O QUE TEM SIDO DISCUTIDO SOBRE IMAGINAÇÃO, NARRATIVAS E EXPERIMENTOS MENTAIS NOS EVENTOS SNEF E EPEF
Juarez Dal'Acqua Junior, Lucas Albuquerque Do Nascimento, Henrique César Da Silva
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 17/08/2022
- Linha de pesquisa
- 10 - Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O QUE TEM SIDO DISCUTIDO SOBRE IMAGINAÇÃO, NARRATIVAS
## E EXPERIMENTOS MENTAIS NOS EVENTOS SNEF E EPEF WHAT HAS BEEN DISCUSSED ABOUT IMAGINATION, NARRATIVES AND MENTAL EXPERIMENTS IN THE EVENTS SNEF AND EPEF
Juarez Dal'Acqua Junior 1 , Lucas Albuquerque do Nascimento 2 , Henrique César da Silva 3
1 Universidade Federal de Santa Catarina, Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica, Membro do Grupo de Pesquisa FLUXO, ju\_dalacqua@hotmail.com
2 Universidade Federal de Santa Catarina, Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica, Membro do Grupo de Pesquisa FLUXO, lucas.albuquerque13@hotmail.com
3 Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de Metodologia de Ensino, Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica, Líder do Grupo de Pesquisa FLUXO, henriquecsilva@gmail.com
## Resumo
Este trabalho teve como objetivo discutir uma revisão da literatura sobre o tema imaginação científica em trabalhos publicados em eventos de ensino de física. Partimos da premissa de que para pensar o uso e papel da imaginação para uma situação de ensino, alguns questionamentos podem surgir, por exemplo, de que maneira a imaginação científica vem sendo trabalhada e discutida no ensino de física e quais reflexões podem emergir de trabalhos já publicados. Após percorrermos os caminhos metodológicos, foram identificados 9 trabalhos do Encontro de Pesquisa em Ensino de Física e 13 trabalhos do Simpósio Nacional de Ensino de Física, eles foram analisados a partir dos seguintes focos temáticos: Relação com o contexto educacional; Conceito científico trabalhado; Nível de ensino; Pressupostos teóricos e Aspecto da imaginação abordado. Sobre imaginação científica, destacamos a diversidade didática e multiplicidade de conceitos físicos que podem ser abordados no ensino e consideramos a imaginação científica como um recurso constitutivo do conhecimento científico e do saber educacional.
Palavras-chave : Imaginação Científica; Ensino de Física; Revisão da Literatura.
## Abstract
This paper aimed to discuss a literature review on the subject of scientific imagination in papers published in Physics Teaching events. We start from the premise that to think about the use and role of imagination for a teaching situation, some questions may arise, for example, how scientific imagination has been worked and discussed in Physics Teaching and what reflections can emerge from papers already published. After going through the methodological paths, 9 papers from the Physics Teaching Research Meeting and 13 papers from the National Symposium on Physics Teaching were identified, they were analyzed from the following thematic focuses: Relation with the educational context; Scientific concept worked; Level of education; Theoretical assumptions and Aspect of the imagination addressed. On scientific imagination, we highlight the didactic diversity and multiplicity of physical
concepts that can be approached in teaching and we consider scientific imagination as a constitutive resource of scientific knowledge and educational knowledge.
Keywords : Scientific Imagination, Physics Teaching, Literature Review.
## Introdução
Delimitar o que é a imaginação científica não é uma tarefa simples, é necessário um cuidado no tratamento da questão. Em fato muitos filósofos e estudiosos de diferentes áreas e escolas de pensamento dedicaram escritos e reflexões sobre o tema, o que resulta em diferentes perspectivas sobre a imaginação. A temática imaginação perpassa por diversas áreas do conhecimento, entre as quais destacamos a ciência, onde podemos entender a imaginação como 'a capacidade de produzir ideias e organizá-las sobre a tutela da razão e da experimentação [...]. A criação se dá no pensamento através do poder da imaginação' (PIETROCOLA, 2004, p. 8).
