Retratos da Relação de Lemaître com a Ciência e a Religião: Consequências para o Ensino de Ciências
Rebeca Alice Santos Leiva, Ivã Gurgel
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 17/08/2022
- Linha de pesquisa
- 03 - Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2022
Texto completo
## RETRATOS DA RELAÇÃO DE LEMAÎTRE COM A CIÊNCIA E A RELIGIÃO: CONSEQUÊNCIAS PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS
## PORTRAYALS OF LEMAÎTRE'S RELATIONSHIP WITH SCIENCE AND RELIGION: CONSEQUENCES FOR SCIENCE TEACHING
Rebeca Alice Santos Leiva 1 , Ivã Gurgel 2
1 Universidade de São Paulo, Instituto de Física, rebeca.alice.leiva@usp.br
2 Universidade de São Paulo, Instituto de Física, gurgel@usp.br
## Resumo
O presente trabalho aspira explorar a controvérsia entre ciência e religião motivado pelo fato da grande maioria da população brasileira seguir alguma doutrina religiosa e do 'mito do conflito' entre razão e fé ainda se perpetuar fortemente no imaginário popular, levando alguns alunos a terem dificuldade em aceitar conceitos científicos ou compartilhar outras visões de mundo, aderindo ao cientificismo por exemplo. Aqui explanamos o estudo do episódio histórico concernente ao físico e padre católico Georges Lemaître e as classificações expressas na historiografia de sua relação com as teorias científicas e as teses religiosas, sendo elas Conflito, Concordância, Independência e Interação Criticamente Construída, como meio de analisar a forma que a divulgação científica se apropriou de suas representações em jornais atuais e da época. No final, propomos utilizar a divulgação científica sobre Lemaître e seu vínculo com a ciência e a religião como estratégia de ensino de ciências, proporcionando aos alunos a oportunidade de lidar com um tema controverso.
Palavras-chave : ciência e religião, divulgação científica, Georges Lemaître
## Abstract
The present paper aspires to explore the controversy between science and religion motivated by the fact that most of the Brazilian population follows some religious doctrine and the "myth of conflict" between reason and faith still strongly perpetuated in the popular imagination, leading some students to have difficulty in accept scientific concepts or share other worldviews, adhering to scientism for example. Here we explain the study of the historical episode concerning the physicist and Catholic priest Georges Lemaître and the classifications expressed in the historiography of his relationship with scientific theories and religious theses, namely Conflict, Concordism, Independence and Critically Constructive Interaction, as a mean of analyzing the way that popular science text appropriated its representations in current and contemporary newspapers. Finally, we propose to use popular scientific texts about Lemaître and his relationship with science and religion as a science teaching strategy, providing students the opportunity to deal with a controversial topic.
Keywords : science and religion, popular science text, Georges Lemaître
## Introdução
A religião há muito faz parte da vida dos cidadãos, portanto da sociedade. No Brasil, 86,8% da população é cristã, entre católicos e evangélicos (IBGE, 2012). Vemos sua importância na cena pública, representada pela midiaticamente apelidada Bancada da Bíblia ou Bancada Evangélica, sendo seu nome oficial Frente Parlamentar Evangélica. Ainda que não tenha apresentado influência significativa nos domínios estruturais políticos, esse grupo "tende a ter peso significativo na formação da opinião a respeito de assuntos referentes à moral e aos comportamentos' (PRANDI; SANTOS, 2017, p. 205).
As concepções religiosas são um forte fator no que diz respeito à visão de mundo dos indivíduos, sendo importante para o ensino de ciências (HENRIQUE, 2011). O professor de ciências pode encontrar estudantes religiosos que tenham dificuldade em dialogar com o conhecimento de natureza científica. Isso fica evidente na discussão trazida por Sepulveda e El-Hani (2004). Em um estudo de caso, feito entre alunos protestantes do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, revelou-se ser possível deparar-se com discentes que passaram por uma formação religiosa e que possam apresentar uma epistemologia absolutista.
