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O ESTÁGIO SUPERVISIONADO NA LICENCIATURA EM FÍSICA: UM LUGAR-SABER NA FORMAÇÃO

Willdson Robson Silva Do Nascimento, Fernando Moucherek, Eder Pires De Camargo, Tiago Cesar Dias Pinto, Felipe Coqueiro Ribeiro

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIX
Ano
2022
Data
19/08/2022
Linha de pesquisa
02 - Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O ESTÁGIO SUPERVISIONADO NO CURSO DE FÍSICA LICENCIATURA: UM LUGAR-SABER NA FORMAÇÃO

## THE SUPERVISED INTERNSHIP IN THE UNDERGRADUATE IN PHYSICS: A PLACE-KNOWLEDGE IN TRAINING

Willdson Robson Silva do Nascimento 1 , Fernando Moucherek 2 , Eder Pires de Camargo³, Thiago César Dias Pinto 4 , Felipe Coqueiro Ribeiro 5

1 Universidade Estadual do Maranhão/Departamento de Física, willdsonnascimento@professor.uema.br

2 Universidade Estadual do Maranhão/Departamento de Física, fernando@fisica.uema.br

3 Universidade Estadual Paulista/Departamento de Física e Química-Ilha Solteira, eder.camargo@unesp.br

4 Universidade Estadual do Maranhão/Departamento de Física, thiagopinto1@aluno.uema.br

5 Universidade Estadual do Maranhão/Departamento de Física, feliperibeiro2@aluno.uema.br

## Resumo

A pesquisa relatada tem como objetivo analisar que relação com o ensinar o discente estabelece durante a disciplina de 'Estágio Supervisionado Anos Finais do Ensino Fundamental', no curso de Física Licenciatura da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Desta forma, se pergunta: que relação com o ensinar o licenciando estabelece durante o estágio supervisionado no curso de física licenciatura de uma universidade pública do Maranhão? A pesquisa se caracteriza como qualitativa do tipo estudo exploratório-descritivo. Tem como instrumento de constituição de dados a entrevista semiestruturada e o balanço do saber. A organização e análise dos dados fundamenta-se na análise de conteúdo. O suporte teórico interpretativo utilizado foi a Relação com o Saber, de Bernard Charlot. Nesse contexto, o que fez sentido para os discentes no lugar-saber, estágio, podem ser percebidos por meio dos discursos dos próprios licenciandos: 'aprendi como realmente é uma classe'; 'como é conviver com os alunos'; 'como se impor sem ser rude'; me mostrou a realidade, tanto dos alunos quanto a posição dos professores. Assim, a relação que os licenciandos estabeleceram com o ensinar durante o estágio supervisionado é de uma atividade prática que os coloca na ação docente em um determinado tempo e espaço específico.

Palavras-chave : Ensino de Física; Estágio Supervisionado; Relação com o saber; Lugar-saber.

## Abstract

The reported research seeks to analyze the relationship with teaching the student establishes during the curricular unit of "Supervised Internship of Final Years of Elementary School", in the majoring in Physics at the State University of Maranhão. In this way, a question arises: what relationship with teaching does the undergraduate student establish during the supervised internship during the ongoing course in physics at a public University in Maranhão? The research is characterized as a qualitative

exploratory-descriptive study. Its data constitution instrument is the semi-structured interview and the balance of knowledge. The organization and analysis of data is based on content analysis. The interpretative theoretical support used was the Relation with Knowledge, by Bernard Charlot. In this context, what made sense for the students in the place of knowledge, internship, can be perceived through the discourses of the undergraduates themselves: 'I learned how a class really is'; 'what it is like to live with the students'; 'how to impose yourself without being rude'; showed me the reality, both of the students and the position of the teachers. Thus, the relationship that undergraduate students established with teaching during the supervised internship is a practical activity that places them in the teaching action in a specific time and space.

Keywords : Physics teaching; Supervised Internship; Relation with Knowledge; place of knowledge.

## Introdução

No início de 2020, o mundo foi surpreendido pela emergência sanitária ocasionada pela propagação da doença Covid-19, uma doença infecciosa causada pelo coronavírus SARS-CoV-2. A Organização Mundial da Saúde caracterizou este surto como uma pandemia, orientando aos governos mundiais a tomarem medidas para retardar a taxa de infecção.

