MISTICISMO QUÂNTICO: O OLHAR DOS PESQUISADORES E POSSÍVEIS ATITUDES PARA A COMPREENSÃO DA FÍSICA
Matheus Barros, Maycon Pereira Félix, Silvia Martins
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 17/08/2022
- Linha de pesquisa
- 04 - Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2022
Texto completo
## MISTICISMO QUÂNTICO: O OLHAR DOS PESQUISADORES E POSSÍVEIS ATITUDES PARA A COMPREENSÃO DA FÍSICA
## QUANTUM MYSTICISM: RESEARCHERS' LOOK AND POSSIBLE ATTITUDES FOR THE UNDERSTANDING OF PHYSICS
Matheus Barros 1 , Maycon Pereira Félix 2 , Silvia Martins 3
1 Universidade Federal de Uberlândia/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática/Museu Diversão com Ciência e Arte (DICA/INFIS/UFU), matheusbarros@ufu.br
- 2 Universidade Federal de Uberlândia/Instituto de Física/Museu Diversão com Ciência e Arte (DICA/INFIS/UFU), maycon.felix@ufu.br
## Resumo
A comunicação da ciência com o público fora do contexto de produção da pesquisa científica demanda diversos recursos, assim como participação tanto dos divulgadores, como dos cientistas. Nesse sentido, é necessário que os cientistas se conscientizem da importância de tratar a ciência com o público, visto que ela está presente na sociedade e que o apoio social impacta em investimentos e inovações. Desse modo, esse artigo é parte de um trabalho de mestrado, onde trouxemos o recorte de uma estudo com pesquisadores do Instituto de Física, da Universidade Federal de Uberlândia, para entender a compreensão destes em relação ao contato com o misticismo quântico e seus seguidores. Além disso, enquanto profissional da área de Física, como trataria dessa temática com alguém que lhe abordasse associando a Mecânica Quântica com questões como a cura quântica e outros produtos que levem quântica no nome. Os pesquisadores mostraram ter conhecimento da existência da temática em questão e colocaram situações de diálogo com o público, que abordem o modo de produção da Física. Além disso, foi possível perceber os distanciamentos e limitações que esses pesquisadores possuem ao se relacionar com questões do misticismo quântico.
Palavras-chave : mecânica quântica, físicos, divulgação científica
## Abstract
The communication of science with the public outside of the context of scientific research production demands several resources, as well as the participation of communicators and scientists. Thus, it is necessary that scientists help this process and they become aware of the importance of treating science with the public, since the social impact on society and the impact on investments and innovations. In this way, this paper is part of a master's research, where we brought the clipping of a research with effective and training physics professionals, from the Physics Institute, from the Federal University of Uberlândia, to understand their understanding in relation to the contact with the Quantum Mysticism and its followers, as well as, as a professional in the area of Physics, deal with this theme with someone who approaches by associating Quantum Mechanics with issues such as quantum healing and other products that have quantum in their name. The
researchers proved to be aware of the existence of the theme addressed and put-up situations of dialogue with the public, which address the mode of production of Physics and the distances and limitations that it has when relating to mystical issues. Furthermore, the speeches of the researchers were of great value for future work on the dissemination of Quantum Mechanics.
Keywords : quantum mechanics, psychists, science communication
## Introdução e Referencial Teórico
O contexto para se falar de ciência com o público que não seja formado por pessoas que frequentam os espaços de educação formal (MARANDINO, 2017), como as escolas e as universidades, envolve diversos fatores relacionados aos falantes e aos ouvintes, como os seus discursos e as consequências da repercussão destes no meio em que se propaga. Nesse sentido, se faz necessário constituir um campo de estudo científico em relação à comunicação da ciência em um cenário público (SINATRA; KIENHUES; HOFER, 2014), visto os impactos maléficos sobre o tratamento da ciência de maneira descuidada na sociedade, a exemplo de temáticas como vacinas, alimentos transgênicos, pesquisas com células troncos, uso de materiais naturais e sintéticos, entre outros (BLANCKE; BOUDRY; PIGLIUCCI, 2017) e, para além da aceitação social, a forma como esta impacta nos investimentos e na criação de políticas públicas que viabilizam sua continuidade.
