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OS PASSAGEIROS DA NOITE E SUAS EXPERIÊNCIAS COM A FÍSICA: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO NA LICENCIATURA EM FÍSICA

Willdson Robson Silva Do Nascimento, Fernando Moucherek, Edvan Moreira, Liana De Oliveira Araújo

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIX
Ano
2022
Data
19/08/2022
Linha de pesquisa
02 - Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## OS PASSAGEIROS DA NOITE E SUAS EXPERIÊNCIAS COM A FÍSICA: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO NO CURSO DE FÍSICA LICENCIATURA

## THE PASSENGERS OF THE NIGHT AND THEIR EXPERIENCES WITH PHYSICS: A POSSIBLE RELATIONSHIP IN THE SUPERVISED INTERNSHIP IN THE LICENSE PHYSICS COURSE.

Willdson Robson Silva do Nascimento 1 , Fernando Moucherek 2 , 3 Edvan Moreira, Liana de Oliveira Araújo 4

1 Universidade Estadual do Maranhão/Departamento de Física, willdsonnascimento@professor.uema.br

2 Universidade Estadual do Maranhão/Departamento de Física, fernando@fisica.uema.br 3 Universidade Estadual do Maranhão /Departamento de Física, edvan.moreira@física.uema.br 4 Universidade Estadual do Maranhão/ Licencianda em física, lianaaraujo@aluno.uema.br

## Resumo

A pesquisa relatada tem como objetivo compreender as relações construídas com o saber entre uma discente do estágio supervisionado do curso de Física Licenciatura, da Universidade Estadual do Maranhão e estudantes de Ensino Médio vinculados à Educação de Jovens e Adultos (EJA), ambos considerados passageiros da noite, para a garantia dos direitos educacionais. Desta forma, se pergunta: que relações são construídas entre uma discente do estágio supervisionado do curso de física licenciatura e estudantes de ensino médio vinculados à Educação de Jovens e Adultos (EJA), ambos considerados passageiros da noite no tempo e espaço investigado? A pesquisa se caracteriza como qualitativa do tipo estudo exploratório- descritivo. Tem como instrumento de constituição de dados a entrevista semiestruturada e o balanço do saber. A organização e análise dos dados fundamenta-se na análise de conteúdo. O suporte teórico interpretativo utilizado foi a Relação com o Saber de Bernard Charlot e a obra Passageiros da Noite de Miguel Arroyo. Nesse contexto, as relações construídas pela discente licencianda em física, estagiária e também trabalhadora, no ambiente de estágio, podem ser percebidas por meio da dimensão epistêmica, social, identitária e o estágio, como um lugar- saber.

Palavras-chave : Estágio Supervisionado; EJA; Ensino de Física; Relação com o saber.

## Abstract

The research reported aims to understand the relationships in relaton to knowledge between a student of the supervised internship of the degree in physics at the State University of Maranhão and high school students who attend the Youth and Adult Education (EJA), both considered night passengers who are granted educational rights. In this way, the question is: what relationships are built between a student of the supervised internship of the degree in physics and high school students who attend the Youth and Adult Education (EJA), both considered passengers of the night

in the time and space investigated? The research is characterized as a qualitative exploratory-descriptive study. Its data constitution instrument is the semi-structured interview and the balance of knowledge. The organization and analysis of data is based on content analysis. The interpretative theoretical support used was the Relation with Knowledge by Bernard Charlot and the text Passageiros da Noite by Miguel Arroyo. In this context, the relationships built by the undergraduate student in physics, an intern and also a worker, in the internship environment, can be perceived through the epistemic, social, identity dimension and the internship, as a place of knowledge.

Keywords : Supervised Internship; EJA; Teaching Physics; Relationship with knowledge.