Numa entrevista para o jornal The Vancouver Sun , publicada em 10 de maio de 2003, o Irmão Guy Consolmagno (1952-atual), astrônomo do Observatório do Vaticano que comumente realiza palestras defendendo que a ciência e a religião são 'propriedades mútuas e exclusivas que não podem e não se misturam' (READ, 2003, p. C1, tradução própria), relatou que em uma de suas exposições numa faculdade na Carolina do Sul, região pertencente ao Bible Belt , zona mais conservadora dos Estados Unidos onde o cristianismo protestante exerce muita influência na sociedade, um jovem lhe disse desejar ser cientista, mas preocupavase com sua mãe pensar que estava rejeitando Deus (READ, 2003, p. C2).
Desta maneira, observa-se que no imaginário popular predomina o 'mito do conflito', um anacronismo vindo da abordagem historiográfica em história das ciências de John Draper (1811-1882) e Andrew White (1866-1885) do século XIX. O 'mito do conflito' consiste na concepção de que ciência e religião estiveram em choque ao longo de sua história de coexistência e sempre em uma batalha irreconciliável.
É fato que em diversos momentos da história ora a ciência e a religião estiveram em conflito ora em período de paz, mas também é verdadeiro que a relação entre ambas não tem um caráter simplista e evitar generalismos leva a um conhecimento mais aprofundado sobre determinado episódio histórico que envolve essa relação. Daniel Rejman (2021) cita três modelos que tentam caracterizar a relação entre ciência e religião, mas que devem ser questionados: de Conflito, por ser demasiado hostil, de Concordância, por ser idealista, e de Independência, por ser circunstancialmente contraditório. Enquanto o quarto modelo de Fusão ou de Interação Criticamente Construída seria o mais adequado para compreender parte das interações entre esses dois campos, pois seria mais produtivo em relação aos demais pelo potencial de proporcionar um estudo mais completo. Entretanto, o autor ressalva que uma alternativa também é poder migrar entre os diferentes modelos a fim de evitar reducionismos. As propostas apresentadas por Rejman (2021) não são as únicas formas de classificar a relação entre ciência e religião. Henrique e Silva (2010), por exemplo, partem das categorias Conflito, Integração, Independência e
Diálogo estruturadas a partir dos critérios de semelhança ou diferença entre ciência e religião e da presença ou ausência de conflito entre teses religiosas e teorias científicas.
Por encontrar-se numa posição em que exercia dois cargos aparentemente opostos e irreconciliáveis para alguns, cientista e padre, Georges Lemaître (18941966) chama a atenção para a mídia desde sua época. Neste trabalho, analisamos como a relação entre ciência e religião é apresentada na historiografia sobre Lemaître e como essa representação é feita na divulgação científica, aqui especificamente nas matérias de jornal concernentes à época da publicação de seus trabalhos acadêmicos e nas contemporâneas. Como apontado por Cardoso et al (2015), 'concepções relacionadas à Natureza da Ciência produzidas fora do ambiente escolar têm influência sobre os estudantes na produção de seus discursos sobre a Natureza da Ciência' (CARDOSO et al , 2015, p. 229). Tendo em vista que a divulgação científica tende a atingir grandes massas e é muito presente nos veículos de comunicação, devido a seu público ser vasto, muitas vezes os discursos trazidos inclinam-se a ser ou a apresentar visões limitadas sobre a ciência.
## Lemaître e sua relação com a ciência e a religião na historiografia
A fim de analisar a representação de Lemaître na historiografia, analisamos principalmente fontes secundárias (KRAGH, 2001), buscando identificar e apresentar de forma sintética o argumento principal do autor. Utilizamos artigos publicados numa edição comemorativa em sua homenagem a Lemaître e publicações de reconhecidos físicos, sacerdotes, filósofos e historiadores da ciência acerca da personalidade e do trabalho do cosmólogo belga.
Rejman (2021) enxerga momentos em que Lemaître tenta defender a independência entre razão e fé, como na década de 1930, mas também momentos em que o cientista reflete concordância entre eles, como num escrito de 1921, no qual fala sobre uma conexão do Gênesis com a formação material do mundo. Lemaître era desejoso por ver seu trabalho científico desconectado e independente de sua fé, mas essa relação era mais complexa e ambígua, pois aparentemente seu trabalho tem inspiração no pensamento cristão. Assim, a análise do autor melhor encaixa-se no modelo de Fusão, por analisar cada momento na carreira do cientista e suas mudanças de pensamento na perspectiva da história cultural e considerando a complexidade da mentalidade da natureza humana.