No Brasil, após conflituosas discussões sobre a gravidade da situação, trocas de ministros da saúde em plena pandemia, taxa elevada de casos, medidas foram sendo realizadas proporcionais aos riscos, como por exemplo, isolamento e distanciamento social, fato que obrigou as escolas a se reinventarem, priorizando atividades remotas emergenciais.

Nesse contexto, o estado do Maranhão, inicialmente, por meio do Decreto n° 35.662 1 , de 16 de março de 2020, suspendeu, por 15 dias, aulas em todas as suas unidades de ensino. No dia 19 de março de 2020, um novo Decreto, n°35.672 2 , declara situação de calamidade no Estado do Maranhão em virtude do aumento do número de infecções pelo vírus H1N1 e da existência de casos suspeitos de contaminação pela COVID-19.

- O Decreto n°36 de março de 2021 3 , no seu artigo 8, autorizou o retorno das aulas presenciais nas escolas e instituições de ensino superior a partir de 29 de março de 2021, por meio do sistema híbrido. É a partir desse novo cenário, que esta pesquisa foi desenvolvida.

A pesquisa aqui apresentada tem como lócus o curso Física Licenciatura da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) na disciplina de Estágio Curricular Supervisionado Anos Finais do Ensino Fundamental para o curso de Física Licenciatura na Universidade Estadual do Maranhão, campus São Luís. Um dos

objetivos propostos para o estágio, segundo o projeto político pedagógico 4 do curso, corresponde em oportunizar ao estudante condições propícias ao desenvolvimento de sua prática docente, mediante a regência de classe e intervenção sistematizada em situações que se apresentam no corpo de estágio (UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO, 2016).

- O estágio representa um processo de relação do futuro professor com ele mesmo, com o outro (estudantes, professores, diretores, coordenadores pedagógicos, etc.) e com o mundo (saberes, situações, lugares, objetos, pessoas, etc.). É ainda o momento em que o discente pode se colocar em situações práticas reais, tendo como pressuposto a teoria e a prática, adquirida, durante sua formação pedagógica no curso de física licenciatura.

Desse modo, esta pesquisa tem como objetivo analisar que relação com o ensinar o discente estabelece durante o Estágio Supervisionado Anos Finais do Ensino Fundamental, no curso de Física Licenciatura da Universidade Estadual do Maranhão. Desta forma, se pergunta: que relação com o ensinar o licenciando estabelece durante o estágio supervisionado no curso de Física Licenciatura de uma universidade pública do Maranhão?

## A Relação com o Saber e as Figuras do Aprender: uma relação com o ensinar no estágio supervisionado no curso de física licenciatura.

Nascer e aprender é uma unidade dialética, os opostos para a dialética compõem uma unidade, isto é, 'nascer é estar submetido à obrigação de aprender' (CHARLOT, 2000, p. 52). Só aprende quem está inserido no mundo, vivo, participando, agindo e sendo modificado por esse mundo, e ao nascer somos obrigados a aprender para ser, pois o ser humano é o único ser que não é, na origem, nada, todo animal é o que é, mas o ser humano precisa tornar-se o que deve ser (CHARLOT, 2000).

Nessa perspectiva, nascer é adentrar na condição humana, é entrar em uma história, a história única do sujeito, inscrita na história maior da espécie humana (CHARLOT, 2000); é entrar em um conjunto de relações e interações com outros sujeitos; é entrar em um mundo onde se ocupa um espaço e onde se realiza uma atividade. Por esse motivo, 'aprender significa ver-se submetido à obrigação de aprender' (CHARLOT, 2000, p. 53), aprender para construir-se em um triplo processo de humanização, socialização e singularização (CHARLOT, 2000; 2020), pois aprender é convivência, é apropriação do mundo para participar da construção de um mundo futuro.

De acordo com Charlot (2000, p. 78): 'a relação com o saber é a relação de um sujeito com mundo, com ele mesmo e com os outros. É a relação com o mundo como conjunto de significados, mas, também, como espaço de atividades, e se inscreve no tempo'. Neste contexto, o mundo se coloca à disposição dos sujeitos como um conjunto de significados, partilhados com outros sujeitos. Por isso, a importância de compreendermos qual é o mundo que o licenciando em física está adentrando no estágio, que significados são partilhados dentro desse espaço, que relações são construídas e que figuras do aprender são acessadas durante esse processo de formação.