## Introdução

A origem desta pesquisa tem início na disciplina de Estágio Supervisionado Obrigatório no Ensino Médio (2021 .2 - T01), ofertada no segundo semestre de 2021 pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA/São Luís) aos alunos e alunas do Curso de Física Licenciatura. Nessa componente, a proposta metodológica está voltada para possibilitar a prática docente em situações reais de sala de aula, bem como a reflexão sobre as ações desenvolvidas nesse espaço. Na ocasião, uma discente escolheu realizar o seu estágio na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Após a demonstração de interesse, foi solicitado a estudante que selecionasse uma escola pública de Ensino Médio na cidade de São Luís/MA, bem como que ela organizasse os documentos necessários para que pudessem adentrar na escola e realizar todo o processo pedagógico, como orienta o Projeto 1 Pedagógico do Curso de Física. Assim, a estudante escolheu uma escola pública no turno da noite próxima a sua casa, pois ela possui um vínculo empregatício diurnamente (matutino e vespertino).

Nesse sentido, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) reconhece a EJA como uma modalidade educacional, trazendo no seu art. 37 a seguinte explanação: 'destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria'. Destaca-se que a EJA está voltada e busca atender, necessidades educativas de sujeitos com características sociais, econômicas e culturais específicas, ou seja, com um perfil diferente da educação que atende outros turnos (BRASIL, 1996).

Os cursos em tempo parcial noturno, na sua maioria, são de Educação de Jovens e Adultos (EJA) destinados, principalmente, a estudantes trabalhadores e trabalhadoras, com maior maturidade e experiência de vida, consequentemente, devem ter assegurados o direito à educação, resguardando o valor científico, auxiliando no processo de alfabetização cientifica desses sujeitos, bem como proporcionando a todos e todas uma educação como prática da liberdade, no sentido de que eles e elas possam refletir sobre os saberes-físicos.

Nesse contexto, a pesquisa tem como objetivo compreender as relações construídas com o saber entre uma discente do estágio supervisionado do curso de Física Licenciatura, da Universidade Estadual do Maranhão, e estudantes de Ensino Médio vinculados à Educação de Jovens e Adultos (EJA), ambos considerados passageiros da noite, para a garantia dos direitos educacionais. Desta forma, se

pergunta: que relações são construídas entre uma discente do estágio supervisionado do curso de licenciatura em física e estudantes de Ensino Médio vinculados à Educação de Jovens e Adultos (EJA), ambos considerados passageiros da noite no tempo e espaço investigado?

A investigação se caracteriza como qualitativa do tipo estudo exploratóriodescritivo. Tem como instrumento de constituição de dados a entrevista semiestruturada e o balanço do saber. A organização e análise dos dados fundamenta-se na análise de conteúdo.

## Os passageiros da noite e suas posições sociais subjetivas: o que fazer com o que a sociedade fez comigo?

A expressão 'passageiros da noite' foi cunhada por Miguel González Arroyo em sua obra 'Passageiros da noite do trabalho para a EJA: itinerários pelo direito a uma vida justa'. A obra traz o processo de reinventar as identidades dos 'sujeitosjovens-adultos trabalhadores pelos significados de seus itinerários desde criançasadolescentes da sobrevivência, do trabalho para as escolas, para EJA, à procura do seu direito a uma vida justa' (ARROYO, 2017, p. 7). Destaca-se que EJA para o autor tem um significado amplo, remetendo a ideia das relações que pessoas jovens e adultas constroem consigo mesmo, com o outro e com o mundo, por meio das diversidades de tempo-espaço de formação que acontecem em distintos espaços, como nas escolas, comunidades, igrejas, movimentos sociais, no Mova-Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos.

Considera-se 'passageiros da noite' milhões de trabalhadores e trabalhadoras jovens e adultos que lutam pelo direito à educação, que depois de horas e horas de trabalho, antes de chegarem a suas casas para descansar, apostam na escola como um lugar de uma educação como prática da liberdade (ARROYO, 2017).

Para Arroyo (2017) o problema da humanização radicaliza a pedagogia e à docência, e os cursos de formação inicial e continuada devem exigir o entender das tensões históricas que marcam a sociedade e que desumanizam sujeitos históricoculturais, como por exemplo, interrogando-nos: por que jovens-adultos e dos adolescentes-crianças oprimidos vêm interrogações com tanta radicalidade política ao pensamento pedagógico e à docência? Arroyo (2017) responde: Porque seus grupos sociais, étnicos, raciais são a síntese da história de segregações que acompanha nosso padrão de poder-segregação. (ARROYO, 2017, p. 9).