Por estar presente na atividade humana a imaginação adquire diversos significados. Dentre estes significados destacamos os estudos de Jerome S. Bruner, que desenvolve a proposição de modos básicos de funcionamento cognitivo, o paradigmático e o narrativo, e entende a '(...) narrativa como modo de pensar, como estrutura para organizar nosso conhecimento e como veículo no processo de educação, particularmente no ensino de ciências' (BRUNER, 1996, p. 119, tradução nossa). Já em termos de construção do conhecimento científico, materializado pela História e Filosofia das Ciências (HFC), podemos compreender a imaginação e a criatividade como formas de '(...) processos pelos quais a mente acumula verdades sobre a natureza estão entre as produções cognitivas controversas mais antigas e ainda mais prolíficas' (HOLTON, 1979, p. 7).
Dentre estes processos mentais existem os experimentos mentais, que mobilizam um pensamento narrativo e levam à imaginação de cenários nos quais os efeitos são extrapolados e as consequências estudadas. Por exemplo, o pensamento narrativo teve um caráter complementar ao pensamento matemático na produção da Teoria da Relatividade Geral (CARDOSO, 2015). Os experimentos mentais, na forma de narrativas, ou cenários imaginários, podem ser trabalhados no ensino em diferentes níveis. Mas, antes de propormos tais discussões para a educação científica e/ou ensino de física, acreditamos ser interessante nos questionarmos: De que maneira a imaginação científica vem sendo abordada e discutida na pesquisa em ensino de física? E, quais reflexões podem emergir de discussões sobre essa temática para a construção de futuras propostas didáticas?
Embora tenhamos apresentado a nossa perspectiva, não é descartável reparar quais as outras concepções aparecem, por exemplo, em trabalhos em eventos do ensino de física, pois novas discussões podem decorrer destas diferenças. Nesse sentido, objetivamos apresentar e discutir uma revisão da literatura sobre o tema imaginação científica, em trabalhos publicados em eventos do ensino de física.
A seguir, apresentaremos os caminhos metodológicos trilhados para a realização da revisão da literatura. Iremos destacar principalmente os critérios
escolhidos para a seleção dos eventos, o processo de seleção dos trabalhos e os focos temáticos que servirão para as análises dos trabalhos selecionados.
## Caminhos metodológicos
Sobre revisão da literatura, destacamos que na metáfora de Salem (2012) a autora considera que '(...) se assemelharia a uma 'fotografia' do objeto em dado momento ou a um 'filme', quando incorpora neste, uma evolução temporal, uma revisão histórica. (...) o resultado da 'foto' dependeria de fatores objetivos e subjetivos, da 'câmera' e do olhar do fotógrafo' (SALEM, 2012, p. 35).
Tendo como base a perspectiva citada acima, realizamos uma revisão da literatura em eventos científicos que publicam no campo de ensino de física. Para isso, adotamos como critérios de seleção dos eventos: 1) ser nacional, 2) a relevância que os mesmos possuem no campo da área de ensino e 3) que publicam trabalhos teóricos e educacionais tendo como base propostas didáticas ou situações em sala de aula. Dessa forma, os eventos selecionados foram: Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (EPEF) e Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF). Por serem os dois maiores eventos de pesquisa em ensino de física do Brasil, consideramos que os dois já forneceram um número de trabalhos suficiente para um levantamento, e aspectos da área foram de fato observados. O recorte temporal da revisão foi de 20 anos, de 2000 a 2020. Recordamos ainda, que o EPEF ocorre sempre em anos pares e o SNEF em anos ímpares.
O processo de seleção dos trabalhos foi dividido em duas etapas, a primeira envolveu o acesso dos websites dos eventos de cada ano e a leitura dos títulos, resumos e palavras-chave de todos os trabalhos publicados. Nessa primeira etapa foram selecionados 25 trabalhos do EPEF e 42 trabalhos do SNEF. Os termos que utilizamos para selecionar os trabalhos foram: Imaginação Científica ; Cenários Imaginários , Experimento de Pensamento , Experimentos Mentais e Narrativas Científicas . Trabalhos que não continham estes termos, mas sugeriam abordar estas temáticas também foram selecionados nesta primeira fase. A segunda etapa consistiu da leitura de todos os textos selecionados na primeira fase e conferir se o foco destes trabalhos encaixava com a nossa investigação. Sendo assim, foram selecionados 9 trabalhos do EPEF e 13 trabalhos do SNEF, conjunto esse que analisamos e discutimos neste trabalho.
