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Natureza da Ciência e Justiça Social: Discussões a partir do Eclipse de Sobral de 1919

Aline Mazzarella, Hermann Schiffer, Andreia Guerra

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIX
Ano
2022
Data
16/08/2022
Linha de pesquisa
03 - Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## NATUREZA DA CIÊNCIA E JUSTIÇA SOCIAL: DISCUSSÕES A PARTIR DO ECLIPSE DE SOBRAL DE 1919

## NATURE OF SCIENCE AND SOCIAL JUSTICE: DISCUSSIONS BASED ON THE 1919 SOBRAL ECLIPSE

## Aline Mazzarella 1 , Hermann Schiffer 2 , Andreia Guerra 3

1 CEFET-RJ/ PPG Ciência, Tecnologia e Educação/ alinegcmazzarella@gmail.com 2 CEFET-RJ/ PPG Ciência, Tecnologia e Educação/ hermann.fernandes@cefet-rj.br 3 CEFET-RJ/ PPG Ciência, Tecnologia e Educação/ andreia.moraes@cefet-rj.br

## Resumo

Com o propósito de trazer subsídios para as discussões da área de educação em ciências em torno da Natureza da Ciência para Justiça Social, o presente trabalho tem por objetivo trabalhar em quais questões relacionadas aos dois campos citados podem ser elencadas a partir de uma abordagem sobre o episódio histórico do Eclipse de Sobral envolvendo a História Cultural da Ciência. Para tanto, nos debruçamos sobre o episódio com olhar voltado às práticas científicas e para os atores sociais que delas participaram, focando nos que foram invisibilizados pela narrativa difundida. Trata-se de uma pesquisa teórica, iniciada com uma discussão sobre o próprio campo de Justiça Social e sua relação com os atores invisibilizados, antes de seguir para uma explicação acerca do papel da História Cultural da Ciência na ampliação dessa questão e para a exposição do episódio em si. Entendemos que o estudo das práticas científicas é um caminho possível para construir, em aulas de ciências, espaços que permitam problematizações a respeito da participação plena e equitativa de todas as pessoas que vivem em sociedade.

Palavras-chave : Ensino de ciências, Natureza da Ciência, Justiça Social, Eclipse de Sobral, História Cultural da Ciência

## Abstract

With the purpose of bringing support to the discussions of the area of science education around the Nature of Science for Social Justice, this paper aims to analyze which issues related to the two fields may be listed from the historical episode of the Sobral Eclipse from the Cultural History of Science perspective. To this end, we focused on the episode with a look at scientific practices and the social actors who participated in them, focusing on those who were invisible by the widespread narrative. This is a theoretical research, initiated with a discussion about the field of Social Justice itself and its relationship with the invisible actors, before moving on to an explanation of the role of Cultural History of Science in the expansion of this issue and for the exposure of the episode itself. We understand that the study of scientific practices is a possible way to build, in science classrooms, spaces that allow problematizations about the full and equitable participation of all people living in society.

Keywords : Science Education, Nature of Science, Social Justice, Sobral Eclipse, Cultural History of Science

## Introdução

Um problema cada vez mais latente para a sociedade, principalmente nos últimos anos, nos quais lidamos com movimentos anti-vacinas e terraplanistas, é a crescente falta de confiança na ciência. Não é fácil deixar de correlacionar esse problema a outro que já percorre a educação básica há algum tempo: a falta de interesse e identificação dos estudantes para com as disciplinas de ciências.

Enxergando a escola como um dos espaços primordiais para modificar esse panorama, educadores em ciência desenvolveram pesquisas a respeito da importância de ensinar sobre a ciência (MARTINS, 2015).

- O ensino sobre a ciência é comum de ser referido pelo constructo 'Natureza da Ciência' (NdC), que vem se popularizando ao longo das duas últimas décadas. A NdC tem se tornado bastante discutida, e, também, controversa, não tendo exatamente um consenso que a defina. O que é entendido como NdC, contudo, pode ser descrito como um conjunto de informações a respeito da construção, estabelecimento e organização do conhecimento científico (MOURA, 2014).

Sobre a NdC e considerando a falta de significado do ensino de ciências para muitos estudantes, nos últimos anos, pesquisadores do campo da educação em ciências vem pontuando caminhos para um ensino de NdC que contribua para o que a literatura chama de Justiça Social (JS) (HANSSON, YACOUBIAN, 2020). Hansson e Yacoubian (2020) reconhecem JS como um campo que, tal como a NdC, não tem um consenso a respeito dos temas prioritários a serem tratados. Porém, entendem que a JS possui um objetivo definido: buscar igualdade política e social tanto no ensino de ciências quanto na sociedade em geral.

