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UM ENSAIO AXIOLÓGICO DE PESQUISAS QUALITATIVAS NO ENSINO DE FÍSICA

Rodrigo Guimarães Soares, Marinês Domingues Cordeiro

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIX
Ano
2022
Data
17/08/2022
Linha de pesquisa
03 - Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## UM ENSAIO AXIOLÓGICO DE PESQUISAS QUALITATIVAS NO ENSINO DE FÍSICA

## AN AXIOLOGICAL ESSAY OF QUALITATIVE RESEARCH IN PHYSICS TEACHING

## Rodrigo Guimarães Soares 1 Marinês Domingues Cordeiro 2

1 Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós Graduação em Educação Científica e Tecnológica, rodrigosoares.rgs@gmail.com

2 Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de Física, marines.cordeiro@ufsc.br

## Resumo

Este trabalho faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo, o qual tem como objetivo traçar o perfil axiológico da área de pesquisa em Ensino de Física no Brasil, focando nos artigos publicados entre 2000 e 2020 em periódicos classificados como A1 e A2 pela QualisCapes, para o quadriênio de 2013-2016. Foram selecionados especificamente os artigos com abordagem qualitativa relacionados ao Ensino de Física ou de Astronomia. Aqui, são apresentados os primeiros resultados quantitativos relacionados a esta ampla revisão sistemática, além dos resultados de um Estudo de Caso que teve como foco três artigos deste amplo universo amostral. O objetivo, portanto, é demonstrar os primeiros dados quantitativos, mais gerais, que demonstram a representatividade de trabalhos de cunho qualitativo para a área e, ao mesmo tempo, ensaiar uma primeira análise qualitativa mais profunda que intenta identificar valores cognitivos associados a este tipo de pesquisa através de um Estudo de Caso documental. Para tanto, foi utilizado como instrumento heurístico a epistemologia social de Helen Longino (1990). Foram identificados uma apreciação a valores como consistência interna e ineditismo em detrimento de valores como adequação empírica e a fidedignidade.

Palavras-chave : Pesquisas qualitativas; epistemologia; valores; revisão sistemática.

## Abstract

This work is part of a broader research project, which aims to trace the axiological profile of the research area in Physics Teaching in Brazil, focusing on articles published between 2000 and 2020 in journals classified as A1 and A2 by QualisCapes, for the 2013-2016 quadrennium. Articles with a qualitative approach related to Physics or Astronomy Teaching were specifically selected. Here, the first quantitative results related to this broad systematic review are presented, in addition to the results of a Case Study that focused on three articles from this large sample universe. The purpose, therefore, is to demonstrate the first, more general, quantitative data that demonstrate the representativeness of qualitative research in the area and, at the same time, to carry out a first deeper qualitative analysis that attempts to identify cognitive values associated with this type of research through a documental Case Study. For that, the social epistemology of Helen Longino (1990)

was used as a heuristic instrument. An appreciation of values such as internal consistency and originality was identified to the detriment of values such as empirical adequacy and reliability .

Keywords : Qualitative research; epistemology; values; systematic review.

## Introdução

A pesquisa em Ensino de Física no Brasil remonta ao primeiro SNEF nos anos de 1970, naturalmente denotado como marco inicial da área de pesquisa. Moreira (2004) já havia identificado algumas 'mudanças paradigmáticas' na área: o foco inicial nos estudos sobre concepções alternativas, durante os anos de 1970, passando pelos de mudança conceitual nos anos de 1980 e representações mentais nos anos de 1990. Moreira também sugere, ainda no início deste século, fazendo referência aos anos de 1990, o direcionamento da área para a formação de professores e pesquisas de cunho micro-etnográficos. Santos e Greca (2013), em uma revisão sistemática de três dos principais periódicos 1 da área identificaram, na primeira década deste século que, aproximadamente, dos 480 artigos analisados, 80,6% são empíricos, na classificação das autoras, e, destes, 71,1% são pesquisas que se enquadram no espectro das pesquisas qualitativas. As autoras ainda apontam que os resultados da sua revisão sugerem que a área como um todo parece estar mais preocupada com a descrição e explicação de fenômenos educacionais do que o 'teste' e comparação de métodos e eficácia dos mesmos.

