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Estrutura de análise histórica para livros de ciências: pseudo-história e ensino de ciências

Francisco Daniel De Pontes Silva, Marcos Antônio Barros

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIX
Ano
2022
Data
17/08/2022
Linha de pesquisa
03 - Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ESTRUTURA DE ANÁLISE HISTÓRICA PARA LIVROS DE CIÊNCIAS: PSEUDO-HISTÓRIA E ENSINO DE CIÊNCIAS

## HISTORICAL ANALYSIS STRUCTURE FOR SCIENCE BOOKS: PSEUDO-HISTORY AND SCIENCE TEACHING

## Francisco Daniel de Pontes Silva 1 , Marcos Antônio Barros 2

1 Doutorando no Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Matemática-PPGECM/UFG, danielponva20@gmail.com

2 Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Educação Matemática-PPGECEM/Departamento de Física/UEPB, marcos\_fis@hotmail.com

## Resumo

Conhecer o conteúdo a ser ministrado nas aulas de Ciências se torna indispensável para todo professor. A avaliação prévia de livros de forma consciente, crítica e reflexiva pode evitar problemas comuns identificados em livros-textos de Física, no nosso caso, ou de Física Moderna e Contemporânea (FMC), a exemplo de inadequações históricas, como as pseudo-histórias, que possuem uma estrutura comum, nomeada Arquitetura Mítica. Diante desse contexto, objetivamos apresentar as categorias e subcategorias como um guia de avaliação de conteúdo histórico em livros de Ciências a partir da análise de Silva (2021) dos livros-textos de FMC que empreendeu uma pesquisa documental, embasando-se na Análise de Conteúdo. Para tanto, caracterizamos a Arquitetura Mítica a partir de Allchin (2022; 2004), assim como apresentamos as categorias e subcategorias propostas por Silva (2021) como uma possibilidade para verificar se há ou não a incidência de pseudo-história em conteúdos científicos. Consideramos, então, que essa metodologia pode ser eficaz para uma abordagem mais adequada de conteúdos científicos a partir da História, Filosofia e Sociologia das Ciências em salas de aula de Física e Ciências em geral.

Palavras-chave : pesquisa documental; pseudo-história; livros-textos de FMC.

## Abstract

It is a fundamental skill to know the content that will be conducted in science classrooms. A conscious, critical, and reflexive assessment of the books can avoid several common problems identified in Physics textbooks, in general, or, in this paper, Contemporary and Modern Physics (CMP), for instance, historical inadequacies, such as pseudo-histories, which have a typical structure, as the Mythical Architecture. As a result, we aimed to present the categories and subcategories as a guide to evaluate historical content in science books according to Silva (2021) research. He undertook Documentary Research based on the Content Analysis. To achieve this objective, we characterized the Mythical Architecture from Allchin (2002; 2004), as well as we presented the analysis' categories and subcategories of Silva (2021) as a structure to verify whether there is or not the incidence of pseudo-history in scientific content. We consider that this methodology may be an effective to approach properly scientific content by History, Philosophy, and Sociology of Science in classrooms of Physics and Sciences in general.

Keywords : documentary research; pseudo-history; CMP Textbooks.

## Introdução

Não é raro encontrarmos listas de livros considerados como referência nos cursos universitários, inclusive nos de licenciatura em Ciências da Natureza. No

entanto, na maioria das vezes, esses livros não cumprem com as recomendações e exigências encontradas na literatura especializada em Ensino de Física, nem com os consensos estabelecidos nas pesquisas que envolvem a História, Filosofia e Sociologias das Ciências (HFSC), o que contribui para distorções e inadequações históricas relativas ao material utilizado e à formação profissional dos graduandos.

Por outro lado, enfatizamos que esses problemas são passíveis de serem reconhecidos pelos professores e contornados apropriadamente, conforme proposto por Silva (2021). Em sua pesquisa de mestrado, o autor analisou quatro livros-textos de FMC, levando em conta o episódio histórico do Paradoxo EPR (BOHR, 1935; EINSTEIN, PODOLSKY, ROSEN, 1935) e a Arquitetura Mítica que caracteriza as pseudohistórias (ALLCHIN, 2002; 2004), a partir da Análise Documental (CELLARD, 2012; NASCIMENTO, 2009; PIMENTEL, 2001) e da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2011).

Particularmente, o autor analisou bibliografias básicas indicadas no Projeto Pedagógico de Curso (PPC) da Licenciatura em Física do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual da Paraíba (CCT/UEPB) e, excepcionalmente, um livro de bibliografia complementar, pois se tratava do material produzido por Max Born (1882-1970), Atomic Physics , um dos que contribuiu para a interpretação estatística da Mecânica Quântica e foi contemporâneo dos autores do Paradoxo EPR.