Thomas Hertog (2016) enxergou uma relação tanto de concordância quanto de independência, sem conflitos. O autor acredita que a coexistência dos dois campos na vida de Lemaître foi importante enquanto fonte de inspiração e de criatividade para conceber o universo como o desenvolveu em suas teorias. O próprio Lemaître diz sobre os cientistas crentes e ateus:
' O crente pode ter a vantagem de saber que o enigma tem uma solução , que a mensagem subjacente é, em última análise, obra de um ser inteligente, de modo que o problema colocado pela natureza pode ser resolvido e que sua dificuldade é, sem dúvida, proporcional à capacidade presente e futura da humanidade. Isso pode não lhe dar novos recursos para sua investigação, mas o ajudará a manter uma atitude otimista e saudável , sem a qual um esforço não pode ser sustentado por muito tempo' (LEMAÎTRE, p. 70, apud LAMBERT, 1997, p. 49, tradução e grifos próprios)
O autor também relembra que Albert Einstein (1879-1955), num primeiro momento, não estava satisfeito com o trabalho de Lemaître, afirmando que: 'seus
cálculos estão corretos, mas seu pensamento físico é abominável' ( apud MCCANN, p. 6, 2021, tradução própria). Assim, para Hertog (2016), ciência e religião não estariam em conflito, mas em toda sua vida Lemaître fez esforços para distinguir as diferenças linguísticas e metodológicas resguardadas a cada uma. Isso teria sido propiciado por sua concepção de um deus absconditus , que não atrapalha a autonomia do mundo, sendo responsabilidade do cientista a tarefa de solucionar as questões postas na natureza.
Carroll (2013) expressa sua postura a favor da independência ao trazer à tona a familiaridade de Lemaître com os pensamentos de São Tomás de Aquino. Apesar do contexto religioso no qual surgem as primeiras ideias do átomo primordial de Lemaître, o autor destaca que o cientista sempre se preocupou com as conclusões que poderiam ser tomadas acerca do começo natural do universo ser comparado à criação (e seus temores foram concretizados). Sua preocupação com a 'separação metodológica entre os níveis de discurso teológico e cosmológico' (CARROLL, 2013, p. 76, tradução própria) era evidente.
Lambert (2013) assume indistintamente sua visão de independência sobre a relação entre ciência e religião na vida de Lemaître. Ele argumenta que, para o físico belga, o átomo primordial deve ser descrito somente pela física e pela matemática, 'essa noção é para ele completamente independente da teologia' (LAMBERT, 2013, p. 16, tradução própria). Ainda relembra que, nas palavras do próprio cientista, 'ciência e fé são para ele 'dois caminhos para a verdade'!' (LAMBERT, 2013, p. 16, tradução própria). Além disso, quanto ao discurso proferido pelo Papa Pio XII, que utilizou o Big Bang como justificativa para a existência de Deus, Lemaître o teria repreendido não somente pela perigosa associação da hipótese do átomo primordial com o Gênesis em defesa do Cristianismo, mas também porque na década de 1950, quando o Papa proferiu o discurso, não havia evidências suficientes que apoiassem sua teoria.
Kragh (2013) sustenta uma visão da Interação Criticamente Construída entre ciência e religião. O autor destaca que havia sobre as posturas axiomáticas de Lemaître influências da filosofia católica, bem como defendeu Carroll (2013), principalmente no que se dizia respeito ao infinito que, na tradição cristã, é herético e epistemologicamente sem significado: 'Ele acreditava firmemente que o universo era compreensível para a mente humana, uma crença que ele não conseguia conciliar com um espaço infinito povoado por uma infinidade de objetos.' (KRAGH, 2013, p. 30, tradução própria). Em uma conversa com Richard Tolman (1881-1948), o físico belga afirmou que um universo infinito não era sequer objeto suscetível de estudo científico. Ademais, um argumento que 'apareceu com destaque na literatura neo-escolástica como uma possível prova da existência de Deus' (KRAGH, 2013, p. 27, tradução própria), que se tratava da radioatividade relacionada com a criação entrópica, fascinava e era familiar a Lemaître, além da ideia de luz, antiga e importante tanto na tradição científica quanto na teológica, relacionada com a própria concepção de Deus e com a descrição do Gênesis: fiat lux .