A lógica do sistema da educação neoliberal é não reconhecer a história, o pensamento social, político, cultural e pedagógico dos grupos étnicos, sociais, raciais como humanos, humanizáveis, educáveis (ARROYO, 2017).

Nesse sentido, Charlot (2020) nos faz o seguinte convite: Educação ou Barbárie? hoje é preciso escolher. A barbárie desumaniza (CHARLOT, 2020) os sujeitos, torna-os abjetos, se a humanidade é retirada das pessoas, tudo é permissível, é legitimado ações de barbárie, pois não humanos é a estratégia para agir contra a dignidade da pessoa humana.

Charlot (2020) ainda defende pensar o ser humano numa perspectiva antropológica para entendermos o contexto educacional hoje, deslocar o ser humano numa perspectiva antropológica para a educação, talvez seja um caminho para combater a barbárie, a barbárie que tira a humanidade dos sujeitos. Nessa linha, o autor ainda argumenta que a educação vive a lógica da concorrência, competição, desempenho, e que uma escola funcionando nessa lógica da

concorrência generalizada e permanente nunca será uma escola da solidariedade e da inclusão (CHARLO, 2020).

Freire (1987) afirma que a desumanização não é destino dado, mas resultado de uma ordem histórica injusta que gera a violência. É no combate a essa desumanização que os estudantes chegam às escolas em longos itinerários por justiça e lutam pela recuperação de sua humanidade roubada .

Nesse contexto, precisamos mergulhar nas histórias dos sujeitos, pois a educação é um triplo processo: humanização, socialização e singularização (CHARLOT, 2020), bem como precisamos conhecer as passagens iniciadas bem cedo por esses sujeitos-jovens-adultos trabalhadores e trabalhadoras, seus deslocamentos noturnos, percursos diurnos do trabalho para a escola, ou da escola para o trabalho (ARROYO, 2017). É nessa perspectiva que a posição social subjetiva, aquela que o sujeito ocupa em sua mente, em seu pensamento, se faz necessário investigar.

A posição social subjetiva vem certificar que os sujeitos não são passivos no mundo em que vivemos, mas produtores ativos, destaca Correia, Silva e Nascimento (2021):

numa posição subjetiva - temos assim formas de pensar do sujeito a partir de uma posição social e de como ele determina essa posição através de projeções presentes e futuras dentro de uma lógica simbólica (CORREIA; SILVA; NASCIMENTO, 2021, p. 111).

A posição social objetiva é aquela que é exposta para a sociedade, são as condições sociais a qual o sujeito está imerso por um processo histórico, já a posição social subjetiva é o agir do sujeito sobre sua situação, é o sujeito tomando decisões para reagir sobre o que fazer com o que a sociedade fez com ele ou ela.

## Trilha Metodológica

A pesquisa relatada se desenvolveu no contexto do estágio supervisionado, realizado por uma discente, do Curso de Física Licenciatura, do Centro de Educação, Ciências Exatas e Naturais da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). A graduanda realizou o estágio em uma escola pública em São Luís - MA ao longo do segundo semestre de 2021. Tal processo formativo está atrelado à componente curricular Estágio Supervisionado Obrigatório no Ensino Médio (2021 .2 - T01).

Na escola a EJA é dividido em duas etapas, sendo que a primeira se refere ao 1° ano até a metade do 2º ano do ensino médio e a segunda etapa, referente ao restante do 2º ano e o 3º ano do ensino médio. As primeiras observações foram feitas na primeira etapa, na turma 102, onde tinha por volta de 12 alunos presentes, porém, tinham 40 alunos matriculados no início do ano, entretanto, havia alunos no ensino remoto que tinham acesso às atividades via rede social e buscavam na própria escola, como por exemplo, no caso de prova. Vale destacar o período pandêmico como uma das variáveis responsáveis pela ausência desses 28 estudantes.

Por motivos de sigilo, a licencianda será identificada pelo nome fictício: Maria Firmina (personalidade maranhense, considerada a primeira romancista negra brasileira), e um dos pesquisadores, primeiro autor desse artigo, pela sigla E.

Para a constituição dos dados, utilizamos dois instrumentos: (i) balanço do saber, (ii), entrevista semiestruturada.