No entanto, essa distinção do que é, ou não, científico, não é tão simples, visto que as pessoas têm diversas crenças e se identificam com elas por diversos motivos, os quais vão ao encontro de seu conforto em assegurar e validar suas ideias (KAHAN; JENKINS SMITH; -BRAMAN, 2011; BLANCKE; BOUDRY; PIGLIUCCI, 2017). Além disso, é preciso considerar que em um contexto de comunicação pública, a sociedade tem pouco conhecimento sobre ciência básica e epistemologia da ciência, o que pode acarretar interpretações errôneas e ações equivocadas quanto às decisões sobre ciência e tecnologia em suas vidas, tomando argumentos morais e culturais para tais escolhas (SINATRA; KIENHUES; HOFER, 2014). Desse modo, também é preciso considerar que as temáticas atuais são complexas e com diversas lacunas, o que possibilita brechas para uma identificação negativa diante de vários contextos políticos e sociais (SINATRA; KIENHUES; HOFER, 2014).
Ainda, neste contexto, considerando outros profissionais vinculados às práticas de divulgação e comunicação da ciência e tecnologia, muitos não estão atentos ou interessados em comunicar nos rigores da ciência, visto seus interesses em crescer o número de seguidores ou possíveis retornos financeiros (SINATRA; KIENHUES; HOFER, 2014). Logo, uma comunicação pública da ciência que não é realizada de forma honesta (BUCHHI, 2008; BLANCKE; BOUDRY; PIGLIUCCI, 2017), pode levar ao fortalecimento de pseudociências, considerando as preferências do público, visto que as pessoas usam suas crenças e visões de mundo para escolher o que lhe é mais confortável (KAHAN; JENKINS SMITH; -BRAMAN, 2011).
Entendendo que a divulgação científica apresenta diversos desafios, voltamos o nosso olhar para a comunicação da Mecânica Quântica (MQ), que traz complexidades científicas e filosóficas ainda maiores, considerando, as diversas interpretações possíveis e os conceitos e definições bastantes distintos se
comparados aos da Física Clássica (PESSOA JR, 2003). Assim, essa complexidade e as estranhezas a ela associadas tem levado a MQ a ser alvo e objeto de destaque de várias interpretações, extrapolações e apropriações por parte de profissionais fora do contexto científico, como por exemplo médicos, jornalistas, comerciários de produtos, com o intuito de atribuir valores científicos à produtos e processos pseudocientíficos (PESSOA JR, 2010; JOB, 2015; NUNES, 2015).
Nesse contexto, destacamos o misticismo quântico, que se apropria de interpretações da Mecânica Quântica elaboradas no contexto da Física (MARIN, 2009) e da filosofia (DE SOUZA CRUZ, 2010; PESSOA JR, 2010), extrapolando essas interpretações em contextos fora do limite de validade e, a forma como ele aparece para o público, tem seus pilares em diferentes perspectivas, ancoradas nas visões de mundo mística de seus propagadores. Assim, segundo Pigozzo (2021), é possível dividir os trabalhos que tentam definir o misticismo quântico como favoráveis, neutros ou desfavoráveis sobre discussões ou comparações desse tipo de fenômeno com a ciência, por parte dos pesquisadores desse tema.
Visto a complexidade das temáticas científicas e o nível de conhecimento das pessoas, há por parte dos cientistas certa resistência em abordar junto ao público não especializado os enunciados, por considerar que os sujeitos que não fazem parte do meio científico não consigam interpretar e assimilar as informações sobre a ciência atual (BUCCHI, 2008). Dentro do nosso tema de estudo, a Mecânica Quântica, uma atitude comum é ignorar e ridicularizar sem nenhum esforço a iniciativa para o debate público de tal tema (PESSOA JR, 2010) ou ainda desconsiderar outras perspectivas filosóficas para a abordagem em cenários de discussão sobre essa ciência (PIGOZZO, 2021).
Nesse contexto, este trabalho apresenta algumas reflexões sobre como pesquisadores do Instituto de Física (INFIS/UFU), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) veem o misticismo quântico e como entendem que deve ser o comportamento dos cientistas com esse tipo de assunto quando são abordados. Os resultados aqui apresentados são um recorte de uma pesquisa de mestrado que busca compreender questões relacionadas ao processo de divulgação científica relacionado à temática de mecânica quântica, a partir de reflexões sobre as apropriações do público sobre o tema 1 e o olhar de cientistas da área de Física (e seu ensino) em relação aos aspectos de divulgação científica e relações com o público ligados a essa ciência 2 .
