ANÁLISE FLECKIANA DA CONTROVÉRSIA CIENTÍFICA ENTRE A ''HIPÓTESE DE GATILHO" DE LENARD E A ''HIPÓTESE DE QUANTUM DE LUZ" DE EINSTEIN
Eliéverson Guerchi Gonzales, Ronivan Sousa Da Silva Suttini, João José Caluzi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 17/08/2022
- Linha de pesquisa
- 03 - Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ANÁLISE FLECKIANA DA CONTROVÉRSIA CIENTÍFICA ENTRE A 'HIPÓTESE DE GATILHO' DE LENARD E A 'HIPÓTESE DE QUANTUM DE LUZ' DE EINSTEIN
## FLECKIAN ANALYSIS OF SCIENTIFIC CONTROVERSY BETWEEN LENARD'S " TRIGGERING HYPOTHESIS " AND EINSTEIN'S "QUANTUM OF LIGHT HYPOTHESIS"
## Eliéverson Guerchi Gonzales 1 , Ronivan Sousa da Silva Suttini 2 , João José Caluzi 3
1 Universidade Estadual Paulista-UNESP/ Faculdade de Ciências, Bauru / gonzales.eg@outlook.com 2 Instituto Federal de Mato Grosso do Sul - IFMS, Três Lagoas / ronivan.silva@ifms.edu.br 3 Universidade Estadual Paulista-UNESP / Faculdade de Ciências, Bauru / joao.caluzi@unesp.br
## Resumo
O trabalho, aqui apresentado, tem como objetivo analisar o efeito fotoelétrico do ponto de vista histórico a partir da epistemologia de Ludwik Fleck (1896-1961). Com esta finalidade, utilizaremos a controvérsia científica envolvendo, de um lado, a 'Hipótese de Gatilho', do físico austro-hungaro Philipp Eduard Anton von Lenard (1862 - 1947), formulada em 1902 e, de outro, a 'Hipótese de Quantum de Luz', do físico alemão Albert Einstein (1879 - 1955), elaborada em 1905. Nossa análise e discussão evidenciaram elementos sociais que contribuíram - tanto para o surgimento de novas ideias quanto para a ampla rejeição da comunidade científica, pelo menos até 1913 de uma teoria quântica da luz. Além disso, foi identificado outras potencialidades da teoria fleckiana que ainda podem ser exploradas em trabalhos futuros com relação ao mesmo episódio histórico, de modo semelhante, com uma análise da composição do coletivo de pensamento no qual Lenard e Einstein pertenciam, e as concepções e valores da produção científica privilegiados em cada estilo de pensamento .
Palavras-chave : Fleck. Efeito Fotoelétrico. História da Ciência.
## Abstract
The work presented here aims to analyze the photoelectric effect from a historical point of view based on the epistemology of Ludwik Fleck (1896 -1961). The work presented here aims to analyze the photoelectric effect from a historical point of view. For this purpose, we will use the scientific controversy involving, on one side, the "Triggering Hypothesis" of the Austro-Hungarian physicist Philipp Eduard Anton von Lenard (1862 - 1947) formulated in 1902 and, on the other side, the " Quantum Light Hypothesis" of the German physicist Albert Einstein (1879 - 1955) elaborated in 1905. Our analysis and discussion allowed us to highlight social elements that contributed to the emergence of new ideas and the scientific community's broad rejection, at least until 1913, of a quantum theory of light. Moreover, we identified that other potentialities of the Fleckian that can still be explored in future works regarding the same historical episode, in a similar manner, with an analysis of the composition of the thought
collective to which Lenard and Einstein belonged and the conceptions and values of scientific production privileged in each thought style.
Keywords : Fleck. Photoelectric Effect. History of Science.
## 1. Introdução
Desde os anos 2000, a epistemologia fleckiana tem atraído cada vez mais adeptos entre os pesquisadores de Educação para as Ciências. Delizoicov et al. (2002) a utilizou como um referencial para investigar os problemas no ensino de ciências e das soluções de questões de pesquisa, a partir da formação do conhecimento científico. Heidrick e Delizoicov (2009), mostraram como os novos conceitos modificaram a ideia original sobre o conceito de diabetes. Menezes et al. (2008) pesquisaram as contribuições teórico-metodológicas da epistemologia de Fleck como referência entorno de pressupostos teóricos e metodológicos de pesquisas na Educação em Ciências. Parreiras (2006) investigou as potencialidades da epistemologia de Fleck para subsidiar diversas abordagens e para compreender o processo cognitivo presente em uma matriz das Ciências Físicas constituída a partir da proposta de Thomas Khun. Queirós, Nardi e Delizoicov (2014) partiram da epistemologia de Fleck para compreender a produção técnica e científica de James P. Joule. Por fim, Gonzales e Caluzi (2018) abordaram, a partir da teoria fleckiana, a relação da experiência do pesquisador e a comprovação experimental no decorrer da produção científica.