As figuras do aprender são as diversas formas que o sujeito tem de atribuir sentido, construir significado e de se entrelaçar com o saber, saber em um sentido amplo remetendo a uma ideia de aprender. O saber pode se apresentar sob forma de 'objetos', enunciados, situações, diálogos com os outros, lugares, etc. Para aprender, é preciso envolver-se em uma atividade, perceber suas emoções, encontrar um sentido, desejo e um prazer por isto ou aquilo (NASCIMENTO, 2018).

As figuras do aprender indicam a singularidade dos sujeitos, a forma específica sobre como cada um pode e deve se relacionar consigo mesmo, com o outro e com o mundo, partilhando histórias, vivências, experiências, a partir de sua dinâmica interna que o coloca em situação de confronto com sua necessidade de aprender. Essas figuras não são finitas, pois aprender é 'exercer uma atividade em situação: em um local, em um momento da sua história e em condições de tempo diversos, com a ajuda de pessoas que ajudam a aprender'. (CHARLOT, 2000, p. 67), por isso a ideia de apontar referências dessas figuras.

Diante do exposto, Charlot (2000) aponta algumas referências dessas figuras, tais como: objeto-saberes, conhecimentos acessíveis em livros, brinquedos, monumentos, obras de arte, programas culturais de televisão, etc; dominar atividades: as mais variadas ações relacionadas ao movimento corporal, como andar, nadar, andar de bicicleta etc; ou conhecimentos de aparelhos disponíveis no mundo, desde os mais simples como manusear uma escova de dente, até os mais sofisticados como manusear um computador, dirigir um carro etc; apropriar-se de dispositivos relacionais: saber ligado a comportamentos afetivos: ser gentil, ter empatia, solidário, etc. (CHARLOT, 2000; FRANCISCO, 2019).

Nessa conjuntura, o estágio supervisionado constitui-se em mais uma possibilidade de se compreender que existem diversas formas de um sujeito se relacionar com o saber, de aprender, de instaurar-se em uma figura do aprender e ser uma referência da figura do aprender. O estágio supervisionado é interpretado aqui como um lugar-saber, isto é, lugares aos quais um saber está incorporado, lugar no sentido de uma área que foi investida afetivamente (TUAN, 193; LIMA, 2020), um espaço em que as relações construídas deram legitimidade a um lugar.

O lugar-saber não é apenas um espaço em que se vive, mas um local em que há engajamento, atividades, envolvimento dos sujeitos com aquela realidade, situações, no sentido de estar com ela e de estar nela, e não apenas junto com ela, e isso é fundamental para atos de criação, recriação e decisão, de forma que o sujeito vai dinamizando o seu mundo e suas relações, não permitindo sua imobilidade, agindo, acrescentando à sua realidade marcas que o reafirmam como o fazedor de suas ações ( FREIRE, 2004). São exemplos de lugar-saber: o campo de estágio supervisionado, observatórios didáticos de astronomia, laboratórios de pesquisa, Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), museus, escolas, universidades, atendimento escolar hospitalar, atendimento domiciliar, etc.

## Metodologia

A pesquisa relatada se desenvolveu no contexto do estágio supervisionado, realizado por dois discentes, do Curso de Física Licenciatura, do Centro de Educação, Ciências Exatas e Naturais da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Os graduandos realizaram o estágio em uma mesma escola pública em São Luís - MA no período de 16 de novembro de 2021 a 16 de dezembro de 2021. Tal processo formativo está atrelado à disciplina Estágio Curricular Supervisionado Anos Finais do Ensino Fundamental.

A escola em que os licenciandos estagiaram oferece desde o 7° ano do ensino fundamental até o ensino médio, possui salas climatizadas com ar-condicionado e ventiladores e pouco ruido externo. A escola em foco atende estudantes locais e dos bairros adjacentes.

Por motivos de sigilo, os licenciandos serão identificados pelos nomes fictícios: João do Vale e João Chiador (nomes de personalidades maranhenses), e um dos pesquisadores, primeiro autor desse artigo, pela sigla E.