## Metodologia
Este trabalho se apresenta como um estudo de caso e uma pesquisa qualitativa (POUPART, 2008; LÜDKE; ADNRE, 2015), que buscou explorar as relações dos pesquisadores do INFIS/UFU com o misticismo quântico e com as pessoas que o propagam. Para esse estudo, utilizamos um recorte dos dados construídos para uma pesquisa de mestrado. Nesse sentido, foi realizada uma entrevista semiestrutura, com algumas questões norteadoras. Em especial, neste
artigo focalizamos nossas discussões em duas questões que confrontam a relação dos pesquisadores e o misticismo quântico 3 .
Dessa maneira, foi realizado o envio de convite para participação na pesquisa para 33 discentes de Pós-graduação em Física (mestrado e doutorado) e para 51 professores do INFIS/UFU. Destes, nove professores e sete estudantes (sendo, três de mestrado e quatro de doutorado) aceitaram o convite para a participação na pesquisa. Além desses, dois pesquisadores entraram em contato com a equipe dizendo que não se sentiam confortáveis em falar sobre o assunto (Mecânica Quântica e/ou divulgação científica).
Para a organização dos dados foi realizada a audição de cada gravação, e foram feitas as transcrições dos traços relevantes, à medida que foram identificados os trechos em que os participantes responderam ou mencionaram aspectos relacionados aos itens de interesse destacados neste artigo. Uma vez realizada a audição e as transcrições relacionadas à esse trabalho, buscamos elementos norteadores (unidades de registro) para propostas de unidades de análise (Bardin, 2011) com o intuito de pavimentar um caminho para a reflexões dessa pesquisa.
Para preservar o anonimato comprometido com o Comitê de Ética e Pesquisa (CAAE: 39005120.0.0000.5152) ao longo das análises e discussões, identificamos os nove docentes participantes dessa pesquisa como: Galvani, Copérnico, Planck, Hawking, Becquerel, Faraday, Schrödinger, Bohr e Einstein. Os sete estudantes foram identificados como: Torricelli, Feynman, Descartes, Rutherford, Galileu, Compton, Tesla.
## Resultados e Discussões
Os resultados apresentados focam em duas questões centrais, que utilizamos como unidades de análise a priori para o entendimento sobre a relação dos pesquisadores com o misticismo quântico. São elas: i) como o pesquisadores do INFIS/UFU veem e se relacionam com outras pessoas que os abordam sobre tais questões, sejam essas pessoas profissionais de outras áreas, ou qualquer outro individuo com interesse nesse tipo de tema, e; ii) como eles acham que deve ser o tratamento com esse tipo de assunto quando são abordados para diferenciar as ciências físicas das apropriações e interpretações apresentadas pelo misticismo quântico.
Considerando o primeiro aspecto, este diz respeito à consciência da existência desse tipo de abordagem, e qual espaço ocupam em suas relações as pessoas que propagam esse tipo de conhecimento. Nesse sentido, é importante destacar que além de afirmarem tal noção, foram citados também a astrologia e a discussão sobre a Terra plana como assuntos correlatos, pelo estudante Tesla. No tocante a tal citação, não debruçaremos sobre questões que englobam esse tipo de discussão, devido ao escopo deste trabalho, mas é importante mencionar que mesmo que mencionem não entender de assuntos desse tipo, eles têm alguma noção de onde encaixar ou comparar esse tipo de abordagem em relação à ciência.
Nesse contexto, a proximidade dos participantes da pesquisa com esse tipo de público, que tem interesse na cura quântica e assuntos desse tipo, varia desde muito próximos, como amigos e familiares, até pessoas fora do círculo de convivência de cada um. Galvani e Descartes relataram que as pessoas evitam falar sobre esses conteúdos, e que isso pode estar conexo com a sua formação e postura frente à essas temáticas; Galvani ainda cita o conhecimento das pessoas à sua volta sobre não possuir crenças religiosas.
