia é reforçada no artigo na unidade de significado A5.4
Este trabalho sugere alguns fenômenos na escala nuclear que podem ser tratados qualitativamente em sala de aula em nível Médio para fins metodológicos e práticos: tratam-se de fenômenos de elevada importância histórica e que possuem aplicações em outras áreas de conhecimento (SOUZA e DANTAS, 2010, p. 139) .
Tais trechos apresentados foram retirados de artigos que se enquadraram nos critérios de análise, ou seja, retratavam algo sobre fenomenologia. Nesse caso, como a palavra fenomenologia não foi explorada, nos detemos a descrever e interpretar o conceito de fenômeno que apareceu. Enquanto a categoria anterior valoriza a compreensão do objeto em si, aqui o fenômeno é analisado a partir de seu caráter histórico na ciência e possui relação com outras áreas de conhecimento.
Matthews (2017) defende a ideia de que todos os alunos deveriam compreender o desenvolvimento da ciência e sua cultura, que devem reconhecer não somente as teorias e fórmulas, mas as suas formas sociais. Isso impacta em suas visões sobre o que é ciência, como algo humano, passível de erros e falível.
No entanto, nem todas as formas de abordar a história da ciência podem ser um caminho benéfico para o ensino de ciências. Abadia (2011) faz uma crítica a duas tendências historiográficas, o presentismo e o historicismo. A primeira se refere à tendência de escrever o passado baseado no estado atual de conhecimento. Já a segunda remete a ideia de estudar o passado em seus próprios termos, sem referência para o presente. Hans-Georg Gadamer defende que precisamos sim estudar o passado em seus próprios termos para o compreender, mas que não conseguimos nos desvincular de nossos preconceitos presentes (HERMANN, 2002). Dessa forma, ao retratar a história da ciência devemos evitar fixar narrativas históricas como absolutas e, também, não inferiorizar os percursos passados encarando somente o presente como algo grandioso. Estudar os fenômenos sob um viés histórico, na perspectiva da HF, consiste em conhecer o passado de modo a descrevêlo e interpretá-lo baseado em seu contexto, mas reconhecendo que nossas tradições e nossa linguagem servem como guia.
## A hermenêutica no Ensino de Física como valorização da tradição e da linguagem
Para elaborar essa categoria, aproximamos nove US, pertencentes ao mesmo artigo. É o único artigo em que se retrata as contribuições da hermenêutica à educação, sendo este o tema central do artigo. Uma ideia que emergiu dentro desta
categoria aponta que o ato de compreender está ligado à tradição daquele que interpreta, conforme evidenciado no parágrafo abaixo que constitui a US A6.3.
Assim sendo, são elementos centrais da hermenêutica filosófica de Gadamer: o reconhecimento de que o passado exerce fundamental influência na nossa compreensão do mundo, o fato de estarmos sempre inseridos em uma tradição cultural e que ela tem uma função de validade para além da fundamentação racional. Com efeito, tal hermenêutica nos coloca a possibilidade de estabelecermos uma mediação entre presente, passado e perspectivas futuras, por meio do reconhecimento do valor da tradição como fundante para o ato de compreender (SANTOS, MELLO e SILVA, p. 1294, 2021)
Outra ideia que emerge dessa categoria aponta para as contribuições da HF para a formação de professores. A US A6.4, apresentada abaixo, retrata essa ideia.
[...] levando em conta que o(a) professor(a) está sempre diante da tarefa de interpretar e mediar o conhecimento com os(as) estudantes, consideramos que a hermenêutica filosófica é um elemento muito importante no contexto que estamos tratando. Sousa e Galiazzi (2018), partindo dos estudos de Gadamer sobre tradição de linguagem, nos chamam a atenção para o reconhecimento do professor como um tipo de tradutor-intérprete da tradição histórica que abarca o conhecimento científico (SANTOS, MELLO e SILVA, p. 1294, 2021)
Emerge dessa categoria, ainda, as contribuições da HF vinculadas a formação dos alunos. Os autores apontam que ações pedagógicas fundamentadas na HF 'podem ajudar a conscientizar os estudantes de limitações em suas concepções prévias do mundo e criar uma abertura para compreenderem, por exemplo, que nosso conhecimento atual não está completo' (SANTOS, MELLO e SILVA, p. 1298, 2021).
Esta categoria amplia a importância do fenômeno para a educação. A HF aponta para a impossibilidade de conceber o conhecimento como estruturas objetivamente dadas como fatos (HERMANN, 2002). Dessa forma, a interpretação dos fenômenos no mundo possui um caráter histórico vinculados às nossas tradições. Sousa e Galiazzi (2018, p. 274) reiteram que 'a compreensão é afetada tanto pela tradição como tem efeito na tradição, pois cada momento histórico compreende um assunto a partir do ponto de vista de seu próprio lugar na história e, assim, transforma o modo como o assunto é compreendido'. O modo com que a hermenêutica é apresentada nesta categoria revela seu caráter ontológico, em especial para educação, ao passo que coloca o aluno em um movimento fenomenológico de compreensão de si e do mundo, tendo em vista sempre o horizonte histórico em que se situa.
A linguagem se relaciona com a tradição ao passo que constitui um meio pelo qual acessamos o mundo, consiste na forma com que algo faz sentido baseado em nossas pré-compreensões (HERMANN, 2002). Frente a isso, o papel do professor não é somente ensinar fórmulas e teorias, mas de fazer uma tradução entre a linguagem científica e a linguagem do estudante (SOUSA e GALIAZZI, 2018). Assim, a HF abre espaço para a pergunta, para o reconhecimento de que os sentidos e as interpretações se dão na medida em que há um diálogo entre partes, de modo a formar um círculo hermenêutico. Perceber e interpretar o mundo com um olhar fenomenológico e hermenêutico abre possibilidades para o Ensino de Física, pois reitera que somos seres históricos, e que mesmo a ciência, com todas suas teorias e modelos, não é absoluta, pois a forma com que percebemos os fenômenos físicos sempre estarão vinculadas a nossa tradição e nossa linguagem.
## Considerações finais
Neste trabalho, apresentamos referenciais que apontam para um cenário de valorização de aspectos cognitivos e subvalorização das experiências ontológicas no Ensino de Ciências. A hermenêutica e a fenomenologia se mostram como possíveis caminhos de complementação para contornar tal problemática. Dessa forma, investigamos o que aparece de fenomenologia e hermenêutica nas pesquisas nacionais em Ensino de Física.
Como resultado, percebemos um cenário de estudos ainda incipiente, com apenas seis artigos que discorrem sobre a temática. Três categorias emergiram da análise: 'A fenomenologia no Ensino de Física se vincula com uma análise empírica de modo a promover compreensão"; 'O fenômeno no Ensino de Física como modo de considerar seu caráter histórico e prático'; 'A hermenêutica no Ensino de Física como valorização da tradição e da linguagem'. Dos artigos encontrados, somente um de fato apontou para o caráter ontológico que a hermenêutica e a fenomenologia possuem. Esse caráter confere a primazia à percepção, fomenta uma experiência educativa que parte das vivências dos alunos rumo aos modelos abstratos, que valoriza as tradições e a historicidade. Sinalizamos para a necessidade de ampliar os estudos sobre esta área no Ensino de Física.
## Agradecimento
- O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001
## Referências
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