O LIVRO DIDÁTICO DE FÍSICA COMO ACTANTE NA EDUCAÇÃO BÁSICA
Kelly Vanessa Fernandes Dias Da Silva, Nilson Marcos Dias Garcia
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 17/08/2022
- Linha de pesquisa
- 10 - Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O LIVRO DIDÁTICO DE FÍSICA COMO ACTANTE NA EDUCAÇÃO BÁSICA
## THE PHYSICS TEXTBOOK AS AN ACTOR IN HIGH SCHOOL
Kelly Vanessa Fernandes Dias da Silva 1 , Nilson Marcos Dias Garcia 2
1 UFPR-PPGE, keke.fds@gmail.com
2 UTFPR-PPGTE/GEPEF/GETET e UFPR-PPGE/NPPD, nilsondg@gmail.com
## Resumo
A Educação Básica da rede pública pode ser vista como um espaço de relações sociais que envolvem um conjunto de interações de grupos de humanos que, incorporados a objetos não humanos, realizam o processo educacional. Refletir sobre esses actantes incorporados em redes que podem modificar ou transformar ambientes, e que não humanos podem interferir nas relações sociais tanto quanto humanos, faz o social ser ontologicamente constituído por sua multiplicidade e diversidade de elementos e conexões. Analisando o espaço de aprendizado social dessas relações, a Teoria Ator-Rede (TAR), uma abordagem analítica do campo da Ciência, Tecnologia e Sociedade, pode contribuir para a compreensão das relações de ubiquidade entre os sujeitos e os objetos. Tomando como referência os pressupostos da TAR, e como universo pesquisas já publicadas a respeito dos papéis desempenhados pelos livros didáticos no contexto de ensino e aprendizagem, a presente investigação visa encontrar e interpretar conexões do livro didático de Física com outros elementos presentes na Educação Básica. Os resultados têm demonstrado que, coerentemente à TAR, os livros didáticos de Física tem contribuído para modificar ou/e transformar o social, podendo ser interpretado como um possível actante não humano que exerce força e declina no tempo, e que sua presença ou ausência pode modificar redes sociotécnicas presentes no processo educativo.
Palavras-chave : Livro didático de Física. Teoria Ator-Rede. TAR. Actante.
## Abstract
Public Basic Education can be seen as a space of social relations that involve a set of interactions of groups of humans who, incorporated to non-human objects, carry out the educational process. Reflecting on these actors embedded in networks that can modify or transform environments, and that non-humans can interfere in social relations as much as humans do, makes the social ontologically constituted by its multiplicity and diversity of elements and connections. Analyzing the social learning space of these relationships, the Actor-Network Theory (ANT), an analytical approach from the field of Science, Technology and Society, can contribute to the understanding of the ubiquitous relationships between subjects and objects. Taking the assumptions of ANT as a reference, and also as a universe of already published research about the roles played by textbooks in the context of teaching and learning, the present investigation aims to find and interpret connections of the
Physics textbook with other elements present in Basic Education. The results have shown that, consistent with ANT, Physics textbooks have contributed to modify or/and transform the social, and can be interpreted as a possible non-human actor that exerts force and declines in time, and that its presence or absence can modify socio-technical networks presents in the educational process.
Keywords : Physics Textbooks. Actor-Network Theory. ANT. Actor.
## Introdução
O livro didático de Física da Educação Básica da rede pública no Brasil tem se revelado um artefato presente no cotidiano das escolas, sendo relevante para a cultura escolar o seu conteúdo, sua produção, seu aspecto, sua abordagem metodológica e sua representação no mercado editorial (MARTINS; GARCIA, 2017). Ele tem sido considerado no campo educacional como uma fonte confiável da apresentação dos saberes escolares, sendo muitas vezes o principal ou único apoio dos professores em suas práticas docentes, evidenciando assim sua influência nas ações pedagógicas.
Entretanto, muitas vezes o livro didático tem sua importância minimizada, sendo tratado como um mero coadjuvante do processo, o que faz com que refletir a respeito do seu papel na construção das relações sociais no contexto de ensino e aprendizagem na Educação Básica constitua-se em uma necessidade e ao mesmo tempo um desafio.