Como pano de fundo da nossa pesquisa se encontra a filosofia da ciência como conhecimento social de Helen Longino (1990). A filósofa entende o conhecimento científico como construção inerentemente social, isto é, compreende que o âmbito social não é apenas característico das relações entre os cientistas e a sociedade, mas desempenha um papel fundamental para sua objetividade. Para ela, o trabalho dos cientistas está inevitavelmente sujeito às suas preferências subjetivas e os seus valores permeiam todo o empreendimento científico. Portanto, é na crítica entre os pares, é em comunidade que reside o mecanismo que salvaguarda a objetividade do conhecimento científico. O aspecto social da ciência não implica, para a filósofa, necessariamente em irracionalidade e é justamente a característica que possibilita alguma chance de objetividade - não apesar, mas por causa dele. Para tanto, a filósofa defende a existência de algumas condições para que a crítica intersubjetiva, alguns deles são: a pluralidade da comunidade e a igualdade de autoridade intelectual entre os pares, além da existência de amplos canais de comunicação para que esses valores possam ser negociados. Assim, acreditamos que um entendimento profundo quanto aos valores associados a uma área de pesquisa pode revelar muitos aspectos interessantes como, por exemplo, o contraste entre os valores e objetivos com os resultados obtidos, além da avaliação da maturidade da área. Longino elabora sua epistemologia social com as ciências ditas duras como foco. Contudo, sendo a área de ensino ela mesma uma ciência, as características para a produção de conhecimento se mantém as mesmas. Isto é, existem valores que são esperados e salutares para quaisquer atividade científica. É claro, no entanto, que os valores associados a essas práticas científicas não são sempre os mesmos. A localidade , por exemplo, é um valor especialmente importante para a

pesquisa em ensino de ciências, uma vez que muitas abordagens voltam-se para contextos bem determinados.

Isto posto, ainda cabe uma ressalva quanto à natureza dos valores relacionados à prática científica, uma vez que são o foco desta pesquisa. Historicamente, na filosofia da ciência, muitos autores construíram robustos arcabouços teóricos com o objetivo de identificar os valores ligados à construção do conhecimento científico. Neste momento, daremos enfoque nos valores cognitivos vinculados aos pesquisadores da área de pesquisa em Ensino de Física. Com a leitura de artigos na íntegra, procuramos identificar atitudes metodológicas tomadas pelos autores em favor de algum valor epistêmico, tais como: consistência interna, adequação empírica, fidedignidade, validade, alcance, reprodutibilidade, coerência, entre outros . Contudo, valores são naturalmente abstratos, tácitos e se associam diferentemente de acordo com cada cientista ou comunidade científica.

Assim, entendemos que, na tentativa de identificar valores, entramos em um terreno complicado. Como argumenta Kuhn, parece não existir inequívocos cânones na ciência científica, mas 'os cânones compartilhados teriam de ser elaborados de modo que variem de um indivíduo a outro' (pg. 244, KUHN, 2009). Naturalmente, quando valores são escrutinados pela crítica intersubjetiva, na avaliação de determinado trabalho, os interlocutores negociam seus significados e até que ponto consideram uma investigação coerente, consistente, precisa, etc. O objetivo dessa pesquisa como um todo é avaliar, portanto, quais são os valores que medeiam a prática científica na área de pesquisa em Ensino de Física, tendo como pano de fundo a importância da crítica intersubjetiva de Longino, que é o mecanismo pelo qual tais valores são negociados em comunidade. Dessa maneira, nosso projeto parte das expectativas e dados mostrados por Moreira (2004) e Santos e Greca (2013) e tem como objetivo traçar o perfil axiológico da área de pesquisa em Ensino de Física, sendo o foco inicial as pesquisas qualitativas de campo feitas com pessoas em contextos brasileiros, justamente por ser uma abordagem de ampla utilização e de importância marcante para a área. Neste trabalho são apresentados os primeiros resultados quantitativos referentes a um levantamento geral de artigos, bem como os resultados de um Estudo de Caso que ensaia a análise axiológica que, mais tarde, será empreendida em todo o universo amostral.