Após estabelecermos os critérios de seleção e chegarmos na conclusão das duas etapas apresentadas no parágrafo anterior, adotamos como base o estudo desenvolvido por Nascimento (2020), para adaptarmos e estabelecermos os seguintes focos temáticos para análise dos trabalhos selecionados, a saber:
- a) Relação com o contexto educacional.
- b) Conceito científico trabalhado.
- c) Nível de ensino.
- d) Pressupostos teóricos.
- e) Aspecto da imaginação abordado.
Na próxima seção apresentaremos os resultados e discussão deste trabalho. Para sintetizar, a discussão terá como base os resultados apresentados no
quadro 1 e algumas considerações a partir de cada um dos focos temáticos analisados.
## Resultados e Discussão
Os resultados da análise dos trabalhos dos eventos EPEF e SNEF estão sintetizados respectivamente no quadro 1 abaixo:
Quadro 1 - Análise dos trabalhos.
Sobre a relação com o contexto educacional, nota-se a larga quantidade de relatos de experiência (11, os questionários também são relatos) e a baixa incidência de propostas de ensino (3) também notável é o número de trabalhos que promovem discussão geral sobre o tema (4).
Sobre os conceitos científicos trabalhados é louvável a diversidade de conceitos que se apresentam nos trabalhos. Podemos destacar que uma ampla extensão de assuntos ensinados na disciplina de física. Há trabalhos que tratam desde a mecânica mais básica, como polias, até conceitos complexos como os da Relatividade Geral. Também destacamos uma alta ocorrência em trabalhos sobre Relatividade, os últimos associados a Experimentos Mentais e Narrativas Históricas.
Em relação ao nível de ensino, observamos 12 trabalhos retratando a física no nível de Ensino Médio, 5 no Ensino Superior e apenas 2 no Fundamental, outros 3 discutem a imaginação (GURGEL; PIETROCOLA, 2004; WATANABE; GURGEL, 2011) e narrativas históricas (CARDOSO; GURGEL, 2013) de maneira geral no ensino, discussão essa que não teve necessidade de especificar o nível de ensino.
Sobre os pressupostos teóricos e o aspecto da imaginação abordado, chama atenção o quantitativo de trabalhos que possuem uma relação com os Experimentos Mentais, Criatividade e Imaginário. Autores como Labov e Bruner aparecem nos trabalhos onde narrativas são o processo em questão mesmo que não sejam os únicos autores em todas as ocorrências de narrativas. Sobre os trabalhos que abordam o tema dos experimentos mentais não há um referencial teórico (principal) em comum entre eles, vide quadro 1, significando que este objeto está sendo observado sob a luz de várias teorias.
Por fim, referenciados por Granger e Bronowski, Gurgel e Pietrocola (2004) trazem argumentos do que podemos considerar sobre imaginação científica, uma das possíveis definições para a imaginação é a criação de objetos em um sistema simbólico, ou seja, o pensamento humano se constitui fundamentalmente na capacidade de gerarmos representações mentais para os elementos do mundo, habilitando-nos a nos relacionar com este não somente através dos sentidos, mas também através de construções abstratas (GURGEL; PIETROCOLA, 2004).
## Considerações Finais
Tendo como base o quantitativo de trabalhos identificados, analisados e a discussão realizada, podemos fazer algumas considerações sobre imaginação científica no ensino de física. Essas considerações poderão subsidiar o trabalho docente em planejamentos e desenvolvimentos de propostas didáticas para uma discussão conceitual de e sobre física. Dessa forma, consideramos a imaginação científica como um recurso constitutivo do conhecimento científico, dos seus processos desde sua gênese, desenvolvimento e materialização enquanto saber científico e educacional. Portanto, a imaginação é uma prática científica. Existe na literatura, uma diversidade didática de temas relacionados à imaginação científica, ou seja, há mais de uma forma para docentes levar essas discussões para a sala de aula, por exemplo, por meio de questões sobre HFC, Natureza da Ciência, e CTS podem ser estruturantes e trabalhadas em aulas de física possibilitando uma interdisciplinaridade conceitual. Por fim, o uso de temas voltados à imaginação científica podem possibilitar discussões conceituais sobre Física Clássica e também
Física Moderna e Física Contemporânea, mesmo que haja poucas ocorrências nos conteúdos de quântica e eletromagnetismo, que pode ser tanto uma consequência das palavras-chave escolhidas quanto um aspecto da própria área.
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