No sentido de oferecer um instrumento de análise e verificação do tipo de história veiculada nos livros de Física, objetivamos apresentar as categorias e subcategorias como um guia de avaliação de conteúdo histórico em livros de Ciências a partir da análise de Silva (2021), a qual foi concebida a partir dos preceitos da Pesquisa Qualitativa (GODOY, 1995a; 1995b), Análises Documental e de Conteúdo. Embora o seu foco tenha recaído sobre os livros de Física, acreditamos que o resultado possa ser estendido para diversos tipos de materiais ou de livros de outras disciplinas que se proponham a utilizar a abordagem da HFSC dos seus conteúdos.

## EPR e Bohr: Discussão sobre a completude da Mecânica Quântica

No ano de 1935, Albert Einstein (1879-1955), Boris Podolsky (1896-1966) e Nathan Rosen (1909-1995) (EPR) publicaram um artigo, intitulado 'A descrição da realidade física da mecânica quântica pode ser considerada completa?', na Physical Review , criticando as aparentes limitações da Mecânica Quântica, teoria essa que estava em seus primeiros momentos na História da Física. Nesse artigo, os argumentos se sustentaram a partir da proposição de experimentos mentais que descreviam o movimento de uma partícula e da generalização para um sistema de partículas.

Conforme o Einstein, Podolsky e Rosen (1935), para que uma teoria possa ser caracterizada como completa, é necessário descrever todas as variáveis e grandezas de qualquer fenômeno observado.

Qualquer que seja o significado atribuído ao termo completa , a seguinte exigência para uma teoria completa parece ser necessária: cada elemento da realidade física deve ter uma contrapartida na teoria física . Chamaremos isso de condição de completude ( id. , 1935, p. 777, grifo do autor, tradução nossa).

Além disso, o trio EPR ( ibid. ) considerava que qualquer observação ou medição sobre os sistemas não afetasse os seus estados, ou seja, que não produzisse mudanças no seu curso natural.

Estaremos satisfeitos com o seguinte critério, o qual consideramos razoável. Se, sem perturbar de alguma maneira um sistema, pudermos predizer com certeza o valor de uma grandeza física (isto é, com probabilidade igual à unidade), então existe um elemento de realidade física correspondente a essa grandeza física id. ( , p. 777, grifo do autor, tradução nossa).

Apresentando a execução dos experimentais mentais, os autores do EPR (1935) afirmaram ter demonstrado a possibilidade de conhecimento integral de todas as variáveis de sistemas de partículas, contrapondo-se ao que se esperava da Teoria Quântica pelos seus defensores. Sendo assim, concluiu-se que a teoria defendida pela Mecânica Quântica era, então, limitada, incompleta e incapaz de descrever os fenômenos atômicos (Cf. ALFORD, 2019; BALSAS, 2013; BRASSARD, MÉTHOT, 2019; GREENSTEIN, ZAJONC, 1997; MEHRA, RECHENBERG, 2001; PESSOA JR., 2006).

Contudo, as conclusões de EPR (1935) não foram acatadas por aqueles que defendiam aquela jovem Teoria Quântica, apesar de ter causado significante inquietação, segundo o físico Léon Rosenfeld, ao afirmar que 'este ataque caiu sobre nós como um raio dos céus' (WHEELER; ZUREK, 1983, p. 142, tradução nossa). Ainda em 1935, Niels Bohr (1885-1962), com o mesmo título do que fora publicado por EPR, também na Physical Review , apresentou os seus contra-argumentos.

Um dos argumentos de Bohr (1935) girou em torno da ideia de experimento e experimentação. Ele arguiu que, ao experimentarmos, já estamos interferindo no curso natural dos fenômenos, indo de encontro à condição de não perturbação exposta por EPR (1935).

[...] a interação finita entre objeto e aparatos de medição , condicionada pela própria existência do quantum de ação, implica - por causa da impossibilidade de controlar a reação do objeto nos instrumentos de medição, caso sirvam à sua finalidade - a necessidade de uma renúncia final do ideal clássico de causalidade e uma revisão radical da nossa atitude em relação ao problema da realidade física ( id. , 1935, p. 697, grifos do autor, tradução nossa).