'As pessoas sabem da minha formação, que eu sou físico, então não falam muito disso comigo, não [...]' (GALVANI)
De fato, o misticismo quântico pode estar associado às crenças religiosas como cita Pessoa Jr (2010), mesmo que haja outras linhas e interpretações para esse fenômeno (PIGOZZO, 2021). Nesse contexto, é relatado por Compton a relação da MQ com o espiritismo, em que
'um livro de Chico Xavier chamado 'Mecanismos da mediunidade' diz que o mundo metafísico está em comunicação com o mundo físico através do mundo da mecânica quântica' (COMPTON)
Einstein, relatou uma situação recente, ocorrida em 2020, em que um professor de medicina, da UFU, solicitou ajuda para o INFIS/UFU com a assessoria para revisar um capítulo de um livro que ele estava escrevendo sobre terapias quânticas. Assim, segundo Hilger (2013) e Pigozzo (2021), Fritjof Capra, mesmo sendo físico de formação, bem como Christa Wolf e Amit Goswami, encontraram dificuldade em exercer a profissão em universidades e instituições de pesquisa e formação por associações místicas à Mecânica Quântica (PIGOZZO, 2021), mas utilizaram-se da sua formação acadêmica para difundir ideias não científicas, que entendemos estar relacionadas às suas visões místicas de mundo (PESSOA JR, 2010), o mesmo contexto da situação relada por Einstein.
Planck também relatou que recebe constantemente e-mails, mas tem o costume de ignorar, corroborando com as questões colocadas sobre as atitudes dos cientistas frente à existência do misticismo na sociedade (BUCCHI, 2008; PESSOA JR, 2010). Feynman, Torricelli e Galileu afirmam que tiveram pouco com contato com esse tipo de conteúdo, mas que os encontraram em sites da internet, seja por acaso, seja por curiosidade ao ter ouvido sobre o assunto através de colegas. Compton e Hawking disseram que já foram abordados por vendedores de colchões, onde os colaboradores desses estabelecimentos afirmam que o produto apresentava vários benefícios, bem como era certificado por especialistas. Além de Descarte que mencionou a existência de colchão quântico em seu relato. Nesse sentindo, disseram que se tratava de uma tecnologia inovadora e citaram que
'o colchão tinha propriedades quânticas, energia magnética, energia quântica e melhorava o sono e curava coluna' (Compton)
'dizia ter nano imãs quânticos que curavam dores nas costas' (Hawking)
Rutherford disse que já teve muito contato, principalmente quando era monitor em um museu de ciências, durante a graduação. Faraday, Schrödinger, Einstein, Becquerel, Planck e Copérnico, foram convidados para analisar conteúdos e até palestrar sobre a relação da Física com esses temas, mas quando abordaram que esses temas diferenciam do real conteúdo científico da Física foram deixados de lado para a participação e contribuição com eventos desse tipo.
Como resultado de nossas buscas, em textos na internet (BARROS, SOUSA, MARTINS, 2021) que buscam explicar as relações da Mecânica Quântica
com a Cura Quântica, é possível encontrar diversos termos da Física que são usados para explicar as aproximações da MQ com a Cura Quântica. Diante disso, acreditamos que ignorar não é a opção mais adequada, do ponto de vista da divulgação cientifica (KAHAN; JENKINS SMITH; -BRAMAN, 2011; BLANCKE; BOUDRY; PIGLIUCCI, 2017), uma vez que se deseja buscar aproximações e estratégias de diálogo com o público, tanto para aproximação deste com a ciência, como para que reconheçam as diferenças entre o que é ou não ciência, quando abordados por diversos tipos de profissionais e produtos.
Na segunda etapa da análise, buscamos compreender como os pesquisadores lidam com esse tipo de questão quando abordados, e como a divulgação científica pode contribuir com esse diálogo, sem estratificação cultural ou negação da existência do misticismo quântico. Primeiramente, todos os entrevistados optaram por dizer que a melhor forma de interagir com alguém, em uma situação desse tipo, é explicar os limites da Física em relação à MQ, e que esta ainda não dispõe de aparatos e suportes que permitam relações com Cura quântica e outras questões místicas. De fato, é muito importante que se permita que a pessoas ao menos tenham um ponto de vista de uma instituição ou profissionais ligados à ciência nesse campo, para uma nova formação de opinião e um raciocínio motivado nessa linha, para que haja ao menos a possibilidade de uma mudança conceitual ou atitudinal (SINATRA; KIENHUES; HOFER, 2014).