## Uma revisão sistemática: metodologia e primeiros dados quantitativos

Aspirando traçar o perfil axiológico da área de pesquisa em Ensino de Física, o projeto de pesquisa parte de uma revisão sistemática. Com o objetivo de identificar os valores cognitivos associados, além de analisar os procedimentos metodológicos empreendidos na área, foram coletados todos os artigos científicos relacionados ao ensino de Física e de Astronomia publicados em periódicos classificados como A1 e A2 na área de Ensino pela QualisCapes para o quadriênio de 2013-2016. Esses artigos foram retirados dos portais virtuais de cada um desses periódicos e o recorte temporal do grupo amostral selecionado identificou apenas os que foram publicados entre 2000 e 2020.

Em um primeiro momento, levando em conta os dados obtidos por Santos e Greca (2013), juntamente com as expectativas de Moreira (2004), o foco da pesquisa foram as publicações de pesquisas qualitativas. Visando a tradução de pesquisas dessa natureza em termos de valores cognitivos foi realizado um trabalho de cunho teórico publicado no último EPEF (CORDEIRO, SOARES, 2020). Dessa

forma, das mais de 90 revistas do universo amostral, 45 continham artigos deste tipo nesta primeira seleção de artigos. Ao todo, dos portais de cada um desses periódicos, retornaram mais de 4 mil 2 artigos e, após este primeiro critério de seleção, foram identificados 869 publicações. Esta primeira triagem se caracterizou pela leitura dos resumos e, quando necessária, uma leitura dos artigos por completo para a identificação de artigos que fossem de natureza interpretativa e relacionados ao ensino de Física ou de Astronomia.

Na segunda triagem da pesquisa, foram procuradas as descrições metodológicas destes artigos em uma leitura mais minuciosa. Aqui, cabem algumas considerações a respeito dessa segunda seleção. Primeiramente, identificamos se e como os autores de cada uma dessas pesquisas se classificam quanto ao tipo de metodologia empreendida. Foram consideradas apenas as auto-intituladas pesquisas. Os elementos de campo, ou a natureza qualitativa ou quali-quantitativa foram identificados por nós quando não explicitados pelos autores dos respectivos artigos. Há quantidade considerável de pesquisas cujo elemento investigativo encontra-se no desenvolvimento de materiais, ou engenharia didática, fazendo da parte de campo não uma investigação, mas um relato de experiência: esses trabalhos não foram considerados neste momento. Pesquisas quali-quantitativas em que a parte qualitativa foi elaborada a partir de documentos ou apenas a realidade, ignorando as interações aluno-aluno e professor(pesquisador)-aluno foram excluídas. Pesquisas quali-quantitativas em que a parte qualitativa envolve a interação entre pesquisadores e pessoas investigadas foram mantidas. Naqueles trabalhos em que há a apresentação de um desenvolvimento instrucional seguido de uma parte de campo, só foram considerados os artigos que nomearam a etapa de campo como pesquisa. Trabalhos de campo cujos resultados são dados apenas de maneira quantitativa (análise estatística ou numérica de resultados de pré e pós testes) foram excluídas. Artigos que fazem parte de uma pesquisa maior, mas cuja etapa de campo qualitativa não era definida como pesquisa também fugiram do escopo desta análise. Dessa maneira, uma parcela dos artigos que se mantiveram no escopo desta pesquisa se classificaram quanto a suas próprias naturezas metodológicas, identificando-se como pesquisa interpretativa ou qualitativa. Enquanto que outra parcela de artigos que se mantiveram no escopo desta pesquisa, se classificaram explicitamente como pesquisa, mas, quanto a metodologia empreendida foram classificados por nós como pesquisa qualitativa, apesar de não terem se auto-classificado.

Na tabela 1 se concentram os números associados às pesquisas que passaram pela segunda triagem. Os dados foram separados entre as classificações A1 e A2 dos periódicos. Devido ao elevado número de publicações, também consideramos importante o destaque ao Caderno Brasileiro de Ensino de Física CBEF (A2) e a Revista Brasileira de Ensino de Física - RBEF (A1). Nas colunas A2 e A1 aparecem os números das demais revistas de cada classificação. Também explicitamos a proporção de artigos que reivindicam alguma metodologia de pesquisa interpretativa e os que foram classificados pelos autores deste trabalho. Os cálculos proporcionais de porcentagem das duas últimas linhas foram feitos com relação ao número de artigos na segunda triagem.