Essas perturbações são próprias do ato de experimentar, pois temos que ajustar os aparatos experimentais para observarmos uma ou outra grandeza 1 . Bohr (1935) explicou que essa impossibilidade não é uma limitação da teoria, mas, sim uma limitação imposta pela Natureza. Essas características foram fundamentais para a definição da complementaridade entre as variáveis e o Princípio de Incerteza, que há entre o conhecimento de uma ou de outra grandeza.

## Arquitetura Mítica da Pseudo-história como categorias da Análise de Conteúdo: caracterização e metodologia de análise

## I. Caracterização

A abordagem inapropriada de conteúdos, a partir da HFSC, pode provocar concepções inadequadas da Natureza da Ciência e dos papéis desempenhados pelos cientistas. Gil-Pérez et al. (2001) enumeraram e caracterizaram 7 visões deformadas 2 do trabalho científico, quando há o reforço de estereótipos da ciência. Paralelamente, trazemos à baila o que Allchin (2002; 2004) chamou de Arquitetura Mítica, estrutura comum das pseudo-histórias.

Muitas pseudo-histórias compartilham uma arquitetura retórica com mitos antigos. Brevemente, os elementos comuns incluem: (1) monumentalidade, (2) idealização, (3) drama afetivo e (4) narrativa explicativa e de justificação. [...] E são essas características retóricas que ajudam a transformar a história em pseudo-história ( id. , 2004, p. 189, grifos do autor, tradução nossa).

Como vimos na citação anterior, a Arquitetura Mítica é composta de quatro elementos, os quais descrevemos no Quadro 1, elaborado pelos autores.

Quadro 1 Arquitetura Mítica de Pseudo-história de Allchin (2002; 2004)Fonte: Elaborado pelo autor.

Os quatro elementos descritos acima serviram como categorias de análise em Silva (2021). Sua pesquisa foi classificada como documental, tendo em vista o contexto, o(s) autor(es), a autenticidade e a confiabilidade do texto, a natureza do texto e os conceitos-chave e a lógica interna do texto dos documentos analisados.

Além das quatro categorias caracterizadas, acima citadas, Silva (2021) também elaborou subcategorias. Bardin (2011) asseverou que a experiência linguística, visão de mundo, dentre outros fatores, definem a capacidade analítica do pesquisador. Sendo assim, as subcategorias elaboradas foram definidas, também, sob as variáveis consideradas por Bardin (2011).

As subcategorias possuem uma relação semântica e linguística com os quatro elementos de pseudo-história de Allchin (2002; 2004). Silva (2021) as elaborou a partir do seu repertório linguístico correlacionando-as com os elementos do Quadro 1. A exploração dos livros-textos foi um dos elementos essenciais para se chegar à formulação das subcategorias, as quais podem ser encontradas no Quadro 3. Por exemplo, da categoria monumentalidade o autor a desdobrou em subcategorias como ineditismo e heroísmo, da categoria idealização, simplificação e êxitos.

## II. Metodologia de análise

A partir da metodologia da Análise de Conteúdo (Cf. BARDIN, 2011), Silva (2021) utilizou como categorias de análise os quatro elementos da Arquitetura Mítica.

Ao empregar a Análise de Conteúdo, o pesquisador sai de uma posição contemplativa e passa a observar seu objeto de estudo, em seu habitat natural dos fenômenos, do ponto de vista metodológico mais crítico. A palavra de ordem é a 'desconfiança' do que se revela pelas aparências, criticando-se o que parece ser simples e fácil de deduzir (SILVA, 2021, p. 71, grifos do autor).

Ao empreender a metodologia da Análise de Conteúdo, Silva (2021) pôde investigar as mensagens ocultas e latentes que há em certos discursos ou enredos. Diversos materiais que se propõem a utilizar a abordagem da HFSC em seus conteúdos podem veicular inadequações pseudo-históricas e essas categorias nos dão pistas para identificá-las.

## Categorização da Arquitetura Mítica como instrumento de avaliação de conteúdo histórico

Além do mais, as subcategorias foram elaboradas, ao considerar a exploração dos documentos analisados. Os trechos dos livros-textos de FMC, especialmente aqueles que tratavam de conteúdos da Mecânica Quântica, foram imprescindíveis para a subcategorização das mensagens. A seguir, o Quadro 2 apresenta os livros

analisados por Silva (2021) e o Quadro 3 as categorias e as suas subsequentes subcategorias, elaborados pelo autor.

Quadro 2 Livros de FMC, autores e anos em ordem cronológica dos documentos

Fonte: Elaborado pelo autor.