No âmbito da educação, enxergam o ensino da NdC como aliado na realização deste objetivo. Outros autores, que advogam essa aproximação (BENCZE, CARTER, 2020), apontam ser fundamental um ensino que leve em conta a realidade dos estudantes e considere as dimensões das relações de poder e as situações econômicas e políticas da sociedade na qual eles vivem e da ciência que estudam.

Com base nessas considerações, a pesquisa aqui relatada busca trazer subsídios para a discussão a respeito do ensino de NdC para JS, considerando a existência de relações entre as desigualdades encontradas na sociedade e as condições nas quais o conhecimento científico foi desenvolvido. Nesse sentido, advogamos ser importante uma abordagem histórica que considere a ciência como um empreendimento humano e cultural, e, assim, a entenda como co-produzida com a sociedade (HARDING, 2015). Dessa forma, nos aproximamos da vertente historiográfica da História Cultural da Ciência (HCC), que foca no estudo das práticas científicas, considerando-as locais e situadas. Considerando a multiplicidade dessas práticas e as diferentes dimensões e áreas nas quais são produzidas, compreende-se não apenas o contexto no qual o conhecimento científico foi produzido, mas também os diferentes atores sociais que participaram da produção de conhecimento científico. Também se possibilita o estudo de em quais condições eles participaram, de forma a destacar quem se beneficiou ou não no processo de formação da ciência.

Será aqui apresentada uma pesquisa teórica, na qual nos debruçamos sobre o episódio histórico do Eclipse de Sobral de 1919, com destaque para os atores sociais que dele participaram e como o fizeram. A partir dessas considerações, pretendemos fornecer recursos que construam respostas para a seguinte pergunta de pesquisa: quais questões a respeito da Natureza da Ciência e da Justiça Social podem ser elencadas a partir de uma abordagem sobre o episódio do eclipse de Sobral envolvendo a HCC?

Para apresentar os resultados dessa pesquisa iniciaremos o artigo com uma discussão sobre o próprio campo de JS e sua relação com atores sociais que foram invisibilizados, antes de prosseguir para uma explicação acerca do papel da HCC na ampliação dessa questão. Posterior a isso, apresentamos o episódio de Sobral e como o estudo desse episódio à luz da HCC nos traz subsídios para construir respostas à pergunta de pesquisa.

## Atores invisibilizados e Justiça Social

Na literatura em ensino de ciências, são apresentadas controvérsias a respeito de quais aspectos da NdC e como eles devem ser tratados em sala de aula. Existem tentativas de se chegar a uma definição exata, dentre elas podemos tomar, como exemplos, a separação por listas consensuais ou por conceito de semelhança familiar (MARTINS, 2015). Contudo, o assunto é controverso justamente porque essas listas não estão contextualizadas para o objetivo de formar cidadãos que tomem decisões, pessoais ou sociais, que envolvam a ciência (ALLCHIN, 2011).

Hansson e Yacoubian (2020) defendem que existem diferentes perspectivas dentro da pesquisa envolvendo a NdC. Assim, não é necessário se ater a alguma tentativa de consenso sobre o que é a NdC de fato, mas olhar para diferentes aspectos que podem ser discutidos a depender da visão e dos objetivos que se busca ao ensinar sobre a ciência.

Nessa pesquisa, nos atemos ao fato de que a ciência não é algo que simplesmente é descoberto na natureza, mas sim uma construção social, e, portanto, ciência e sociedade são co-produzidas (HARDING, 2015). Para compreensão de que ciência e sociedade são co-produzidas cabe um olhar para as práticas científicas. Pimentel (2010) salienta que estas não se restringem apenas às habilidades performáticas - como manipulação de instrumentos ou interpretação de dados - normalmente atribuídas à ciência, mas também a atividades como ler, escrever e estabelecer relações sociais.

Um olhar ampliado para as práticas científicas vai ao encontro, também, com o que Nyhart (2016) chama de virada para o construcionismo na história da ciência. A autora sinaliza que, então, os historiadores da ciência passam a considerar, também, pessoas que participaram da construção do conhecimento científico, ainda que não tenham sido beneficiadas por isso.

Concentremo-nos, aqui, nas pessoas que foram invisibilizadas, isto é: foram essenciais na produção de um conhecimento, porém não tiveram seus nomes registrados nos documentos oficiais da ciência. Ao contrário do que é amplamente divulgado ao se usar a imagem de um cientista gênio isolado, o desenvolvimento científico não se dá apenas com o trabalho de uma pessoa ou mesmo de um grupo de cientistas. Aqui, cabe o destaque do trabalho de técnicos de laboratório, de artesões e fabricantes de instrumentos cujas práticas foram essenciais para a

construção do conhecimento científico, mas que não foram valorizados na cultura moderna como formadores de conhecimento (MORUS, 2016). Além disso, considerando o trabalho dessas pessoas, é possível enxergar e debater acerca das relações de poder estabelecidas na construção da própria ciência, o que nos alinha de forma enriquecedora a uma abordagem envolvendo a JS.