## Lemaître e sua relação com a ciência e a religião na mídia
Kragh (2013) também explora a recepção da comunidade científica em comparação à da mídia e popular. Enquanto a imprensa estampava em seus jornais calorosos adjetivos direcionados ao Big Bang e ao átomo primordial, os pares de Lemaître foram frios e até hostis à nova teoria. Muitos foram os fatores elaborados
por Kragh (2013) para justificar essa recepção, como a má comunicação das ideias do físico que as publicou em um jornal científico francês e pouco conhecido pela comunidade, seu caráter especulativo para a perspectiva da década de 1930, provavelmente associado à doutrina cristã, a escassez de provas empíricas, sendo que a única possibilidade de pôr à prova era com os estudos e observações dos raios cósmicos, ainda assim insuficientes.
Em contrapartida à recepção da comunidade científica, a teoria da expansão do universo de Lemaître 'recebeu ampla divulgação pública por meio de cobertura jornalística e uma série de obras populares' (KRAGH, 2004, p. 131, tradução própria) e, certamente, sua dupla vocação era motivo de atenção ao público. Um dos artigos mais conhecidos com o relato de Lemaître acerca de sua percepção da relação entre ciência e religião é o escrito por Duncan Aikman (1933) para o New York Times . O título e a manchete já indicavam que o físico não considerava que havia conflito entre ciência e religião, levando a crer que ele era capaz de conciliar ambos os campos em sua vida, o que é confirmado ao longo da entrevista. Lemaître deixou claro que a razão e a fé são dois campos não conflituantes e completamente diferentes, porém, apesar de não haver choque entre os dois, não precisariam ser concordantes, mas sim independentes. Apesar de não existir uma separação dele enquanto padre e como cientista, coexistindo as duas vocações, ele encara a ciência e a religião como domínios distintos, que utilizam métodos, linguagens e têm propósitos diferentes. Ele deixa esse pensamento explícito ao dizer sua opinião sobre a função da Bíblia: "Uma vez que você percebe que a Bíblia não pretende ser um livro de ciência, a velha controvérsia entre religião e ciência desaparece' (LEMAÎTRE para AIKMAN, p. 3, 1933, tradução própria). Ele ainda complementa dizendo que a Bíblia é responsável pela salvação, não por teorias científicas. Lemaître diz que desde sua infância esteve convicto de suas escolhas de carreira, tanto na Igreja quanto na ciência, e mesmo quando adulto não via conflito que ele deveria reconciliar: 'A ciência não abalou minha fé na religião e a religião nunca me levou a questionar as conclusões que alcancei por métodos estritamente científicos' (LEMAÎTRE para AIKMAN, p. 18, 1933, tradução própria).
Nas matérias de jornal atuais, o cosmólogo ainda é representado como alguém que foi capaz de conciliar ciência e religião e muitas apresentam o consenso de que ele lidou com a desconfiança da comunidade científica, justamente por suas teorias científicas encaixarem com o discurso do Gênesis aos olhos alheios. O artigo de Marcio Campos (2020), para a Gazeta do Povo, elucida bem a complexidade da relação entre ciência e religião. Por meio da referência ao livro Ciencia y Fe en el padre del Big Bang, Georges Lemaître , de Dominique Lambert, explora como Lemaître, mesmo sendo um dos personagens mais utilizados para exemplificar a consonância entre razão e fé, ainda assim muito lutou em vida para esclarecer que esses dois aspectos permaneciam independentes na sua carreira. Ele amadureceu suas reflexões e ações com os anos, sabia que não havia conflito entre a ciência e a religião, mas tentava manter os dois campos separados. Isso deveu-se em grande parte ao preconceito da comunidade científica, pois entendiam que o padre tentava legitimar a doutrina cristã com as teorias científicas. Quando se pronunciava, suas falas revelavam as tentativas de apaziguar tanto seus pares quanto os clérigos em relação àquela possibilidade. Apesar de acreditar num deus absconditus , deixava claro que sua teoria não se tratava de uma representação da criação do universo. O repúdio era tamanho que materialistas se agarravam na teoria do estado estacionário de Hoyle como oposição ao Big Bang e assim à existência de Deus,
principalmente devido às pronunciações e provocações públicas do astrônomo ateu contra a fé e a religião.