Neste trabalho, tendo como pano de fundo os conceitos fleckianos, propõe-se analisar o episódio histórico associado à controvérsia científica envolvendo de um lado, a 'Hipótese de Gatilho 1 ' de Philipp Lenard (1902) e, de outro, a 'Hipótese de Quantum de Luz' de Albert Einstein (1905).
## 2. Algumas ideias da epistemologia de Ludwik Fleck
A epistemologia fleckiana 2 , conhecida como a teoria da comparação do conhecimento, foi publicada em 1935 no livro ' Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico '. As investigações de Fleck provavelmente foram influenciadas por sua participação na Escola Polonesa da Filosofia da Medicina e por leituras sobre Sociologia, História das Ciências e da Medicina (SCHÄFER e SCHNELLE, 2010). Contudo, devido a sua formação em medicina, Fleck dedicou-se principalmente à imunologia e bacteriologia. Em seu livro, o autor apresenta elementos conceituais que descrevem a atividade científica de forma divergente do pensamento dominante da época, o neopositivismo do Círculo de Viena (NOGUEIRA, 2021).
A produção de Fleck em epistemologia é composta pelo livro de 1935 e por sete artigos, dois antes do livro e cinco após. Os pressupostos da sua teoria da ciência estão fundados na história, na sociologia do conhecimento e em sua experiência como médico e pesquisador (SCHENELLE, 1986; LÖWY, 1994).
A monografia de Fleck (denominação usual do livro de 1935) não despertou interesse da comunidade científica 3 na época de sua publicação. Dentre os possíveis motivos estão o fato de o autor ainda não ser conhecido no campo da filosofia da ciência, além disso, '[...] o judeu-polonês, não pôde despertar interesse da Alemanha nazista. O público instruído, seu principal destinatário, encontrava-se ocupado com outras inovações' (SCHÄFER e SCHNELLE, 2010, p. 2).
Dois conceitos que aparecem na monografia descentralizam a ação individual do cerne da produção do conhecimento: o coletivo de pensamento e o estilo de pensamento. O primeiro corresponde à função social dos cientistas em relação a um objeto de investigação, sendo esse grupo estruturado a partir das convergências culturais e sociais de cada membro que a compõe. Quanto ao segundo conceito, a sua premissa está nas conjecturas de pensamento em que o coletivo fundamenta o seu saber (FLECK, 2010).
Fleck é incisivo ao defender que nenhum conhecimento científico surge do nada. Dessa maneira, as protoideias, que são as primeiras ideias científicas, devem ser consideradas como pré-ideias históricas que influenciarão as teorias modernas e sua gênese será encontrada a partir da sociologia do pensamento. Esse procedimento é essencial, uma vez que para um cientista moderno, a ideia poderia ser considerada falsa em uma leitura anacrônica, enquanto para o cientista do passado ela certamente era correta.
Assim, para Fleck, uma epistemologia sem análise histórica torna-se imaginária. Um pesquisador, por mais que tenha acesso a uma gama de recursos intelectuais e materiais, não chegará ao entendimento do fenômeno estudado a não ser que tenha a contribuição de um grupo de pesquisadores. Além destes (designado círculo esotérico) a participação do saber popular (denominado círculo exotérico) tem um papel ativo na proposta fleckiana, pois, enquanto ocorrer a difusão do pensamento entre esses círculos, as ideias ou conceitos do campo pertencente ao objeto de estudo estarão ativos.
## 3. A 'Hipótese de Gatilho' de Philipp Lenard (1902) versus a 'Hipótese de Quantum de Luz' de Albert Einstein (1905) para o Efeito Fotoelétrico
O relato do episódio histórico associado à controvérsia científica entre, a 'Hipótese de Gatilho' de Philipp Lenard (1902) e, a 'Hipótese de Quantum de Luz' de Albert Einstein (1905), baseou-se nos estudos realizados por Wheaton (1978), Kragh (1992), Niaz et al. (2010) e Klassen et al. (2011).