Tal como acontece com a NdC, a JS é um campo que busca novas perspectivas para o ensino de ciências. Entendemos, que mesmo sem um consenso sobre seus objetivos, trazer o aporte da JS para a NdC implica em considerar a participação plena e equitativa de todas as pessoas que vivem em sociedade, visando a igualdade social, política, econômica, cultural e de gênero também no ensino de ciências (HANSSON, YACOUBIAN, 2020).

Ainda que esse objetivo seja claro, contudo, ressaltamos que não necessariamente igualdade é JS, ainda que dela faça parte. Erduran, Kaya e Avraamidou (2020) argumentam que JS no ensino de ciências é uma atividade política que visa trabalhar por uma mudança social ou cultural, de forma que nenhum grupo de estudantes seja excluído. Considerando essa premissa, advogamos que a discussão de atores sociais participantes da ciência, como os técnicos, mas que tiveram seus trabalhos invisibilizados na HC é um caminho para tomar o ensino de ciências como uma atividade política que coloque em xeque relações de poder na formação da ciência.

## E a História Cultural da Ciência...

Nas últimas décadas, pesquisas têm apontado a contribuição da História e Filosofia da Ciência para o ensino de ciências, e seu potencial para trabalhar aspectos da NdC (MOURA, 2014). Dentro dessas pesquisas, encontramos abordagens que estão mais preocupadas em descrever como se dá o desenvolvimento científico, analisando o contexto das práticas científicas. Essa abordagem em particular está alinhada à vertente historiográfica da HCC. Nesta seção, discutiremos como a HCC pode ser um caminho para problematizar a participação de atores sociais invisibilizados no processo de construção da ciência.

A HCC trabalha enxergando a ciência como cultura, assim sendo, também se preocupa em analisar as condições nas quais se deu determinado desenvolvimento científico. Assim sendo, também estamos, ao adotar essa abordagem historiográfica, atentos aos demais fatores da sociedade que coproduzem a ciência: fatores econômicos, políticos e sociais.

No caso da vertente historiográfica da HCC, a análise da história a ser contada deixa de ter foco nos grandes cientistas que estabeleceram grandes teorias e passa a considerar a ação de outros atores sociais. Dessa forma, ganham espaço as abordagens que vão considerar a ciência também como um conjunto de atividades humanas. Esses conjuntos de práticas humanas, também, não podem ser dissociados das relações de poder existentes, que impactam desde os processos de hierarquia profissionais até a criação de fronteiras que delimitam o que é conhecimento científico de fato e o que não é.

Podemos, então, nos debruçar sobre eventos com um olhar que pode mostrar fatos, contextos e principalmente pessoas que foram essenciais para o desenvolvimento científico e foram apagados, propositalmente ou não, ao se contar a história da ciência. Dessa forma, é possível tanto a problematização a respeito da

grande presença de homens brancos ocidentais nas narrativas quanto a ausência de outros atores sociais, como mulheres, colonos e homens do campo que participaram da prática científica.

No que condiz ao ensino de ciências, é necessária a promoção de debates a respeito de como a ciência é produzida e por quem, para que os alunos possam compreender como ela funciona e, para além do ambiente e idade escolar, estejam aptos a atuar como cidadãos. Na seção seguinte, nos debruçaremos sobre o episódio do eclipse de Sobral de 1919, como forma de destacar como os estudos de práticas científicas em torno ao episódio nos permite compreender a atuação de diferentes atores sociais naquele episódio, apesar de seus nomes não constarem dos relatórios das expedições a Sobral.

## O Eclipse de Sobral

O eclipse solar de 1919 em Sobral, refere-se ao episódio histórico em que três expedições se deslocaram para a cidade cearense para registrar o fenômeno, com diferentes propósitos. Apesar dos diferentes propósitos, o evento ganhou notoriedade pela possibilidade de comprovar um dos aspectos da Teoria da Relatividade Geral (TRG).

Publicada em 1916 pelo físico de naturalidade alemã Albert Einstein (18791955), a TRG defende que a gravidade é uma das consequências da deformação do espaço-tempo, que também provoca o desvio aparente na trajetória da luz. Esse desvio, de acordo com a teoria, ocorre quando a luz passa pelo espaço deformado por um corpo de massa extremamente grande (como o Sol).