Em contraponto, alguns artigos mais recentes, como por exemplo sobre o lançamento do telescópio James Webb, os autores mostram-se entusiasmados com a possibilidade de podermos capturar imagens que nos remeteriam a entender como e por que o universo foi criado, muitas vezes mencionando diretamente a chance de vislumbrar a atividade de Deus, lembrando muito as reportagens sobre os experimentos conduzidos no CERN, com interesse em questões sobre a relação da cosmologia com a criação (em outras palavras, da ciência com a religião), mas nos quais encontramos que, assim como nos artigos sobre o telescópio, 'grande parte da discussão contém erros antigos sobre o que cosmologia, filosofia e teologia nos dizem sobre o mundo e sua origem' (CARROLL, 2013, p. 81, tradução própria). Geralmente, Lemaître é relembrado nesses artigos como o cientista que foi capaz de conciliar a ciência e os dogmas da Igreja, de maneira a validar a ideia de ausência de conflito entre ciência e religião atualmente. A figura do físico e padre é extremamente importante atualmente também por mostrar-se uma contraposição ao cientificismo, na medida que não só os religiosos tendem a acreditar no 'mito do conflito', mas também os cegos pela ciência. A reportagem de Louise McEwan (2017), para o Medicine Hat News , critica a fala da ex-governadora geral do Canadá, Julie Payette: 'ciência é racional e religião é irracional' (MCEWAN, p. B4, 2017, tradução própria). A autora defende que, assim como a ciência, a religião também é uma ferramenta que pode ser utilizada para encontrar soluções para problemas, desenvolver políticas sociais e mover a humanidade em frente e seu bom ou mau uso depende daquele que a manipula. Ela acredita que, assim como Lemaître o fez, seja possível conciliar os dois âmbitos durante a vida e as duas esferas possuem espaço na sociedade.
## Considerações finais e consequências para o ensino de ciências
Georges Lemaître foi uma importante figura da Cosmologia do século XX por seus relevantes trabalhos científicos sobre a expansão do universo. Por compartilhar sua carreira científica à vocação para a Igreja, recebeu muita atenção da imprensa, tanto em sua época quanto atualmente. Seu vínculo com a ciência e religião também foi objeto de estudo, cujas análises variam entre classificar as posturas de Lemaître entre as categorias, propostas por Rejman (2021), de Concordância, Independência e Interação Criticamente Construída, sendo raro enquadrarem como conflituosas. Podemos também observar esses reflexos na divulgação científica feita na imprensa sobre Lemaître ou a relação entre razão e fé, sendo que o cientista normalmente é utilizado como representante da conciliação entre esses domínios.
Vê-se o potencial de utilizar a divulgação científica como estratégia de ensino de ciências, na medida que a maior parte da população brasileira segue uma religião e que é possível para o professor, na medida que o 'mito do conflito' perpetua-se no imaginário popular, deparar-se com alunos que tenham tanto dificuldade em aceitar o conhecimento científico, devido seus dogmas religiosos, quanto o inverso: estudantes cegos pelo cientificismo. Assim, o estudo de caso acerca do personagem Lemaître apresenta grande capacidade de mostrar que, embora possamos encontrar diversas posturas em relação a ciência e a religião, como Conflito, Concordância e Independência, é importante perceber as nuances pertencentes a cada episódio histórico, como propõe a Interação Criticamente
Construída, e ser diligente ao assumir uma postura crítica ao analisar assuntos controversos. É importante, tanto para os alunos que são crentes fervorosos quanto para os cientificistas, ter conhecimento de personagens como Lemaître, que foi capaz de conciliar ciência e religião em sua carreira, observando assim que é possível tanto preservar uma doutrina religiosa (seja ela ateísta, agnóstica, católica, evangélica etc) quanto compreender os conceitos científicos ou aspirar uma carreira científica.
## Referências
AIKMAN, D. Lemaitre follows two paths to truth: The Famous Physicist, Who Is Also a Priest, Tells Why He Finds No Conflict Between Science and Religion. The New York Times , p. 3 e 18, 19 fev. 1933.