Assim, adotando como referência a Teoria Ator-Rede (TAR), uma abordagem analítica que procura verificar as associações e movimentos dos atores envolvidos num processo social, este trabalho tem como objetivo apresentar uma proposta para olhar o livro didático de Física como um actante na Educação Básica da rede pública. Assume-se, nesse propósito, que o conhecimento é um produto social (LAW, 1992), formado por redes de materiais heterogêneos que envolvem humanos e não humanos, nas quais a produção de conhecimento também se dá por associações, cedendo visibilidade aos não humanos (LATOUR, 2012), dentre os quais o livro didático, neste caso de Física.
## O Livro Didático de Física na Educação Básica
O livro didático tem uma grande presença na cultura escolar e uma reconhecida importância na Educação Básica no Brasil. Para Méndez (2003, p. 2015), o livro é 'elemento transversal no processo educacional e na realidade vivida pelo profissional da educação, constituindo o principal recurso didático'. Destacando que, ao menos em princípio, uma das funções do livro didático é ser o portador dos conteúdos e concepções pré-definidos em documentos oficiais, ele é protagonista de uma das maiores políticas públicas atuais na educação brasileira, o Programa Nacional do Livro e dos Materiais Didáticos (PNLD). Ao ser distribuído gratuitamente aos professores e alunos das escolas públicas, o Programa garante sua presença na cultura escolar, ofertando aos docentes multifuncionalidades de métodos e estratégias de ensino, auxiliando-o em seu planejamento e possibilitando aos alunos o acesso a um sem número de conhecimentos.
Considerado um material didático privilegiado para a prática docente, 'vários trabalhos apontam que é muito frequente que os professores 'sigam' o livro para
estruturar suas aulas' (ZABALA, 1998, p. 169), fortalecendo o uso em seus currículos e em suas metodologias. Por conta desse papel, conforme Choppin (2004, p. 549), 'os livros didáticos vêm suscitando um vivo interesse entre os pesquisadores de uns trinta anos para cá', apresentando assim ênfase ao crescimento e a consolidação do livro no campo da pesquisa em educação.
Contudo, definir o livro e seu real papel não é algo simples. Choppin (2004, p. 552) afirma que 'se hoje consideramos o livro didático como um objeto banal, um objeto tão familiar que parece inútil tentar defini-lo, o historiador que se interessa pela evolução dos livros escolares [...] depara, logo de início, com um problema de definição', sinalizando ser complexa sua compreensão no contexto educacional.
No caso da disciplina de Física, o livro didático chegou às escolas através do PNLD apenas em 2009, sendo assim relativamente recente sua ampla presença no ambiente e na cultura escolar, o que suscita reflexões sobre a sua influência na prática docente.
Reconhecido como 'uma importante ferramenta pedagógica a serviço do professor como é o computador, a televisão, a rede web, etc' (PARANÁ, 2008, p. 64) a sua presença no ambiente escolar pode ser um dos principais fatores que fomentam as pesquisas sobre os usos e papéis do livro, abrindo assim, diversas possibilidades de abordagem de estudos, sendo preciso, entretanto,
[...] considerar que os livros didáticos, seu conteúdo, sua produção, sua apresentação, sua abordagem metodológica e seu papel no mercado editorial têm uma história e contexto que se relaciona com uma determinada concepção de ensino e de aprendizagem, razão pela qual a investigação sobre eles também se faz importante e premente. (GARCIA, 2017, p. 10).
Assim, tomar o livro didático como objeto de pesquisa e protagonista de um processo educacional, justifica investigações que estabeleçam articulações entre ele e os vários interesses envolvidos (políticos, econômicos, pedagógicos...) e suas consequências (MÉNDEZ, 2003; DÍAZ, 2011; AGUIAR; GARCIA, 2017).
## A Teoria Ator-Rede e a Educação
A Teoria Ator-Rede (TAR) é uma abordagem analítica em teoria social que originou-se na década de 1980 no campo da Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), a partir dos estudos de Bruno Latour, John Law, Michel Callon, entre outros. De acordo com a TAR 'o 'social' deve ser definido como associação e compreendido em termos de rede, ou ator-rede, que envolve uma heterogeneidade de elementos humanos e não humanos.' (COUTINHO; VIANA, 2019, p. 17).
Tem como intenção apresentar a existência de mobilidade de humanos e não humanos, que se comportam como atores que agem mutuamente, interferindo e influenciando o comportamento um do outro. Para Latour (2012), a abordagem pela TAR tem sua origem em uma nova teoria social que se ajusta aos estudos da ciência e tecnologia, na qual o cientista procura explicar previamente todas as associações e movimentos dos atores para esclarecer os argumentos sobre o social, fazendo do mesmo um resultado e não a causa das associações. Assim, para seguir os atores da rede se faz necessário entender que se deve 'definir o ator com base naquilo que ele faz - seus desempenhos (...). Urna vez que, em inglês, a palavra
actor (ator) se limita a humanos, utilizamos muitas vezes "actante" (atuante), termo tomado a semiótica, para incluir não-humanos" na definição' (LATOUR, 2001, p. 346).