A escolha de Sobral ocorreu com apoio da equipe do Observatório Nacional do Rio de Janeiro (ON). As condições já eram conhecidas porque o Brasil havia sido palco de outras expedições de observação de eclipse solar, como a de 1912, que frustrou as expectativas, ao chover no dia do evento. Apesar do fracasso, o eclipse de 1912 propiciou condições importantes para que o Brasil fosse um dos locais escolhido para o evento de 1919. Essas informações iam desde o funcionamento da política interna e externa do Brasil (uma vez que a organização dessas expedições precisava de diplomacia, no caso da externa, e de possibilidade de transporte a longas distâncias dentro do país de proporções continentais, no caso da interna) a condições meteorológicas.

A preparação do local demandou tempo e começou muito antes da chegada dos cientistas estrangeiros. Com meses de antecedência do evento celeste, o ON coordenava em Sobral a preparação da infra-estrutura, bem como questões da hospedagem das comitivas, assim como o transporte com segurança dos astrônomos e equipamentos necessários para observação do eclipse.

Todo o trabalho foi recompensado no dia 29 de maio de 1919. Nos dias que se seguiram, as manchetes em jornais brasileiros e estrangeiros estampavam o êxito da expedição astronômica a Sobral, que obteve, inclusive, resultados superiores àquela enviada à Ilha de Príncipe (MOREIRA, 2019).

## Os atores sociais invisibilizados no episódio do Eclipse de Sobral

Quando se lança os olhos para episódio através das lentes da HCC, encontramos fatores escondidos nos relatórios oficiais que são cruciais para um

ensino que se trabalhe NdC e JS. Um deles é que as comitivas eram pequenas em número para a proporção do trabalho que, como dito na seção anterior, mobilizava um número significativo de trabalhadores para montar os equipamentos e construir as estruturas necessárias para a proteção dos equipamentos dos constantes ventos e dos dias quentes da cidade de Sobral.

Comecemos pelo ponto relacionado à estrutura. Os aparelhos que seriam utilizados no evento - como telescópios - eram extremamente sensíveis e o calor da cidade era intenso, o que tornava a possível dilatação das lentes e espelhos um problema fundamental para se resolver. Fora isso, os ventos constantes da cidade carregavam poeiras que podiam afetar o funcionamento dos instrumentos (BARBOZA, 2010). Assim, tornava-se fundamental a construção de abrigos específicos para proteger as lentes e equipamentos das condições meteorológicas, sem afetar o funcionamento dos aparelhos. Como apontam dados do relatório de Crommelin (1919), os abrigos não só protegeram os equipamentos, como parte deles foi rapidamente reconstruída, após uma ventania maior do que a esperada. Os responsáveis por essas construções foram pedreiros e carpinteiros sobralenses, que seguiram as instruções dos astrônomos, a partir de intérpretes que traduziam as conversas entre eles e os astrônomos.

A profissão de pedreiro, uma das bases da sociedade, é marginalizada, com uma maioria de autônomos sem direitos trabalhistas e estabilidade. Nessas condições, esse grupo social fez parte daquela prática científica, desenvolvendo atividades essenciais para que a observação e registro do eclipse ocorresse. Discutir de forma aprofundada a prática científica ali estabelecida e as condições para seu sucesso pode promover em aulas de ciências debates acerca do status da ciência na sociedade e, também dos diferentes atores sociais que direta ou indiretamente dela participam.

O episódio do Eclipse de Sobral também oferece outros exemplos importantes para se discutir a NdC, como o próprio comportamento esperado da população. O evento tomou parte da cidade de Sobral por meses, então mesmo que a população não fosse de fato requisitada como trabalhadora, tinha interesse em participar ao menos para ver o que aconteceria. Isso se deve em parte pela comoção e mobilização que podia ser vista na cidade mas também pelo grande esforço da imprensa local em divulgar o evento. Para os intitulados cientistas, o interesse da população causava uma espécie de receio, pois uma agitação dos habitantes locais no momento da totalidade do eclipse poderia atrapalhar o funcionamento dos equipamentos e os registros fotográficos. Assim, o diretor do ON, Henrique Morize, em artigos em jornais diários local, instruiu a população sobre o modo como deveria se comportar durante os 5 minutos do evento. No artigo publicado no jornal sobralense 'A ordem: trabalho e justiça', Morize (1919) destacou que ficar em silêncio completo durante a totalidade era o comportamento esperado de uma população civilizada. Festejos e sinais de surpresa eram próprios de um povo incivilizado. O silêncio total durante o eclipse registrado no relatório de Crommelin aponta para o engajamento da população local naquele evento.