'a UFU está cheia com essas coisas, [...] não tem como dialogar, a linha de raciocínio para conversar com alguém assim é simples, primeiro é preciso identificar os conceitos ditos pelas pessoas, tentar desconstruir o termo, tentar explicar e insistir nos limites de validade e no método científico' (ENSTEIN)
No entanto, um comentário de Descartes, mencionou que este tipo de abordagem não é um problema para profissionais da ciência e as opiniões deles não fazem diferença, mas socialmente há muito problema, pois, existe a utilização desse conceito de 'cura quântica' para enganar os cidadãos e fazê-los comprar produtos com uma propaganda falsa de que irá curá-los ou melhorar seu bem-estar. É importante mencionar que a relação da pesquisa científica no Brasil com a sociedade, pode ser um problema de formação que deve ser profundamente investigado, considerando que os recursos para as pesquisas são de origem pública e impactam fortemente se disponíveis ou não, ou ainda considerando os interesses sociais para o desenvolvimento de políticas públicas para financiamento de ciência e tecnologia.
Para Galvani, Bohr, e Feynman o acesso à educação é muito importante para que se mude de crença, uma vez que o contato com outras formas de pensar possibilita a mudança conceitual, e as crenças primeiras podem coabitar naturalmente com a nova crença no intelecto do sujeito. Essa informação ainda corrobora com a questão colocada por Tesla, que disse que uma vez que os indivíduos têm acesso à informação, eles podem fazer suas escolhas com mais consciência (BLANCKE; BOUDRY; PIGLIUCCI, 2017), e assim, a opção de acreditar, ou não, em cura quântica, por exemplo, é diferente daquela em que às pessoas ao menos sabem diferenciar esse tipo de temática, daquelas propostas pela Física. Esses contextos ainda se diferenciam da situação relata por Bohr, em que disse que uma ex-aluna da Física, quando foi cursar pós-graduação em outra instituição, mesmo tendo estudado e conhecendo a MQ, ainda assim começou a realizar cursos místicos, os quais dizia ter relações com a MQ, o que acontece com
alguma frequência, com os profissionais que se formam nas áreas de ciências (BLANCKE; BOUDRY; PIGLIUCCI, 2017).
Compton apresentou que muitas vezes, os conceitos apresentados pelo misticismo quântico, são totalmente diferentes daqueles propostos pela Física e, ainda nessa linha, Schrödinger, Torricelli e Planck falaram sobre as apropriações de termos por outros campos de pesquisa, como o das Ciências Humanas, e que é preciso ter cuidado para não confundir a conceituação entre uma área de uma ciência e de outra, demonstrando que é necessário o debate filosófico sobre como são construídos os conhecimentos científicos (PIGOZZO, 2021), inclusive pela iniciativa dos próprios cientistas (BUCCHI, 2008). Torricelli, Faraday e Becquerel mencionaram a importância de, enquanto profissionais da Física, falarem em nome dessa ciência e se posicionarem que a Física não consegue explicar esse tipo de fenômeno, ou ainda que não se sabe nem se um dia essa perspectiva será possível.
## Considerações e perspectivas
Este artigo buscou apresentar as concepções dos pesquisadores do INFIS/UFU sobre o misticismo quântico, seus propagadores e seguidores, assim como identificar qual seria a postura destes, caso abordados por qualquer indivíduo para consultoria sobre as relações de temáticas nessa linha com a Física.
Primeiro notamos pouca adesão dos pesquisadores do INFIS/UFU quanto a disponibilidade para discussão desse tipo de abordagem, visto o pouco retorno, considerando a quantidade de profissionais que entramos em contato. Não podemos dizer ao certo qual o real motivo de não participarem, exceto dois que disseram não se sentir confortáveis para falar desse tema, mas atentamos para a importância de conscientizar os cientistas sobre a importância da divulgação científica, principalmente no contexto brasileiro em que as pesquisas são financiadas com dinheiro público, logo esse tipo de apoio é muito importante para que haja investimentos e continuidade dos avanços na ciência.