CAMPOS, M. A. A espiritualidade do pai do Big Bang. Gazeta do Povo , 27 fev. 2020. Disponível em: www.gazetadopovo.com.br/vozes/tubo-de-ensaio/aespiritualidade-do-pai-do-big-bang-georges-lemaitre/. Acesso em: 17 fev. 2022.
CARDOSO, D.; NORONHA, A.; WATANABE, G.; GURGEL, I.. Texto Jornalístico sobre Ciência: Uma Análise do Discurso sobre a Natureza da Ciência. Alexandria: Revista de Educação em Ciência e Tecnologia , UFSC, v. 8, n. 3, 11 Nov. 2015. p. 229-251.
CARROLL, W. E. Aquinas and Contemporary Cosmology: Creation and Beginnings. In : HOLDER, R. D.; MITTON, S. (ed.). Georges Lemaître: Life, Science and Legacy . Heidelberg: Springer, 2012. p. 75-88.
HENRIQUE, A. B. Discutindo a natureza da ciência a partir de episódios da história da cosmologia . Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências) Faculdade de Educação, Instituto de Física, Instituto de Química e Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
HENRIQUE, A. B. & SILVA, C. C. Relações entre ciência e religião na formação de professores: estudo de caso sobre uma controvérsia cosmológica. In : Atas do XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - EPEF . Águas de Lindóia, SP, 2010.
HERTOG, T. Msgr Georges Lemaître: father of the big bang . Academia Belgica, Roma, p. 1-12, 2 dez. 2016.
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2010 : Número de católicos cai e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião. 29 jun. 2012. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/noticiascenso?id=3&idnoticia=2170&view=noticia. Acesso em: 17 fev. 2022.
KRAGH, H. 'The Wildest Speculation of All': Lemaıˆtre and the Primeval-Atom Universe. In : HOLDER, R. D.; MITTON, S. (ed.). Georges Lemaître: Life, Science and Legacy . Heidelberg: Springer, 2012. p. 23-38.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Matter and Spirit in the Universe : Scientific and Religious Preludes to Modern Cosmology. London: Imperial College Press, 2004.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_.
Introdução à Historiografia da Ciência . Porto: Porto Editora,
2001.
LAMBERT, D. Monseigneur Georges Lemaître et le débat entre la cosmologie et la foi (à suivre). In : Revue théologique de Louvain , 28ᵉ année, fasc. 1, 1997. p. 28-53.
LAMBERT, D. Georges Lemaître: The Priest Who Invented the Big Bang. In : HOLDER, Rodney D.; MITTON, Simon (ed.). Georges Lemaître: Life, Science and Legacy . Heidelberg: Springer, 2012, p. 9-22.
MCCANN, J. Father George Lemaître: The Priest who Proposed the 'Big Bang' . P. 1-10, 26 jan. 2021. Disponível em:
www.researchgate.net/publication/348786087\_Father\_George\_Lemaitre\_The\_Priest \_who\_Proposed\_the\_Big\_Bang. Acesso em: 17 fev. 2022.
MCEWAN, L. Science and religion need not be in conflict. The Medicine Hat News , Alberta, Canadá, p. B4, 11 nov. 2017.
PRANDI, R., & SANTOS, R. W. dos. Quem tem medo da bancada evangélica? Posições sobre moralidade e política no eleitorado brasileiro, no Congresso Nacional e na Frente Parlamentar Evangélica. Tempo Social , São Paulo, v. 29, n. 2, 2017. p. 187-213.
READ, N. Looking at God through the stars. The Vancouver Sun , Vancouver, Canadá, p. C1-C3, 10 maio 2003.
REJMAN, D. Categorized science-religion relationships and Georges Lemaître: an overlooked aspect of his personality development and patterns in his heritage. In: Theologos: theological revue , Presov, Eslováquia, p. 125-134, jan. 2021.
SEPÚLVEDA, C. & EL-HANI, C. N. Quando visões de mundo se encontram: religião e ciência na trajetória de formação de alunos protestantes de uma licenciatura em Ciências Biológicas. Investigações em Ensino de Ciências , v. 9, n. 2, 2004. p. 137-175.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.