Para a constituição dos dados, utilizamos dois instrumentos: (i) balanço do saber, (ii), entrevista semiestruturada.

O balanço do saber é instrumento requisitado em pesquisas que explanam o sentido, desejo e o prazer na aprendizagem e foi utilizado nas pesquisas sobre a Relação com o Saber pela ESCOL, equipe francesa da qual Charlot (2000) é membro. Consiste em dar voz ao sujeito através de uma produção escrita acerca do objeto de pesquisa. Assim, adaptamos a versão original e convidamos os sujeitos a refletirem sobre: 'Desde que nasci, aprendi muitas coisas; em casa, no bairro, na escola, na universidade, em outros lugares. Nesse sentido, o que tenho a dizer sobre minhas experiências no estágio supervisionado'.

A entrevista semiestruturada partiu de uma relação que valorizou o uso da linguagem nas relações humanas, por meio da qual os atores sociais constroem e procuram dar sentido à realidade que os cerca. Além de tornar acessível os discursos das experiências e das práticas vivenciadas (FLICK, 2009). Foram utilizadas duas questões na entrevista, a saber: 1) Conte-me como foi o seu processo de construção para atuar nas primeiras intervenções didáticas em sala de aula; 2) Que apoio você utilizou para planejar tuas primeiras aulas no estágio na escola?

Na investigação, utilizamos a oportunidade do estágio supervisionado como processo motivador para que os estudantes se mobilizassem pelos processos da unidade dialética ensino e aprendizagem, uma vez que esse sistema não é linear, requer um certo engajamento dos licenciados(licenciandos), disposição 'para', propor, pesquisar, se desconstruir, desafiar, dialogar, etc.

A mobilização implica em uma dinâmica interna do sujeito, uma realização pessoal diante de uma atividade proposta, em razão do sujeito se colocar à disposição para direcionar seus sentidos na mediação de um conteúdo, se utilizar como recurso, se pôr em movimento na direção da sua formação e do ensinar no período de regência das aulas (CHARLOT, 2000).

Os dados constituídos a partir dos instrumentos já mencionados foram analisados segundo o referencial da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2011). Segundo Bardin (2011), a análise de conteúdo é um processo de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, evidências que permitam a inferência das condições de produção da comunicação.

Para realizarmos a análise de conteúdo, percorremos os momentos descritos: utilizamos os instrumentos supramencionados para a constituição dos dados. Posteriormente, transcrevemos, sistematicamente, os áudios das entrevistas dos licenciandos para realizarmos a interpretação. Seguimos então as etapas da préanálise, voltada à organização operacional do material; a exploração do material, destinada à sistematização de categorias de análise e de unidades de sentido; e, por

fim, o tratamento dos resultados: a inferência e a interpretação, caracterizada pela avaliação crítica dos resultados das interpretações inferenciais (BARDIN, 2011).

## Resultados e discussões

O estágio supervisionado pode proporcionar aos licenciandos as primeiras experiências de contato com seu futuro campo de atuação, e mesmo para aqueles que já atuam, este é o momento de reflexão sobre suas práticas, pois muitas vezes somos levados para essa atividade e reproduzimos estereótipos e comportamentos de professores que nos antecederam, pois somos formados pelo outro, existe um outro que nos antecede, um outro que fala de nós, sobre nós e por nós (LACAN, 1975; LIMA, 2020).

Nesse contexto, com o balanço do saber e a entrevista semiestruturada, construímos o bloco temático 'o estágio como figura do aprender' e sua categoria, conforme indica o Quadro 1.

Quadro 1: Bloco temático o estágio como figura do aprender e sua categoria

Fonte: Elaborado pelos autores, 2022.

A categoria lugar-saber é o campo do estágio se colocando como uma atividade voltada para o aprender a ensinar física, pois a relação com o saber é uma relação também com mundos particulares, nos quais se vive e aprende.

Os licenciandos foram convidados a refletirem sobre a relação com o estágio supervisionado por meio das situações, E: 'Desde que nasci, aprendi muitas coisas; em casa, no bairro, na escola, na universidade, em outros lugares. Nesse sentido, o que tenho a dizer sobre minhas experiências no estágio supervisionado. Como respostas a este processo reflexivo obtivemos o que se segue:

João do Vale: Aprendi como realmente é uma classe, como é conviver com os alunos, como se impor sem ser rude. Aprendi que a sala de aula real é muito diferente das teóricas, encontramos várias formas de alunos, na mesma turma deve se aplicar várias metodologias, pela diferença de aprendizado de cada aluno. Algumas turmas dão mais trabalho, outras são mais simples, mas em todas é possível ensinar.