Com relação ao conhecimento sobre a temática do misticismo quântico, todos os pesquisadores têm essa noção e até algum contato, alguns mais próximos outros mais distantes, no entanto, já ouviram de alguma forma assuntos nessa linha, e alguns, mesmo que distante desse público, procuraram saber do que se tratava. Mas ainda notamos que há muito a se fazer por parte da divulgação científica, para preparar os Físicos para esse tipo de confronto social e para preparar o público para que entendam o que é ciência, como ela está presente na sociedade e a forma como impacta na vida dos indivíduos e coletivos, bem como diferenciar a ciência da religião e questões místicas, e que elas podem coexistir sem que uma interfira no espaço de produção da outra.
## Referências
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo . rev. e ampl. Lisboa: Edições, v. 70, 2011.
BARROS, Matheus; MIRANDA, Luis Fernando dos Santos; MARTINS, Silvia. UM PANORAMA DAS PUBLICAÇÕES SOBRE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA E ESPAÇOS NÃO FORMAIS EM EVENTOS E PUBLICAÇÕES DA SBF. In: ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, 18, 2020, ONLINE. Anais... São Paulo: Sociedade Brasileira de Física, 2020. Disponível em:
<https://sec.sbfisica.org.br/eventos/epef/xviii/sys/resumos/T0198-1.pdf> Acesso em: 02 mar. 2022.
BARROS, Matheus; SOUSA, Adriano Ribeiro; MARTINS, Silvia. A FÍSICA DAS PSEUDOCIÊNCIAS: UM OLHAR PARA A 'CURA QUÂNTICA'. In: ENCONTRO DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS, 13, 2021, ONLINE. Anais... São Paulo: Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 2021. Disponível em: < https://www.editorarealize.com.br/index.php/artigo/visualizar/76038> Acesso em: 04 mar. 2022.
BLANCKE, S.; BOUDRY, M.; PIGLIUCCI, M. Why Do Irrational Beliefs Mimic Science? The Cultural Evolution of Pseudoscience. THEORIA , v. 83, p.78-97, 2017.
BUCCHI, Massimiano. Of deficits, deviations and dialogues: Theories of public communication of science. Handbook of public communication of science and technology , v. 57, p. 76, 2008.
DE SOUZA CRUZ, F. F. Mecânica Quântica e Cultura em dois momentos. Teoria Quântica: Estudos Históricos e Implicações Culturais. 1ed. Campina Grande/São Paulo: Editora UEPB e Livraria de Física, v. 1, p. 303-320, 2010.
HILGER, Thaís Rafaela. Representações sociais de conceitos de Física Moderna e Contemporânea. Tese (Doutorado em Ensino de Física) - Programa de PósGraduação em Ensino de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013, 269 p.
JOB, Nelson. Magia ao longo da Ciência Renascentista e Moderna. Anais da ReACT-Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia , v. 2, n. 2, 2015.
KAHAN, Dan M.; JENKINS SMITH, Hank; BRAMAN, Donald. Cultural cognition of -scientific consensus. Journal of risk research , v. 14, n. 2, p. 147-174, 2011.
LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas . 2ª ed. (reimp) São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 2015.
MARANDINO, Martha. Faz sentido ainda propor a separação entre os termos educação formal, não formal e informal?. Ciência & Educação (Bauru) , v. 23, n. 4, p. 811-816, 2017.
NUNES, Anderson Lupo. a física quântica e sua relação com as tradições esotéricas e exotéricas. Fraternitas In Praxis , v. 2, n. 2, 2015.
PESSOA JR, Osvaldo. Conceitos de física quântica . São Paulo: Livraria da Física, v. 188, 2003.
PESSOA JR, Osvaldo. O fenômeno cultural do misticismo quântico. Teoria Quântica: Estudos Históricos e Implicações Culturais. 1ed. Campina Grande/São Paulo: Editora UEPB e Livraria de Física, v. 1, p. 281-302, 2010.
PIGOZZO, Daniel. Do místico ao quântico: o emaranhamento de cosmovisões no desenvolvimento da física moderna e contemporânea. Dissertação (Mestrado em Ensino de Física) - Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2021, 128 p.
POUPART, Jean et al. A pesquisa qualitativa. Enfoques epistemológicos e metodológicos, v. 2, 2008.
SINATRA, G. M., KIENHUES, D. e HOFER, B. K. Addressing challenges to public understanding of Science: epistemic cognition, motivated reasoning, and conceptual change. Educational Psychologist , 49:2, 123-138. 2014.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.