Tabela 1: levantamento quantitativo de pesquisas qualitativas de campo com pessoas

XIX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2022

Fonte: autores.

Assim, é relevante notar que, no total, 25,32% dos artigos da primeira triagem não passaram por este segundo filtro da pesquisa. De um total de 220 destes artigos que saíram do escopo, 109 eram pesquisas interpretativas, mas não eram de campo ou não lidavam com pessoas, enquanto 111 foram classificados como relatos de experiência. Para análises futuras, ficam questões como: o que isto tem a dizer sobre o rigor metodológico empreendido por nossa área de pesquisa? Como isso se relaciona com a negociação dos valores entre os cientistas? Neste primeiro momento, acreditamos que estes dados quantitativos já possuem importância e relevância para o entendimento do panorama geral e como as pesquisas interpretativas são, de fato, significativas para a área de pesquisa. Em uma primeira tentativa de aprofundar esses dados, foi empreendido um estudo de caso com o intuito de identificar valores cognitivos associados a alguns desses artigos. Contudo, para uma resposta mais geral e precisa para tais perguntas, tal análise axiológica será expandida para o restante do universo amostral.

## Estudos de Caso documentais: um ensaio axiológico

Tendo em vista que o objetivo do projeto de pesquisa do qual este trabalho faz parte é traçar o perfil axiológico da área de pesquisa em ensino de física no Brasil foi realizado um estudo de caso documental 3 justamente com o propósito de ensaiar e obter os primeiros indícios provenientes do uso do instrumento epistemológico pretendido. Para essa análise o arcabouço teórico construído por Longino (1990) foi mais do que um referencial teórico, mas uma ferramenta epistemológica, um instrumento heurístico que foi utilizado como base para a identificação de possíveis valores cognitivos e para a avaliação de atitudes metodológicas que possibilitem a crítica intersubjetiva sugeridos nos artigos através das nossas interpretações de texto. Cada artigo selecionado foi cuidadosamente estudado, na íntegra, com o objetivo de avaliar as metodologias empreendidas, a coerência entre as hipóteses e inferências construídas em relação aos métodos de geração de evidências, procurando identificar possíveis valores cognitivos apreciados pelos pesquisadores, além da avaliação de técnicas metodológicas.

Partimos da hipótese inicial de que valores como o ineditismo e a c oerência interna possivelmente sejam valores cognitivos especialmente importantes e recorrentemente presentes na área de pesquisa, enquanto valores como adequação empírica e escopo poderiam ser menos proeminentes. Assim sendo, foram efetivados três estudos de caso documentais sobre três artigos da amostra do projeto selecionados aleatoriamente. O primeiro artigo foi publicado em 2004 e é um tipo de artigo de notável importância e recorrência na área: trata-se de um artigo de engenharia didática (SAMAGAIA; PEDUZZI, 2004). Os autores implementaram, demonstraram e avaliaram um módulo didático para o ensino fundamental, voltada para a formação cidadã. Ancorados na Aprendizagem Centrada em Eventos (ACE) e na Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), engendraram uma proposta interdisciplinar, baseada no episódio histórico do Projeto Manhattan. O segundo artigo foco dos estudos de caso foi publicado em 2013 trabalha Motivação e Afetividade de estudantes da graduação para se tornarem professores de física (CUSTÓDIO; PIETROCOLA; SOUZA CRUZ, 2013). Este artigo é representativo de uma das subdivisões da área de pesquisa, visto que o Ensino de Física, além da própria Física e da Educação, também engloba trabalhos que se ancoram em campos como a Psicologia. O objetivo deste artigo foi analisar a influência das dimensões afetivas sobre a escolha pela docência em Física. O terceiro artigo, por sua vez, foi publicado em 2019 (CLEBSCH; ALVES FILHO, 2019) e aborda a Formação de Professores, tendo como fundação teórica a Teoria Aprendizagem Significativa (TAS) e o Conhecimento Pedagógico de Conteúdo (PCK). O trabalho teve como objetivo a procura por ocorrências de relações entre os conhecimentos teórico-pedagógicos na construção de saberes de licenciandos nas disciplinas pedagógicas de Física.