João Chiador: A experiência realmente me mostrou a realidade, tanto dos alunos quanto a de posição dos professores. Nem tudo realmente está ao alcance dos professores e, o mesmo depende da infraestrutura, coordenadores e os equipamentos disponíveis para uma melhor aula. Não somente isso, mas em sua parte, deve-se analisar as realidades dos alunos e improvisar meios para transmitir os conteúdos de forma que os alunos entendam, afinal, a realidade de cada aluno é diferente

Conte-me como foi o seu processo de construção para atuar nas primeiras intervenções didáticas em sala de aula no estágio.

João do Vale: Quando eu cheguei na escola, passei uma semana observando as turmas e como era exatamente o comportamento dos alunos. Vi que tinha turma que seria muito complicada a atuação, pois a inquietação deles era de uma magnitude gigantesca, mas depois fui me acostumando, vendo o que eles queriam, o porquê eles eram daquele jeito, e atuando nisso. Eu utilizei a minha atuação como professor,

dando aula, e ajudei os alunos a vencerem suas dificuldades, me envolvendo com eles. Basicamente, metodologia Paulo Freire.

João Chiador: Tive de analisar, através da observação, primeiramente, como cada aluno se comportava, com quem mais conversavam e perdiam o foco um dos outros para aula e então, mudar alunos de lugares, chamar atenção de outros e improvisar meios de ensino para que prestassem atenção. Sempre analisando e conversando com os alunos também, para ver o que mais os chamava atenção.

Freire (1996) alerta que é impossível passar pela experiência da docência ileso, como se nada ocorresse conosco, comparando essa experiência a exposição de uma pessoa na chuva sem poder se molhar. O estágio como um lugar-saber permite que os licenciandos materializem suas experiências, relações, histórias e cultura em sala de aula por meio do contato direto com a escola, estudantes, professores, diretores, etc. Na fala dos estudantes, João do Vale: aprendi como realmente é uma classe, como é conviver com os alunos e João Chiador : me mostrou a realidade, tanto dos alunos quanto a de posição dos professores, eles revelam que tipo de relação construíram com o campo de estágio, se pondo diante dos estudantes, sendo percebido por eles e percebendo-os. Perceber como realmente é uma classe e a realidade tanto dos alunos quanto a dos professores é uma forma dos estudantes compreenderem que eles se encontram em uma posição social e um lugar diferente nesse novo contexto, pois ambos já forma estudantes da educação básica.

É através do ensinar que o sujeito se constrói se relacionando consigo próprio, com os outros à sua volta e com o mundo em que está inserido, por isso o licenciando deve levar a sério a sua formação, precisando estar à altura para coordenar as atividades em sala de aula, observando, procurando soluções, estudando, pesquisando, afirma Freire (2004).

Nessa orientação, não é apenas o saber ensinar construído ao longo da formação inicial, por meio das teorias, tendências pedagógicas que validam os saberes docentes, mas também o uso que é feito desse saber, em uma relação teórico-prática com o mundo, contextualizado. Esta relação fortalece a relação com o saber dos discentes dentro de sala de aula. Aprender é construir, reconstruir, constatar para mudar.

Essa constatação para a mudança foi identificada pelos licenciandos, João do Vale: passei uma semana observando as turmas [...]. Vi que tinha turma que seria muito complicada a atuação, pois a inquietação deles era de uma magnitude gigantesca, mas depois fui me acostumando, vendo o que eles queriam [...] e João Chiador : Tive de analisar, através da observação, primeiramente, como cada aluno se comportava, com quem mais conversavam e perdiam o foco um dos outros para aula.

Charlot (2012) destaca que a autoestima e sucesso pedagógico do professor também depende da mobilização como uma dupla articulação, em que o estudante mobilizado afeta o professor e o professor mobilizado afeta os estudantes. Essa seria uma possibilidade de interpretarmos a lógica que o processo de ensino e aprendizagem deve alcançar. Assim é que os licenciandos na regência vão agindo na tentativa de compreender a sala de aula, pensando em estratégias, forma de atuar e mobilizar os estudantes. Freire (2004) sublinha que o ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educandos.