O balanço do saber é instrumento requisitado em pesquisas que explanam o sentido, desejo e o prazer na aprendizagem e foi utilizado nas pesquisas sobre a Relação com o Saber pela ESCOL, equipe francesa da qual Charlot (2000) é membro. Consiste em dar voz ao sujeito através de uma produção escrita acerca do objeto de pesquisa. Assim, adaptamos a versão original e convidamos os sujeitos a refletirem sobre: 'Desde que nasci, aprendi muitas coisas; em casa, no bairro, na escola, na universidade, em outros lugares. Nesse sentido, o que tenho a dizer sobre minhas experiências no estágio supervisionado na EJA'.

A entrevista semiestruturada partiu de uma relação que valorizou o uso da linguagem nas relações humanas, por meio da qual os atores sociais constroem e procuram dar sentido à realidade que os cerca. Além de tornar acessível os discursos das experiências e das práticas vivenciadas (FLICK, 2009).

Na investigação, utilizamos a oportunidade do estágio supervisionado como processo motivador para que os estudantes se mobilizassem pelos processos da unidade dialética ensino e aprendizagem, uma vez que esse sistema não é linear, requer um certo engajamento dos licenciandos, disposição 'para', propor, pesquisar, se desconstruir, desafiar, dialogar, etc.

A mobilização implica em uma dinâmica interna do sujeito, uma realização pessoal diante de uma atividade proposta, em razão do sujeito se colocar à disposição para direcionar seus sentidos na mediação de um conteúdo, se utilizar como recurso, se pôr em movimento na direção da sua formação e do ensinar no período de regência das aulas (CHARLOT, 2000).

Os dados constituídos a partir dos instrumentos já mencionados foram analisados segundo o referencial da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2011). Segundo Bardin (2011), a análise de conteúdo é um processo de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, evidências que permitam a inferência das condições de produção da comunicação.

Para realizarmos a análise de conteúdo, percorremos os momentos descritos: utilizamos os instrumentos supramencionados para a constituição dos dados. Posteriormente, transcrevemos, sistematicamente, os áudios das entrevistas dos licenciandos para realizarmos a interpretação. Seguimos então as etapas da préanálise, voltada à organização operacional do material; a exploração do material, destinada à sistematização de categorias de análise e de unidades de sentido; e, por fim, o tratamento dos resultados: a inferência e a interpretação, caracterizada pela avaliação crítica dos resultados das interpretações inferenciais (BARDIN, 2011).

## Resultados e discussões

Nesse contexto, com o balanço do saber e a entrevista semiestruturada, construímos o bloco temático 'Passageira do trabalho para estagiar na EJA' e suas categorias, conforme indica o Quadro 1.

Quadro 1: Bloco temático passageira do trabalho para estagiar na EJA e sua categoria

Fonte: Elaborado pelos autores e autora, 2022.

O processo de mobilização não é desconectado da dimensão epistêmica, social e identitária do sujeito e muito menos do lugar-saber como lugar de formação e investimentos. Nessa linha é que o bloco temático e suas as categorias emergiram a partir do aprofundamento teórico dos referenciais adotados ao longo do processo de desenvolvimento desta pesquisa.

Para Charlot (2000) somos sujeitos de relações, e essas relações podem ser diagnosticas a partir de três dimensões da relação com o saber: a epistêmica, a social e a de identidade, que permitiram compreender as relações com o saber da licencianda em física no estágio supervisionado no curso de física licenciatura na EJA.

A relação epistêmica nos permite perceber que os sujeitos não aprendem da mesma forma e que o aprender não significa a mesma coisa para os estudantes. A relação social expõe as condições sociais do sujeito e a configuração da sociedade na qual esse sujeito está inserido. E a dimensão identitária destaca que os estudantes são também histórias, suas expectativas de vida, concepção de vida, referencias, relação com os outros e à imagem que tem de si. E neste caso especifico, o lugarsaber ensinar física é o lugar em que essas três relações podem ser percebidas para investigarmos o processo de formação no curso de física licenciatura. A categoria lugarsaber é o campo do estágio se colocando como uma atividade voltada para o aprender a ensinar física, pois a relação com o saber é uma relação também com mundos particulares, nos quais se vive e aprende.