Foram identificadas algumas preocupações metodológicas: sadios cuidados quanto à fidedignidade dos dados e das evidências construídas através de algumas triangulações de dados, mesmo que tímidas, combinando questionários, entrevistas e análises documentais, ou mesmo a utilização de fases piloto em entrevistas. Também foi evidente a apreciação de trabalhos originais - o ineditismo dos autores - empreendendo novas técnicas e atividades ao ensinar conteúdos específicos, ou no uso de instrumentos de coleta de dados diferentes do que normalmente se atribui nas suas áreas temáticas. Contudo, também foram encontrados alguns aspectos metodológicos que podem criar empecilhos para o suporte dos dados construídos às hipóteses defendidas.

Para citar alguns exemplos, no segundo artigo os autores justificam a utilização de questionários abertos em detrimento de questionários do tipo escala Likert, tradicionalmente utilizada na área dos autores, visando um maior aprofundamento e mostrando coerência com o objetivo de identificar emoções associadas à docência. Essa escolha demonstra a valorização tanto da coerência , quanto do ineditismo. Contudo, a fidedignidade dos dados pode ter sido limitada por não ter sido empreendida nenhuma triangulação de dados e também uma certa flexibilização quanto à descrição do contexto da pesquisa. Ainda é possível notar preocupações metodológicas no caso do primeiro artigo, quando os autores demonstram a compreensão quanto à limitação da escolha metodológica da pesquisa ao escolher a pesquisadora também como professora da aplicação. Os autores citam alguns problemas e limitações devido a essa escolha, mas a justificam considerando que buscavam eliminar a possibilidade de ineficiência da proposta devido ao alto nível de conhecimento histórico exigido do professor pela aplicação,

mesmo reconhecendo que essa especialização limitaria a reprodutibilidade da proposta. Também fica evidente, neste caso, a originalidade da proposta e a coerência com os construtos teóricos utilizados, além desta importante e salutar percepção quanto às limitações das suas escolhas metodológicas. No terceiro artigo, os autores preocupam-se em mostrar convergências e divergências entre a TAS e o PCK e algumas variações entre concepções de diferentes autores com relação a esses construtos teóricos.

Ainda foram identificados alguns empecilhos metodológicos que limitam tanto a fidedignidade quanto a validade de algumas conclusões construídas nos trabalhos. A falta de pormenorização de alguns trechos importantes do trabalho, como a minuciosa descrição dos contextos de pesquisa (como demandaria a pesquisa qualitativa), a tímida triangulação analítica (realizada por apenas um dos artigos) e um maior detalhamento necessário ao tratar dados contrários às expectativas iniciais dos pesquisadores, pode restringir algumas das conclusões trazidas. Também foram identificados outros valores cognitivos associados aos trabalhos. Ainda no caso do terceiro artigo, por exemplo, a identificação do alcance da TAS e do PCK, identificando possíveis inclinações teóricas dos licenciandos e, consequentemente, demonstrando também certa fertilidade por levantar questões para futuras pesquisas que poderiam embasar alterações curriculares nos cursos de licenciatura em física. Portanto, de modo geral, os três artigos mostraram-se muito compromissados com a coerência interna e o ineditismo , evidenciando e justificando suas escolhas com relação aos referenciais teóricos, tanto a nível metodológico de pesquisa, quanto de ensino