## 3.1 A 'Hipótese de Gatilho' de Philipp Lenard para o Efeito Fotoelétrico (1902)
Em 1902, Philipp von Lenard, ex-assistente do físico alemão Heinrich Rudolf Hertz (1857-1894) e expert em raios catódicos, realizou uma extensa investigação
científica sobre emissão fotoelétrica, em superfícies metálicas sólidas, de sua época (WHEATON, 1978). A partir de uma rigorosa coleta de dados, ele observou uma série de características intrigantes, inconsistentes e contraditórias ao que seria esperado pela bem-sucedida teoria eletromagnética clássica, tradicionalmente representada pelas quatro equações de Maxwell, formuladas entre 1861 e 1862.
Lenard identificou que a intensidade da radiação eletromagnética ultravioleta incidente provocava alterações somente no número de elétrons ejetados (fotoelétrons), mas não em suas velocidades máximas (KRAGH, 1992). De acordo com a teoria eletromagnética clássica, um aumento na intensidade da radiação eletromagnética (amplitude) pode ocorrer unicamente devido a um respectivo aumento proporcional no módulo de uma das componentes do campo eletromagnético da radiação. Em outros termos, um aumento na amplitude é resultado único de um aumento na quantidade de energia transportada pela radiação eletromagnética; quantidade de energia que, por sua vez, poderá ser parcial ou totalmente transferida a átomos e elétrons em processos de interação com a matéria, exatamente como ocorre no efeito fotoelétrico com a luz ultravioleta.
Outra contradição tinha sido relatada, 13 anos antes, pelo físico russo Alexandr Stoletov (1839-1896). Em 1902, já era consenso entre os cientistas portanto, um 'fato científico' para a época - que o intervalo de tempo decorrido entre a incidência de radiação e o surgimento da corrente fotoelétrica era menor que 1,0 milissegundo (WHEATON, 1978). Esse 'fato científico' também representava uma inconsistência com a teoria clássica, uma vez que as predições sobre o processo de transferência de energia baseavam-se num tipo de 'ação ressonante' da radiação com a matéria, um processo muito lento e acumulativo, em especial, quando utilizase luz de baixa intensidade, com um intervalo de tempo previsto consideravelmente maior do que aqueles obtidos experimentalmente (Δt > 20 ms).
Todavia, ambas as contradições foram temporariamente eliminadas pela proposição da 'hipótese de gatilho' de Philipp Lenard. Partindo do pressuposto de que elas só existem se, e somente se, for verdadeira a premissa de que realmente há um processo de transferência de energia na interação entre radiação e matéria, ele sustentou que não havia evidências empíricas que corroborassem essa premissa. O físico alemão citou, por exemplo, que o valor obtido experimentalmente para energia cinética dos fotoelétrons era muito grande para ser obtido por um processo de 'ação ressonante', num intervalo de tempo tão curto (WHEATON, 1978). Assim, ao formular sua hipótese, ele estava convencido de que a radiação eletromagnética na faixa do ultravioleta agia somente como um 'gatilho' para liberar ou disparar os fotoelétrons das superfícies metálicas. Em suas palavras:
[...] que as velocidades iniciais dos quanta emitidos [ este era o termo utilizado por Lenard para fotoelétrons ] não se originam da energia luminosa, mas de movimentos violentos já existentes dentro dos átomos antes incidência de luz, de modo que os movimentos de ressonância desempenham apenas um papel insignificante (LENARD, 1902, p. 170, tradução nossa).
Seguindo esse raciocínio, ele concluiu que não deveria haver nenhuma transferência de energia radiante para a energia cinética dos fotoelétrons, mas que os fotoelétrons estavam sendo emitidos com determinada energia cinética já preexistente - ou energia potencial equivalente. Em última análise, tinha origem na energia interna que os próprios fotoelétrons já possuíam quando ainda estavam na estrutura interna do átomo (WHEATON, 1978; KRAGH, 1992; NIAZ et al. 2010).