Metodologicamente, a TAR oferece elementos segundo os quais podem ser elaborados instrumentos para apresentar os bastidores dos trabalhos de pesquisa, tornando possível evidenciar as habilidades dos profissionais, apresentando a 'intrigante fusão de atividades humanas e entidades não humanas' que acontecem no processo de produção do conhecimento (LATOUR, 2012, p. 133). A TAR permite unir essa variedade de entidades, humanas e não humanas que, quando se associam, desempenham realidades (LATOUR, 2012). Assim, trata-se de delinear como diferentes actantes se reúnem, formando associações que exercem forças e declinam no tempo.
Para Latour (2006) a TAR se fundamenta em três critérios: os não humanos devem ser actantes, não simplesmente suportes de projeções simbólicas; o social não pode ser estável, e sim variável, e, é preciso reagregar o social, de forma que actantes heterogêneos ausentes sejam reunidos sob uma dada circunstância, realizando um movimento constante de reassociação e reagregação, de forma a não existir sujeito como objeto e eventos que podem ser isolados de suas manifestações, mas híbridos que compõem uma rede (LATOUR, 2012).
Nesta perspectiva, a TAR pode oferecer elementos para compreender a escola, haja vista que nela existem diversos objetos técnicos que auxiliam na construção das relações sociais e de redes e ela 'é produzida pela relação entre humanos e não humanos'. (OLIVEIRA; PORTO, 2016, 49). Assim, pensar na importância da Educação Básica e na escola, leva-nos a perceber a importância de se considerar que existem muitos objetos técnicos - actantes - que interferem diretamente na transformação desta sociedade e que modificaram o ambiente escolar no decorrer da história.
Ao identificar como os não humanos podem ser actantes que compõem a cultura escolar, auxiliando no processo de ensino e aprendizagem na Educação Básica junto à ação de humanos, percebe-se a existência de híbridos, que não podem ser separados do ambiente educacional. Nessa percepção, 'podemos afirmar que não existe de fato oposição entre cultura (humanidade) e técnica (desumanizadora), e sim complementariedade, e é nessa perspectiva que a educação como produto e produtora da cultura humana faz parte dessa associação' (OLIVEIRA; PORTO, 2016, p. 49).
Assim, pensando numa relação intrínseca da Educação Básica com os objetos técnicos pode-se compreender a educação como uma rede sociotécnica, formada por associação entre humanos e não humanos, corroborando o pensado por Latour (2012), que se o social é o que emerge das associações, pensar na educação não poderia ser diferente, pois o acesso a ela, dentro de uma sociedade, pode formar actantes que sejam capazes de realizar a manutenção ou transformação social em diversas redes.
Essa concepção ajuda-nos a reconhecer que os não humanos geram ações, demonstrando que eles agem, movimentam, modificam e interferem no processo de ensino e aprendizagem, e nos fazem distanciar da percepção de serem extensões dos humanos, de forma a sermos levados a entendê-los não a partir do que são, mas do que representam para a educação e dos processos educativos de que fazem parte.
Porém, os não humanos, como por exemplo os livros didáticos, lousa e giz, carteiras e mesas, têm, por muitas vezes, sido considerados coadjuvantes em seus papéis para a concretização do processo de ensino e aprendizagem. A esse respeito, Oliveira e Porto (2016) são assertivos:
[...] retiremos esses objetos do seu cotidiano e vejamos se ele ainda faz sentido. Removamos os objetos, as mídias, as tecnologias da escola e dos ambientes educacionais e vejamos se o processo de ensino-aprendizagem ainda é o mesmo. (OLIVEIRA; PORTO, 2016, p. 49).
Imaginar a educação sem seus artefatos, considerados 'quase' obrigatórios para o mínimo de organização estrutural, por exemplo, da sala de aula padronizada com carteiras e cadeiras enfileiradas com o quadro de giz a frente utilizado de forma diária pelo professor, que para muitos é a forma de tornar possível o processo de ensino e aprendizagem, leva-nos a reconhecer que 'os objetos, além de executarem tarefas práticas, ajudam a estabilizar, mediar, moldar, articular, executar e dar sentido à ação. Eles até nos ajudam a formar identidades' (COUTINHO; VIANA, 2019, p. 24).