Apresentamos alguns exemplos de mensagens extraídas da dissertação de Silva (2021), em quadros elaborados pelos autores, correspondentes às suas categorias e subcategorias. Os trechos destacados em negrito são indicações das correspondências com cada subcategoria. É apresentado um trecho de cada livro para cada subcategoria, pois, em sua pesquisa há muitos trechos analisados.

Observando o extrato em destaque, podemos reconhecer características de pseudo-história a partir de recursos linguísticos, a partir dos sentidos que as palavras receberam na frase. Por exemplo, a subcategoria 'ineditismo' pode ser reconhecida a partir da afirmação de 'ele propôs', dando a ideia de novidade trazida por alguém individualmente.

Podemos ver esse padrão em outras subcategorias, no 'heroísmo' a partir da 'tentativa de explicar', no 'altruísmo' a partir da expressão 'interrompeu todos os seus outros trabalhos, dando a entender que essa pessoa se sacrificou por um 'bem maior', abdicando-se dos seus próprios interesses, e em 'genialidade' a partir da expressão 'forneceu evidências convincentes', o que pode fomentar a percepção de que esse foi um feito que outros não conseguiram realizar. Esse padrão pode ser visto nos Quadros de 4 a 7.

Quadro 4 Mensagens correspondentes às subcategorias da categoria Monumentalidade

Fonte: Elaborado pelo autor.

Quadro 6 Mensagens correspondentes às subcategorias da categoria Drama Afetivo

Fonte: Elaborado pelo autor.

As mensagens apresentadas nos quadros anteriores foram extraídas da dissertação de Silva (2021). Os extratos e os seus destaques em negrito corroboram a incidência de pseudo-história em livros-textos de FMC analisados pelo autor, sendo expressa em grande maioria dos documentos analisados (75%) 3 .

Consideremos o caso do ineditismo, da categoria monumentalidade (Quadro 4). Born (1937, p. 70) discorreu sobre a hipótese dos quanta, atribuindo a Einstein uma capacidade mais elevada do que a de Planck, pois, para ele, Einstein não tinha, apenas, postulado as propriedades quânticas dos processos de emissão e absorção da radiação, mas, também, explicou o que tais propriedades significavam. Esse tipo de enredo pode suscitar a ideia de que apenas uma pessoa foi capaz de oferecer novidades teóricas, de maneira monumental, gigantesca, enquanto outros conseguem chegar a algumas assunções tímidas e limitadas.

Agora, vamos considerar a categoria idealização e a sua subcategoria êxitos. Eisberg e Resnick (1994, p. 51) afirmaram que foi a partir da realização de experimentos que em 1886 e 1887 que Heinrich Hertz confirmou a existência de ondas eletromagnéticas. A ênfase dos autores foi o êxito obtido pelo pesquisador, ignorando todo o pano de fundo que levou ao resultado, idealizando o contexto de 'descoberta'.

Esse resultado indica-nos a possibilidade de se identificar a pseudo-história numa grande quantidade de materiais de ensino de Ciências que procurem, ou

procuraram, abordar os conteúdos a partir da HFSC, o que deve servir como um sinal de alerta para todos os atores que constituem os sistemas de ensino e programas de formação em Ciências, não se restringindo, apenas, à formação em Física.

## Considerações Finais

O reconhecimento de inadequações históricas, em particular as pseudo-históricas, é o começo para se abordar adequadamente conteúdos científicos a partir da abordagem HFSC. Podemos dizer que ainda não há muitos métodos ou roteiros que auxiliem professores ou produtores de materiais de Ensino de Ciências. Esperamos que as categorias e subcategorias, aqui apresentadas, sirvam ao propósito de guiar nesse tipo de inspeção de materiais didáticos e de outros tipos, que sirvam à finalidade de escolha consciente, crítica e reflexiva do que será levado às salas de aula de Ciências e, em especial, de Física.

A escolha dos materiais, a serem utilizados em salas de aula de Ciências, deve pautar-se em conhecimentos didático-pedagógicos, metodologias de ensino, de conteúdos, assim como as abordagens dos seus conteúdos. Tendo a consciência do que trata certa abordagem, como a da HFSC, os professores de Ciências, e formadores de professores, terão condições de evitar equívocos históricos, como a pseudohistória.

## Agradecimentos

Agradecemos, primeiramente, ao Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Educação Matemática (PPGECEM/CCT/UEPB), desde os seus secretários até os seus professores, pelo apoio institucional, o qual contribuiu para a pesquisa de Silva (2021) e, consecutivamente, para a elaboração desse artigo. Agradecemos, ademais, ao apoio financeiro dispensado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

## Referências

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