Freire (2004) ainda evidencia que 'Não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos, sem revelar com facilidade ou relutância minha maneira de ser, de pensar

politicamente. É com esse pensamento que João do Vale age: Eu utilizei a minha atuação como professor, dando aula, e ajudei os alunos a vencerem suas dificuldades, me envolvendo com eles. Assim, João Chiador estabelece certa similaridade com o agir pedagógico de Paulo Freire: "mudar alunos de lugares, chamar atenção de outros e improvisar meios de ensino para que prestassem atenção. Sempre analisando e conversando com os alunos também, para ver o que mais os chamava atenção".

Dessa forma, o estágio, um lugar-saber, tem o desafio de propor uma formação, ao mesmo tempo ampla e flexível, que desenvolva habilidades e conhecimentos necessários às expectativas atuais e capacidade de adequação a diferentes perspectivas de atuação futura. O estágio é mais uma oportunidade que os licenciandos têm dentro do curso de física licenciatura de crescimento pessoal e profissional, além de ser um importante instrumento de integração entre universidade, escola e comunidade.

Vale sublinhar que as experiências relatas pelos discentes foram as primeiras após o isolamento social provocada pela covi-19 e que embora não seja o foco deste estudo, futuras pesquisas precisariam se interessar especificamente por esse retorno, por essas relações nesse contexto, buscando compreender: O que muda? O que permanece? Os comportamentos são os mesmos? O retorno as aulas presenciais também é uma possibilidade de entendermos o lugar-saber, o estágio, na formação inicial dos discentes. Assim, o estágio como um lugar-saber é um campo fértil para novas investigações.

## Conclusão

Nessa conjuntura, a relação que os licenciandos estabeleceram com o ensinar durante o estágio supervisionado é de uma atividade prática teórico-prática que os coloca na ação docente em um determinado tempo e espaço específico, 'exercendo uma atividade em situação: em um local, em um momento da sua história e em condições de tempo diversas, com a contribuição de pessoas que ajudam a aprender' (CHARLOT, 2000, p. 67). O estágio como um lugar-saber, é uma situação de aprender porque se tem a oportunidade de aprender quando se está 'disponível para aproveitar essa oportunidade' (CHARLOT, 2000, p. 68).

Nesse contexto, o que fez sentido para os discentes no lugar-saber, estágio, pode ser percebido por meio dos discursos dos próprios licenciandos: 'aprendi como realmente é uma classe'; 'como é conviver com os alunos'; 'como se impor sem ser rude'; me mostrou a realidade, tanto dos alunos quanto a de posição dos professores.

## Referências

Charlot, B. (2000). Da relação com o saber : elementos para uma teoria. Porto Alegre, RS: Artmed.

CHARLOT, Bernard. A mobilização no exercício da profissão docente. [16 de março, 2012]. Rio de Janeiro: Revista Contemporânea de Educação . Entrevista concedida ao I Colóquio Internacional de Formação Inicial e Continuada de Professores de Línguas Estrangeiras.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia : saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

FRANCISCO, W. A Relação com Saber e o Ensino de Química: fundamentos teóricos para analisar o processo de aprendizagem em atividade de sala de aula. Investigações em Ensino de Ciências , Rio Grande do Sul, v.24, p. 01-21, 2019.

LACAN, J. Seminário II (1954-1955) : o eu na teoria de Freud e na Técnica da psicanálise.Rio de Janeiro: (Zahar), 1975.

TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar : a perspectiva da experiência. 1930. Tradução de Lívia de Oliveira, São Paulo: Difel, 1983.

- LIMA, G. K. Discursos na relação transferencial monitor/criança em um observatório astronômico . 2020. Dissertação (Mestrado)- Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências, Bauru.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO. Projeto Pedagógico do Curso de Física Licenciatura . Disponível em: http://www.fisica.uema.br/wpcontent/uploads/2018/03/Projeto-Pedag%C3%B3gico-do-Curso-de-F%C3%ADsicaLicenciatura.pdf . Acesso em: 10 fev. 2022.

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