Assim, refletir sobre as ações presentes na rotina dos sujeitos escolares com o livro didático, actante que é incorporado por professores e alunos em suas atividades escolares e extraescolares, permitirá verificar que actantes não humanos agem e interferem no contexto educativo e também a real influência que os objetos técnicos desempenham na organização do contexto escolar e na rede de articulação com a Educação Básica.
## O Livro didático de Física como um possível actante
A pesquisa, de natureza qualitativa e de caráter documental, tem tomado como universo teses defendidas em universidades brasileiras que tenham identificado o papel desempenhado pelos livros didáticos de Física escolhidos pelo Programa Nacional do Livro e dos Materiais Didáticos (PNLD), localizadas a partir de buscas realizadas no 'Catálogo de Teses e Dissertações da Capes'.
Apoiando-se nos pressupostos da Análise Textual Discursiva, a análise das teses encontradas, ainda em processo, procura identificar elementos que configurem os livros didáticos como actantes no contexto educacional das escolas públicas brasileiras, visando encontrar as conexões que permitam seguir os seus rastros nas redes sociotécnicas das quais participa e os possíveis caminhos que eles trilham, tanto no desenvolvimento curricular, na criação de políticas públicas e na prática do ensino, como nas mãos dos alunos.
Os resultados prévios têm evidenciado que os livros são mais que intermediários, ferramentas ou meios que permitem o acesso ao conhecimento, mostrando que eles mobilizam ações, por exemplo, dos estudantes para a ação de estudar e dos professores para a ação de ensinar, fato que ficou evidenciado no momento atual de pandemia, em que o livro didático permitiu que alunos continuassem a estudar e professores a ensinar, mesmo quando as condições de conexões midiáticas não se mostraram eficientes.
As pesquisas também têm mostrado que os livros se mantém fortemente presentes na cultura escolar mesmo com as novas tecnologias educacionais
disponíveis na Educação Básica. Acredita-se que isso possa acontecer pelo fato da existência do PNLD, uma política pública que o avalia e distribui de forma universal para auxiliar na prática educativa. Assim, esses são fatos que evidenciam os livros se comportando como actantes que agem e se movimentam no contexto educativo e podem participar de diversas redes sociotécnicas.
## Considerações Finais
Uma proposta de estudo das relações sociais a partir das ações de seus actantes, humanos e não humanos, sob a ótica da Teoria Ator-Rede (TAR), envolve múltiplas interpretações que podem existir e serem produzidas em redes sociotécnicas. Por instigar o interesse e promover uma nova maneira de refletir, fazer e estudar associações entre actantes, humanos e não humanos, a análise do papel do livro didático apoiada nos princípios da TAR permitirá compreendê-lo como actante nas redes da qual participa. Os estudos vêm revelando como o livro didático de Física influencia a educação pública, destacando as conexões que ele exerce ou sofre de diferentes actantes que também interferem, influenciam e podem até modificar mutuamente os comportamentos.
Assim, a Teoria Ator-Rede tem-se mostrado promissora por trazer novas perspectivas para as pesquisas sobre o livro didático, uma vez que humanos e não humanos são considerados em uma ontologia simétrica, possibilitando compreender como o livro estimula ações humanas, evidenciando-se como um actante no contexto educacional público no Brasil.
## Referências
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CHOPPIN, A. História dos livros e das edições didáticas: sobre o estado da arte. Educação e Pesquisa. São Paulo. v. 30, n.3, p. 549-566. 2004.
DÍAZ, O. R. T. A atualidade do livro didático como recurso curricular. Linhas Críticas, Brasília, v. 17, n. 34, p. 609-624. 2011.
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MÉNDEZ, M. C. O livro e a educação: aspectos políticos da produção do livro didático. BARBOSA, R. L. L. (Org.). Formação de educadores: desafio e perspectivas. São Paulo: UNESP, 2003. p. 57-70.
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PARANÁ. Secretária de Estado da Educação. Diretrizes Curriculares da Educação Básica: Física. Paraná: Governo do Paraná. Secretária do Estado de Educação Básica do Paraná, 2008.
ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar; Os materiais curriculares e outros recursos didáticos. Porto Alegre, 1998. Cap. 7. p. 167-193
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