Ele aparentemente não se preocupou com uma possível dependência do limiar fotoelétrico em relação ao valor da frequência da radiação eletromagnética incidente. Ao que tudo indica, ele provavelmente notou uma ligeira influência do 'tipo' de radiação, mas não prosseguiu com o desenvolvimento de condições experimentais adequadas para investigar essa suspeita (WHEATON, 1978). Como a estrutura interna do átomo ainda era um problema em aberto 4 , a solução de Lenard pareceu razoável e adequada para quase todos os físicos da época, pois solucionava duas contradições na teoria de Maxwell (KRAGH, 1992; KLASSEN, 2011). Devido aos seus trabalhos sobre os raios catódicos, ele foi laureado com o Prêmio Nobel de Física de 1905.
- A 'hipótese de gatilho' para radiação visível e ultravioleta permaneceu amplamente aceita na comunidade científica até 1911. Todavia, '[..] em 1913, Philipp Lenard admitiu que o efeito fotoelétrico era uma 'dificuldade', a qual tornou-se intransponível depois da aceitação da teoria de Bohr para estrutura atômica' (WHEATON, 1978, p. 321, tradução nossa).
## 3.2 A 'Hipótese de Quantum de Luz' de Albert Einstein (1905)
Em 1905, quando Albert Einstein publicou o estudo teórico intitulado ' Sobre um ponto de vista heurístico a respeito da produção e transformação da luz ' 5 , no qual apresentou a sua 'hipótese de Quantum de luz', não havia ainda evidências empíricas sobre as quais os cientistas pudessem inferir que a energia cinética dos fotoelétrons era linearmente dependente da frequência da radiação eletromagnética incidente (KRAGH, 1992). A partir de sua equação fotoelétrica, Einstein afirmou:
'[...] se a minha fórmula derivada estiver correta, então o potencial de corte, quando plotado em coordenadas cartesianas como função da frequência da luz incidente, deverá ser uma linha reta cuja inclinação é independente da natureza das substâncias em estudo' (EINSTEIN, 1905, p. 19, tradução nossa).
Ela permitia uma explicação alternativa e audaciosa para os resultados contraditórios publicados anteriormente por Philipp Lenard com o elevado custo de rejeitar fundamentos da teoria eletromagnética clássica. Nas palavras de Einstein, os processos de produção e transformação de luz poderiam ser mais facilmente compreendidos da seguinte forma:
- [...] A energia ' quanta ' penetra na camada de superfície do corpo e é transferida, pelo menos em parte, para energia cinética dos elétrons. A concepção mais simples é que um Quantum de luz transfere toda a sua energia a um único elétron; assumiremos que isso acontece. [...] Um elétron com energia cinética no interior do corpo perderá parte de sua energia cinética até que atinja a superfície. Os elétrons emitidos com maiores velocidades [ Ecmáx ] serão aqueles localizados próximos a superfície e ejetados perpendicularmente a ela (EINSTEIN, 1905, p. 18, tradução nossa).
De forma totalmente oposta à interpretação de Lenard, Einstein estava convencido de que havia um mecanismo instantâneo de transferência de energia na interação entre radiação e matéria. Além disso, sobre as evidências experimentais relatadas por Lenard em 1902, ele afirmou:
[...] essa descrição do efeito fotoelétrico não contradiz nenhuma das propriedades encontradas pelo Sr. Lenard. Se a energia de cada ' Quantum de luz' é transferida para a energia cinética de um elétron, independentemente dos outros, então a distribuição de velocidade dos elétrons, isto é, a natureza dos raios catódicos produzidos, será independente da intensidade de luz incidente, por outro lado, sob circunstância idênticas, o número de elétrons que deixa o objeto será proporcional a intensidade de luz incidente (EINSTEIN, 1905, p. 19, tradução nossa).
Foi somente a partir de 1907 que investigações acerca das predições da equação fotoelétrica de Einstein, buscando ao mesmo tempo acumular evidências de apoio à 'hipótese de gatilho' de Lenard, ganharam a atenção de muitos grupos de cientistas ao redor do mundo. Entre eles, o grupo liderado pelo físico norte-americano Robert Andrews Millikan (1868 - 1953), daí sua famosa citação de 1916: '[...] ousada, para não dizer imprudente, a hipótese de um corpúsculo de luz eletromagnética de energia h.f, [...] porque ela contraria completamente os fatos estabelecidos de interferência' (MILLIKAN, 1916, p. 355, tradução nossa).