Dentre questões relacionadas àquela prática científica, vale a pena ressaltar a produção de chapéus de palha, produzido em sua maioria por mulheres que dali tiravam seu sustento, vendidos como proteção contra o sol, e a utilização de potes de barro, muito usado pela população sobralense, na revelação de registros fotográficos do eclipse. As chapas fotográficas tiradas no evento precisavam ser

reveladas no mesmo local para ter a melhor qualidade possível. Para isso, aqueles que manejavam os instrumentos precisavam de água em temperatura adequada para revelação, sem a qual não conseguiram obter as fotografias tiradas com seus modernos equipamentos. Porém, as condições climáticas de Sobral exigiram a utilização de potes de barro, comumente usados pelos sobralenses, para manter a temperatura da água adequada para a revelação. Por meio desse aparato local, as chapas puderam ser reveladas sem sofrer deslocamento, e sem comprometer a qualidade do material, diferentemente do que ocorreu na Ilha de Príncipe.

O evento foi propagado como um sucesso pela imprensa internacional, com grandes projeções por parte da comprovação da TRG. Nos relatórios encontrados algumas breves menções aos trabalhos dos carpinteiros, mas não o nome daqueles que lá em Sobral trabalharam arduamente para que aquela prática científica tivesse êxito.

## Considerações finais

Como exemplificado, a falta de contextualização no ensino de ciências e a falta de confiança das pessoas na ciência são problemas críticos. Como pesquisadores da área de ensino, precisamos discutir caminhos que permitam um melhor entendimento do que os estudantes percebem como ciência e cientista e como isso pode provocar uma educação voltada à cidadania.

Aqui, procuramos introduzir correlações entre JS (que é um campo relativamente recente nas pesquisas de ensino de ciências) e NdC com objetivo de fomentar discussões acerca dos trabalhadores que foram invisibilizados no decorrer da narrativa histórica.

Para tanto, utilizamos o episódio do Eclipse de Sobral de 1919, à luz da HCC, de forma a analisar as práticas científicas e os atores sociais que delas participaram. Trata-se de um episódio de relevância internacional, ocorrido em solo brasileiro, e com a participação de atores sociais reconhecidos e não reconhecidos como cientistas.

Com base no que aqui foi discutido, entendemos que o estudo do episódio de Sobral à luz da HCC pode gerar discussões sobre a ciência capazes de promover reflexões acerca de quem foi ou não beneficiado para o sucesso daquele evento. Como um exemplo latente discutir JS com aspectos da NdC, usamos o trabalho dos pedreiros em Sobral para nos questionarmos: por que seus conhecimentos e seus nomes foram subjugados em detrimento de outros? Refletir sobre respostas a essa questão nos permite reconhecer que a ciência se constrói mobilizando diferentes agentes sociais, cujos trabalhos não são necessariamente registrados por rígidas fronteiras disciplinares defendidas na sociedade e que ainda fundamentam a prática científica (BAZZUL, 2020). Dessa forma, advogamos que o estudo histórico das práticas científicas nos permite compreender assimetrias de poder na construção da ciência que são diretamente ligadas ao fato da ciência e sociedade serem coproduzidas (HARDING, 2015).

Dessa forma, podemos construir em aulas de ciências espaços de problematização a respeito da participação plena e equitativa de todas as pessoas que vivem em sociedade, visando a igualdade social, política, econômica, cultural e de gênero também no ensino de ciências (Hansson e Yacoubian, 2020).

## Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio da CAPES e do CNPq.

## Referências

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BARBOZA, C.; Ciência e natureza nas expedições astronômicas para o Brasil (18501920). Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc . Hum., Belém, v. 5, n. 2, p. 273-294, maio-ago. 2010.

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BENCZE, J; CARTER, L. Capitalism, Nature of Science and Science Education: Interrogating and Mitigating Threats to Social Justice. In: HANSSON, L., YACOUBIAN, H. (Eds) Nature of Science and Social Justice . Switzerland: Springer, 2020. p.59-78

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HANSSON, L.; YACOUBIAN, H. Nature of Science for Social Justice: Why, What and How?. In: HANSSON, L., YACOUBIAN, H. (Eds) Nature of Science and Social Justice , Switzerland: Springer, 2020. p.1-21

HARDING, S. Objectivity and diversity: Another logic of scientific research . Chicago: University of Chicago Press, 2015.

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MOURA, B. O que é a natureza da Ciência e qual sua relação com a História e Filosofia da Ciência? Revista Brasileira de História da Ciência , Rio de Janeiro, v.7, n.1, p-32-46, jan, 2014

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