A seguir, os recortes necessários para alcançarmos o objetivo e questão de pesquisa:

## Dimensão social

E: Desde que nasci, aprendi muitas coisas; em casa, no bairro, na escola, na universidade, em outros lugares. Nesse sentido, o que tenho a dizer sobre minhas experiências no estágio supervisionado na EJA'.

Maria Firmina: A vivência e o meio social que o aluno está inserido, influência nas suas escolhas de vida, porém, colaboram diretamente com o ensino quando é aplicado métodos baseados em Paulo Freire. Sou membro da comunidade que rodeia a escola onde estagiei e sei de todas as dificuldades que um aluno pode passar naquela comunidade, então, tive nas duas posições, de docente e discente, desta forma, há uma compreensão por minha parte quando era necessário que eles tivessem que adiantar aulas ou até mesmo sair mais cedo por conta do perigo da região.

Charlot (2000) destaca que não há saber senão de um sujeito inserido no mundo e em uma relação com o outro. A relação social com o saber não quer dizer que deva ser posta exclusivamente marcada pela posição social, pois a sociedade além de ser compreendida pelas estruturas sociais, ela é também história. Essa história também nos interessa, e é a história vivenciada consigo, com o outro e com o mundo no estágio que a licencianda relata.

## Dimensão epistêmica

E: Conte-me como foi o seu processo de construção para atuar nas primeiras intervenções didáticas em sala de sala

Maria Firmina: Primeiramente, o planejamento de conteúdos e métodos de didáticas são essenciais para que possamos ter firmeza diante da ação de ensinar. E a construção do 'ser docente' foi se formulando dentro de mim de forma gradativa, conforme o processo de estudo na universidade através de apresentações em sala

de aula e principalmente com a experiencia no projeto de extensão, a qual fui bolsista por 1 ano. Sempre diante de uma turma ou de uma tela lecionando.

Nessa questão, Maria Firmina vai reafirmando e expondo práticas que coadunam com a ideia de que não nascemos professores e professoras, nos tornamos, como já afirmava Freire (1991, p. 58): 'ninguém começa a ser educador numa certa terça-feira às quatro da tarde. A gente se faz educador, a gente se forma, como educador, permanentemente, na prática e na reflexão sobre a prática'. E essa formação também vai sendo construída pelas relações que ela foi desenvolvendo ao longo curso, tanto nas apresentações em sala de aula quanto no projeto de extensão.

## Dimensão identitária

E: Durante o seu estágio, você também estava trabalhando no contra turno, assim como os alunos da EJA, o que você tem a dizer sobre essa experiência

Maria Firmina: Fisicamente cansativo, mas emocionante e satisfatório. A carga de disposição para manter os dois foi bem difícil e complicado, principalmente por conta do horário e a distância que meu trabalho tem da escola. Houve dias que meu corpo não aguentava mais, sono e dores estavam grandes, mas, quando chegava na sala de aula tudo sumia como se estivesse tomado um analgésico. Saia sorrindo e as vezes nem dormia de euforia. Eu amo ensinar e eu sabia que eles estavam da mesma forma que eu, porém, disponíveis para aprender, disponíveis a compartilhar o estudo e suas dúvidas, então, também estava disponível para isso. A experiência me trouxe uma vontade de lecionar na EJA mais vezes, pois foi algo único e satisfatório.

Arroyo (2017) destaca a importância de entendermos as relações sociais, de gênero, de raça e de trabalho, de onde chegam e para onde voltam os sujeitos- jovensadultos trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo, seus valores, saberes, identidades, feitos de resistência por emancipação. É nessa lógica que a pergunta foi pensada e com a mesma lógica foi respondida, trazendo marcas sociais presentes na sociedade e na vida da discente.

A estudante estagiária do curso de Física Licenciatura e trabalhadora e os estudantes-jovens-adultos trabalhadores e trabalhadoras, trazem em seus corpos denúncias de opressões, ausências, silenciamentos, cansaços físicos e sociais.

## Lugar-saber ensinar física

E:Conte-nos como foi o processo de atuar na regência para a EJA.