## Considerações finais

A fim de conclusão, é importante destacar algumas problematizações quanto à apreciação de valores como a coerência interna e o ineditismo , também podendo destacar a consistência, predominantemente associados nos três casos aqui analisados: por mais que sejam valores saudáveis e esperados em qualquer pesquisa acadêmica, não se faz uma área científica apenas com trabalhos originais, individuais e internamente consistentes. Nesse sentido, caberia à comunidade de pesquisa reproduzir os dados obtidos; testar as conclusões construídas dentro outros contextos, interpretações e métodos analíticos. Também é à comunidade que cabe o papel de identificar possíveis falhas metodológicas e preencher essas lacunas e assim promover a crítica intersubjetiva. Aqui, também seria possível aprofundar a discussão com relação à valorização exacerbada à coerência para além do âmbito coletivo da ciência. Mesmo com uma filosofia bem distinta da visão sociológica de Longino 4 , Feyerabend (2011) critica o que chama de 'condição de consistência', argumentando que a simples corroboração de teorias através da expansão da obtenção de dados, exigindo que hipóteses novas estejam de acordo com as teorias já aceitas, apenas preservam a teoria mais antiga e não necessariamente a melhor. Para ele, a crítica e a existência de metodologias pluralistas são condições mais interessantes para o progresso científico por terem o

potencial de promover o contraste entre teorias, métodos e fatos. Novamente, não se trata de afirmar que não seja importante que um trabalho seja coerente e consistente , mas apontar para a necessidade e importância de comparações, ou ainda, da crítica intersubjetiva.

Retornando ao que apontaram Santos e Greca (2013), parece que há em nossa área de pesquisa uma predominância de pesquisas descritivas e explicativas em detrimento de pesquisas que façam testes e verificações. É justamente nessa direção que caminha o pensamento de Longino: para que as pesquisas não se encerrem em si mesmas, é preciso que a comunidade como um todo critique e avalie a pesquisa sob diferentes perspectivas, interpretações e valores. Não há como minimizar as preferências subjetivas dos pesquisadores sobre o conhecimento acadêmico sem a dimensão coletiva da ciência. O conhecimento é inevitavelmente sujeito aos valores associados aos pesquisadores, não apenas os cognitivos, e é com uma comunidade diversificada e interessada em reproduzir e criticar interpretações individuais que o conhecimento se aproxima da solidez e da objetividade característica da ciência.

Dito isso, acreditamos que, ao menos neste primeiro ensaio da pesquisa, nos aproximamos de um entendimento melhor das nossas hipóteses iniciais (predominância de valores como o ineditismo e coerência interna ). Algumas características específicas da área de ensino, como a interdisciplinaridade e a diversidade de áreas temáticas, começam a ficar mais evidentes e aprofundam o entendimento sobre a área. Nas fases seguintes do projeto, serão analisados os artigos restantes da amostra, procurando averiguar se esses comportamentos epistemológicos estão de fato presentes na área de maneira geral. Dessa forma, nestes futuros trabalhos, que evidenciam a fertilidade e o potencial que análises axiológicas como esta possuem, serão trabalhados com maior profundidade os dados quantitativos e ampliada a análise axiológica..

## Referências

CLEBSCH, A. B.; ALVES FILHO, J. P. Aprendizagem Significativa e construção de saberes docentes na licenciatura em Física. Revista Dynamis, v. 25, n. 3, p. 165, 2019.

CUSTÓDIO, J. F.; PIETROCOLA, M.; SOUZA CRUZ, F. F. Experiências emocionais de estudantes de graduação como motivação para se tornarem professores de física. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v. 30, n. 1, p. 25, 2013.

FEYERABEND, P. Contra o método . 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

KUHN, T. S. A Tensão Essencial . São Paulo: Editora Unesp, 2009.

LONGINO, H. E. Science as social knowledge : values and objectivity in scientific

inquiry. Princeton: Princeton University Press, 1990.

MOREIRA, M. A. Pesquisa em educação em ciências: uma visão pessoal. Revista

Chilena de Educación Científica , v. 3, n. 1, p. 10, 2004.

SAMAGAIA, R.; PEDUZZI, L. O. Q. Uma experiência com o projeto Manhattan no ensino fundamental. Ciência & Educação , v. 10, n. 2, p. 259, 2004.

CORDEIRO, M. D; SOARES, R. G. Um significado epistemológico para as pesquisas interpretativas de campo e seu papel nas investigações em Ensino de

Física. In: XVIII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 2020, Florianópolis. Anais do XVIII encontro de pesquisa em ensino de física : a pesquisa em ensino de física e as tensões político-democráticas da atualidade : para onde vamos?. São Paulo: Sociedade Brasileira de Física, 2020. v. 1. p. 1666-1673.

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