Após quase dez anos de pesquisas sobre energias de emissão no Laboratório de Física de Ryerson, na Universidade de Chicago / EUA, Millikan e seus colaboradores, contrariamente às suas expectativas iniciais, obtiveram evidências muito confiáveis de que as predições da equação fotoelétrica de Einstein se confirmavam. Também determinaram um valor experimental muito próximo ao valor teórico para a constante de Planck (erro de 0,5%) (KLASSEN, 2011). O Prêmio Nobel de Física de 1921 foi concedido a Albert Einstein por seus serviços à Física Teórica, e especialmente por sua lei (equação) do efeito fotoelétrico.
## 4. Análise e Discussão
Embora alguns livros didáticos transmitam a concepção de que a explicação de Einstein para o efeito fotoelétrico fosse a única possível e que teria sido rapidamente aceita pelos demais cientistas, sendo o argumento decisivo para a adoção da teoria quântica da luz, essa concepção está bastante equivocada (NIAZ et al. 2010). Segundo Wheaton (1978), Kragh (1992) e Klassen et al. (2011), o efeito fotoelétrico teve um papel apenas periférico durante a gradual aceitação da teoria quântica, entre os anos de 1900 a 1916. Os autores afirmam que a 'hipótese de Quantum de luz' de Einstein não foi considerada, naquele intervalo de tempo, como uma alternativa 'levada a sério' pela maioria dos físicos do período.
De acordo com Kragh (1992), a razão principal para a rejeição não era o incipiente status acadêmico de Einstein, ou que outros físicos conservadores estivessem muito fortemente apegados a uma velha visão de mundo (embora alguns estivessem). Os cientistas, incluindo o próprio Einstein, percebeu que o preço a se pagar pela adoção da teoria quântica da luz era demasiadamente alto: o abandono completo da teoria eletromagnética clássica da luz, uma das mais impressionantes e exaustivamente confirmadas teorias da Física até então.
A partir desse recorte histórico, envolvendo a disputa entre duas hipóteses científicas, pode-se refletir tanto no que se refere à prática individual do cientista frente a um problema do seu objeto de pesquisa quanto aos elementos sociais que o cerca. Percebe-se, do ponto de vista da teoria fleckiana, que Lenard e Einstein não
compartilhavam do mesmo estilo de pensamento. Enquanto o primeiro teve toda a sua formação acadêmica no contexto de êxito da teoria eletromagnética clássica de Maxwell, o segundo estava imerso em um ambiente no qual o reconhecimento de anomalias, inconsistências e contradições propiciavam um terreno fértil para novas ideias. Para Fleck, caracteriza-se como um momento de reorganização da prática científica, resultando em um novo estilo de pensamento: a teoria quântica.
Essa diferença nos estilos de pensamento torna-se mais nítida a partir do fato de que aquilo que não concordava com a teoria de Maxwell do eletromagnetismo (no caso, uma possível relação entre a frequência de luz incidente e a energia cinética dos fotoelétrons) pareceu inobservável, ou merecedor de atenção pelos cientistas que pertenciam ao estilo de pensamento da teoria eletromagnética clássica.
Para Fleck, mesmo que não seja explícita, por não ser espontaneamente constituída, as protoideias que fazem parte do novo estilo de pensamento são algumas ideias do estilo de pensamento dominante. Nesse sentido, é evidente que a hipótese de quantum de luz de Einstein só pôde ser elaborada porque havia um estilo de pensamento vigente que investigava a interação entre a luz e a matéria. No caso específico da teoria quântica, algumas das Protoideias, como a estrutura interna do átomo , a quantização e a conservação da energia contribuíram para a construção do conceito de quantum de luz.
## 5. Considerações Finais
Este trabalho analisou, com base na epistemologia fleckiana, o episódio referente a controvérsia científica entre a 'Hipótese de gatilho' e a 'Hipótese de Quantum de Luz' na primeira década do século XX. Em especial, a partir dos conceitos fleckianos de estilos de pensamentos e protoideias, buscou-se evidenciar alguns elementos sociais que contribuíram tanto para o surgimento de novas ideias (o quantum de luz) quanto para a ampla rejeição dos físicos, pelo menos até o ano de 1913, de uma teoria quântica da luz.
Como apresentado em nossa discussão, esses conceitos fleckianos ajudam a compreender como elementos sociais influenciam o desenvolvimento de um fato científico. Ainda no contexto desse episódio da História da Física, outras potencialidades da teoria fleckiana podem ser exploradas em trabalhos futuros, tais como uma análise da composição do coletivo de pensamento ao qual Lenard e Einstein pertenciam, e as concepções e valores da produção científica privilegiados em cada estilo de pensamento.
## Referências
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