Maria Firmina: Na primeira etapa da regência revisamos conteúdos como função horária do espaço, aceleração, unidade de medida e equação horário da velocidade. A seguir, foi desenvolvido junto ao professor supervisor uma dinâmica em equipes e os estudantes responderiam questionamentos referente ao conteúdo já estudado, sendo a primeira turma a participar, a turma 102, com dois horários vagos. Então, eu percebi que dinâmicas mais interativas como de equipe e gincanas, fazem uma conexão entre os próprios alunos, cujo seus conhecimentos são partilhados com aqueles que ainda sentem dificuldade, onde um ajuda o outro, podendo haver uma apreensão dos conteúdos. Após a finalização da regência, fui até a escola e os alunos estavam na semana de prova, e os mesmos relataram não sentir dificuldade em responder as questões, mostrando que a dinâmica interativa entre equipes ajudou na compreensão dos assuntos trabalhados .

- O estágio, como um lugar-saber, possibilitou que a discente pudesse se relacionar com os estudantes, professor supervisor, escola, conteúdos e principalmente com a ação docente. Charlot (2012) aponta que um docente mobilizado consegue mobilizar os estudantes e vice-versa, um movimento chamado

de dupla articulação. É nesse movimento que as atividades foram sendo propostas e afetando tanto os estudantes-jovens-adultos trabalhadores e trabalhadoras quanto a licencianda em física e trabalhadora.

## Conclusão

As relações construídas pela estudante licencianda em física, estagiária e também trabalhadora, no ambiente de estágio e com os estudantes-jovens-adultos trabalhadores e trabalhadoras, podem ser percebidas por meio dos relatos: ' Sou membro da comunidade que rodeia a escola onde estagiei e sei de todas as dificuldades que um aluno pode passar naquela comunidade, então, tive nas duas posições, de docente e discente' (relação identitária e social- sou membro de uma comunidade; sei de todas as dificuldades de um aluno; Eu amo ensinar e eu sabia que eles estavam da mesma forma que eu ); 'através de apresentações em sala de aula e principalmente com a experiência no projeto de extensão, a qual fui bolsista por 1 ano ' (relação epistêmica- apresentações em sala de aula e experiências no projeto de extensão ); 'percebi que dinâmicas mais interativas como de equipe e gincanas, fazem uma conexão entre os próprios alunos' (relação com o estágio, como um lugar-saber de ensinar física).

Há vida nas escolas e não podemos ignorar as experiências e as relações sociais que marcam os sujeitos-jovens-adultos trabalhadores e trabalhadoras que buscam o direito a uma relação com o saber para sobreviverem aos processos tão injustos de desumanização.

- A EJA oportuniza a luta por uma educação como um triplo processo: humanização, socialização e singularização, além de fortalecer a relação com o saber dos passageiros do trabalho em itinerários pelo direito a uma vida justa, humana e digna. E o estágio supervisionado, nessa perspectiva, vem contribuir para a reinvenção da autoria docente no espaço da EJA, bem como reconhecer que essa modalidade de ensino nos obriga a reinventar nossas identidades profissionais de docentes na educação.

## Referência

BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo . São Paulo: Edições 70, 2011.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional . Lei número 9394, 20 de dezembro de 1996.

ARROYO, MIGUEL GONZÁLEZ. Passageiros da noite do trabalho para a EJA : itinerários pelo direito a uma vida justa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

CHARLOT, Bernard. Educação ou Barbárie? Uma escolha para a sociedade contemporânea.Tradução Sandra Pina. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2020.

CHARLOT, Bernard. A mobilização no exercício da profissão docente. Revista Contemporânea de Educação , vol. 7, n. 13, janeiro/julho de 2012.

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber : elementos para uma teoria. Porto Alegre, RS: Artmed, 2000.

CORREIA, Eanes dos Santos.; SILVA, Veleida Anahi; NASCIMENTO, Willdson Robson Silva do. O que fazer com o que as aulas remotas fazem comigo? Posição subjetiva de estudantes de uma escola pública. Leitura: Teoria & Prática , Campinas, São Paulo, v.39, n.82, p.109-124, 2021.

FREIRE, Paulo. A pedagogia do oprimido . 17ª Edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FREIRE, Paulo. A Educação na Cidade . São Paulo: Cortez, 1991.

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